You and I
4 Uma personalidade horrível não vale a cobertura mesmo que beije muito bem
Notas iniciais
Seu beijo era suave, doce e com gosto de cerveja e cigarro. Minhas mãos se moviam em seus cabelos negros enquanto suas mãos me envolviam a cintura e aproximavam meu corpo do seu, só que estávamos sentados e nossa posição não favorecia muito então ele se afastou de mim por uns segundos e se levantou oferecendo sua mão e um sorriso que retribui. Ele me guiou até as escadas que subimos e entramos num quarto perto do final do corredor.
Ele ligou a luz e fechou a porta e com o mesmo sorriso bobo veio até mim com as mãos logo procurando minha cintura e me girando me fazendo ficar prensada por seu corpo a porta, então nossos lábios se encontraram novamente. Desta vez com mais voracidade e suas mãos se movimentando em quase todo meu corpo quando uma encontrou a parte interna da minha coxa e começou a subir.
– Opa amigo! – o afastei fazendo que suas duas mãos pousassem em meu quadril.
– O que foi? Eu pensei que...
– É eu sei o que você pensou, mas não! Pra começar eu nem sei seu nome e eu não vou pra cama assim tão fácil.
– Garota quem nem sabe seu nome sou eu, mas eu não me importo com isso. – ele fez menção em começar a me beijar novamente e voltei a o afastar desta vez me livrando de suas mãos.
– Bom não vai ser comigo que você transar hoje. – sorri de lado rapidamente e me virei para sair daquele quarto.
– Metade das garotas aqui nessa festa mataria pra estar nesse quarto comigo.
– Fique a vontade pra escolher qualquer uma, o pau é seu você enfia onde ele quiser. – girei a maçaneta e sem olhar pra trás voltei para a multidão que se acumulava na sala.
Voltei para onde havia deixado às garotas, e só quem estava lá ainda era Jade dançando com um garoto e com minha bolsa no ombro, dei uma batidinha em suas costas e peguei minha bolsa, ela estava tão envolvida com o garoto que mal percebeu minha presença.
Sai em direção à cozinha e fui beber mais algumas coisas.
***
Acordei no outro dia com os raios de sol entrando pela pequena fresta da janela que a cortina não cobriu, sem falar da baita ressaca. Minha cabeça parecia que estava prestes a explodir, e pra ajudar ainda mais eu não me recordava de como havia retornado ao apartamento, pensei em inúmeras possibilidades, até que então Andy bateu em minha porta e logo adentrou toda animada – animada até demais, devo confessar, lá vinha bomba só podia.
– Olá Cathe, ou melhor, safadinha? – ela dizia rindo e se sentando na beirada da cama.
– Olha aqui não sei do que você está falando! – retruquei num tom irônico.
– Ah não me venha com essa Cathe, conte-me logo tudo e com detalhes!
Eu não era de me relacionar muito, aliás nunca fui muito boa nesse quesito, amar, ser amada, namorar, eram coisas para a Andy, ela sim fazia tudo isso muito bem.
– Que detalhes? Só houve beijos.
– Apenas beijos? Fiquei sabendo que você subiu para os quartos. – ela agora estava com uma sobrancelha levantada.
– E isso lá significa que eu transei com ele?
– Duas coisas. Sim, significa exatamente isso moçinha inocente. E esse “ele” tem algum nome?
– Andy isso não importa ok? – levantei da cama me livrando das cobertas e me livrando também da pergunta já que não sabia o nome dele. – Não aconteceu nada demais. Assunto terminado por aqui? Porque tenho uma perguntinha. – agora estava indo em direção ao banheiro e Andy se arrastava atrás de mim com sua longa camiseta preta com um Pac-Man amarelo bem no centro.
– Ok, não falo mais desse cara misterioso.
– Como raios eu cheguei aqui? – disse enquanto pegava um analgésico no armário e engolia em seco.
– Eu te trouxe porque você estava bêbada demais e já estava dando em cima de todo cara que aparecia da sua frente.
– Primeira festa em NY. Ok! Ficar bêbada e passar vergonha. Ok! – falei enquanto passava por ela na porta sem a olhar. – Bom agora isso explica minha dor de cabeça e restos de batom vermelho no meu rosto. Andy me perdoe, mas eu não vou fazer o café da manhã hoje ok?
– Sem comidinha da Cathe? – disse ela enquanto ia em direção ao maior sofá e se jogava nele fazendo cara de cachorro perdido. E te garanto a pior cara de cachorro perdido no mundo era a da Andy.
– Sem comidinha da Cathe e para de fazer essa cara esta horrível.
– Abusada, sua cara normal é pior ainda sabia? – argumentava ela que agora me dava espaço para que eu sentasse e pegava o controle remoto para com certeza ir assistir algum desenho. – Por sua sorte meu melhor amigo toma café comigo todo dia e então daqui a pouco ele chega com os melhores donuts do mundo e café.
– Da Honey Donuts? – perguntei animada.
– Honey Donuts! – ela concordava comigo enquanto ouvia a porta se destrancar.
Então vi Andy dar um salto do sofá e logo a porta se abrir, com certeza ela foi em direção a esse amigo. Continuei ali sentada aproveitando para pegar o controle e mudar para algum outro canal que não estivesse passando desenhos.
– Axl, nossa você sabe que eu te amo! – a ouvi dizer atrás do sofá. – Falando nisso lembra aquela amiga que eu disse que ia vir pra cá? Ela chegou!
– Oi, eu sou a Catheri... – comecei a levantar com um sorriso e ir em direção a esse garoto estendendo a mão para um cumprimento e então reconheci aquele rosto.
Era o Axl Rose da noite passada. Aquele garoto estava ali.
O que diabos aquele garoto estava fazendo ali? De manhã? E pelo jeito realmente se chamava Axl. Que grande ironia não?
Eu simplesmente não sabia o que fazer, minha mão estava estendida e com certeza aquele sorriso já havia se desfeito e pra melhorar ainda parei a frase no meio. No meio do meu nome por sinal.
Por um reflexo usei aquela mão que estava estendida e botei na frente da boca e tossi e comecei e frase novamente.
– Eu sou Catherine. Catherine Stuart. – com todas minhas forças tentei construir um sorriso.
No começo percebi certo receio no seu olhar e tinha certeza que ele havia me reconhecido e a pergunta “O que diabos essa garota que me deu um fora noite passada esta fazendo aqui?” havia passado em sua cabeça e depois sua expressão mudou, alguma coisa mudou seus pensamentos ou ele achou uma resposta para sua pergunta mental e então aquele mesmo sorriso bobo da noite passada brotou em seu rosto.
– Axl. – disse ele com uma expressão que com certeza estava tentando me dizer “Sim eu me chamo Axl.” – Axl Davis.
– Ah. – só pude dizer isso.
Enquanto isso Andy já havia voltado para o sofá e estava devorando a caixa de donuts e seu café enquanto eu estava parada ali o encarando e sem saber o que fazer, nem falar. E para meu azar ele também me encarava e naquele momento sabia que estava com o rosto totalmente vermelho.
A tensão foi quebrada com a risada de Andy que vinha da sala com algum desenho tosco e então aproveitei que ele desviou o olhar para a televisão e fui logo em direção à sala me sentar no sofá e quem sabe um buraco não abrisse e eu pudesse me jogar lá dentro?
Porque eu não sabia como agir em relação à situação “o garoto que você deu o pé na bunda noite passada aparece na manhã seguinte”.
– Então Cathe, o Axl é da minha banda também, ele toca bateria. – falou ela enquanto ele se sentava ao seu lado.
– Sério? Nossa que legal. – falei tentando aparentar algum interesse, mas eu estava preste a surtar com tudo aquilo e sair de pijama pela rua gritando.
– É e ele também compõe e faz tatuagens se deu pra perceber. – ela apontava para o peito agora nu dele sentado ao seu lado. – E você logo se acostuma com essa mania dele ficar sem camiseta.
Ele estava encostado no braço do sofá e direcionou o olhar para mim com um sorriso – que nesse momento estava começando a me irritar. – e então pude ver o quanto de tatuagens ele tinha, tinhas os braços quase cobertos e algumas no peito.
– Pois é você se acostuma com essa delicia em pessoa desfilando por esse apartamento sem camisa. – disse ele com o olhar ainda fixado no meu.
– Axl menos, porque você não é tudo isso! – disse Andy.
– Se você quer saber eu estou começando a achar que não sou mesmo sabia? – disse ele pegando e comendo um donut.
– Espera ai, Axl Davis concordando que não é o maior gostosão do planeta Terra? Isso pra ficar na história! – Andy dizia rindo e o olhando com desconfiança.
– Não é pra tanto minha cara amiguinha, mas ontem na festa do Matt, teve uma garota que não quis ir pra cama comigo! Você acredita nisso? Uma menininha qualquer não foi pra cama com Axl. Eu fiz a piadinha clássica do Axl Rose, que sempre dá certo e ela toda engraçadinha disse que era a Amy Winehouse agente ficou e quando fui levar ela pro quarto ela disse que não. Dá pra acreditar?
Eu não acreditava em cada palavra que estava saindo da boca daquele ser tatuado. Ele estava descaradamente contando o que havia acontecido entre mim e ele como se simplesmente não fosse eu.
Mas era eu. E ele me chamou de menininha qualquer.
– Você acha que toda mulher do mundo vai querer transar contigo? – disse me sentindo ofendida e me intrometendo na conversa dos dois.
– Até agora foi assim, Cat. – ele disse sem mudar aquele sorriso do rosto e então parei pra perceber que havia me chamado de Cat.
– Cathe, para os próximos e Catherine pra você. – agora uma raiva começava a se consumir dentro de mim e minha vontade era de gritar com ele até seus tímpanos estourarem.
– Cat é bem mais legal, é sexy. – ele dizia com um olhar desafiador que estava me tirando à paciência. Como ele conseguia ser tão prepotente?
– Tanto faz, não importa se é sexy, se legal. Eu tenho nome que é bom você começar a me chamar por ele. – falava com raiva.
– É, vou te chamar de Cat mesmo. – ele dizia ignorando tudo que eu havia acabado de falar.
Nesse momento meus punhos se fecharam automaticamente, mas um bom senso me veio que não iria socar a cara dele ali, e eu ainda continuava a o encarar mesmo ele tendo me ignorado e desviado o olhar para a televisão.
– Vá à merda! – disse gritando e me recusando a levantar. Só o vi rir.
– Axl! – disse Andy num tom de reprovação e com o semblante sério enquanto o encarava.
– O que? – ele ainda estava com o riso no rosto. – A esquentadinha ai que ficou incomodada.
Me levantei e fui em direção em ao meu quarto praticamente afundando os pés no chão. Eu realmente não acreditava naquilo.
Meu segundo dia em Nova Iorque e tinha a quem odiar.
***
Fiquei no quarto por um bom tempo ouvindo ruídos da Andy e Axl conversando ou discutindo, não sei. E também pouco me importava.
Como aquele garoto podia ser tão arrogante? E me tirar do sério tão rápido e tão simplesmente?
Cat...
Afundei o rosto no travesseiro sem ainda acreditar naquilo tudo, a imagem do Axl com aquele rosto de pouco caso pairava na minha mente e como eu queria dar belos tapas naquela carinha bonita até ficar vermelha.
Mas infelizmente eu tinha que concordar que ele era bonito, não o havia beijado pela piadinha do Axl Rose. Tudo nele exalava uma autoconfiança e sensualidade, principalmente seu sorriso com aquele piercing no lábio inferior e todas suas tatuagens. Era um bonito diferente, que eu não sou acostumada, sempre fui cercada de garotas, músculos e alinhadinhos, bem educados...
E Axl era o oposto de tudo isso. Era como se ele fosse um bolo de chocolate só com terra dentro, destruindo toda aquela cobertura bonitinha.
Comparação horrível eu sei, mas... Mas porque eu estava refletindo sobre esse garoto mesmo?
Uma personalidade horrível não vale a cobertura e ponto final – mesmo que beije muito bem.
Neste mesmo momento ouço alguém bater na porta e entrar.
– Oi Cat. – disse ele sorrindo de lado e parando na frente da cama.
Tirei o rosto do travesseiro e respirei fundo, então me sentei para encara-lo.
– Sai daqui.
– Não, desculpa, Catherine. – ele se sentou na cama ao meu lado e encolhi as pernas para me afastar dele. – Queria te pedir desculpa, foi mal.
– A Andy que te mandou vir aqui não foi? – disse levantando uma sobrancelha.
– Me forçou na verdade, mas enfim foi mal.
– Olha, eu não gosto de você. Se for possível odiar uma pessoa em menos de meia hora eu te odeio, mas como você é amigo da Andy e da banda dela...
– E mora na porta da frente, trabalha lá embaixo e é melhor amigo da Andy e do Matt. – ele me interrompeu e cerrei os olhos para ele que abriu um sorriso.
– Enfim, eu vou tentar ignorar sua presença já que tentar me dar bem com alguém tão arrogante vai ser impossível. – sorri.
Ele ainda estava me olhando, mais seu sorriso havia sumido e não conseguia decifrar seu rosto e ele ficou em silêncio por um tempo me fazendo ficar sem graça com aquele sorriso no rosto. Até que abriu a boca pra dizer algo.
– Eu lembro na noite passada viu? – ele se levantou e saiu só que parou na porta e se virou. – Se você pensa que vou largar fácil do seu pé você esta enganada.
Ele mordeu o lábio e me mandou uma piscada e só pude pegar o travesseiro e jogar em sua direção em vão.
Esse garoto vai me trazer problemas.
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