Notas iniciais
Olá, meus amores! Sim, eu sei, eu sei. Vocês estão com raiva, e com razão. Algumas declaradamente me deixaram também e outras apenas saíram silenciosamente, e não as culpo, embora ainda doa bastante. Mas sei que isso é unicamente a minha culpa. Só peço a aquelas que ainda estão comigo que, por favor, leiam as notas finais. Elas são importantes, elas sempre os são. Muito obrigada para as moças e rapazes que ainda estão aqui. De verdade. >>> Esse capítulo foi o maior que já escrevi sem dividir, então leiam com calma, tempo, e se deliciem moças. Ele é pra ser tragado aos poucos em cada palavra. Boa leitura!

Parada de braços cruzados em frente ao seu fogão, Alura se encontrava dispersa, deus olhos sem foco. Seus pensamentos corriam veloz e gritavam com furor como uma locomotiva vitoriana, espalhando nuvens gordas de fumaças de dúvidas e receios por todo o seu ser. Em um curto intervalo de vinte minutos sua vida nos últimos meses passou por suas vistas como um flash, rápido demais para se concentrar nos detalhes mas o suficiente para que fosse um resumo bem elaborado da própria situação. E depois da noite anterior qual estava quente e bem lívida em sua memória, sentia-se letárgica. Por Cristo, tá legal que ela é uma maldita Murray, talvez a mais estúpida e insignificante das últimas gerações, mas coisas assim não deveriam acontecer com ela. Ser envolvida em uma briga qual não lhe dizia respeito já era algo que acontecia de uma forma ou de outra – embora não fosse menos repudiado – mas nunca antes teve que arcar com tais resultados, possivelmente pra vida toda. Ser a prometida de um herói? Um alienígena gentil de olhos honestos e sorriso bonito?

— Pode parar de girar, mundo. Estou cansada das suas reviravoltas. – murmurou inconscientemente, seu foco visual ainda afetado.

E agora a consequência dos meses fugindo da sua nova realidade estava nesse momento sentado em seu sofá opaco, brilhando contra seu cafofo velho como ouro na lama. ‘Ela não podia fazer isso', uma parte sua continuava repetindo ao fundo, ‘Ele precisa ir embora!’. Mas que poder sua parte mais covarde e racional tinha mais sobre si? Quase nenhuma, uma piada em comparação ao poder das novas vontades que borbulhavam e voavam dentro do seu peito e estômago como borboletas.

Estava ferrada. Estava muito, muito ferrada.

— Querida? – fora arrancada dos seus conflitos com uma presença já conhecida pairando muito próximo às suas costas, sua respiração fazendo cócegas contra seu ombro. Então uma mão surgiu ao seu lado, roçando suavemente contra sua cintura a causando uma sensação tola de expectativa, antes que se dirigisse ao fogão a sua frente o desligando.

Só então Alura percebeu sua chaleira gritando fumaça á sua frente. Sua dispersão quase trouxe vermelhidão em suas bochechas.

— Eu estava distraída – apontou o óbvio sentindo vontade de se estapear em seguida. Clark riu, um som baixo que retumbou contra suas costas quase a fazendo derreter.

— Eu percebi – então ele se afastou mais cedo do que ela queria, levando consigo seu cheiro e calor. Alura mordeu os lábios frustrada, sua marca silenciosa contra sua pele a acusando de que aquelas reações virginais não tinham nada a ver com ela – Posso perguntar porque você tem uma cafeteira se não a usa?

Então ela sorriu de lado, se virando parcialmente para o grande homem tendo percebido que ele levara a chaleira quente consigo, coando o seu café em cima da pia. O quão caseira aquela cena parecia? Clark Kent em seu apartamento pequeno coando café enquanto ambos conversavam pacificamente, um bolo doce de chocolate – qual ele mesmo comprara – cortado em cima da sua bandeja roubada de prata como se ambos fizessem festas do chá todas as tardes. O mais assustador, entretanto, não era a perspectiva de um alienígena praticamente desconhecido utilizando da sua cozinha na sua casa inóspita: era o bem-estar que aquela casualidade estava á causando. Como se fosse rotina. Alura estava constantemente em conflito consigo mesma, como se a aceitação da ligação de ambos a deixasse em dúvida mais do que a recusasse do papel de ser prometida ao caipira alienígena.

— Vamos, você é um homem do campo. Deve saber que café de cafeteira é uma merda – ele riu com sua acidez amigável, aquele som tranquilo que fazia os recém inquilinos em seu estômago se agitarem.

— É um fato. Deve ter sido decepcionante descobrir isso somente depois de ter gasto dinheiro com uma cafeteira dessas – ele gracejou com humor, a olhando pelo canto do olho. Alura sorriu.

— Eu não cometeria tal crime, Kent. Não precisa ser um expert rural pra descobrir que café de cafeteira é uma droga. Essa coisa inútil aqui – então Alura apontou com o polegar pra sua enorme cafeteira caríssima berrantemente vermelha atrás de si – Foi presente da infame Ross. Ela deve ter achado uma excelente ideia presentear á uma estudante de contabilidade um aparelho que só funciona á base de cápsulas que custam dezesseis dólares cada.

Ele riu novamente, com uma sinceridade tão genuína que a levou a acompanhá-lo. Clark depositou sua chaleira na pia assim que terminou de encher seu coador, o descartando no mesmo lugar e enroscando a tampa da garrafa rapidamente quando acabou.

— Tenho noventa por cento de certeza que foi uma piada.

— Apesar da ingenuidade natural dos Campbell, dessa vez, acredito que tenha sido mesmo. Rosaly adora tirar uma com a minha cara de tempos em tempos.

— Não me parece que você reclama em voz alta sobre isso. Ao que parece vocês são bem próximas.

— Você não sabe o quanto eu reclamo das coisas, Kent. Principalmente sobre dinheiro – ela passou por si sorrindo ironicamente, pegando a bandeja com bolo no balcão e se dirigindo á sala com Clark a seguindo. Sentando em seu sofá gasto Alura depositou a bandeja na mesa de centro, o grande homem se sentando ao seu lado se pondo logo a encher os copos na mesa com café a entregando um – E Rosaly tem um dom natural de me tirar do sério com mínimas coisas.

Ela concluiu com uma falsa expressão azeda fazendo os olhos limpos do homem á sua frente brilharem de diversão.

— Acredito que sejam melhores amigas, então – ele apontou risonho a fazendo soltar um bufo consternado, seguido de um sorriso de lado.

— Melhores amigas do mundo todo – concluiu num sussurro carinhoso. Alura fechou os olhos trazendo a caneca á sua frente enquanto soprava e bebia seu café com cuidado, apoiando suas costas no braço do sofá. Quando ela abriu os olhos Clark olhava para si daquela forma que a deixava nervosa, como se ela fosse uma brilhante pedra reluzente num poço de escuridão. Era como se ela fosse a única mulher no mundo – Mas não conte a ninguém. Eu tenho uma má fama pra preservar, você sabe.

— Você tem a minha palavra, minha senhora – ele brincou com falsa submissão, seus claros olhos brilhando com algo a mais.

Alura sentiu sua marca levantar um pulsar carinhoso contra sua pele. Como se aquela voz, recitando essa última palavra em particular, fosse a chave para a fechadura das suas paredes de ferro. Como se só aquele 'minha senhora', qual levantava um sentimento de nostalgia, como se já tivesse o ouvido dizer várias vezes antes, fosse o encaixe perfeito para despertar o lado mais íntimo e rendido de si. Fez coisas consigo em poucos segundos que não havia sentido antes.

Ela precisava parar com isso.

Precisava parar de pensar nisso ou não conseguiria de concentrar no aqui e agora, e se não se concentrasse no aqui e agora ela acabaria se concentrando na noite anterior. E ela definitivamente não queria se concentrar nos detalhes da noite anterior, não quando ambos, ela e ele, disseram coisas e estiveram tão pertos á ponto de força-la a ter sonhos molhados com o mesmo que quase a forçou a se aliviar no banho de mais cedo. Não quando ela disse descaradamente – oh Deus, maldito inferno sangrento – o que o cheiro dele fazia com suas regiões intimas, não quando ele disse com tantos sentimentos pesados, quais ela e sua frieza soberana jamais saberia identificar, que o coração dele era... Era... Seu. Que ele a protegeria enquanto... Vida... Ele tivesse. Que os sentimentos dele... Eram além... Além da marca. E que-

— Ei – os dedos de Clark repentinamente estava em seu queixo puxando os seus sentidos para si, sua boca levemente aberta por sua respiração repentinamente inconstante com a vinda detalhada das memórias da noite passada. E quando ela quase sussurrou o seu nome, ainda embalada pelas sensações que ambos causaram um ao outro na noite anterior, ela olhou em seus olhos escuros. Escuros de raiva, ela imediatamente sabia identificar. Não soube como mas sabia, e foi aquele sentimento em seus olhos que a trouxe pro mundo real novamente – Foi aquele maldito desgraçado quem fez isso com você?

Ela quase engasgou com a própria saliva com tal fúria suja saindo dos lábios bonitos do inocente e dócil Kent, e ficou tão surpresa com sua repentina raiva que quase não soube do que ele estava falando. Isso até que seu polegar calejado pousasse em cima da maçã da sua bochecha direita, pressionando levemente a fazendo se encolher de dor. Oh, isso. O machucado idiota causado pela queda bêbada de mais cedo. Então ela se recordou da raiva viva de um homem que não era Clark Kent ou Superman na noite passada, do homem de poder monstruoso e raiva mal contida qual brincou com a vida do seu agressor literalmente na ponta dos seus dedos. O homem que respondeu ao seu chamado e a protegeu com o seu corpo, do homem que pisou na borda entre o correto e a necessidade furiosa de mostrar ao seu agressor o seu lugar. Kal-El residia em Clark Kent como uma segunda camada, escondida sob sua pele de bom moço com uma armadura de aço pronto pra cumprir seu querer sem se preocupar com consequências.

A fúria de um Kryptoniano, tal qual presenciou em Zod.

Só que ao contrário de Zod ela não o temeu nem por um milésimo de segundo. Na verdade, se fosse honesta consigo mesma, aquela fúria causou um escorregar entre suas coxas que mal a manteve sã durante o dia todas as vezes que lembrava dos seus músculos furiosos das costas se contorcendo de raiva dentro das roupas.

Foco, Alura! Foco, droga!

— N-Não, eu, ahn... Não foi ele – terminou rapidamente, num suspiro. Uma mistura de frustração, desejo e inesperadamente o medo. Lembrar da proteção de Clark também a fez se lembrar da desolação de estar totalmente indefesa nas mãos de um homem vil qual se aproveitaria da sua fraqueza embriagada pra fazer sabe-se lá o quê se passava na sua mente insana.

— Não minta pra mim. – seus olhos ambares se encontraram com os dele rapidamente, surpresa com seu tom baixo, não dominante, mas que fez os pelos do seu braço se eriçarem da mesma forma se fosse. – Não me poupe disso, querida. O que ele iria fazer com você... Eu deveria ter feito mais.

Terminou duramente, sua voz entredentes, como se visse a cena de repetir á sua frente.

— Clark, para. Está tudo bem, você não deveria ter feito nada. – ela tentou amenizar, a culpa de uma má escolha pesando em seu peito, afinal, Clark não deveria ser obrigado a socorre-la toda vez que se metesse numa encrenca baseada em tolice.

— Nada? Não diga algo assim, lua! Não sabe o que eu senti quando a vi naquele momento, nas mãos daquele homem. Eu deveria ter o machucado até que os últimos pensamentos que residissem em sua mente fosse em prol da sua própria sobrevivência. Deveria ter quebrado os seus ossos em pedaços tão pequenos que seus dedos jamais pudessem tocar qualquer outra mulher daquela forma de novo, eu-

— Kal! – ela o chamou pondo sua mão contra seu rosto com mais firmeza, apertando seus dedos contra os dela. Clark piscou algumas vezes ouvindo o coração acelerado da sua senhora palpitar á sua frente, e olhando nos seus olhos ele contemplou o mais maravilhoso clarão de mel o olhando com carinho. O olhar da sua senhora para ele, o olhar que ele tanto ansiou. Clark quase se ajoelhou perante tal perfeição – Você tem que parar de pensar nessas coisas, não se esqueça de quem você é. Superman não pode sair quebrando os ossos dos bandidos, ainda mais em casos tão isolados. Você sabe que uma onda cada vez mais crescente de pessoas contra você está só esperando uma falha para colocá-lo na forca.

Sua senhora estava preocupada consigo.

Sua senhora o olhava com olhos quentes, a pele da sua mão contra a sua, apoiada em seu rosto macio. Ela não o afastava, ela não o repelia, ela não o insultava. O coração de Clark bateu mais forte contra o peito, um suspiro pesado saindo dos seus lábios. Ter tal momento com sua prometida, um momento real e bem real, o fez perceber o quanto seus sentimentos transbordavam, o quanto sua vida estava ligada á dela. E saber que alguém ousou amedronta-la e coagi-la, toca-la de forma tão imunda com pensamentos tão vis... Então os olhos de Clark se desviaram lentamente para a pequena mão que segurava a sua, vendo os sinais negros que pontavam da manga do seu suéter. Lentamente ele afastou sua palma da bochecha da sua senhora, segurando a mão que estava acima da sua e trazendo a outra que ainda segurava a caneca de café até a altura dos olhos, massageando ambos os pulsos com os polegares vendo o cenho da sua prometida franzir levemente.

Clark trincou o maxilar, sua raiva mal contida dentro do peito.

— Se você estiver envolvida, não há população ou imagem que me impeça de fazer o que acho certo em prol do seu bem estar, Alura. Olha o que ele fez com você! A marcou com suas mãos sujas, feriu sua pele, instigou o seu medo...

— E você me salvou. – ela o interrompeu suavemente, um bolo em sua garganta ao sentir a pressão do momento, ao sentir aquela realidade que agora iria fazer parte da sua vida. – Ele foi posto no lugar dele, então para de queimar seus neurônios pensando nisso. Já passou

.

— Como posso fazer isso? Eu quase não consegui chegar á tempo, Alura! Se ele fizesse algo para prejudica-la... Se ele a tocasse, a machucasse nem que seja por mais um fio de cabelo, por Rao, eu não sei o que faria! – Alura fechou os olhos suspirando suavemente, tirando seus pulsos da sua mão e depositando a caneca de café em sua mesinha simples de madeira velha.

Clark era intenso, mais intenso do que sua personalidade tímida exterior explanava. Tão intenso que talvez nem ele soubesse, suas camadas transbordando das próprias barreiras quando chegava ao limite, ela já presenciou essa sua faceta três vezes: no primeiro encontro quando quase foi atropelada, quando ele contou a ela que temia perde-la na luta contra Zod e agora. Entendia que como – ela não acredita que iria dizer isso mesmo que em pensamentos – sua prometida ela podia ter alguns privilégios de presenciar suas camadas mais do que qualquer outra pessoa, talvez porque, talvez, ele jamais fosse ter uma conexão tão íntima com qualquer outra pessoa quanto ela. Isso não queria dizer que estava preparada, entretanto. Ela só o conhecia á seis meses, e desses seis meses só se viram umas quatro vezes, e das quatro essa era a única de livre e espontânea vontade. E mesmo que ambos estivessem sentindo algo mais fundo em relação ao outro – ela tinha que admitir que a marca só tinha uma pequena parcela de culpa nisso, ao menos da sua parte – não quer dizer que ela estaria preparada para momentos assim.

Santo Deus, ela era apenas Alura! Coisas assim não deveriam estar na suas diretrizes. Como conter uma fera quando ela mesma tinha atitudes tão radicais em seus próprios momentos de raiva? Ela não era o melhor exemplo de moralidade e paciência quando a vida pessoas com tão pouca boa índole a importava mais que um saco de palitos de dentes. Mas então, Alura concluiu ao olhar para Clark Kent e seus poderosos músculos escondidos sob o disfarce de um repórter bobo; ela não tinha o poder de matar uma pessoa com o menor movimento dos seus dedos. Eles não estavam no mesmo patamar em vários sentidos, Alura não ousaria pensar isso novamente nem por milésimo de segundo. Clark era um deus, perfeito em sua forma, um titã preso em um mundo de porcelana. E estava só. Ele não poderia fazer nada que prejudicasse sua ética ou moral, e ela sabia que ele o tinha mais do que ela mesma. Muito menos prejudicar a sua estadia no planeta. Então, sabiamente ela concluiu, era o seu papel trazê-lo para o chão.

O mundo era sujo e cruel, Clark o único deus que sorriu para a sua raça denegrida. Ela não podia deixa-lo corromper por algo tão pequeno quanto seu bem-estar.

— O mundo precisa de você, Clark. Não pode sair tomando atitudes que o prejudicariam frente as autoridades maiores. Não faça coisas que sujarão sua imagem para as pessoas, os grandes líderes do mundo o mastigarão por isso.

— Eles são tolos covardes, todos eles. Não são nada para mim, Alura!

— Mas o povo é! – ela rebateu imediatamente, embora de forma suave. Seus olhos ficaram mornos enquanto olhava a tempestade azul atrás das lentes de Clark Kent – Eu sei que se importa com a humanidade, Clark. Muito além do que já disse, não estaria fazendo o que faz se não se importasse. E não me pergunte, mas tenho certeza absoluta que não veste sua capa todo dia para se redimir dos estragos de Zod. Você os ama. Então não faça nada que sujará sua imagem para eles... Que fará o povo temê-lo, ou perder a confiança em você.

Ela suspirou, um tremor nervoso querendo surgir em sua voz. Pelo olhar de Clark sabia que tinha a sua total atenção, como nunca teve ou esperou de nenhum homem antes. Como se as suas palavras fossem as únicas que ele fosse ouvir no mundo.

— Ontem... Foi um erro. Eu sou uma mulher adulta, por Deus! Conheço o lado ruim dos homens sujos, é o meu dom, e não deveria entrar nesse tipo de encrenca por causa de bebida. Eu não queria incomodá-lo, sabe-se lá o que você estava fazendo, se estava trabalhando ou descansando, se estava salvando alguém do outro lado do mundo. Não importa. Você não é o meu segurança particular, eu não deveria usá-lo assim. Não pode sair fazendo coisas impensadas dessa forma em prol de algo tão pequeno, mesmo que a marca o force a isso.

— Forçado pela marca? Algo pequeno? Não... não diga essas coisas, lua! Me fere! – implorou com sua voz baixa, suas mãos nas suas de novo, acariciando seus pulsos feridos como se para fazer as marcas sujas sumirem – Você é a minha prioridade, é quem eu devo proteger acima de todos não importa as consequências. Você é a-

— Sua prometida. Eu sei. Você disse isso ontem. – ela desviou os olhos, suas bochechas ardendo, o bolo na sua garganta maior. Eles estavam entrando no 'assunto' principal mais rápido do que queria.

— É mais do que isso. Eu não a protejo porque sinto que é meu dever e obrigação, eu-

— Eu sei, Clark. Você disse... Ontem a noite, você disse... – ela fechou os olhos respirando tensamente incapaz de reproduzir as declarações do grande homem a sua frente, sentindo Clark se aproximar do seu corpo. Então, de olhos fechados, sentiu sua respiração lenta acima da sua cabeça, o fantasma dos seus lábios na pele da sua testa fazendo seu coração disparar dentro do peito, os inquilinos do seu estômago voando de um lado á outro.

— Eu disse que os meus sentimentos por você vão além do que você acredita o que a marca representa, meu amor – ele murmurou pesadamente, com mais sentimentos do que quando ele disse ontem, pela primeira vez. – Lembra-se disso? Eu também disse que o motivo qual nos conhecemos foi a marca, mas o meu tempo investido em você não é porque acho que é isso que devo fazer. Você é além da minha senhora, Alura. É a mulher... que teve o meu coração além da minha alma.

Ele recitou lentamente, baixo e pesado, como um segredo que só ela fosse digna de saber provocando arrepios ao redor do seu corpo.

Alura soltou a respiração que segurava tremulamente, seus olhos se apertando com mais força. A corda que os unia formigava quente em seu peito e através das pálpebras fortemente fechadas ela jurava que a podia sentir brilhar, girando solitária envolta da corrente. Era demais, simplesmente demais, a bolha que os cercava se fechando ao seu redor quase os esmagando com tantos sentimentos que os envolviam. Então Alura se afastou lentamente, tirando suas mãos das do repórter. Com a palma estendida contra seu peito ela o empurrou suavemente, o pedindo para se afastar sem palavras. E ele o fez. Clark recuou pondo um espaço considerável entre eles permitindo que ela respirasse novamente, seus olhos se abrindo com lentidão. Ele a olhava com aquele mesmo olhar de sempre, o mesmo olhar que a deu quando ela brigou com ele em seu apartamento, o mesmo olhar de quando ela brigou com ele quando o viu através dos óculos. Inseguro, com medo, desamparado. Mas ele não se aproximou. Ele respeitaria os seus limites.

— Você continua dizendo isso... Todas essas coisas bonitas e surreais... Mas como isso pode ser real, Clark? ‘Não pode’, é a resposta – ela olhou em seus olhos, mesmo que doesse fazê-lo. Clark pareceu ferido.

— Acha que estou mentindo pra você sobre os meus sentimentos, lua? – ele parecia magoado, sua marca desperta em seu peito querendo ampara-lo sendo um claro sinal da sua aflição.

Alura suspirou. Prometera conversar com Clark, e o faria. Não brigaria, não gritaria ou fugiria, mas precisava cortar o mal pela raiz, fazê-lo voltar á realidade antes que fosse tarde demais para ela. Para ambos.

— Mentir, não. Não conscientemente, ao menos. Mas, Clark, vamos ser verdadeiros um com o outro. Isso tudo, nós – ela olhou ao redor, então olhou para ambos, acenando entre si – Nós somos impossíveis, improváveis, e se não fosse a marca jamais estaríamos aqui. Precisa admitir isso.

— Eu não entendo. Mais cedo, até nesse instante, você...

— Estava rendida. E estou. Não vou fugir ou gritar, não vou negar nossa ligação, não vou negar esses sentimentos estranhos quais ainda não tem nome. Mas todas as coisas que me diz... É tão irreal, Clark. Toda essa bagunça.

Alura respirou fundo, não tão pronta para explanar os seus pensamentos, não disposta a agravar a mágoa na face do herói. Mas ela precisava, por ele, por ela.

— Eu entendo, acredite, eu realmente entendo que estamos nessa situação como consequência de um plano que não fizemos. E talvez, não sei, por se tratar do seu povo você tenha ficado meio cego para tudo o que esse tipo de ligação engloba, mas você tem que admitir que isso tudo é consequência de um destino que não escolhemos, que tudo isso se baseia em algo já planejado por forças maiores. Seja seus pais ou seus deuses, eu não sei. Mas não por nós, Clark. É impossível.

— Impossível, Alura? Você acha impossível que eu me apaixonei por você? Que eu... Que eu possa a amar?— ele se levantou, seus olhos brilhantes de algo como dor que enviava sinais direto para o seu peito, o apertando como se estivesse preso em uma rede.

Alura se levantou também, repentinamente chateada. Seu maxilar e punhos trincados, seu cenho franzido.

— Ouça-me, não diga coisas assim! Não banalize esses tipos de sentimentos por algo tão superficial quanto-

— Banalizar? Você está fazendo isso, Alura! Tem feito desde o dia em que nos conhecemos! Quando a olhei pela primeira vez eu sabia, sabia que seríamos algo mais. Sabia o que estava nascendo e crescendo em mim. A marca não tem nada a ver com isso!

— Clark, acorda, droga! Você é dez anos mais velho do que eu! Estamos tão distantes da realidade um do outro que é estúpido.

— É esse o problema? A minha idade? Podemos dar um jeito, lua. Não achei que fosse se importar com algo assim!

Alura segurou a cabeça com ambas as mãos, franzindo o cenho e massageando suas têmporas. Clark parecia aflito e machucado como um animal em uma jaula, ofendido, insultado e magoado. Alura odiou vê-lo assim, odiou com todas as suas células ser a causadora daquele olhar ferido, da sua figura acuada. Mas ela precisava. Ela tinha que faze-lo ver a realidade, porque ela estava quase se entregando ao momento também. Ela precisava que ele visse o que ela via... Porque os seus próprios sentimentos estavam se tornando traiçoeiros, suas vontades querendo atropelar suas razões. Ela precisava pensar com clareza antes que cedesse e caísse no seu abraço e se embriagasse com o seu cheiro, acordando tarde demais, quando ambos se perguntarem o que diabos estavam fazendo. Motivados pela marca.

Ela precisava fazê-lo ver as coisas com clareza para que juntos pudessem encontrar uma solução lógica ao invés de uma relação fantasiosa fruto de uma cicatriz.

— Clark, qual é a minha cor favorita?

— O quê... Querida, se isso for um teste-

— Considere um. Você não quer ver a razão, então á tratei a você. Qual é a minha cor favorita?

Clark hesitou alguns momentos, gaguejando algumas vezes e respirando fundo quando percebeu sua intenção, a olhando cautelosamente.

— Alura...

— Você não sabe? Bem, então quando é o meu aniversário? O mês, ao menos.

Ele engoliu em seco, seu peito doendo apertado. Como Alura tinha um dom tão forte contra seu corpo? Como ela conseguia ser seu bálsamo e a espada que o apunhalaria em menos de segundos?

— Não se recorda? Então vamos para uma mais simples; qual é o nome dos meus pais? Onde estudei quando criança? Qual estágio do meu curso eu estou? Em quê eu trabalho? Como Rosaly e eu nos conhecemos? Quais são os meus hobbys? Meu seriado favorito? Minhas bandas favoritas? Qual animal mais me cativa? Qual a minha opinião política?

— Eu... Eu... Não sei – Clark olhou para o chão perdido, seu peito ardendo. Doía, doía como um inferno, como se uma lâmina embebida em lava atravessasse seu peito como manteiga e lá residisse: impedindo seu coração de bater, queimando sua carne e fervendo o seu sangue.

— Não, Clark. Você não sabe. E se o fizesse não teria sido por mim que ficou sabendo – Alura cruzou os braços abraçando o próprio corpo, sentindo seu próprio peito se apertar. Não por ele, mas por ela mesma. Por um segundo, por um milésimo de segundo, ela seriamente desejou que ambos não estivessem ali: mas sim um contra o outro, abraçados como mais cedo, inconscientes do mundo e da sua realidade maçante.

Um silêncio surdo ocupou a sala, incômodo e frio. Entre eles um vácuo de gelo, tão frio quanto o mês que se aproximava com a promessa de neve. Alura não se alterou, não fora infantil ou rude. Apenas disse a verdade. E por isso, pela verdade qual ele não poderia rebater, os olhos de Clark se encheram de rasas lágrimas. Como ele poderia explicar o que sentia? Como convencê-la que não era a marca? Ele estava realmente convencido de que a marca não estaria trapaceando os dois? Ele poderia provar isso pra ela? Ele poderia provar isso pra ele mesmo?

— Quando apontei a sua idade, não foi para feri-lo. Nada do que digo é para feri-lo, Clark. Mas entre nós há um abismo tão grande, tão impossível. Sua vida estava toda planejada antes de Zod, e de repente suas certezas mudam por uma estudante que você mal conhece. Isso é no mínimo estranho, não concorda comigo? Você... Não sabe nada sobre mim. Nos vimos, se muito, cinco vezes em seis meses e nenhuma delas foram de ambas vontades. Quer dizer, ao menos eu o vi cinco vezes. Sei que me faz visitas noturnas.

Clark ergueu a cabeça do chão rapidamente, seus olhos brilhantes assustados. Ela não aprecia julga-lo, mas a vermelhidão em seu rosto e o maxilar trincado, sua posição rígida, dizia o quanto ela mesma estava se segurando para não desabar.

— Eu sinto muito, Alura. Eu não consegui-

— Ficar longe – ela sorriu de lado secamente, desviando seus olhos repentinamente lacrimosos para qualquer outro lugar senão ele – Não sou a pessoa mais inteligente do mundo, mas não sou tola, Kent. Não subestime minha capacidade de percepção. Não foi uma ou duas vezes que o senti próximo, você saber meu endereço sem que eu tenha o dito ontem foi o que eu precisava pra ter certeza.

— Você deve me achar um idiota – Clark sorriu amargo, suas lágrimas enfim descendo pelo o seu rosto. Alura conteu sua vontade de se aproximar assim como percebeu que ele se continha em se aproximar e toca-la, se desesperar como antes fizera. Era uma conversa sóbria e ele ouviria o seu lado.

— Não acho, não. Bem, sim, mas não por esses motivos – ela tentou brincar, seus olhos não se atrevendo olhar o homem qual inexplicavelmente fazia seu coração disparar – Não creio que seja um maníaco, Clark. Ou um perseguidor idiota, não acredito que tenha escolhido essa opção com intenções não-dignas em sua mente. Mas você tem um dom que mais ninguém no planeta tem, não deveria usá-lo para observar civis desse jeito. E alguma parte de mim, amaldiçoada seja, sabe com certeza absoluta que você não compartilha ou já compartilhou dessa mania com mais ninguém. Entendo, então, que a marca o force a tomar decisões impensadas, porque eu mesma tenho passado por um processo delicado ao longo dos meses.

Ele estava envergonhado, severamente e irremediavelmente envergonhado. Por mais que nunca, jamais tenha observado sua senhora com intenções maléficas ou obscenas ele não deveria fazer esse tipo de coisa, invadir a sua casa mesmo que ela chamasse o seu nome. Era a sua senhora, sim, mas ela tinha razão. Ele deveria ter tomado uma atitude antes, não deveria ter deixado tanto tempo passar entre eles sem que as lacunas fossem preenchidas. Percebeu, então, que a marca em seu corpo fazia com que ambos pertencessem um ao outro, mas não necessariamente poderiam ficar juntos. Não se Alura não quisesse. Exatamente como o seu pai disse. Aquela realidade ardeu, ardeu tanto que mais lágrimas invadiram seus olhos. Se sentia morrer, se sentia machucado como jamais algo o fez.

— Alura, você precisa entender, eu jamais, jamais – ele queria completar que jamais havia feito nada com intenções de prejudica-la ou forçá-la á algo, que em sua cabeça jamais algo sujo havia passado. Ele respeitou a sua privacidade. Bem, sim, ele estava errado, mas... Mas não tinha desculpas. Alura estava certa. Sobre tudo. Suas desculpas e os seus problemas pessoais não deveriam ser colocados em pauta: se tratava de Alura e do que ela sentia. Sempre se trataria sobre Alura. E se ela não estava confortável, então ele também não estava. – Não tenho desculpas. Nunca foi com intenções ambíguas, nunca foi. Acredite em mim. Eu não queria importuna-la, eu... Não queria ofende-la.

— Clark – então ela se aproximou, seus passos cautelosos e lentos, sua mente pedindo para parar mas o seu corpo pedindo pelo seu calor. Seu coração pedindo pelo seu calor. Porque ela entendia, e como entendia, pelo tempo que o privou da marca, que ela tem sim sentimentos por Clark. Sentimentos que não envolvem a ligação.

É muito fácil se apaixonar por Clark Kent. Tão belo e dócil, por dentro e por fora.

Mas e ele? O que ele sentia é real? Ele poderia saber diferenciar a euforia da marca dos seus próprios sentimentos? Que garantia ela tinha que os sentimentos dele, tão absurdos e fantasiosos, não se devia a ligação de ambos? Era grande, mas frio e congelado. Porém ainda o seu coração. E Alura não queria quebra-lo porque sentia, dentro de si, que Clark Kent tinha esse poder. Talvez o único homem no mundo com essa capacidade.

— Como posso fazê-la perceber que o que eu sinto é real? Como posso fazê-la sentir o mesmo? – ele sussurrou angustiado, sua mão em cima do peito, o cheiro da sua prometida á sua frente embriagando os seus sentidos de forma dolorosa. Tão longe estando tão perto, tão sua mas não. Por Rao, ele estava morrendo.

— Mas você pode perceber que o que sente por mim é real, Clark?

— Sim! – respondeu prontamente, seu rosto molhado a encarando com convicção – Por todo esse tempo... Por tudo o que passamos... Pelo tempo sem senti-la eu digo que é real, Alura. Nunca mudou, nem por um segundo. Só cresce e cresce a cada segundo. Além da marca, meu amor. Eu juro que sim!

Ela respirou fundo, suas lágrimas também derramando. Então cautelosamente ela ergueu sua mão a guiando para o rosto ferido do herói, puxando os óculos do seu rosto e contemplando a imagem divina que era Clark Kent.

— Aí está você. Meu inferno particular. Maldito seja – ela alisou a sua bochecha com carinho, um soluço baixo escapando dos lábios do seu herói

.

— Nunca, em toda a minha vida, eu me senti como eu me sinto quando estou com você. É sagrado, Alura. É poderoso, faz de mim quem sou. Quando estou com você é como se o mundo se encaixasse além da marca, querida. Por favor, acredite em mim.

— É tão difícil, Kal-El. Tão, tão difícil.

— Tente! Minha senhora, por favor, por nós: tente. Me dê uma chance para lhe mostrar, só uma chance. Eu prometo que a farei feliz por todos os dias que estivermos juntos.

Alura riu, uma mistura de lágrimas e descrença. Era mais uma prova que não era real. Como um homem como ele poderia sequer dirigir os olhos para ela? Uma garota mediana sem profissão exata, tão próxima da personalidade intragável da sua mãe como nenhuma outra pessoa seria? Ela não podia fazer isso, e se pudesse ainda não acreditaria.

— Por todos os dias que estivermos juntos, você diz? Até quando, Clark?

— Até quando você quiser, Alura. E nenhum dia além desse.

— É aí que está o problema, Kent: e se eu um dia quiser? Por quanto tempo? Quanto tempo você viverá?

— Eu não entendo...

— Mil anos? Dois mil? Talvez ultrapassemos os seus pais e viveríamos uns, quem sabe, cinco mil anos? – o cenho de Alura franziu, em seu rosto uma mistura de dor e chateação, sua personalidade intragável a corroendo para explodir – Do que eu abriria mão para estar ao seu lado? Quanto tempo eu viveria? Quantas almas eu enterraria? Rosaly? Meus pais? Isso sem falar nos riscos que correria, consequentemente envolvendo quem amo. Eu não posso, Clark... É uma decisão grande demais para tomar baseada somente em um ou dois encontros malsucedidos. Eu não sou uma Kryptoniana cercada pela longevidade, eu não sou como vocês. Não sei o que seus pais ou, caramba, a própria Yuda-Kal tinha na cabeça, mas não posso cumprir o papel de ser sua prometida e abrir mão de tudo o que me cerca por mais insignificante que seja.

Então Clark recuou três passos largos para longe de si, a mão que estava em seu peito apertando a blusa entre os dedos como se fosse sua própria pele, como se quisesse arranca-la. Seus olhos embebidos em lágrimas estavam largos como pires, tão cheios de algo tão profundo que Alura repentinamente se sentiu fraca, suas energias drenadas. Dentro das janelas dos seus olhos ela podia ver a alma de Kal-El brigando em conflito com Clark, mas aquele sentimento na superfície, nadando por todo o seu rosto até descer pelo o seu corpo o tornando rígido como uma rocha foi o que a preocupou: Clark parecia ter tomado uma decisão, como se só agora a realidade fosse um horizonte possível de se ver.

E doeu. Doeu em Alura. Tão fundo que sua própria mão foi ao peito, sua marca rasgando seu meio encurvando suas costas em dor, sua respiração se tornando rasa. Alura estava morrendo, se sentia morrer. E os sentimentos não pertenciam somente á si, pertenciam á...

— Clark!— ela grunhiu angustiada, suas unhas lutando acima do suéter para chegar á marca dolorida, como se para impedi-la de morrer.

— O quão egoísta eu tenho sido, minha lua? – ele soou frio, distante, tão diferente de todas as facetas que ela presenciou Clark dirigir para si que seus olhos se arregalaram. – Como eu nunca pensei nisso antes? Exigindo sua atenção, uma chance para mostrá-la o quanto posso ama-la quando, com isso, você estaria desistindo de tudo o que conhece? Quando estaria correndo perigo? Só para que eu não fique sozinho...

Clark riu, uma risada seca e oca, como se algo dentro de si tivesse morrendo aos poucos. Alura tentou chegar até ele, ela realmente tentou, mas a dor em seu peito era tão grande que ela não conseguia andar ou falar, quase não podia respirar. Quando os seus olhos encontraram os dela novamente eles estavam vazios e escuros, seu rosto gravada numa eterna expressão de dor. Ele se aproximou lentamente do seu corpo, com receio de toca-la. Então, diante de si, ele a envolveu em seus braços. Com força. Os beijos de adoração em sua cabeça veio em seguida, seus braços quentes a isolando do mundo e o seu perfume potente a drogando. Era tão bom, tão fodidamente bom que ela quase esqueceu da sua dor, que ela quase esqueceu de todo o seu discurso e se rendeu para ele ali, no chão da sua sala.

E então se foi.

Quando Clark se afastou de si o seu corpo estava cambaleante, ele a auxiliando a sentar com cuidado. Então, com uma carícia tenra em seu rosto olhando nos seus olhos confusos e um beijo trêmulo e demorado em sua testa, ele se levantou e lhe deu as costas caminhando á passos rígidos á porta da sua casa.

— C-Clark – ela tentou, o bolo na sua garganta quase afogando as suas palavras. Seu peito doendo como se tivesse levado um tiro, uma ferida de bala aberta no meio do peito tão grande que o vento frio corria por dentro dela através das suas costas – Onde... Onde diabos você...!

— Vou deixa-la em paz, querida – então suas mãos estavam na maçaneta da casa, seus ombros rígidos e suas palavras turvas da ameaça de um choro – Mesmo que isso me mate. Eu prometo que dedicarei todos os meus dias em achar um jeito de não incomodá-la mais.

— Clark! Volta aqui agora mesmo! Você não pode simplesmente ir assim, a gente... Ainda não terminou de conversar!

Alura se levantou tremulamente, suas pernas bambas. Porque doía tanto? Aquela dor era sua? De Clark? Do que importa? Estava morrendo, caramba! E sabia, com uma certeza incontestável dentro de si, que só sobreviveria se ele voltasse e a amparasse.

— Eu jamais a forçarei abrir mão da sua vida em prol da minha, eu jamais a privarei da sua mortalidade e eu jamais a porei em perigo. Nunca. Então abrirei mão da minha felicidade em prol da sua.

— Clark!

— Mas tenha certeza de uma coisa; tudo o que eu sinto... É real. E nada nunca será tão real como o meu amor por você, Alura Murray. A marca jamais teve influência sobre isso, eu me apaixonaria por você independente do laço – ele se virou parcialmente para ela, seu rosto manchado de dor, seus olhos se demorando em suas feições como se para gravar cada detalhe em sua mente – Adeus, Alura.

E então se foi. Clark fechou silenciosamente a sua porta, e de repente a sua sala estava tão vazia que a única prova que ele esteve ali foi o copo ainda cheio de café em sua mesinha velha. Alura sentou no chão completamente lívida, a dor latente em seu peito sendo o único sentimento ressoando como uma constante presença em cada célula do seu ser.

Era isso o que ela queria não era?

༺═━━━✧☾☯☽✧━━━═༻

Ele não sabia por quanto tempo, ou qual a direção: só voava, apenas voava com toda velocidade do seu ser. Por onde ele passou? África, França, Alemanha, Japão, Rússia, Itália? Não sabia, tudo era um borrão, nada fazia sentido, os flashes na borda dos seus olhos se passavam tão rápido que a única coisa que tinha certeza ser real era o formato do seu punho erguido frente ao seu corpo quebrando barreiras e mais barreiras sonoras á sua frente. E então, quando o seu corpo inesperadamente cansou do constante e sem foco vôo ele desabou á vários metros de altura de forma desleixada, sendo jogado á frente contra varias paredes de gelo até o seu corpo repousar de bruços numa superfície sólida e gélida, seus ouvidos zunindo com a força do vento contra seus tímpanos.

Quanto tempo ele ficou ali? Dez, quinze, vinte minutos? Meia hora? Um dia? Ele não saberia responder. Mas quando o seu corpo estava completamente coberto por algo gelado que esfriou até o últimos dos seus ossos, seus olhos abriram. Gelo, era tudo o que via. Uma imensidão branca interminável de gelo. Ele se levantou rigidamente, seu corpo estalando e tremendo contra o frio cortante, seus dentes batiam. Qual foi a última vez que havia sentido frio? Quando seu invencível corpo se rendeu á qualquer temperatura seja ela qual fosse?

O que estava acontecendo? Onde estava?

Clark caminhou lentamente, passo á passo, sem forças para voar, sem forças para nada. Seus membros pesados, sua única fonte de calor sendo a capa sob os seus ombros enrolada precariamente no seu corpo. E ele caminhou sem foco ou direção. Talvez por dias ou meses, ou apenas alguns minutos. Ele não saberia, o tempo era algo irrelevante. Então, depois de muito tempo, ao longe, ele reconheceu o contorno da sua nave. Percebeu então que o seu corpo em estado de dor o levou ao seu casulo de segurança, o único lugar longe de tudo e todos que ele pudesse berrar sua dor sem ser descoberto. Então ele caminhou mais, por muito tempo ao que pareceu, até que enfim estivesse frente a porta da imensa nave, sua mão trêmula se dirigindo á lateral da mesma a sentindo ser escaneada até que a porta se abriu, e dois passos para dentro do seu casulo ele desabou caindo no chão.

— Kal! – ouviu ao longe uma voz masculina qual ele reconhecia: seu pai – Kal, levante-se. O que há? O que sente?

Então seu corpo fora levantado por dois Sentinelas robóticos, o arrastando até uma ala onde ele fora depositado em uma espécie de maca, seus olhos sem foco captando as luzes ligando ao seu redor enquanto seu pai aparecia na sua visão periférica. Seu pai. Ele era uma espécie mais aperfeiçoada de holograma, sua mente turva embebida de dor e raiva apontou. Uma memória de uma vida e conhecimento guardada em milhões e milhões de terabytes para que fosse a mais perfeita e sábia cópia-sem-corpo possível do homem que um dia ele foi. Mas era vazio, ela falso, seu pai estava morto, os olhos opacos da alma sem corpo á sua frente jamais espantaria o frio que cobria os seus ossos.

Nada jamais espantaria o frio enraizado em seu ser além da sua Alura. Sua doce, quente e não-sua Alura. Seus olhos arderam ao produzir novas lágrimas, como se o tivesse feito milhões de vezes antes sem perceber.

— Kal, estás doente. Como podes ficar doente? Tiveste contato com kryptonita? Kal-El!

— Cale-se – ele murmurou, seu peito ardendo como brasa viva — Deixe-me em paz. Não estás vivo, não sabe como me sinto.

— Sou o seu pai-

— NÃO! És o fantasma de mais uma coisa qual anseio com todo o meu ser e nunca poderei ter! Cale-se e deixe-me! Faça-o agora!

— ...Como queiras – então o holograma saiu da sua visão, a voz do mesmo ainda podendo ser ouvida á distância falando em sua língua natal. Com quem ele conversava? Não importa, nada mais importa agora. Apenas ele e a sua dor.

Antes de desmaiar, o sorriso quente da sua senhora enfeitou os seus sentidos, assim como jurou que podia sentir o seu cheiro. Uma lágrima solitária correu pela lateral do seu rosto.

Alura. Sua doce, amada e inalcançável Alura.

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Ele abriu os olhos sonolentos os sentindo pesar, sua visão danificada. Ao longe ele ouvia eco de vozes, longe demais para identificar seu timbre, sua audição perfeita agora tão danificada quanto sua visão.

— Tens certeza? Lara, olhe nosso filho. Isso não pode continuar!

— Tenho, Jor-El. Ela também sofre, a parte em mim fragmentada nela me diz.— a voz era etérea, como em um vídeo mal produzido. Como um arquivo mal baixado. Quebradiça e cheia de mudanças de entonação.

— O que eles fizeram? Kal-El é um deus, a doença terráquea não deveria afeta-lo.

— A doença da alma não é uma maldição humana. Sabe bem que os laços terráqueos com os seus parceiros são rasos como um rio, curtos como um sopro.

— Eu tentei alerta-la, Lara. Olha o que você e Alura In-Ze fizeram! Eles não estão prontos!

— Não vi o que eu previ, Jor-El!

— Diga-me, então. O que vês agora, continua sendo o mesmo de sempre?

—...Impossível. É impossível dizer. Alura é tão imprevisível como o tempo, ela faz... Sua própria história. Eu não entendo. Talvez, por meu arquivo estar corrompido, eu não esteja conseguindo exatidão. É impossível... Impossível... A previsão foi bem salva, não houve fragmentação em seus dados. Eu não entendo.

— Eu avisei. Às duas. Assista-o á própria sorte e reze para Yuda-Kal ter pena da sua alma, agora.

Seus olhos se fecharam outra vez. Cansado, tão cansado.

Alura...

༺═━━━✧☾☯☽✧━━━═༻

A próxima vez que seus olhos abriram, se sentia melhor. Muito, muito melhor. Sua audição imediatamente varreu cada minúsculo som envolta de toda a nave, sua visão perfeita captando os minúsculos folículos do ar á sua frente. Seu corpo estava em perfeito estado outra vez, tão poderoso que sentia a própria força vibrar na ponta dos dedos. Quando se levantou ele não sentiu dor, nenhuma que fosse em nenhuma minúscula parte do seu corpo, como se tudo o que tivesse passado não fosse nada além de um pesadelo terrível.

Mas então sua marca voltou a vida, e a dor, ao menos no peito, retornou.

Alura.

Seus olhos se arregalaram. Quanto tempo se passara? Como estava a sua senhora? Clark levantou com rapidez da maca flutuante da sala de cura da sua nave, ditando ordens em sua língua natal para mandar embora o Sentinela que escaneava o seu corpo. Ele precisava saber que dia era hoje. Quanto tempo havia se passado?

— Quatro dias – uma voz conhecida veio às suas costas, o fazendo se virar. Seu pai vestido em roupas tradicionais da sua patente Kryptoniana o encarava com olhos inexpressivos, suas mãos cruzadas uma sobre a outra frente ao corpo – O relatório aponta que o seu corpo enfraqueceu severamente, sua mente não estava em sincronia com os seus poderes e eles o esgotou. Jamais havia visto tal diagnóstico em um jovem Kryptoniano em toda a sua juventude.

— Minha prometida – respondeu somente, sua voz dolorida, mas fria. Jor-El assentiu em reconhecimento.

— Apenas um destinado ou a própria kryptonita poderia causar tal perturbação na mente e corpo de um homem sadio como você, banhado por um sol tão jovem. Diga-me o que houve, filho. Meus conselhos podem ajudá-lo.

— Não, não podem – Clark se virou, seus passos decisivos atravessando os corredores da sua nave até a cabine de controle central com sua capa ondulando atrás de si, vendo através dos vidros a imagem infinitamente branca do gelo lá fora.

Depois de longos minutos apreciando a visão, ele falou novamente com sua voz seca.

— Vocês estavam errados.

— Sobre muitas coisas, meu filho. Mas diga-me o que lhe aflige, podemos encontrar uma solução juntos.

— Pode reduzir meus dias de vida? – Clark se virou ao seu pai, seu rosto cravado em tensão. Jor-El ergueu uma sobrancelha.

— Porque haveria de querer algo tão tolo?

— A perspectiva de diminuir meus dias de vida é tolo, mas o de prolongar a vida da minha senhora foram algo que vocês julgaram sábio. Não me parece muito justo.

Então as expressões perfeitamente programada de Jor-El mudaram, resultando em realização.

— Você contou a ela.

— Minha senhora não é tola, meu pai. Tampouco infantil pra sua pouca idade, que para os kryptonianos seria pouco perto da idade adulta. Não. É uma mulher sábia de argumentos inteligentes. Então diga-me você, uma das mentes mais inteligentes que o nosso planeta já teve, como posso rebate-la quando acusou-me indiretamente de lhe tirar a liberdade? De priva-la da sua velhice? De sobrecarrega-la com minhas emoções? De expô-la ao perigo? Nossas emoções, nossas tolas e tão abundantes paixões que não conhecem limites nos cegam aos detalhes mais óbvios.

— A vida humana é rápida, Kal. Quase insignificante. Achamos mais sábio prolongar a vida da sua prometida do que encurtar a sua. Que benefício isso o traria?

— A minha senhora – respondeu amargamente, sua voz tremendo – Me traria a minha senhora. Esses... Sentimentos. São tantos e com tanta força, tão reais... São mesmo reais? São mesmo meus? Porque mesmo que eu me sinta afundado até o pescoço no amor que a pertence como provar a ela que as poucas vezes em que a vi foi onde me apaixonei incondicionalmente, além da marca? Como ter certeza da sua veracidade?

Jor-El fechou os olhos em reconhecimento, os abrindo em seguida. Então ele desapareceu e reapareceu ao seu lado num piscar de olhos.

— Forte, forte, Alura Murray Chelsea. Pondo um Kryptoniano em dúvida dos seus próprios sentimentos em relação a algo tão natural para nós.

— Não diga o nome dela! – ele grunhiu chateado, suas mãos abrindo e fechando tentando conter a necessidade de agarrar ao seu próprio peito novamente — É sagrado. E dói. Dói como um inferno.

— Kal-El, pressupondo que os seus sentimentos por sua senhora sejam uma influência da tecnologia que colocamos na sonda que a marcou, então nenhum laço Kryptoniano jamais fora real. Você acredita nisso?

— Não! Mas é diferente, nós somos diferentes!

— São, sim. Nunca, em nenhuma história de Krypton um dos nossos fora destinado por um ser de força tão inferior. E isso não altera em absolutamente nada, meu filho.

— Eu não... Entendo.

— Entende, sim – seu pai pôs sua mão holográfica em cima do seu ombro, e inexplicavelmente aquele ato sem toque o confortou – Sua senhora o pôs em dúvida, Kal-El. Mas você sabe muito bem, dentro de ti, que o que sentes é real. De tantos planetas com tantos sois, você só veio a este por ela e por mais ninguém. Não porque escolhemos, não somente porque Yuda-Kal teve pena do seu futuro solitário, mas sim porque ela é a única mulher compatível no universo com a sua áurea, a única capaz de ama-lo tanto quanto você a ela. Em todo o universo ela é a única pessoa capaz de suprir cada parte sua, o mesmo em relação a ti. Sabes disso e sabes bem.

Clark se calou, novas lágrimas surgindo em seu rosto.

— Mas então... Porque tudo parece tão confuso? Porque as coisas simplesmente não podem ser naturais entre nós como seria com qualquer destinado?

— Há um conflito de povos, meu filho. De cultura, de sentimentos. Os terráqueos são frios e rasos, seus relacionamentos são curtos e subestimados. É uma raça não muito promissora, por isso você deve ser o seu herói. Para guia-los.

— Minha senhora não precisa de um guia, ela é o seu próprio Deus – ele sorriu de lado, seu peito doendo ao se lembrar dela – Não há um jeito de me igualar a ela, meu pai? De transformar-me em seu compatível?

— Mais do que já são? – Jor-El indagou, genuinamente confuso – O que quer dizer, Kal?

Clark então olhou para o seu pai, seus olhos sérios. Jor-El levantou uma sobrancelha descrente.

— Transforma-lo em terráqueo. É o que queres dizer? Tirar de ti o que tornas o que é? Até onde está disposto a ir em prol do conforto da sua senhora, Kal-El?

— Por ela eu daria voltas em todo o planeta fora da sua órbita, meu pai. Milhões de vezes se assim ela desejar.

Jor-El assentiu em compreensão.

— O laço de Yuda-Kal jamais esteve tão forte em um filho de krypton como está em ti, meu filho.

— Não há nada a ver com o laço. Eu ainda a amaria se não fossemos destinados, sei dentro de mim que sim. Eu sinto que sim – explicou com seriedade, seus olhos quentes contrastando com sua expressão estoica – Então? Há?

— Claro que não. Nosso povo vem de uma linhagem forte, Kal-El. Abençoado pelos próprios deuses, agraciados com os seus milagres de acharmos nossa alma gêmea. Somos kryptonianos em cada célula do nosso ser, deixar de ser isso deixaria nossa existência entregue ao limbo. Não há nada em ti que se iguale a um terráqueo.

Clark assentiu, voltando a olhar pro horizonte fora da nave. Ele já sabia disso, é claro. Já sabia que esse tipo de escapatória não havia de ser real, e sinceramente se houvesse ele o faria, por ela, mas ficaria eternamente triste consigo mesmo. Ser um Kryptoniano o enchia de orgulho, mesmo com todas as falhas do seu povo. Mas uma solução precisava ser tomada, e Clark não estava disposto a perturbar a vida da sua senhora com uma peculiaridade vinda das suas raízes qual a atormentava e a confundia – mas ele também não queria deixa-la ir, sentia que não poderia mesmo se fizesse um tremendo esforço. E pensando somente nisso, somente nela, ele proferiu as palavras mais dolorosas que poderiam sair dos seus lábios em todos os tempos:

— O laço é sagrado e Yuda-Kal jamais o desfaria, não é?

— Kal – o tom do seu pai assumiu uma entonação grave – O que quer dizer?

— Se ela não o desfaria, preciso achar quem o faça. Amo Alura ao ponto de colocar suas necessidades acima da minha, mesmo que eu morra. E se a ligação a faz infeliz, se a faz duvidar dos meus sentimentos por ela, então me entristece também. Por esse motivo eu quero...

— Kal-El, muito cuidado com suas próximas palavras!

— ...Que me conte sobre Os Magos e onde encontrá-los.

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Havia coisas que deviam ser aprendidas quando se era encarregada do fardo de ser uma Murray. A primeira era a coragem. Ser uma Murray é ser portadora de uma coragem animalesca, pronta pra ferir e ser ferida. Na casa dos seus pais, no escritório de trabalho da sua mãe – qual ela absolutamente não tinha permissão pra entrar, mas entrava mesmo assim – havia uma enorme tapeçaria vermelho-vinho super brega com o bordado prata de um brasão esquisito de duas cobras entrelaçadas ameaçando dar o bote em um leão erguido sobre as patas traseiras e dentes á mostra que dizia: “A verdadeira coragem não é a de enfrentar o leão, a cobra, mas, sim, a de enfrentar o nosso próprio impulso”. Alura odiou a maldita coisa a partir do momento em que pôs os olhos nela, mas era real: sua mãe não era impulsiva e a ensinava á nunca o ser. Tudo, absolutamente tudo deveria ser de acordo com o plano, um bom plano, ou nada mais vingaria.

Como a sua mãe conseguia manter o lema no dia-a-dia ela não sabia, afinal, sua vida tem se mostrado ser uma variável de inconstância e reviravolta.

A segunda coisa estava diretamente relacionada com a primeira: controle. Não sobre os outros, mas sobre si mesma; o autocontrole. Sua mãe acreditava que manter sua merda para si mesma em uma eterna expressão vazia faria com que o mundo se dobrasse ao seu favor, algo sobre 'uma montanha nunca se curva ao vento, por mais que ele sopre' e blá blá blá, ditados velhos desse tipo. O mais incrível é que ela realmente conseguia. Com alguns olhares desdenhosos sua mãe fazia até o mais valente dos homens se derreterem em lama. Não era o lema qual ela conseguia aplicar na sua vida pessoal também: Alura só conseguia algum tipo de território em uma 'zona inimiga' se mostrasse o estrago que a força dos seus punhos poderiam causar.

O terceiro lema, por incrível que pareça, estava ligada diretamente á cobiça: concupiscência. A palavra queria dizer exatamente isso, o termo designado para designar a cobiça ou apreço por bens materiais, ganância por poder e/ou dinheiro. Bom, poderia ser interpretado como isso, ao menos que quisesse encaixar apreço pelos prazeres sexuais também, mas duvidava muito que sua mãe ensinaria a uma criança de cinco anos sobre algo tão sensível, então a ganância, por pior que fosse, era o mais aceitável. Sua mãe não se focava no último C, na verdade. E Alura era muitíssimo grata por isso porque se ela não pudesse ser um poço de Coragem ou Controle, a Concupiscência – ou somente Cobiça – não era lá o seu ponto forte. Alura definitivamente jamais seria cegada por qualquer quantia de dinheiro ou joias, Estava em seu cotidiano conviver com pouco e era feliz assim.

E não, essa série de palavras ensaiadas, com certeza pensadas por uma pessoa não muito afável, não foi algo inventada pela mente vazia da sua mãe. Atrás da pesada tapeçaria estava escrita exatamente os mesmos besteirol, no canto inferior do bordado grosseiro a data da sua criação: 1916. Sua família Murray, sejam lá quem fossem, não a instigava em absolutamente nada á procurá-los se isso quisesse dizer que eles eram o que aquele tapete horrível disse que eram, as vezes até entendia a sua mãe se ela foi forçada a crescer em um lar que cultivasse á risca as Regras dos C's.

Mas o resumo disso tudo é que Alura, as vezes, era uma Chelsea mais do que gostaria de ser. Sua outra família era o extremo oposto ao da sua mãe: os Chelsea eram – ela não acredita que iria dizer isso – hippies caridosos, apaixonados pela natureza e recheados até a borda de humildade e empatia. Sua avó, que qualquer deus que existir a tenha, inclusive, estava em frente nas marchas 'faça amor, não faça guerra' dos anos sessenta, um quadro com a mesma trajada de roupas curtas e coloridas fumando um cigarro duvidoso frente á alguns soldados militares era seu maior trunfo. Alura lembra de se envergonhar toda vez que passava na sala dela e visse qualquer quadro dos seus avós paternos: Alura nunca usaria uma plataforma tão alta quanto vovô Tristan usava naquele tempo, ou roupas tão curtas e escandalosas quanto vovó Dorotheia. Sim, certo, ela se dispersou de novo: o ponto, nisso tudo, é que a sobriedade Murray com qual mais tinha contato estava ruindo, sua mascara fria e indiferente lentamente esfarelando contra seu rosto, sua real angústia vindo á tona nos seus momentos mais solitários, sua fraqueza Chelsea mostrando suas raízes como nunca antes:

Onde estava Clark Kent?

Depois da despedida dolorosa de ambos Alura se lembra de ficar deitada em seu sofá pelo resto da noite até a metade do outro dia, quando inexplicavelmente estivera doente. Foi a desculpa que deu ao seu trabalho, ao menos. Seu peito doía, doía como um inferno, latejava como uma ferida aberta, e depois de três dias nesse estado ela simplesmente despertou da sua angústia. Rosaly, claro, tomou um enorme susto, sua cabeça estando deitada no colo da amiga que lavava sua testa com água morna quando inexplicavelmente se levantou, quase arrancando o seu nariz no processo e causando um grito agudo na loira.

— Vadia maluca! Quer me matar do coração?

— Onde diabos eu estou? – sua voz saiu grogue, seu corpo um amontoado pesado de nervos doloridos e carne machucada depositado em algo não tão macio quanto sua cama.

— Depois que avisou no trabalho que estava doente, eu vim te ver. Bati, mas você não respondeu, então usei a chave que você esconde acima da soleira da porta – Ross explicou lentamente, descendo o pano quente para o seu pescoço e braços depois que o susto passou – Você estava desmaiada. Ou quase. Inconsciente de olhos meio abertos, não sei. Ardia em febre. Eu... Fiquei com medo, com muito medo, lua. Chamei uma ambulância e a trouxemos pro hospital. O que aconteceu?

— Eu... Não sei – Alura pôs a mão na testa com força, seus olhos fechados. Ela sabia, sim. Mas não é como se pudesse simplesmente contar á loira que seu corpo entrou em choque pela dor que emanava da sua alma gêmea.

Alma gêmea.

Alura arregalou os olhos e os fechou de novo, tentando se concentrar acima do falatório da amiga no receptor do outro lado.

Nada.

Alura não sentia nada.

“...mesmo que isso me mate”

Então seus olhos abriram com horror, suas mãos trêmulas. Onde diabos estava Clark Kent? Ela puxou a gola da camisola hospitalar pra frente checando se a marca ainda estava lá, e ao constatar que estava um estranho suspiro trêmulo de alívio escapou dos seus lábios secos. Ela não achava que ele pudesse se ferir propositalmente motivado por uma dor que ela pudesse tê-lo causado, mas não podia deixar de se preocupar. Claro, tinha certeza que ele era um homem mentalmente saudável e maduro o suficiente para não cometer tais erros por motivos tão rasos, mas era perfeitamente normal se preocupar, não é? Mesmo que a marca não tivesse nada a ver com isso? Sim, é perfeitamente normal, ela concluiu sozinha. Faria bem pra sua saúde mental se ela simplesmente parasse de negar as coisas, e sinceramente, estava cansada.

Um banho decente e uma tigela de sopa depois, Alura se deitou ao lado de uma cansada Rosaly na maca do hospital e sussurrou que repentinamente se sentiu mal, caiu e bateu a cabeça em algum lugar. Não era a sua melhor desculpa mas constatando que o médico havia dito pra Rosaly não saber exatamente a sua fonte de mal-estar, ela engoliu. Isso, e o sono que logo a levou para os braços de Morfeu. E então, na penumbra da noite, Alura tentou se conectar com ele de novo, e de novo, e de novo até que começasse a entrar em pânico.

Onde estava Clark Kent?

Os dias se arrastaram depois disso, um de cada vez, com a mesma lentidão que antes de todo o caos acontecer em sua vida. E então os dias correram depressa e rapidamente um mês se passou, e sua vida estava de volta nos trilhos. Exatamente como era antes. Alura trabalhava, estudava, passava vários momentos sadios ou discutindo com Rosaly e voltava pra casa. E de novo. E de novo.

E de novo.

Clark sumiu. Foi como se nunca houvesse existido. Durante o mês, vez ou outra, no meio da noite, sentia seu peito apertar e rasgar em angústia, tão grande que a fazia gritar em pleno pulmões. Então ela agarrava ao celular e tentava ligar para a fonte da sua aflição: caixa. Caía sempre na caixa absolutamente todas as vezes que ligava, não importava a hora. E sim, chegou ao ponto em ela testou todas as horas do dia. Clark disse que a deixaria, e deixou. Ele fez o que ela fez e a isolou em sua própria vida, a marca ganhando pulsação somente em momentos de extrema angústia do seu dono. Geralmente acontecia de madrugada, em seus sonhos ou em suas missões pelo mundo, mas nunca depois. Por experiência própria ela sabia que ele estava depositando uma quantidade enorme de energia naquele ato, e não podia deixar de lembrar que acima da sua posição de repórter ele era também o grande Superman. Ele não descansava, mal dormia, sempre atento ao bem estar das pessoas ao redor do mundo. Tão, tão ocupado Superman, tendo agora suas energias drenadas não só pela vida dupla.

Ela estava começando a ficar seriamente preocupada.

E depois de um tempo as únicas vezes em que o via, depois que a foto do seu whatsapp foi repentinamente trocada por um avatar tão cinzento quanto sua dor, eram nas capas quais tinha que editar na sua empresa, seu rosto de Superman sempre estoico e frio. Seus olhos, se captados pelas lentes certas, exalando um vazio tão enorme que a causava dor. Uma dor que em nada tinha a ver com a marca, afinal ela raramente a sentia agora, não é? E porque ela deveria se importar? Sua vida havia voltado ao normal, Clark fizera o que prometera. Ela deveria estar feliz com sua tediante e ansiada normalidade, não é?

Sim.

Ao menos que não.

E era um absoluto e redondo “Não, porra!”.

Alura se trancou no banheiro do seu trabalho mais uma vez, talvez a quinta daquele dia e não era nem dez horas da manhã. E qualquer engraçadinho que a olhasse torto novamente toda vez que ela levantasse do seu assento ela gritaria um escandaloso e nada elegante 'desinteria, cacete!’ para o prédio inteiro ouvir. Era bem mais digno do que ela iria fazer agora, logo depois de todo o seu discurso moralista sobre sua vida e o fato de não querer compartilhá-la com ninguém. Alura repetiu seu ritual, seus dedos indo de encontro á marca esbranquiçada em seu peito e a esfregando com carinho, como se tentando trazê-la de volta á vida. ‘Vamos’, sua mente voltou a rezar, seu maxilar trincado, 'Fale comigo, caramba. Você não pode fazer isso'.

Seu mantra durava cerca de dois minutos antes que ela grunhisse de frustração, um grito chateado querendo subir pela sua garganta, disposta a perder a compostura. De forma nada Murray. Então ela voltava até sua cabine de trabalho com a cabeça cabisbaixa e o rabo entre as pernas, o peso de uma decisão bem pensada pesando sob seus ombros como uma armadura. Como um manto de espinhos: pesado para carregar em sua razão, efetivo em afastar as pessoas. Mas ela havia tomado a melhor decisão, certo? Não, ela não tomou, ela apontou o seu lado da história que deixava bem claro do porque ela não poder se envolver com Clark Kent e ele respeitou a sua decisão muda e foi embora com a promessa de que não voltaria mais.

E ele é um homem de palavra.

Alura apoiou a cabeça entre as mãos com os olhos fechados, seus cotovelos na sua mesa de trabalho. Um mês, dois dias, doze horas e contando. Ela jamais diria pra absolutamente ninguém que o maior sinal do seu desespero sobre qualquer tipo de assunto era quando começava a contar coisas aleatórias; e ela saberia dizer, afinal, era ótima com números. Aparentemente era a única coisa em que era boa.

E em afastar as pessoas quais se importam com ela, claro.

༺═━━━✧☾☯☽✧━━━═༻

Um mês, sete dias, oito horas, quarenta minutos e contando. Tic-tac, tic-tac, o tempo passava, os segundos corriam, os ponteiros se moviam, o sol dormia e levantava. E mais um dia se ia, e mais um dia se erguia. Alura olhava para os por-do-sois á sua frente com imensa tristeza, seu coração recheado de uma melancolia que já não conseguia ser contida dentro do peito. Ela estava perto da ruptura, pronta pra gritar em pleno pulmões como uma maluca para toda Metrópolis:

— Você estava certo, cacete! Era isso o que queria ouvir? Que os meus sentimentos iam além da marca? Eu admito! E você? Qual a merda do seu posicionamento? Foda-se a vida longa, foda-se que você é um extraterrestre caipira bastardo! Volta aqui e me importune de novo!

E até mesmo em seus pensamentos ela perdia a razão, seus argumentos ofensivos e pouco dignos não soando nada convincentes até para si mesma. Sua histeria, claro, ficava no seu interior. Fora de si, dos seus sentimentos angustiados e do seu coração apertado, ela parecia quase sem vida. Sem humor, sem reação, sem palavras, sem vontade. E não gostava de admitir que sua... Sua... Atração por Clark Kent havia feito isso em uma mulher como ela, mas fez. E não porque ele foi um babaca, não porque ele foi uma decepção: mas sim porque ele fez exatamente aquilo que ela queria. Ele a respeitou e a deixou, mesmo que isso fosse machuca-lo severamente pelo laço que os unia.

Merda, merda, merda!

Mil vezes merda!

— Se continuar me olhando com essa cara de peixe morto eu vou furar seu olho, Chelsea – Rosaly á alfinetou a sua frente, passando o esmalte em suas unhas escandalosamente vermelhas. Alura piscou até se orientar, percebendo então que estava no chão da sala de estar da sua casa, os móveis arrastados e uma pilha fofa de cobertas e travesseiros em cima do tapete, assim como duas caixas de pizza intocadas e um engradado da sua cerveja favorita. Na televisão passava algum seriado de garotinha que fazia Rosaly babar e gritar, dessa vez era algo chamado Teen Wolf.

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Alura não sentiu nada além de um leve incomodo ao ter seu trágico sobrenome trago á tona, mas nada a mais.

Nada a mais além do enorme e incontrolável bolo de desespero que subia pela sua garganta como um gato numa cortina, se agarrando em suas cordas vocais com suas garras finas e escalando dolorosamente até acima. Pronto para fugir do seu controle. Alura respirou fundo, um suspiro trêmulo saindo dos seus lábios. Olhando para Rosaly á sua frente ela contemplou o rosto perfeito da sua melhor amiga se focar nas unhas recém feitas, um pequeno sorriso na sua boca. Alura sabia, com toda as suas forças, que ela estava á espera. Esperando por ela. Alura respirou fundo mais uma vez, a torrente emocional dos últimos dias vindo á borda do seu ser prontos para receber consolo de quem ela mais confiava. E mesmo que esmagasse a sua dignidade não havia nenhum colo no mundo que ela se sentisse mais confortável em chorar suas fraquezas além da sua melhor amiga.

— Você sabe, não é? Que tem algo errado comigo.

Rosaly sorriu mais abertamente, seus olhos limpos se desviando das suas unhas e a olhando com atenção.

— Eu sei. Não é sempre, mas algumas vezes, raramente, você consegue ser clara. Não posso lhe tirar o crédito de ser um completo enigma. Mas você, minha querida, parece tão estoica agora que se iguala á um cadáver. Quanto mais fria mais precisa de ajuda? Que lema de merda esse seu.

Alura riu, um som irônico misturado com humor.

— Eu sou uma péssima amiga, não sou?

— As vezes você é, sim, mocinha! Muito, devo ressaltar – Rosaly a respondeu ácida, uma falsa fúria em suas palavras que a fez rir – Mas pra sua sorte não quer dizer que eu a ame menos por isso. Temos personalidades diferentes e formas diferentes de ver a vida, só. Mesmo sendo irritante você continua sendo a minha fonte de proteção qual amo mais que tudo.

— Para com isso, Campbell, sua lésbica – Alura riu novamente, olhos se voltando ao teto para fugir do emocional quente e acolhedor da loira sorridente.

— Mas a verdade, sua egoísta preconceituosa, é que eu tenho esperado tempo demais e sinceramente tem sido cansativo. Primeiro um final de semana qual você volta estranhíssima, e agora isso? Um mês inteiro de comportamentos bizarros depois de parar no hospital por uma ‘queda’? Não abusa da minha paciência, Chelsea. Eu não sou tão disléxica pra não perceber o óbvio.

— Não me chama assim, cacete – respondeu por reflexo, o sorriso pequeno em seus lábios morrendo gradativamente até sumir. Apoiando sua cerveja intocada e quente na mesa de centro às suas costas ela respirou fundo, se concentrando em seus dedos entrelaçados em seu colo – Eu preciso... De um conselho.

— Um conselho? – Rosaly ergueu uma sobrancelha irônica – Alura Murray pedindo um conselhos meu? Caramba, e não é nem natal.

— É sério, Ross! – ela grunhiu chateada, suas sobrancelhas franzindo em seguida. E quando voltou a falar seu tom não era como nenhum outro que Rosaly já tenha ouvido, parecia quase... Perdida – É sério. Eu não... Não sei o que fazer. O que pensar ou sentir. Estou tão... Tão angustiada. Por Cristo, tem sido um inferno.

Os olhos de Rosaly de arregalaram levemente antes ela largasse o tubo de esmalte de lado e viesse até si, sentando ao seu lado e abaixando o volume da televisão com o controle até que ficasse em mudo. Em sua sala, banhada pela luz muda da tv e acompanhada da sua única confidente no mundo Alura sentia-se desmoronar. Estava literalmente por um fio.

— O que tem acontecido com você, minha amiga?

— Eu... Não sei. O pedi para ficar longe, Rosaly. Depois aceitei que tínhamos sentimentos um pelo o outro, mas que não poderíamos prosseguir pois possivelmente não eram reais. E agora... E agora eu não sei o que fazer. Ele sumiu, Ross. Como poeira.

Rosaly ofegou, suas expressões se transformando quase comicamente tentando acompanhar a avalanche de acontecimentos que Alura jogava em seu rosto. Espera, o quê?

— Alura, eu... Eu não estou entendendo nada. Você tem sentimentos por quem? Quem sumiu?

— Clark Kent – ela sussurrou seu nome amargamente, a pronúncia das sílabas causando dor em seu peito. Mas não na marca. A maldita coisa ainda dormia como se nunca fosse acordar. – Eu tenho visto Clark Kent... E... E...

— Você se apaixonou por ele – Rosaly murmurou incrédula, seu rosto lívido. Um imenso e estridente 'não' gritou na mente de Alura, mas o que diria? Como rebateria?

E a piada da noite, senhoras e senhoras, é que a atração de Alura Murray Chelsea se transformou em paixão pouco antes de apontar para Clark Kent que jamais iriam ficar juntos. Sim, aplausos, por favor.

— Apaixonei? – ela riu em escárnio, seus olhos começando a arder de dentro pra fora – Quem sabe? Eu não saberia. Eu nunca... Nunca senti algo assim antes. Eu já me apaixonei, Rosaly. Já tive meus namoros. Não foi nada com o que isso se parece. É tão... Fodido e surreal e... Impossível e eu... Odeio tanto aquele desgraçado! Maldito seja!

E as lágrimas vieram pelo seus olhos secos, enfim se rendendo á angústia do último mês. Rosaly a pôs em seu abraço antes que ela percebesse, o perfume de flores da mesma perfumando seus sentidos.

— Meu deus, Alura. Quanto tempo tem passado por isso? Porque não me contou? Ele machucou você?

— Não, Ross. Eu não poderia, é a história mais fodida que você já ouviu, acredite.

— Alura, o que está acontecendo? Clark machucou você?

— Não, claro que não – ela se afastou secando seus olhos, fungando – Ambos nos machucamos. Eu não posso contar tudo, mas a real é que... A real é que eu apontei absolutamente todos os motivos quais não podíamos ficar juntos, e que eu realmente não queria. E sabe o que ele fez?

Rosaly negou com a cabeça, as mãos em sua boca como se ouvisse algo chocante.

— Respeitou o meu desejo, Ross. Ele foi embora e não voltou, e eu sei dentro de mim que de alguma forma ele não vai voltar. Que ele vai conseguir se impedir de vir até mim mesmo que isso o mate. E dói! Essa merda dói! O que diabos é isso, Ross?

— Oh, minha lua, minha querida lua – Rosaly murmurou fascinada, seus olhos brilhando – Isso é amor.

— Não – Alura se levantou balançando a cabeça descrente, Rosaly a seguindo até a cozinha a vendo pegar a jarra de água na geladeira.

— Alura, como pode negar? Está descrito por todo o seu rosto! Você o a-

— Não diga a palavra com 'a' de novo, por favor, não diga. Você não sabe o que fala – ela bebeu longos goles de água, limpando os resíduos com o antebraço – Eu mal o conheço, Rosaly. Não, na verdade, eu não o conheço. Nos vimos raras vezes e em absolutamente todas elas sempre terminou com alguém indo embora machucando o outro.

— Quanto tempo isso tem acontecido? Vocês já... Você sabe. Ao menos um beijo?

— Não, não chegou a tanto. Eu e ele – ela pôs a mão na testa, seus olhos fechados enquanto respirava – É complicado, Ross. Muito complicado. O fato é que ele foi embora e sinto que não vai voltar, e dói. Porque dói?

— Voce é uma mulher adulta, Alura. E esperta. Mas algo me diz que ceder não tem sido sua melhor qualidade nessa situação.

— Como poderia?! – ela gritou, seus olhos se enchendo novamente – Como ceder, Ross? Ele mal me conhece. Aparecendo na minha porta fazendo jurar de amor e promessas impossíveis, impulsionado por algo que jamais deveria ter acontecido. Tomando o meu tempo, sugando o meu espaço, habitando nos meus pensamentos! Por deus... Por deus, o que está acontecendo?

Rosaly a abraçou com força sentindo Alura retribuir seu carinho com força equivalente, seus próprios olhos cheios de lágrimas. Aos dela, porém, de felicidades.

— Você está assustada, meu bem. A possibilidade de alguém ama-la sem querer nada em troca tem a mantido no limite. É estranho, não é? Quando alguém aparece e muda nossa vida de uma hora pra outra.

— Você não entende, Ross. Eu e ele... Jamais daremos certo. Nunca poderíamos ficar juntos. É impossível!

— Nada é impossível, querida – então a loira se afastou enxugando suas lágrimas com os dedos – Tem colocado mais barreiras do que realmente existem, tenho certeza disso.

— Você não sabe quantas barreiras existem.

— Então as quebre. Ele parece estar disposto. É tão ruim assim se apaixonar por alguém? – ela sorriu, suas fileiras brancas brilhando pra Alura, seus olhos felizes e cheios de esperança – Você merece, lua. Merece ser amada. E Kent parece ser tão, mas tão dedicado á você. É tão fofo!

— É assustador. Ele mal me conhece – ela resmungou cruzando os braços, fazendo Rosaly rir.

— Você sabe como papai conheceu mamãe? – então a loira puxou em seu pescoço um cordão fino de ouro, o pingente em formado de amêndoa se abrindo com um suave tocar de dedos. Nele, pequenas fotos de uma mulher de cabelos tão claros quanto o sol e sorriso radiante estavam gravados. A mãe de Rosaly era linda, literalmente de tirar o fôlego e Alura não pode deixar de perceber o quanto ambas eram extremamente parecidas.

— Você e o seu pai já devem ter me dito isso um milhão de ve-

— Então ouça de novo, e com atenção, porque obviamente você não entendeu nada! Um dia, na casa de um amigo de faculdade, enquanto esperava o motorista chegar com o carro, meu pai ouviu uma voz doce. Papai dramaticamente sempre conta o quanto parecia com o canto de uma sereia. Ele a seguiu como um homem enfeitiçado, e quando chegou ao seu destino encontrou a minha mãe, uma jardineira, entre as rosas do jardim da família. Papai foi absolutamente arrebatado pela visão da minha mãe, e quando seus olhares se encontraram ele soube que estava apaixonado e que se casaria com ela. E apesar da diferença de status eles namoraram, e eventualmente se casaram.

— Isso nunca deixa de me surpreender – Alura sorriu afetuosa, os olhos brilhantes de Rosaly ao falar da sua mãe tocando a sua alma — Simples assim?

— Sim, simples assim. Claro, nem tudo fora só flores e músicas, mas eles passaram por isso. As vezes, lua, a maior dificuldade qual encontramos são aquelas que nós mesmas colocamos. Você e Clark... Tem algo especial. Desde a primeira vez que o vi eu senti que era pra vocês serem um do outro.

— Não somos como os seus pais, Ross. Há tantas coisas que englobam essa relação... Tantos poréns...

— Então não pense neles, querida. Aproveite os seus momentos, viva sua paixão, se permita. E se for pra ser, juntos irão encontrar uma solução. Simples assim.

Simples assim.

Não era simples assim. Mas ela estava cansada de fugir e rebater, isso não tem feito nenhum bem á nenhum dos dois.

— O que eu faço? Ele sumiu. Antes eu queria exatamente isso, mas agora...!

— Ora, por favor. Você é uma Murray. Vai deixar o que é seu escapar por entre os dedos assim? Se organiza, mulher!

Naquela noite, envolta pelos ares sempre alegres de Rosaly, ela dormiu com a cabeça em seu colo recebendo o primeiro cafuné em anos da sua vida. E foi bom, foi maravilhoso. Mostrar uma fraqueza sua á sempre no-mundo-da-lua-Rosaly não foi nada como ela imaginou que fosse. Ross não a importunou pelos seus sentimentos ou lhe mandou piadinhas engraçadas, apenas a deu colo e carinho até que enfim dormisse o primeiro sono sem sonhos de meses.

Se ceder fosse tão bom quanto o colo de Rosaly, ela estava preparada para mais disso.

Simples assim.

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Alura tinha que reconhecer que ela não era uma pessoa dotada de muita impulsividade, e talvez, apenas talvez, essa falta de atitude lhe tirava os melhores momentos da vida. Ela era acomodada, reconhecia. A rotina, o cotidiano, o conhecido são seus melhores amigos ansiados e valorizados. Vendo por outra perspectiva, agora, ela pensou em como seu comodismo se devia á sua covardia, afinal era muito corajosa para força bruta mas uma tremenda medrosa para a vida real quais exigiam respostas mais humanas ao invés da frieza mecânica passado por geração em seu sangue.

Mas querendo ou não isso estava prestes a mudar.

Um mês, nove dias, quatro horas, vinte minutos e quinze segundos. Dezesseis, dezessete, dezoito...

— Chega! – ela disse em voz alta batendo a faca em cima da sua tábua de cortar carne, os legumes em cima tremendo e rolando até caírem no chão. Rosaly pulou do outro lado da sua pequena cozinha.

— Você tem que parar com isso, Chelsea, sua ridícula! – a mão da loira estava no coração, a mesma frente ao fogão qual anteriormente mexia uma panela com uma tentativa falha de uma receita da internet.

Rosaly tem sido sua fiel sombra nos últimos dias para se certificar que ela ficaria bem e Alura jamais esteve tão grata, mas isso precisa acabar. Ela precisa tomar uma atitude agora mesmo ou vai enlouquecer e a todos ao seu redor também.

Como Clark Kent ousa tirar a sua paz assim?

— Eu preciso fazer alguma coisa! – então ela se retirou da cozinha com passos duros e rápidos tirando as roupas no trajeto, indo ao seu banheiro e tomando um banho rápido, seguindo enrolada na toalha até seu guarda-roupa e tirando peças aleatórias de roupas e as vestindo de costas para a amiga, Rosaly a seguindo em cada passo com suas roupas antes espalhadas nos braços.

— Pra onde você vai? Oh, essa não! Veste aquela de malha preta, você fica sexy – Rosaly tirou a blusa pesada da sua mão, a substituindo por outra menor. Alura não contestou, nem tentou debater do frio de outubro que fazia fora das suas janelas.

Não. Seu sangue estava fervendo e não havia nenhuma promessa de chuva que fosse esfriar os seus sentidos.

— Eu vou fazer algo estupido e impensado, Rosaly. Escreva isso pois é um acontecimento histórico!

Então, vestida com seus jeans claros de cintura alta, uma bota de couro marrom que ia até perto dos seus joelhos e sua apertada blusa de manga longa ela foi á sala, arrancando o grosso e pesado sobretudo escuro de pele caríssimo que Rosaly a presenteou no natal do ano passado. Sua amiga á seguia a cada passo com uma expectativa brilhante em suas feições.

— Ai meu deus, Alura Murray, são nove horas da noite! O que você vai fazer? – Alura parou com a mão na maçaneta, apertando a alça da bolsa com a outra. Quando virou pra uma expectante Rosaly ela sorriu de lado, sua convicção não vacilando nem por um segundo.

— Vou atrás daquele filha da puta e perguntar o que diabos ele está fazendo – Rosaly soltou um grito agudo de alegria, batendo palmas enquanto pulava. Em seguida veio o abraço mais apertado que a loira já a deu, e vários beijos no seu rosto.

— Eu sabia! Eu sabia! Finalmente! Oh, espera – então Rosaly tirou do bolso do seu casaco pendurado um chaveiro com vários ursos, a chave do seu carro escondido no meio daquela bagunça fofa – Toma. Os pneus foram trocados recentemente, não tem perigo de derrapar se chover forte essa noite.

Alura sorriu com carinho, apertando a chave em sua mão.

— Obrigada, ross. Prometo não voltar muito tarde pra não ocupar o seu carro.

— Do que diabos você está falando, Chelsea? Se me aparecer em casa antes das dez da manhã de amanhã eu vou acabar com você, ouviu?

— Mas o seu carro-

— Eu pego um Uber, idiota! Agora sai, xô, se manda daqui e vai atrás daquele homem!

Alura sorriu afetuosa se virando e abrindo a porta, correndo pelo corredor e entrando no elevador. Enquanto descia os andares ela batia o pé no chão, mordendo os lábios com expectativas.

Clark Kent ia ter um enfarto.

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Fazia quase quarenta minutos que saíra de casa, a promessa de chuva enfim se concretizando quando os primeiros sinais de garoa começaram a cair e escurecer de vez o céu. Alura não detestava a chuva mas detestava o frio, detestava os tremores e a sensação de desamparo que ele trazia e já havia passado por aquela rua por pelo menos umas três vezes, sabia que sim. Era só o que ela precisava pra encerrar a noite: se perder em um bairro desconhecido no meio de uma noite chuvosa. Ela apertou o volante com força lamentando por não ter lembrado de pegar luvas, fechando os olhos e se concentrando em tudo, tentando manter a calma. Não, ela não podia se estressar, já muito atrapalhava os sentimentos de cautela que estavam começando a rastejar pelo seu ser, perguntas involuntárias que tentavam desconcentra-la e tirar o seu sossego, tais como: E se Clark não estivesse em casa? E se ele não quisesse vê-la? E se ele não morasse mais no prédio? 'Não!’, sua mente gritou. Ela não iria se focar nesses detalhes estúpidos, não hoje, não agora.

Qual foi sua alegria e extremo alívio quando avistou um letreiro conhecido e o seguiu pela direção que se lembrava a partir dele, estacionando a BMW estupidamente vermelha nas vagas frente ao prédio. Alura respirou fundo antes de abrir a porta, o frio molhado á saudando como uma visita indesejada. Maldito seja o outono em Metrópolis. Então Alura bateu a porta do carro e caminhou passos decididos até o prédio, apertando o casaco contra o corpo e subindo a touca para a cabeça. O entrar, o mesmo recepcionista de antes estava lá com o rosto tão azedo quanto ela se lembrava.

— Boa noite. Preciso ver Clark Kent, 143 – ela anunciou categórica, sua expressão estoica. O homem ergueu uma sobrancelha antes de pegar um telefone ao seu lado, apertando um botão e fazendo a chamada. Alguns longos trinta segundos de silêncio depois ele desligou, a olhando com desinteresse.

— O sr. Kent não atendeu o interfone, dona.

— Tenta de novo – o respondeu no mesmo tom. Ele estava em casa, alguma parte dela sabia que sim, ele precisava estar. O homem fez uma cara de desagrado antes de tentar novamente, desligando o telefone quase um minuto depois.

— Nada. E não posso permitir visitantes sem aviso prévio ou permissão dos moradores, então sugiro que tenha uma boa noite – o homem a dispensou sem uma segunda olhada, se virando e pegando uma garrafa de café abaixo do balcão. Alura sentiu uma pequena fúria nascer em seu peito, seus olhos procurando por algo ao seu redor. Foi quando viu a porta que dava para as escadarias, um sorriso travesso surgindo em seu rosto. Porque nem fodendo ela iria ter aquela onda de adrenalina inesperada para ser desprezada por um homem infeliz.

Então rapidamente ela de dirigiu á porta da escadaria, abrindo-a e correndo escada acima.

— Dona, você não pode entrar aí! Ei!

Alura rolou os olhos chateada, abrindo o casaco e correndo com mais velocidade os enormes degraus acima ouvindo os passos do porteiro infeliz abaixo. E novamente, quando seu corpo começava a ficar cansado, ela praguejou contra Clark.

— Você tinha que morar no andar mais alto, droga!

Alura estava sedentária, prometeu a si mesma que depois de hoje iria prolongar suas caminhadas. Longos minutos depois, parada, suada e ofegante, ela se encontrava agora frente ao apartamento do homem que tem tirado o seu juízo. E inesperadamente um pequeno receio começou a pintar em seu peito. E se ele não quisesse vê-la?

— Dona, qual é o seu problema?! – a voz do porteiro começou no topo da escada, a fazendo grunhir frustrada e bater rapidamente na porta á sua frente com rapidez. Ele caminhou até si com passos largos e rosto chateado, a agarrando pelo braço e a puxando – Ei, não pode incomodar os moradores! Eu vou chamar a polícia!

— Escuta, eu sei que esse é o seu trabalho, mas se você não quiser um soco bem dado no meio da sua cara eu sugiro que tire as mãos de mim! – Alura puxou seu braço, sua outra mão voltando á porta e batendo com mais força – Clark! Eu sei que está aí!

— Você está muito encrencada, senhora!

— Eu já falei pra tirar as mãos de mim, punk imbecil!

A tensão entre Alura e o porteiro foi cortada quando uma porta foi destrancada rapidamente, sendo aberta com força. Alura parou de lutar, sua boca levemente aberta com a visão de ninguém menos que o próprio Clark Kent á sua frente sem camisa, barba por fazer e expressão severamente confusa. Mas só quando ambos, ele e ela, olharam um nos olhos do outro que Alura pôde enfim sentir os seus sentimentos de novo. A marca acordou com a força de um rio quebrando uma barragem, trazendo toneladas e toneladas de sentimentos líquidos cada um mais forte que o outro, se atropelando contra o seu ser e lavando a sua alma.

Seus joelhos ficaram bambos pela sobrecarga, seus pulmões repentinamente sem ar, mas dentro de si uma felicidade já conhecida que vinha unicamente da sua parte: Ela o sentia de novo.

—... Alura? – a voz de Clark saiu rouca e quebradiça, como se não acreditasse em absolutamente nada que visse em sua frente. Então ele fechou os olhos com força, os abrindo novamente e encarando seu rosto perplexo, embalada pelo momento de estar em sua presença de novo.

— Sinto muito incomodá-lo á essa hora da noite, Sr. Kent. Mas essa dona não conhece limites – a voz do recepcionista interrompeu o momento de ambos. Clark desviou seus olhos desacreditados do seu rosto para a mão que agarrava o braço da sua prometida e inconscientemente a fera antes completamente morta em seu peito despertou do seu sono de autoflagelo, esticando as garras para o homem que a tocava.

— Tire as mãos dela. Agora – comandou firme, sua voz tensa. O homem o olhou com olhos surpresos antes de estalar a língua e soltar seu braço, o olhando com cautela.

— Da próxima vez avisa quando estiver esperando visitas – então ele se virou e saiu, marchando para as escadas praguejando o quanto deveria ter continuado na escola.

Então enfim eles dois. Clark voltou seus olhos cansados pra sua senhora, sua visão o saudando como o sol depois de anos forçado a viver debaixo d’água. Quente, poderoso, revigorante. Vida. A mera presença da sua senhora lhe trouxe de volta á vida, seus sentidos dormentes se despertando em prol dela, para exaltar a ela, para sentir a ela, preparados para cada som ou movimento que sua amada fosse fazer. Alura, por outro lado, não sabia como proceder. Anteriormente, no carro, ela havia ensaiado tantas perguntas, pensado em tantos diálogos, arquitetado tantos argumentos, preparado tantos insultos, mas agora, ali, somente o nada. As palavras morreram em sua garganta como se nunca houvessem estado lá, a sensação da marca desperta em seu corpo lavando os seus sentidos era tão poderosa que fazia um som estático contra seus tímpanos. Clark á sua frente era uma visão tão bem-vinda que brilhava, brilhava tanto que seus olhos ardiam de dentro pra fora.

Então, ao mesmo tempo em que o resumo das suas frustrações por todo esse tempo se transformaram em suas primeiras lágrimas, ele veio até si em um único passo a envolvendo em seus poderosos braços de aço, afogando seu rosto contra os pelos macios do seu peito fazendo seus olhos tremerem com o maravilhoso perfume já conhecido novamente atiçando os seus sentidos. De repente seus pés já não estavam mais no chão, Clark caminhando passos rápidos até seu apartamento e fechando a porta, a escorando em seu abraço contra a mesma.

A espiração dele estava rápida como se estivesse se afogando por um longo período de tempo e fosse repentinamente salvo. Seu nariz, qual olfato havia sido prejudicado para outros cheiros, estavam agora sendo agraciados com a doce fragrância dos cabelos da sua deusa, da sua senhora, da sua Alura. Ela estava aqui, seu corpo estava aqui, ele tinha que se concentrar no som dos seus batimentos cardíacos acelerados para saber que aquilo tudo não era uma alucinação da sua mente enlouquecida pela perda. Será que ele morreu afundado em sua própria tristeza? Yuda-Kal sentiu pena da sua alma e o agraciou com a alucinação da sua senhora para iludi-lo por toda a eternidade?

— Alura, Alura, Alura— ele sussurrava num mantra, seu rosto se esfregando contra seus cabelos rebeldes, contra seu pescoço macio, contra seu rosto choroso. – Não seja uma alucinação, por favor, não seja.

— Maldito desgraçado – ela murmurou, soluços pequenos escapando dos seus lábios com respirações curtas – Como você pôde? Como pôde me deixar assim?

Então os dedos de Clark estavam em seus cabelos e carinhosamente ele foi puxado com lentidão pela raiz em sua nuca, erguendo seu rosto do seu peito másculo a forçando a olhar no rosto sério de olhos lacrimosos do seu herói. Tão, tão lindo Clark, tão perfeito em sua forma.

— Você está mesmo aqui... Está mesmo aqui... – seu nariz se esfregou suavemente contra o dela, o fantasma dos seus lábios passando por sua boca, sua respiração quente contra o seu rosto. O peito de Clark martelava contra seu corpo, como se o seu coração fosse sair da caixa torácica á qualquer momento. Alura respirou fundo puxando cada essência da sua pele exposta contra suas narinas, sua boca levemente aberta respirando tensamente com os efeitos de Clark Kent contra seu corpo.

Ela o sentia. Sentia seu cheiro poderoso, sentia o calor da sua pele, sentia a vibração de alegria, confusão e saudades que sua marca emanava.

Ela o sentia.

Finalmente.

— Senti a sua falta... Senti... tanto... a sua falta – sussurrou contida, tentando manter uma fachada mais forte do que o momento exigia, suas primeiras lágrimas de emoção escapando dos seus olhos denunciando sua fragilidade.

Ela odiava estar em foco como fraca, mas seria condenada ao inferno se não reagisse á presença magnífica de Clark Kent.

Clark piscou lentamente com suas pálpebras cerradas, o aperto firme em sua nuca e outro em sua cintura formigando na pele de ambos, sua respiração pesada contra seu rosto. Em sua cabeça ele achava que era bom demais pra ser verdade, tudo isso era quase irreal. Quantas vezes ele sonhou com esse momento? De ter sua prometida em seus braços novamente de livre e espontânea vontade? Não, ele não podia acreditar nisso. Quando tempo levaria pra ele se abrir pra Alura para lhe mostrar suas paixões e ela corta-lo de novo da sua vida o deixando completamente desamparado?

— Não é real – então ele a soltou lentamente, seus olhos em fendas se enchendo de lágrimas não derramadas – Não pode ser real. Você jamais viria atrás de mim. Não depois de tudo, não depois da última vez, não depois de deixar claro o que esse relacionamento implica pra você.

— Clark?

— Eu não posso. Eu não sou... Forte, ainda, para tê-la e depois perde-la novamente. Eu não posso ter isso de novo, eu não sobreviveria.

— Clark!

— Vai embora— ele sussurrou as palavras como se fossem veneno fervendo em seus lábios, machucando a sua boca como uma heresia, seu peito apertado. Kal-El dentro de si gritava e rugia de fúria. Mas ele não podia, ele simplesmente não podia, a ferida ainda estava muito aberta pra ele lidar com ela sozinha depois. Ele simplesmente não podia.

Alura paralisou, seu rosto incrédulo quando ele a deu as costas e caminhou para longe de si.

— O quê? Mas-

— A ligação não foi consumada, então você ainda pode viver sua vida normal, Alura. Não precisava ter vindo aqui.

— Olha pra mim, idiota! Porque acha que estou aqui? – então ela respirou fundo tentando achar um fio de controle, tentando fazer seu coração louco parar de doer pela pequena rejeição – Eu não tenho sido a melhor das pessoas, reconheço, mas não é como se você pudesse me condenar. O que você faria? E se fosse ao contrário?

— Você tem razão. Toda razão, Alura. O elo a tira mais do que a oferece e eu entendo porque não deseja isso, não há como você entender a importância além de como eu posso mostrar... Mas se lhe é um incomodo, não mais a cobrarei.

Clark ainda não virou pra si, seus ombros expostos tensos acentuando cada curva. Alura respirou fundo, tentando chegar até ele pela marca.

— Eu pensei em tudo, em tudo que nos envolve, dia após dia, noite após noite, cada detalhe e o seu peso em cada vida que me cerca. E eu tentei. Droga, eu tentei seguir minha vida. Eu tentei fingir... Que tudo isso não passou de um mal entendido. E quer saber? Eu fracassei! Fracassei, Clark. Porque depois de tudo, depois de todos os dias vivendo a minha vida como deveria, depois de saber que tudo o que eu lhe disse é real a única coisa que eu conseguia pensar é em como eu sentia a sua falta!

— Não diga essas coisas. Por favor, por favor, não diga – disse com uma voz quebradiça, ondulando em sua entonação como os sentimentos que o cercava.

— Clark, é a verdade. Eu juro que sim, com todo o meu ser.

— Não... – ele murmurou ainda de costas para si, seus braços se abraçando com força – Não. Não me dê esperanças. Por favor, Alura. Não de novo. Você pode voltar a viver sua vida normalmente, a marca não irá incomodá-la enquanto força eu tiver, eu tentarei todos os dias não incomodá-la, eu prometo. Apenas... Não me dê esperanças. Isso dentro de mim... Esses sentimentos, que para você são tão irreais, são grandes, vivos e famintos, alimentados á crescer cada vez mais puramente pela a sua atenção. E eu não posso cultiva-lo sozinho estando tão perto de você. Então vai embora, por favor.

Alura sentiu seu peito arder, a mesma dor cortante que curvava seu meio e rasgava sua carne. Rejeição, rejeição em sua mais pura e genuína graça, tão prejudicial quanto ferro quente contra sua pele. E ela não ia aceitar isso. Lentamente ela tirou seu pesado casaco o jogando no chão, caminhando á passos lentos em direção ao homem que fazia suas pernas fracas e o seu coração bater mais rápido. Quão fodida era essa relação? Alura estava convicta em todos os contras que envolvia ela e Clark de estarem juntos, e se fosse ser sincera ela mal o conhecia também. Mas o seu coração? A enorme pedra de gelo que habitava o seu ser? Ele batia descompassado, bombeando litros e litros de sangue com força em seu corpo a fazendo enfim se sentir viva.

Batia por Clark.

Lentamente ela ergueu uma mão a colocando em seu ombro rijo, um som de dor escapando do grande homem que fez seus olhos chorarem. Como se o seu simples toques machucasse.

— Eu estou convicta... De tudo o que disse. Desde meus sentimentos até os contras disso tudo. Eu sou uma mulher sóbria Clark, não há em minha mente muitas fantasias para serem concretizadas. Eu não concordo com tudo que essa ligação implica, ainda não aceito quantas coisas terei de abrir mão em prol dela, ainda estou muito confusa em vários aspectos. Sinceramente, pelo lado lógico, eu nem deveria estar aqui. Meus pés são firmes no chão, Clark. É quem sou e não quero mudar.

Ela começou lentamente, Clark ainda de costas para si se retraindo a cada palavra silenciosamente.

— Mas há algo em você... Algo em você que me faz querer mudar. Como se sonhar não fosse algo tão ruim, como se voar não fosse tão terrível, como se amar... Não fosse impossível. E embora eu esteja ciente que posso cair de uma altura muito alta... E embora eu ainda tenha minhas dúvidas eu preciso arriscar porque... Porque sinto, sem a marca, que estar apaixonada por você é como vida. E eu preciso viver, Clark. Eu preciso. Por isso peço um pouco de paciência, e peço também, que se ainda estiver disposto, me mostre um lado dessa ligação que não pareça que estamos nisso somente porque devemos. Eu quero sentir que estar do seu lado seja uma opção.

— O que... Você disse? – ele se virou para si, suas mãos grandes pegando a mão que estava seu corpo e a segurando com força, seus olhos marcados por lágrimas a olhando surpreso – O que acabou de dizer, Alura? Agora mesmo, você disse que... Disse que...

— Que estou apaixonada por você, e que quero estar com você – ela declarou timidamente, seus olhos fugindo dele. Então seu corpo fora erguida e, num piscar de olhos, fora parar do outro lado da sala, contra a parede, Clark a abraçando em um aperto de ferro. Ao encontrar seus olhos, porém, eles estavam sérios. Não mais frios ou opacos, recheados de uma emoção que os faziam brilhar como duas bolas natalinas, mas ainda sério.

— Diga de novo – ele murmurou em comando, seu hálito quente batendo contra seu rosto. Alura mordeu os lábios levemente, tímida e nervosa, mas se estava sendo justa ela merecia aquela exposição.

— Estou apaixonada por você e quero estar com você, Clark.

— De novo! – ele comandou mais baixo, as mãos em sua cintura acariciando sua pele, seu nariz passando carinhosamente contra o seu. Alura ofegou com os arrepios que começaram envolver sua pele, subindo pela sua coluna e esquentando o seu corpo. Lutando contra seu aperto ela ergueu suas mãos, passando obscenamente no corpo bem construído á sua frente sentindo os pelos macios e músculos sólidos brincarem entre seus dedos, Clark grunhido baixo de prazer ao ter as mãos da sua prometida em seu corpo tenso. Então ela alcançou o seu rosto, acariciando sua barba nascendo, seu nariz, seu queixo e os seus lábios macios.

— Eu, Alura Murray, estou apaixonada por você e quero estar com você, Clark Kent. – ela murmurou de volta, sua boca repentinamente seca. Clark fez um som estrangulado, como se tudo ao seu redor fosse algo absolutamente extraordinário.

— De... Novo... – ele ofegou, seus olhos sérios sendo domado por outro tipo de sentimento, por outro tipo de olhar.

— Escute bem e muito bem Kal-El, filho de Jor-El e Lara-Lor-Van – ela começou novamente, séria, olhando no fundo dos seus olhos infinitamente azuis – Eu, Alura Murray Chelsea, sua prometida por direito, abençoada pela deusa para ser sua parceira, declaro aqui a minha sincera paixão e rendição aos seus sentimentos e informo a você o meu desejo de permanecer ao seu lado por quanto tempo eu me sinta de livre e espontânea vontade confortável, nesse treze de outubro no ano dois mil e quinze depois de Cristo. Está bom pra você ou quer assinado?

Clark olhou pra sua senhora com olhos arregalados, seus sentidos abençoados pela declaração da sua senhora. Então ele chorou. As primeiras lágrimas abundantes deslizando em grosas gotas uma seguida da outra. E em meio as suas lágrimas, ele riu. Em plenos pulmões, alto e grave. Pegou a sua prometida em seus braços e girou em sua sala escura olhando para o teto da sua casa com adoração, apertando sua mulher qual ele era incondicionalmente e irremediavelmente apaixonado.

— Obrigado – ele sussurrou a ninguém, o calor do corpo da sua senhora abraçado ao seu trazendo suas células mortas de volta a vida – Obrigado, Rao. Obrigado.

Alura o abraçou com carinho, sua bochecha apoiada em seu peito largo ouvindo seu coração feliz, seu sadio coração bater desperto assim como a sua marca. Finalmente, finalmente ela emanava paz ao invés de dor. Então Clark a apoiou na parede de novo, e quando seus rostos ficaram nivelados ela, tal qual a primeira vez em que se viram, entrou numa imensidão azul. Os olhos mais límpidos e dóceis que ela já teve o prazer de ver em sua vida.

— Eu não acredito, eu simplesmente não acredito, querida – sua voz trêmula de emoção sussurrou feliz, sua expressão serena e radiante.

Alura não pode deixar de sentir algo profundo de quente florescer dentro de si, a sensação em seus ombros de que enfim, como se fosse a primeira vez na vida, havia tomado uma decisão plenamente consciente, bem pensada e não forçada pela ocasião. Sentia-se bem, muito bem. E ainda melhor ao contemplar o homem que estava apaixonado pela sua simplória persona, a olhando com olhos brilhantes e banhados de sinceridade como se ela fosse algo digno de tal adoração. O homem qual para o mundo afora era símbolo de força e masculinidade com o poder de um Deus, mas que para ela não tinha medo de desabar ou demonstrar suas lágrimas de medo, tristeza ou felicidades.

O homem qual ela escolheu que podia amar, se desse a chance.

— Beije-me – ela murmurou com carinho, seus lábios secos implorando pelos dele. Clark emudeceu, seu peito enviando uma carga exagerada de felicidades e adrenalina para ela que a fez sorrir com seus sentimentos á flor da pele.

— Querida, não brinca comigo.

— Clark Joseph Kent, você não acha mesmo que eu atravessei Metrópolis City dez horas da noite pra sair daqui sem um beijo, não é?

— Mas eu, você, nós, ah... Tem certeza? – ela rolou os olhos com o seu receio, não podendo deixar de sorrir.

— Traga-me Kal-El, por favor, pois Clark Kent deu pane – então ele encostou sua testa na dela, rindo com carinho. A besta El em seu peito ronronando de barriga pra cima.

Mas só quando a emoção de ambos se acalmaram e os seus olhos se encontraram de novo, eles se sentiram verdadeiramente prontos. Alura emudeceu, sua respiração elevada. O sentimento de prazer e alegria que Clark a enviava era quase demais, como se ela fosse literalmente explodir.

Mas então, de repente, seus lábios estavam no dele.

E, porra, nada mais no mundo importava.

Clark gemeu alto, a sobrecarga dos seus lábios macios finalmente, finalmente contra os da sua prometida o deixou absolutamente desamparado, o doce vício da sua boca no lugar onde pertencia, o encaixe perfeito de moldes desenhados pelos deuses para pertencer um ao outro. Sua, sua Alura. Sua doce, apaixonante e pra sempre sua Alura. Pra Alura, porém, era tudo tão forte que seus olhos transbordaram. E ainda sim não era suficiente. Então, sem o seu consentimento ou aviso prévio sua língua molhada acariciou os lábios do seu amante e a surpresa dele foi tão grande que seu queixo caiu, sendo presenteado com o doce músculo quente que serpenteou a sua boca e encontrou seu próprio músculo letárgico, sua própria língua ganhando vida ao se entrelaçar contra ao da sua prometida numa dança qual ambos descobriram que sabiam o mesmo ritmo.

O seu sabor.

A sua quentura.

O seu encaixe.

Casa, era como casa. Era adrenalina, uma injeção de heroína direto em seu peito. Era calmaria, um caminhar lento e despreocupado em um campo de flores sob a luz do pôr do sol. Era o mesclar de tudo aquilo que ele sempre sonhou e ansiou, era o oco vazio de quase quinze anos em seu peito se regenerando e cicatrizando num fôlego de vida.

Era pouco, ao mesmo tempo em que era demais.

Clark se afastou ofegante, seus joelhos fracos, tão, tão fracos, que ele desabou. Novamente ajoelhado pra sua senhora, sua cabeça apoiada em sua barriga e seus braços abraçando suas pernas, seus músculos tremendo, sua respiração ofegante, o doce sabor da heroína em sua saliva impregnado em cada canto da sua boca. Seu coração batia alto em um ritmo doentio; ele iria morrer. Sentia-se morrer. Mas de uma forma tão, mas tão maravilhosa. Então Alura estava ajoelhada na sua frente também, sua pele tão vermelha como uma doce cereja e sua boca inchada do amor de ambos, suas mãos macias também trêmulas em seu rosto.

— Mais – ela pediu, sua voz urgente – Clark, não é o suficiente. Mais!

Ele a abraçou com força, erguendo seu corpo e a apoiando na parede de novo, as pernas travessas da sua senhora serpenteando em sua cintura em um aperto de chave. Então ele a beijou de novo e tudo aquilo que ainda fazia sentido ao seu redor se desvaneceu como poeira, seus gemidos sôfregos misturados demonstrando a necessidade de um ao outro. Boca com boca, língua com língua, saliva com saliva, dentes com dentes. Era profundo e frenético, sujo e desleixado, e depois de alguns minutos já não fazia mais sentido. Eles apenas experimentavam um ao outro, conhecendo seus corpos através dos lábios. A mão da sua senhora em sua nuca puxando os seus cabelos o dizendo o quão mais ela queria, que não queria que ele se afastasse, era absolutamente divino. E ele não iria, ele jamais a deixaria de novo. O sol de Rao brilhou sobre o único herdeiro dos El mais uma vez e ele nunca poderia ter estado mais grato em toda a sua vida pela chance que lhe foi presenteado.

Nada fazia sentido. O mundo não existia, tempo era um conceito engraçado e respirar não era mais tão necessário.

Fora das janelas do apartamento o mundo, qual o casal não mais tinha noção da existência, girava lentamente. Os ares ao redor mudaram como as estações que se vão. Sob o frio da chuva antes marcada pela gélida torrente de más lembranças pela Murray, sua perspectiva mudava. Ali, nos braços de Clark Kent sendo abençoada pelo sabor da sua boca e pela quentura da sua pele, ela sentia-se plenamente aquecida e segura. Como se nenhum inverno jamais fosse alcançá-la de novo, não sob a capa do poderoso sol de olhos azuis. Ambos não perceberam, mas de olhos fechados, se concentrassem bem, veriam mais um fio dourado nascer de dentro da não-tão-mais seca e cinza corrente, dançando e bailando uma doce canção angelical que ouvidos humanos jamais captariam como se enfim festejassem seu encontro, envoltos em seu núcleo trançado, suavemente, em rodopios oscilantes do mais grosso ao mais fino, quase em sincronia.

"..São as nossas almas, Alura Entrelaçadas juntas.”

Notas finais
Ahn, olá? Enfim, cá estamos nós. Enorme, não? Espero que o tenha sido muito cansativo, optei por não dividir pra não fazer volume desnecessário na fic e nem frustar vocês. Primeiramente, eu devo desculpas a vocês. Muitas e muitas desculpas, por diversos motivos. Sendo honesta, estou envergonhada. Primeiro pelo sumiço. Pessoal, em minha defesa eu postei o capítulo 22 em um dia ou noite de domingo, e na segunda-feira eu fui solicitada de última hora pra voltar ao trabalho. E quer saber? Essa história de isolamento tem sido tudo uma grande fachada, as pessoas não estão nem aí pra isso. Eu trabalho diretamente com atendimento ao cliente, e digo com tranquilidade que estou trabalhando o triplo do que trabalhava antes, em tempo integral, e recebendo muitíssimo menos. Não que vocês tenham algo a ver com isso, me desculpem mesmo, mas só quero que saibam que não sumi por descaso: foi cansaço. Foi preocupação. Foi ansiedade. Trabalhar na linha de frente com a ameaça do vírus tem me tirado o sono, tem me deixado com crises de ansiedades terríveis por causa da saúde dos meus filhos que são fracas. E tem a escola. E os problemas. E família. Minha cabeça simplesmente não está aguentando, eu estou tão, mas tão sobrecarregada. Tanto que esse capítulo não havia sido escrito até segunda-feira dessa semana. E ele foi até bem simples, tive um lapso de criatividade em meio. Terceira noite seguida sem conseguir dormir e o terminei em menos de oito horas de apaga/escreve, e dediquei a finalização dele na madrugada de terça. Ele estava pronto desde então, e só não o postei por falta das respostas dos comentários. O que me leva a segunda pauta. Moças, eu cometi um erro ao por meta de comentários em meu outro capítulo, principalmente porque não honrei meu lado do 'acordo, mas ainda sim. Foi feio e nao-profissional, foi o injusto com as meninas que estão sempre aqui á todo custo. Me perdoem, de coração. Ou não, estão no sei direito, algumas moças inclusives já deixaram claro na dm que não seguirão mais com a fic e outras simplesmente saíram. Eu entendo. Mas sinto muito mesmo. E é sincero. De coração. Gostaria de agradecer vocês que estão sempre aqui, tantas moças que me impressionam o tanto de gente que acompanha e gosta da minha singela escrita. Vocês são demais, incríveis mesmo. Obrigada. E o capítulo. Então, o que acharam? Eu fiquei bem, mas bem insegura de postar. Decidi, do nada, dar outro rumo e outra alavancada na fic. "Chega", pensei. Alura e Clark precisam se descobrirem juntos, e achei legal escrever nossa heroína cedendo a ele sem se sentir pressionada. Vocês gostarão das alavancadas a partir de agora. Quer dizer, eu acho, né. Sinceramente, meu humor ranzinza natural me permite ser melhor no drama do que no romance, então me.digam do que acharam dos momentos da Alura e do Clark juntos. Então, acho que é só. Um pedido de desculpas arrependido e um agradecimento sincero. Eu espero poder vê-las em breve, espero que alguém ainda esteja aqui. Até mais, moças! ❤️❤️❤️