You Rock My World
21 XXI
Notas iniciais

Alura não era uma pessoa de grandes ambições.
Particularmente não achava que fosse um defeito, seu desinteresse sobre tudo não chegava ao ponto em que pudesse torná-la uma rebelde sem limites ou uma completa preguiçosa, mas ela reconhecia o seu pequeno lugar no mundo e estava satisfeita com ele. As pessoas mais íntimas a ela em sua adolescência sempre a rebatiam quando ela explanava os seus pensamentos dizendo que todas as ideias e exemplos para um futuro ambicioso e produtivo vinham de um berço familiar estável e acolhedor, que talvez sua apatia costumeira sobre tudo fosse por causa dos seus genitores, e ela não ficava feliz em pensar que era quem era por causa dos seus entes. Alura não gostava da ideia de ser molde dos exemplos alheios, ela era quem ela era e se orgulhava disso, gostava de estar em sua própria pele por mais desagradável que a achassem. Mas os seus antigos exemplos próximos não era bem um dos mais tradicionais, ela admitia.
E em certo ponto a limitou também.
Até porque desde pequena suas escolhas de vida fora posta em sua mesa como um cardápio barato de opções questionáveis, andando em corda bamba sobre quais caminhos ela deveria seguir. Como exemplo ela tinha os seus pais: seu pai já fora chamado de lunático por tantas pessoas de tantas classes sociais diferentes que até ela mesma havia se conformado com o fato, não tinha muito o que defender em um homem desempregado qual se escondia quase sempre no próprio porão traçando datas, lendo estrelas e conspirando contra o governo.
E como se a loucura por si só não bastasse ele era relapso como pai também.
Descrever os sentimentos em relação ao seu amadurecimento precoce não era algo que ela saberia fazer, afinal, mesmo que tenha sido um caminho solitário ela aprendeu a se virar em qualquer situação seja lá onde estivesse. Alura podia não ter muitas qualidades quais pudessem listar mas a sua perseverança com certeza era algo que ela reconhecia sobre si mesma, até porque ou ela se virava ou se encolhia numa concha e lamentava por sua criação pouco convencional. Como uma das memórias chaves de referência sobre a sua infância e o seu crescimento ela se lembra como se fosse ontem a última vez em que o seu pai realmente saiu de casa para cuidar das suas obrigações como o seu genitor ao comparecer á uma reunião no seu antigo colégio na terceira série por conta das suas notas cada vez mais baixas.
Atualmente ela já não tinha pesadelos sobre esse dia em especial, mas ele a acompanhou até os finais da sua adolescência.
Sua capacidade de armazenar detalhes não era bem o que se podia chamar de confiável mas não havia como esquecer do dia em que o seu pai fora firmemente proibido de aparecer em qualquer conselho escolar que fosse ter em qualquer ambiente de estudo que Alura fosse habitar depois de acusar o seu até então diretor Novak e todos os professores do estado de fazerem lavagem cerebral em seus alunos e ajudar o governo a criar máquinas de trabalho escravo para as grandes indústrias, e o pior de todos, o que a marcaria para sempre como uma pobre coitada nos sussurros dos seus mais corajosos colegas de classe; de rastrearem a sua filha e querer entregá-la á inteligência britânica para estudos torturantes. Fora um dos dias mais constrangedores da sua vida. Ela se lembra de subir as escadas da sua casa com seu rosto varrido em lágrimas ouvindo seu pai chamá-la e se trancando no quarto por várias horas seguidas. A voz revoltada da sua mãe praguejando contra o seu pai era uma constante canção de ninar quando os mesmos interagiam por mais de algumas horas ou quando seu pai causava encrencas, o que era recorrente, ou seja; não foi diferente naquela noite.
Naquela noite ela teve pesadelos do diretor Novak rugindo contra o seu pai, seu dedo apontado em riste, seu rosto slavo vermelho de raiva enquanto gritava:
— Não me admira que sua filha não consiga entender o básico da cartilha estudantil! Você não deveria andar por aí sem supervisão! – então Novak virava para si a vendo se encolher, seu próprio rosto tentando imitar a apatia da sua mãe para que não chorasse na frente dos seus reitores – Seu pai é completamente insano, senhorita Chelsea! Se dedique mais a aprender algo na escola ou acabará igualzinha a ele!
A pequena Alura do seu sonho sentia raiva lhe subir ao rosto, sua língua querendo imitar ao da sua mãe para pôr aquele homem em seu devido lugar, mas ao se virar á entrada da diretoria vendo o seu pai ser arrastado por dois seguranças do colégio pelo longo corredor, seus professores tentando conter os alunos dentro das salas de aula para poupa-los de tal decadência enquanto a olhavam com pena, sua raiva recolheu as pequenas garras e se deitou como um cão chutado. A vergonha lhe subiu as bochechas ao mesmo tempo que as lágrimas, a voz da sua mãe anunciando ao fundo da sua pequena mente que o choro era uma resposta natural fraca, que não deveria deixar outras pessoas vê-la em tal estado ou ninguém jamais a respeitaria. Então a pequena Alura erguia seu rosto contido ao teto, seu nariz vermelho e olhos brilhantes de lágrimas não derramadas e caminharia com o resto do seu orgulho até o estacionamento seguindo o seu arrastado pai, vendo-o ser jogado de forma nada digna no chão e sendo ameaçado caso fosse visto perto de alguma criança da escola.
Ela não entendia porque ele era assim, foi uma cena marcante para a sua cabeça juvenil. Foi humilhante.
O problema é que quando Alura acordou o pesadelo não se foi. Em sua cabeça apenas o eco das memórias daquele infeliz dia, dos murmúrios dos vigias quando viram seu pai pegar sua mão para levá-la embora – “acha que é seguro deixá-la ir com ele?”, “o que podemos fazer? Esse merda é o pai” — seu pai a pedindo desculpas enquanto dirigia de volta para casa, do receio em seus olhos quando enfim estacionaram o carro frente a sua casa, ambos com medo da reação da matriarca, da gritaria a noite.
Não, por mais que o histórico escolar do seu pai apontasse o quando sua mente era brilhante ela jamais poderia (e nem queria) ser uma centelha do que ele era. Mais um prato riscado no menu.
A sua mãe, por outro lado, era tão sóbria que fazia nevar. Alura jura que quando pequena presenciou o tempo mudar umas duas vezes quando a viu com raiva. Vivian Murray tinha um dom; ela podia acabar com qualquer um, e com qualquer um ela se referia até a própria família. Sua mãe era forte, ambiciosa, destemida, uma força da natureza, ninguém em sã consciência batia de frente com ela e ela não precisava de berros ou palavrões para ser ouvida ou temida. Bastava um olhar, um único olhar, e Vivian Murray colocava qualquer um em seu lugar. Apenas duas situações fazia sua mãe perder as estribeiras; as constantes tolices do seu pai e as suas próprias falhas.
Ela não tinha mais exemplos próximos para listar em seu pobre cardápio limitado. Por algum motivo desconhecido ela nunca conheceu um parente sequer da família da sua mãe, Vivian sequer falava sobre os mesmos, um verdadeiro tabu. Os familiares do seu pai eram adoráveis, gentis e a amavam, mas sua mãe não a deixava ficar longe de casa por muito tempo então ela quase nunca os via e eles nunca os visitavam: sua falecida e maravilhosa avó a dizia que eles não poderiam suportar a loucura crescente do seu pai (qual nem ela compreendia) e o humor azedo da sua mãe. Então ela só tinha os seus próprios pais para conviver dia após dia. Não era exatamente maçante, mas também não era um mar de flores.
Alura seria injusta se acusasse sua mãe de ser uma péssima matriarca, reconhecia que ela fazia o possível para manter as frágeis estruturas da sua casa em pé. Ela era uma dona de casa exemplar, cada coisa em seu lugar em cada horário qual aquilo pertencia. Ela não permitia que passassem frio ou fome, seu trabalho como corretora de imóveis garantindo a todos um estilo de vida não luxuoso, sequer estavam perto da classe média, mas com certeza bastante confortável. Alura não conseguia imaginar sua mãe olhando para o seu precário apartamento antes de ter algum mau funcionamento facial não identificado tornando sua expressão profundamente paralisada em desgosto. Ela não era amável, com certeza não, sua mãe dizia o que queria sem receio de esfaquear alguém de forma verbal e tinha certeza que os grisalhos dos seus cabelos em nada tinha a ver com qualquer preocupação sobre qualquer palavra mau proferida contra alguém, mas era a única capaz de lidar com o seu pai e consigo mesma. Ela era uma única mulher contra o mundo para manter uma família fracassada.
Quando pequena, Alura adorava sua mãe. A admirava além da conta. Ninguém em sã consciência a olharia atravessado ao menos que quisesse ser massacrado de forma que se sentisse insignificante no mundo em poucos segundos. Ela fazia chover. A Inglaterra era a sua casa, a neve o seu melhor casaco e o mundo seria equilibrado em seu dedo mindinho se assim ela quisesse. Era assim que ela lidava com a vida, era assim que ela lidava com todos.
Inclusive a própria filha.
O seu eu de muitos anos atrás tentava de todas as formas possíveis chamar a atenção dela, mesmo quando criou ciência que nada a impressionaria. Sua mente infantil pensava que Vivian havia visto e feito acontecer tantas maravilhas que os seus olhos treinados não se impressionaria por qualquer coisa. E então ela tentava mais. Demorou pra ela perceber que os seus esforços de nada valiam por causa da venda de glamour que a sua matriarca já havia visto e se cansado de apreciar no mundo, e demorou ainda mais pra ela aceitar que a visão da mesma não estava vendada por nenhum vislumbre mais belo do mundo simplesmente porque ela não via beleza em nada. Demorou, mas ela aprendeu. De forma lenta e amarga.
Ela não tinha uma memória louvável, na verdade sua memória fotográfica era bem abaixo da média, mas ela se lembra da dor pessoal quando ela percebeu que não só sua mãe não apreciava nada que a cercava, mas em como a sua estupidez e a do seu pai era como um constante espinho em seu sapato. Alura e seu pai não eram iguais em absolutamente quase nada além dos olhos claros, mas uma coisa tinham em comum: ambos eram um estorvo para Vivian Murray. O assunto era um elefante na sala, um boato nunca esclarecido, um segredo nunca contado, um eco sequer sussurrado, mas ela sabia. Teve certeza ainda muito jovem num incidente infeliz quando perdeu a carteira do seu pai, em uma das suas distrações em mais uma das suas patéticas tentativas para chamar a atenção da sua mãe.
Até os seus seis pra sete anos, talvez oito (ela não se recorda com louvor mas sabia que era mais ou menos nessa faixa etária) o seu pai era funcionário numa fábrica de sapatos da região. Não era um emprego que condizia com a sua rica formação mas nas raras ocasiões em que questionava as atitudes estranhas dele em voz alta ele a surpreendia com uma resposta mais inusitada e mais insana que a outra – a resposta da ocasião, ela lembra vagamente, era algo como “eu não quero chamar a atenção do governo trabalhando em um laboratório, docinho. Eles nos vigiam, tenho que manter vocês seguras” – então ela parou de questiona-lo, seus laços se tornando distantes a cada ano que se passava, tanto é que aos quinze anos eles quase não se falavam ou se viam mais.
Em seu diário velho ela lembra de ter escrito com palavras infantis a confusão e tristeza profunda que sentiu no dia em que o seu pai foi demitido da fábrica, algumas palavras borradas de lagrimas. Não que o emprego fornecesse muito dinheiro, mas sobre o começo das mudanças sobre sua percepção da sua família desde aquele dia. Nesse dia em especial (qual ela não lembrou de marcar no diário qual era) fora o dia em que seu pai foi demitido mais uma vez, algo como se recusar a operar uma máquina em questão alegando que a mesma emitia ondas que deixavam o cérebro confuso. Não foi a primeira insanidade que fazia o seu pai levar uma carta de demissão de presente pra casa, aos sete anos de idade Alura já tinha o visto ser contratado e dispensado de oito empregos num curto intervalo de tempo. Sua mãe ficaria uma fera, era tão certo quanto a chuva, principalmente por causa do seu péssimo boletim escolar qual ela própria havia levado pra casa naquela tarde, e não soube se foi por pena dos seus ouvidos ou para poupa-la do constrangimento da sua mãe repreendendo-o por mais um de seus fracassos mas naquela tarde o seu pai se dirigiu até si com um sorriso de verniz no rosto que não chegava ao olhos e se ajoelhou onde ela estava sentada no tapete da sala com seu próprio fracasso marcado de caneta vermelha no seu colo.
— Não conseguiu de novo, docinho? – Alura balançou a cabeça negativamente, suas têmporas doendo pelo esforço que ela fazia para não deixar suas lágrimas caírem, seus pulmões implorando por mais ar por causa das suas lentas respirações superficiais para controlar a torrente atrás dos olhos – Tudo bem, não precisa ficar assim. O governo põem em nossa cabeça que notas escolares nos medem como pessoas mas não é verdade, docinho. Você é muito mais especial do que diz esse boletim.
Alura não ouviria seu pai. Sua mãe sempre falou para não ouvi-lo, principalmente nas conversas em que a palavra 'governo' fosse envolvida. Além do mais era difícil acreditar que ela era mais que suas notas escolares quando os seus estudos era a única maneira de conseguir provar para a sua mãe que ela não era um fracasso, era difícil acreditar em seu pai quando via todas as suas colegas irem embora e ela tinha que ficar para ouvir as repreensões dos seus tutores, era difícil de acreditar quando todos entendiam algo e ela não. Mas não respondeu. Não debateria com o seu pai, ele sempre terminava divagando sobre um assunto esquisito que em nada tinha a ver com o começo da conversa, na maioria das vezes era uma perda de tempo. Além do mais mamãe não gostava quando ambos passavam muito tempo juntos, “ele enche sua cabeça de besteiras irreais, Alura! Não o ouça, seu pai não sabe o que fala!” Ela diria, então assim ela fez.
Ela assentiu lentamente, seu rosto vermelho do esforço de conter suas emoções. Seu pai sorriu tirando uma mecha do próprio cabelo do rosto e pegou algo no bolso de seus jeans claros a estendendo em seguida, sua carteira. Ele sorriu para ela mais amplamente, amoroso, suas bochechas alcançando os seus olhos claros. Seu pai sempre sorria pra ela e ela nunca podia deixar de pensar com infantil ênfase o quanto seu sorriso era bonito e sempre a fazia se sentir um pouquinho melhor.
— Aqui tem um pouco de dinheiro. Por que você não vai tomar um sorvete com os seus amigos? Tenho certeza que Olivia gostaria de um sorvete – Olivia Fletcher era sua vizinha e colega de escola, e embora ambas conversassem Alura não sentia vontade de compartilhar da companhia de uma colega de classe qual sabia que havia tirado notas bem melhores que a dela nesse semestre, mas não disse. Ela assentiu novamente pegando a carteira, a mesma sumindo antes que suas mãos tocassem o objeto — Ah-ah-ah! Como se diz?
— Obrigada – ela agradeceu duramente. A sua mãe era dotada de uma educação exemplar e garantia todos os dias que Alura a herdasse também, mas não em relação ao seu pai. A sua mãe não o agradecia, a sua mãe estava sempre certa ela e queria ser igual a sua mãe. Seu pai, entretanto, fez uma careta fingida e levou a carteira ao bolso da sua blusa social de mangas longas, folgadas demais para o seu corpo magro.
— Acho que você não quer tanto assim tomar sorvete. – ele se levantou, seu cabelo escuro se desprendendo do rabo de cavalo qual ele mantinha.
— Não, eu quero! – Alura se levantou rápida pegando a presilha de cabelo qual seu pai usava caída no chão, o estendendo.
— E como se diz?
— De nada. Por pegar sua presilha – ela o estendeu novamente, sua sobrancelha lutando para alcançar a mesma expressão que sua mãe. Ele suspirou, um lampejo de algo passando pelos seus olhos antes que ele pegasse sua carteira no bolso e a estendesse de novo.
— Tome cuidado pois meu pagamento está todo aí, docinho. E isso será um segredo, ouviu? Sabe bem que a sua mãe não deixa você comer doces antes do jantar. – Alura assentiu enquanto pegava a carteira e se dirigia á porta, seu peito doendo ao passar um rápido olhar ao seu pai. Ele parecia triste. Normalmente ele não apresentava muitos sentimentos além de euforia exagerada e demasiada preocupação com satélites e o poder que regia a Inglaterra ou qualquer parte do mundo, mas ela sabia que ele estava tendo um dia ruim, seja pela demissão ou pela sua distância.
E por um momento o seu coraçãozinho infantil sentiu saudades da atenção do genitor. Principalmente porque ele parecia sóbrio, mais como um homem sério se tirasse os tênis desleixados, os cabelos muito abaixo dos ombros e a blusa tingida de várias cores como uma pintura sem sentido vomitada diretamente de algum pobre armário dos anos oitenta. Ele parecia como um pai deveria, as rugas de preocupação enfeitando os seus olhos enquanto a olhava com um carinho temperado de remorso, um pequeno sorriso afetuoso enquanto olhava a sua pequena forma. Os momentos sóbrios do seu pai eram muito raros então movida a isso ela voltou correndo, seus braços circulando a cintura do mesmo o pegando de surpresa.
— Docinho...?
— Uma demissão não define quem você é, papai – ela disse com o rosto contra a barriga dele e não soube por que disse mas era o que parecia certo, mesmo sentindo que era mentira. Seu pai sorriu daquele jeito que iluminava o seu dia e a abraçou apertado, se inclinando pra beijar sua testa.
— Amo você, Alura. Amo demais. Amo pra sempre.
Seu coração bateu apertado, sentia-se quente como nunca antes. O seu pai estava sóbrio. O seu pai estava sendo o seu pai, não um conspirador lunático qual sua mãe não a deixava passar muito tempo perto. Apenas o seu pai. Ela sorriu verdadeiramente, sua face escondida na barriga do seu genitor respirando o seu suor e um distante aroma do desodorante que ele usava.
— Richard, está aí? Por que está em casa a essa hora, aconteceu alguma coisa? – era a voz da sua mãe vindo de algum lugar do andar de cima, e embora a pergunta fosse sobre preocupação o seu tom soava como um tribunal. Ela sabia que algo estava errado e que a culpa era dele. Ela sempre sabia. Ele suspirou, seu rosto mostrando cansaço mais uma vez.
— Vá, docinho. Aproveite que tem sol e tome bastante sorvete, ouviu?
— Mas a mamãe disse-
— Com a sua mãe eu me resolvo. Agora vai, docinho. E preste atenção no caminho, não quero que se perca de novo – ela duvidou que ele pudesse lidar com a sua mãe uma vez que ele nunca tinha voz pra bater de frente com a mesma, mas ainda sim ela assentiu e se desprendeu da sua cintura lhe dando uma última olhada, os olhos ambares do seu pai nublados de preocupação, mas ele ainda sorria como um homem sóbrio, como o seu pai. Ela se virou e correu em direção á porta, um sorriso sincero no canto dos seus lábios. Naquele momento não importava as suas notas baixas e nem a torrente de repreensões que sua mãe lançaria contra ambos aquela noite. Naquele momento, depois de tanto tempo, só a importava o abraço quente do seu pai.
E do seu sorvete favorito.
Ela era uma garota sem foco, divagava com rapidez, sua mãe nunca a deixava só por muito tempo com medo que se perdesse ou fosse raptada. Mas Alura sentia-se orgulhosa ao decorar o caminho e andar de volta para sua casa já no final da tarde, sua blusa suja de sorvete de limão, uma leve mola sob seus calcanhares. Nos dedos ela contou quanto sorvete tomara (dois de limão e de bônus uma fatia de pizza bem gorda que sua mãe infartaria só de sentir o cheiro), conferiu se o dinheiro estava no bolso do seu short jeans verde-claro e repassou a conta da sua pequena travessura em sua cabeça. Seu pai tinha quarenta e cinco libras na carteira, uma de vinte, duas de dez e uma de cinco. Ela havia gastado exatamente treze libras e cinquenta pences e tinha que devolver trinta libras e três moedas de cinquenta pences; uma nota de vinte, uma de dez e as três moedas. Ela repassou a conta mentalmente até chegar em casa, orgulho inflando seu peito quando corrigiu o troco que o sorveteiro lhe dera pensando que finalmente impressionaria a sua mãe, mostraria que ela é capaz de cuidar de si e do dinheiro da família. Pra falar a verdade ela não era ruim em cálculos, talvez fosse a única matéria em que ela realmente conseguia entender em sala de aula, mais até do que os seus colegas, sua presença sendo competida quando havia trabalhos em grupo. Mas embora ela não fosse ruim em cálculos a sua mente era dispersa, vagava com facilidade, ela constantemente tinha que corrigir as fórmulas que escrevia distraidamente no seu caderno em aula. Então hoje ela estava orgulhosa de si mesma, ficara atenta ao troco e cuidou do dinheiro do seu pai com zelo, sabia que sua mãe não havia feito nenhuma venda decente recentemente então estavam numa fase apertada, cada moeda contava.
Ela estava orgulhosa por contribuir com os cuidados financeiros da casa. Estava orgulhosa por poder dizer isso á sua mãe.
Quando Alura chegou em casa e entrou não se sentiu realmente oprimida pelo silêncio que a cercava, estranhou até, geralmente encontrava os seus pais se alfinetando antes que percebessem que ela estava em casa. Eles não discutiam em sua presença com frequência, evitavam ao máximo, e quando não conseguiam se conter na sua frente ambos brigavam silenciosamente com curtas palavras e olhares afiados, mas não era normal o silêncio completo pois ainda que não estivessem discutindo a sua mãe gostava de assistir ao noticiário na tv. Ela andou com passos cautelosos encontrando seus pais na sala de estar, ambos em silêncio em cada extremidade, suas cabeças se levantando em sua direção assim que ela entrou. Seu estômago revirou, o sorvete fazendo festa querendo repentinamente sair por onde entrou.
Será que era o momento 'daquela' conversa?
Isaac Houston, seu antigo colega de classe, havia confessado a ela que seus pais brigavam muito antes de se divorciarem, ambos lhe contando a notícia quando ele chegou da escola, ambos sentados nas extremidades do sofá como se não suportassem ficar próximos um do outro. Isaac teve que mudar de colégio uma semana depois de ter lhe confidenciado o acontecido, indo morar com o pai no outro lado do estado em um lugar de nome engraçado. Alura engoliu em seco. Seus pais não se entendiam com frequência, eles tinham personalidades tão diferentes que ela não sabia como haviam ficado juntos, mas sua mente infantil supôs que fosse o tão falado amor cego que suas colegas mais velhas do sétimo ano sussurravam sonhadoras. O amor tudo suportava mas não acabava, certo? Isaac havia dito que seus pais não se falavam há quase um ano antes de se divorciarem, mas os dela se falavam! Talvez não do jeito convencional mas eles se entendiam quando se esforçavam, além do mais ela não quer morar com o seu pai no sul do estado. Ele não cuidava nem de si mesmo, como cuidaria dela também?
— Alura! – a voz ferina da sua mãe a tirou do torpor cego em que a mesma entrara, seus olhos piscando devagar antes de sentir suas bochechas queimarem. Ela havia feito de novo.
— Desculpa, mamãe...
— Foco, Alura. É por falta dele que suas notas estão cada vez mais baixas, será expulsa de um bom colégio se continuar com essas besteiras.
Ela não gritou, sequer alterou, mas a firmeza em suas palavras junto com seu olhar gélido estremeceu sua pequena estrutura, sua cabeça lutando para manter-se erguida. Sabia que desencadearia numa bronca pior se mostrasse rendimento á sua repreensão. Uma Murray não se acovardava, afinal. A sua mãe parecia ter algo mais a lhe dizer antes que seu pai pigarreasse olhando de esguelha pra sua mãe. Ele parecia sério também.
— Venha aqui, docinho – ele esteu uma mão em sua direção. Alura olhou rapidamente para sua mãe ouvindo um bufo chateado escapar dos seus lábios antes que suas pernas se mexessem em direção ao seu pai, pegando sua mão maior e sendo guiado a se sentar em seu colo – Como foi a sua tarde? Você se divertiu? Tomou muito sorvete como eu pedi?
Seus olhos se arregalaram, seus sentidos entrando em alerta. Sua mãe ficaria mais do que furiosa agora. Ela olhou cautelosamente para ela e se surpreendeu ao vê-la chateada, mas não com raiva. A pergunta muda em seus olhos fez seu pai sorrir para si, sua mão grande tirando seu próprio cabelo do rosto.
— Mamãe já sabe, está tudo bem. E então? Sua tarde foi boa?
— Sim, papai.
— Ora, mas isso não me diz nada. Conte-me como foi!
Ela olhou de esguelha para sua mãe novamente e pensou, por breves centésimos de segundo, ver um pequeno sorriso querendo surgir em sua expressão gélida. Alura balançou a cabeça negativamente pois sabia que isso era impossível, olhou para os olhos ambares de seu pai e continuou.
— Eu tomei dois sorvetes de limão com menta no Sr. Quentin e depois comi uma pizza de queijo extra na Sra. Philips da rua doze, perto da praça – o seu pai sorriu docemente para ela antes que a voz da sua mãe voltasse a falar novamente, o seu tom mais ríspido.
— Dois sorvetes, Alura? E uma pizza? Como pretende jantar desse jeito? – ela a repreendeu, a polidez rígida natural em sua voz tornando a repreensão muito mais séria do que deveria ter soado. Alura iria se virar e se desculpar antes que o seu pai pigarreasse a encarando de esguelha, ambos discutindo por olhares por alguns segundos antes que sua mãe ganhasse, se o olhar cabisbaixo do seu pai quisesse dizer alguma coisa. Ela sempre ganhava. – Eu não quero desculpas quando a mesa for servida daqui a pouco, ouviu bem?
— Sim mamãe – Alura murmurou e no instante seguinte sabia que seria repreendida novamente, afinal Vivian Murray detestava palavras engolidas, antes que o seu pai voltasse a falar.
— Deixe, Vivian. Você se divertiu, não foi docinho? – Alura assentiu relutantemente, um pequeno sorriso brincando nos seus lábios quando o do seu pai surgiu – Isso é tudo o que importa.
— É tudo o que importa, você disse? –ela se pronunciou mais gravemente, sua voz esfriando menos um grau – Então o fim que deu a sua carteira é irrelevante e talvez eu esteja sendo insensata.
— Vivian, eu não disse isso – ele começou com um tom cansado.
— Você não precisa de palavras bem elaboradas para que eu entenda.
— Eu só acho que deveríamos perguntar a ela primeiro, não há como adivinhar.
— Eu conheço a minha filha, Richard! A garota mal consegue soletrar o próprio nome, como pode ser tão estúpido ao entregar algo de grande valor para ela? O que fará com o aluguel daqui duas semanas? Pagará com pizzas e sorvetes?
— O que está acontecendo? – Alura perguntou, seus olhos correndo do seu pai á sua mãe com curiosidade. Eles não se enfrentavam tão diretamente na sua frente. Sua mãe suspirou audivelmente enquanto descruzava os braços e entrelaçava as mãos nos seus joelhos dobrados um sobre o outro, a olhando diretamente nos olhos com a coluna reta.
— Onde está a carteira do seu pai, Alura?
— O que? – os seus grandes olhos inocentes se desviaram para o seu pai num questionamento mudo, os dele refletindo angústia quando a levantou do seu colo e segurou em seus pequenos ombros.
— A minha carteira, docinho. Eu a entreguei para você comprar o sorvete, se lembra? Você a trouxe de volta, não trouxe? – ela era pequena para ter percebido a hesitação na voz do seu pai, mas tendo os olhos tão parecidos com os seus próprios ela viu o receio e a culpa brilharem nas suas pérolas ambares.
Sabia porque era o mesmo olhar que ela ostentava agora.
— Papai, você não me entregou – ela negou, suas mãos procurando desesperadamente em seus bolsos tirando o troco do seu lanche e o estendemos, seu coração se apertando ao ver um olhar qual ela ainda não entendia no rosto do seu pai – O troco do sorvete e da pizza estão aqui. Eu contei direitinho, eu juro.
— Havia quarenta e cinco libras trocados, docinho. Onde elas estavam? – as sobrancelhas do seu pai franzirem em algo parecido com dor, o clima a sua volta esfriando de acordo os seus batimentos cardíacos aumentavam. Então ela se lembrou da carteira de couro marrom com uma estrela de Davi talhada. A carteira do seu pai. A carteira qual ele a confiou com todo o seu pagamento. O seu coração acelerado apertou.
Ela fez de novo.
— E-Eu estava cuidando dela, papai! Eu estava! – ela respondeu alterada, o olhar machucado do seu pai despertando um sentimento não conhecido em seu peito.
— Estava não é o suficiente, Alura. Estava é o pretérito imperfeito qual eu não posso usar quando os cobradores vierem á nossa porta, mas você não saberia do que eu estou falando levando em conta suas péssimas notas. – a voz da sua mãe soou gelada, sua frieza natural sendo temperada com algo mais – Você sabia que o pagamento do seu pai estava todo lá, não sabia?
Ela teve receio de se virar, mas deveria. Vivian Murray não gostava que a dessem as costas. Então ela o fez, seus movimentos rígidos, seus olhos ressentidos e sua mente correndo de um lado para o outro tentando se lembrar onde ela o deixou. Mas a aquela altura Alura já tinha ouvido o suficiente de si mesma para saber que ela não funcionava sob pressão, então era um caso perdido. E por esse mesmo motivo os seus olhos se encheram de lágrimas.
— Mamãe, me desculpe...
— O que eu já disse sobre chorar?! Guarde as suas desculpas, elas não quitarão as despesas do mês. E você – ela se levantou do sofá e deu um passo á frente, seus olhos duros fixos nos do seu pai às suas costas – A sua estupidez nunca cansa de me surpreender. Você é o único homem no mundo que olharia para uma criança tão tola quanto Alura e a confiaria sua própria carteira com todo o pagamento dentro!
— Vivian! – o seu pai a repreendeu também se levantando e entrando na sua frente a tirando do alvo da sua mãe, Alura mal controlando á súbita vontade de agarrar a blusa dele e chorar de verdade. Ela não se lembrava, ela realmente não se lembrava de nada além do seu lanche. O que diabos havia de errado consigo?
— Saia da frente da minha filha – Vivian o alertou calmamente, uma frieza quase mórbida.
— Ela também é minha filha! Não seja injusta, é só uma criança! Não tem culpa!
Alura recuou um passo longe do seu pai, o choque da sua repentina coragem perante á sua mãe a fazendo ofegar. O seu pai nunca a confrontava, e se o fazia com certeza não era na sua frente. O clima ao seu redor ficou muito mais tenso depois disso, quase palpável.
— Como você ousa? Fingindo ser um bom pai pra tirar a minha autoridade. Logo você?– ela perguntou lentamente. E por um momento, escondida covardemente atrás do seu pai, um silêncio desconfortável reinou. Ela sabia que eles estavam discutindo por olhares novamente – Alura, suba.
A voz da matriarca cortou os ares novamente.
— Q-Que?
E antes que ela fosse alvo de mais uma repreensão da sua mãe, qual odiava se repetir, seu pai virou o rosto por cima do ombro em sua direção e sorriu tristemente.
— Por favor, vá para o seu quarto docinho. Mamãe e papai precisam conversar – ele disse lentamente, uma feminina e firme voz se sobrepondo logo em seguida.
— Isso não é um pedido. Suba. Agora. – o olhar do seu pai implorava que ela cumprisse o que Vivian ordenou quando ela assentiu e se virou lentamente, o olhar sombrio da sua mãe em direção ao seu pai não passando despercebido pela mesma quando ela alcançou o topo da escada e correu para o seu quarto.
Seu quarto era definitivamente a sua parte preferida da casa. Não que a sua casa não fosse confortável mas era em seu quarto que ela podia desligar sua mente sem culpa, era o seu esconderijo cor-de-rosa enfeitado com papéis de parede floridos e prateleiras cheios de ursos e brinquedos. Rosa não era a sua cor favorita, preferia muito mais o lilás ou azul, mas não dizia nada á sua mãe quando a mesma constantemente comprava os objetos para enfeitar o seu canto. Quando ambas estavam ali dentro era como se algo fosse diferente, como se por alguns segundos sua genitora a visse como a sua criança. Claro que ela não era uma presença constante dentro do seu quarto. Na verdade, pensando bem, ela não era uma presença constante em nenhum lugar qual Alura estivesse por mais de trinta minutos. As vezes sentia-se um incômodo, como se sua tolice fosse radioativa e pudesse afetar a sua mãe se a mesma ficasse no mesmo ambiente com ela por muito tempo.
As vezes ela flagrava sua mãe a olhando diferente também. Mas não parecia com uma repreensão, era quase como se ela estivesse... Triste.
Alura odiava a sua mente dispersa, odiava ser quem era. Porque não podia ser igual a sua mãe? Ou talvez, ao menos, um pouco mais inteligente? Tinha certeza que ela ficaria perto de Alura por mais tempo se as suas notas fossem melhores. Ela arrastou os seus pés pelo carpete rosado até o outro lado do quarto, fechando suas cortinas azuis favoritas e se jogando em sua cama macia coberta por cobertores amarelos de bolinhas brancas. O seu quarto era cafona e não tinha exatamente um padrão certo para seguir em questão de design, mas ela o adorava. Era o seu cantinho favorito no mundo. Principalmente porque fora a sua mãe quem escolheu cada detalhe.
Alura escreveu em seu diário que havia adormecido naquele começo de noite, mas foi um sono leve que fora perturbado por algo que caiu no chão no andar de baixo da sua casa. Ela se lembra também de levantar o tronco com movimentos lentos, tentando ouvir os seus pais no andar de baixo. Ela não era uma criança muito curiosa, não tanto quanto as suas colegas ao menos, mas algo a fez se levantar com cautela e caminhar pelo quarto evitando as lugares que rangiam, abrindo lentamente a sua porta tentando ouvir algo. Nada. Ela sabia que não deveria espionar os seus pais, não era exatamente curiosa para ouvir o que eles diriam um ao outro longe da sua presença, mas algo caindo a acordou e ela precisava ao menos checar para ver o que estava acontecendo. Eles não eram agressivos mas sempre podia ter uma primeira vez. Sorrateiramente ela se arrastou pelo corredor até o topo da escada, se agachando contra a parede escura que a ocultaria. Não dava para vê-los mas podia ouvir as poucas palavras que eles falavam.
Eles estavam sendo especialmente silenciosos nessa discussão em particular, talvez porque ainda fosse cedo e sabiam que a qualquer momento Alura poderia acordar. Ela quase voltou ao quarto arrependida por não ter ficado deitada e cochilado por mais um tempo antes do jantar pois eles discutiam tão baixo que o máximo que conseguia ouvir era palavras soltas quais não poderia encaixar em um contexto coerente.
Isso até o seu pai se alterar.
— ...Você é injusta, Vivian! E cruel! Eu faço o melhor por ela, por nós!
— O melhor? – sua mãe soou grave, e Alura conhecia aquele tom trêmulo para saber que a mesma estava á ponto de explodir – Se tornou o pior tipo de presença e exemplo pra ela, ela mal o conhece!
— Porque você não permite! Levando a minha filha para longe de mim, não posso ao menos falar com ela. Minha própria filha! Porque faz isso?
— Você sabe muito bem porquê. Por que a culpa é sua! Você não deveria perguntar porque eu a protejo de você quando sabe muito bem o que aconteceu! – ela se alterou, a voz potente da sua mãe a fazendo se encolher mesmo que a repreensão não fosse dirigida á ela – Como ousa me acusar e crucificar depois do que você fez? Como ousa dizer que ela é sua?
— Porque ela também é minha quer você goste ou não. Sangue do meu sangue. Você não entende, não entende... S-Sequer se esforça pra entender... Era o melhor para ela, ela será-
— Basta! Cale-se! Você não tem direito de dizer o que é melhor para a minha filha, logo você! – Vivian trovejou com a voz trêmula, e então, horrorizada, Alura percebeu que talvez não fosse só a sua fúria chegando ao limite.
Sua mãe poderia estar...? Não, não, impossível, a sua mãe nunca chorava. Nunca. Era uma ideia tola e impensável.
— Vivian, por favor, ouça-me. Eu fiz o melhor para ela, por que não entende? Nossa filha é especial, amor. Sabemos desde antes dela nascer. Ela é-
Então um som foi ouvido, um som de algo se chocando contra algo. E o silêncio absoluto. Em seguida a sua mãe falou novamente.
— Não se dirija a mim como se fôssemos um casal feliz, você acabou com qualquer chance disso acontecer naquela noite, naquela maldita noite.
— Vivian...
— Temos um acordo e peço que não me faça lembrá-lo de tempos em tempos qual é, a minha palavra continua a mesma – Alura sentiu o pânico invadi-la quando os passos da sua mãe subindo a escada começou, a fazendo se esgueirar rapidamente para atrás de uma estante perto da porta do seu quarto. Ela via a sua mãe agora, o seu rosto neutro de emoções, mas talvez, só talvez, os seus olhos estivessem mais brilhantes do que costumavam. Mas não era emoção, parecia...
— Vivian... – seu pai chamou mais alto no andar de baixo cortando sua linha de raciocínio. Ela parou no topo da escada, sem se virar – Precisamos conversar sobre isso. Nós não podemos levar as coisas desse jeito pra sempre, eu não posso ficar longe dela. Eu tenho o direito de-
— Você perdeu qualquer direito sobre Alura quando a tirou de mim. Fica longe da minha filha, Richard. Esse é o meu último aviso.
Então, para o seu alívio, sua mãe seguiu pelo corredor oposto ao seu quarto e entrou no seu próprio, fechando a porta silenciosamente. Alguns minutos depois, quando achou que estava seguro, ela se dirigiu para perto da escada novamente e se inclinou tendo visão da sala de estar. O seu pai estava sentado com a coluna curvada e as mãos no rosto, seus cabelos longos fazendo cortina sobre o seu rosto. Seus ombros tremiam e ele fungava. Alura se afastou rapidamente e voltou ao seu quarto, fechando a porta silenciosamente e se apoiando na mesma com o coração batendo acelerado. Nunca antes havia visto seus pais chorarem. A sua mãe ela sabia os motivos, Vivian Murray era forte demais para demonstrar fraqueza para qualquer um e por esse motivo ela tinha certeza que a ideia da sua mãe ter chorado aquela noite era estúpida e descartável. Mas não ao seu pai, ele estava inegavelmente chorando, e ao contrário da sua mãe ele podia até ter sentimentos mais livres para outras pessoas verem mas a loucura diária não permitia que ela tivesse outra imagem dele senão a de um estranho em sua casa.
Repassando a briga para as suas páginas decoradas com pequenos desenhos floridos do seu diário antes que sua memória fraca apagasse os detalhes, ela se pôs a pensar. Virou e revirou a briga dos seus pais em relação a si com afinco em sua cabeça não encontrando absolutamente nada que fizesse sentido. Naquele momento ela sentiu como se tudo fizesse parte de uma ilusão, como se ela tivesse imaginado ou inventado uma discussão da sua mãe preocupada a escondendo da presença ofensiva do seu relapso pai que havia cometido um pecado qual ela não saberia nomear. E talvez ela tivesse realmente imaginado tudo, além da sua mente não ser muito confiável achava pouco provável que sua mãe a defendesse com tanta determinação de alguém tão inofensivo (mesmo que louco) quanto o seu pai.
Mas ela sabia que embora sua mente fosse fraca ela nunca imaginaria algo que não tivesse acontecido. A noite que se seguiu servindo de prova concreta para as suas indagações.
Aquela noite foi terrível, o jantar sendo servido em um silêncio fúnebre. Quando acabou o seu pai não a desejou boa noite, beijou a sua testa e fez cócegas em suas costelas como ele sempre fazia, ele simplesmente pôs o prato na pia e se dirigiu rapidamente de cabeça baixa para o porão debaixo da escada qual ela nunca teve permissão para entrar, murmurando sobre alguma data qual ele achava importante. Ela sentiu o coração apertar. Mesmo que não tivesse muito contato com o mesmo o seu pai sempre tentava se aproximar, mesmo que sua loucura fosse incômoda na maioria das vezes. Mas ele estava sempre ali, sempre presente da sua forma.
Mas não depois daquela noite. Aquele terrível jantar se seguiu por anos até que ela decidisse sair de casa.
—__
Alura fechou o diário que achou dias atrás em cima do guarda roupa qual continha suas lembranças da juventude, aquele mesmo qual ela jogara na lata de lixo e covardemente o salvou antes que o caminhão o levasse. Ela não sabia porque havia feito aquilo como também não sabia porque havia trago ele na sua mudança, mas fez. E se arrependia todos os segundos desde então. Naquelas páginas velhas estavam escritos as perguntas de uma criança que não tinha total compreensão do mundo ao seu redor até a adolescência. Narravam com detalhes infantis e deslumbrantes sobre tudo até o seu momento de ruptura, em uma grande briga que teve com a sua mãe que a fez arranjar um emprego muito jovem e enfim pensar no seu futuro longe do teto dos seus pais. Quando ela era pequena sua mãe até se continha sobre suas previsões sombrias em relação ao seu futuro longe das suas asas, mas a partir do momento em que Alura disse que iria embora assim que completasse a maioridade algo havia estalado na cabeça de Vivian que por minutos a tirou de foco, despejando nela suas piores palavras. Aos quatorze anos foi quando tudo começou a mudar.
Alura esfregou os olhos com força e tirou o diário do colo, o arremessando do outro lado da sala com força. E então nada. Apenas nada. Os seus pensamentos recém despertos pelas lembranças se encerraram repentinamente. Sentia-se oca, sentia-se enganada, sentia-se confusa, sentia-se só.
E então o nada.
Ela não percebeu as lágrimas rolando pelo o seu rosto, havia parado de sentir qualquer coisa sobre elas há algumas horas atrás quando havia chorado tanto que a fez se sentir desidratada. Estava anestesiada contra tudo, nem mesmo as duas garrafas de vinho vazios em sua mesa de centro fez com que ela sentisse qualquer coisa. Ela não sentia o frio em seus pés e mãos, o ardor nos seus olhos por chorar demais, o álcool correndo em seu sangue, as unhas cravadas nas palmas das mãos. Nada.
Apenas a marca.
Era um sentimento distante, um ardor já conhecido contra a gaze qual ela ainda não se atreveu a retirar desde a fatídica noite anterior. Era distante, mas constante. Puxando e pinicando, latejando e chorando contra o seu corpo como se tentando trazê-la de volta á vida. Mas nada. No momento ela era incapaz de processar qualquer sentimento que ousasse atravessar o seu corpo, tanto é que nem a revolta por ler suas indagações bobas sobre uma criança solitária escritas naquele diário idiota veio á tona por muito tempo. As suas emoções chegaram em demanda, todas flutuando á sua frente, nenhuma qual ela pudesse agarrar. Alura se conhecia bem o suficiente para saber que ela não era capaz de processar várias coisas ao mesmo tempo, e definitivamente havia muitas coisas para se processarem em sua vida nesse momento.
O principal era que a sua vida não era exatamente sua. Claro que não, como ela ousaria pensar isso? A sua infância foi complicada, sua adolescência foi inexistente pois ela havia se tornado adulta no momento em que começou a trabalhar aos quatorze anos, e agora a sua real maturidade já não pertencia a ela. Não. Tudo o que fez, tudo o que passou, tudo o que lutou foi para que quando estivesse confortável sobre a sua própria pele ela fosse servida de banquete para ele. Um corpo quente, uma saciadora de necessidades ambulante, um depósito de esperma provavelmente. O nome era vagabunda particular, mas ela não diria em voz alta novamente.
Alura nunca se sentiu tão envergonhada de si mesma na sua vida.
Então ela se levantou lentamente sentindo o mundo girar á sua volta, o efeito do vinho enfim mostrando as caras. Ela respirou fundo uma par de vezes antes de se orientar, caminhando á passos lentos ao banheiro em seu pequeno quarto enquanto tirava a sua blusa e jogava no chão, traçando uma trilha de vestes até entrar atrás das cortinas que dividia seu chuveiro do sanitário. Ela não sentiu seus pelos se arrepiarem, ela não sentiu o chão gelado sobre os pés assim como não sentiu o jato de água fria caindo diretamente na sua cabeça seguindo de um som preocupante vindo do seu chuveiro. Ele havia queimado de novo.
Não que ela fosse sentir, claro.
—__
Rosaly não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que havia algo.
Ela era uma presença brilhante, gostava de sorrir e gostava de fazer as pessoas sorrirem, gostava da boa sensação que se alojava em seu peito quando era motivo de algum sorriso sincero. O seu pai vive dizendo que ela irradiava como o sol igualzinho a sua mãe, tão genuína que beirava a ingenuidade. Mas apesar de tudo ela não era ingênua. Talvez não tanto quanto gostaria mas o suficiente para distinguir às mudanças ao seu redor. Rosaly tinha uma vida privilegiada desde o berço, seja pela extrema riqueza da sua família ou por ser a filha única que herdaria o império do seu pai, mas embora não gostasse de relembrar ela havia passado por maus bocados em certo momento da sua vida que abriu os seus olhos para as pessoas ao seu redor, quebrando a bolha superprotetora que a envolvia constantemente e a dava uma personalidade um tanto quanto mimada. Seus olhos não foram abertos ao ponto que a livrasse de muitas encrencas, mas o suficiente para saber quando estava em um relacionamento bom ou não; seja sobre uma amizade ou sobre um amante.
Como exemplo ela tinha Alura. A loira tinha se tornado extremamente consciente sobre a sua constante e nem sempre de boa vontade presença, assim como as nuances de humor da sua companheira ranzinza, havia se acostumado com a sua personalidade pouco agradável e a ansiava mais do que qualquer coisa. Depois do seu pai Alura era o seu tudo, a irmã que nunca teve, sua mãe e Deus no céu e Alura e o seu pai na terra. Era além da gratidão e proteção pela morena, um carinho que não sabia se teria por mais alguém com tal personalidade. Sua admiração pela mesma começou á dois anos atrás, quando nem se conheciam e Alura havia feito algo por ela que seus antigos amigos mais próximos jamais haviam feito: ela a salvou de si mesma, ela recuperou a sua autoestima e desde então desafia de forma agressiva sem pensar duas vezes qualquer um que ousasse fazer mal contra o seu bem estar, seja ele físico ou psicológico. Por mais que ela negasse aquele lado da sua natureza Alura era o seu anjo da guarda malvado, que arrota palavrões sem se importar com quem ouve e chuta a bunda de qualquer um que a fizer mal, e não havia visto de perto desde que a mesma não era exatamente um poço de gentilezas mas tinha certeza que a sua natureza também se estendia á qualquer um que ela colocasse debaixo das suas asas além dela. Alura era a personificação da frase “me olhe errado duas vezes e eu furo o seu olho”.
Essa Alura qual estava na sua frente não era nada disso qual ela já estava familiarizada.
E já se faz três dias.
Rosaly não sabia o que havia feito de errado, em sua escuridão pensou até que talvez ela ainda estivesse chateada com o encontro às cegas qual organizou meses atrás com o repórter Kent mesmo que já houvessem discutido e se resolvido, afinal ela não tinha muita certeza sobre o rancor de Alura uma vez que nunca fora apresentado ao mesmo com frequência, e ela não conseguia achar outro motivo. Elas estavam bem, estavam como sempre estiveram, e então, num final de semana qual a morena a ignorou firmemente, ela mudou. Qualquer pessoa de fora não notaria, Alura continuava sendo a grosseira apática de sempre, mas era exatamente esse o ponto: Alura estava sendo a grosseira apática de quando se conheceram, não a grosseira apática qual lidava com o seu falatórios e exageros diários com um sorriso escondido no rosto, volta e meia a rebatendo com algum comentário ferino ou engraçado de forma ácida. Ela parecia quase... Oca. Desprovida de sentir. Como se não desse a mínima das mínimas para o mundo ao seu redor. Bem, na maioria das vezes ela realmente não dava, mas não era o seu eu costumeiro de sorrir ironicamente pra qualquer um que a tirasse do sério. Não. Se alguém a tirasse do sério agora ou ela cometia um crime contra a pessoa ou pior; ela não esboçaria nenhuma reação. Exatamente como quando se conheceram.
O coração de Rosaly apertou.
— Eu fiz algo errado? – ela se pronunciou pela primeira vez naquele dia para Alura, quando ambas saíram do trabalho e a mesma seguia sem se despedir. Alura parou e piscou algumas vezes virando o rosto em sua direção, como se fosse a primeira vez que a visse aquele dia.
— O que?
— Perguntei se eu fiz algo errado, Alura.
— E como eu vou saber? – ela respondeu com aquela tom desprovido de emoções novamente a olhando diretamente, e foi quando Rosaly notou o quanto os seus olhos estavam fundos e o quanto a sua voz estava profunda.
— Você não atendeu as minhas ligações final de semana e não tem falado comigo também. É disso que estou falando, lua!
— Nós almoçamos juntas todo dia, Rosaly – a resposta óbvia proferida de forma seca qual recebeu quase a fez se sentir com raiva, como se ela fosse uma criança tola. Rosaly cerrou os dentes.
— Não, eu almoço e você brinca com a comida. Qual é, lua. Já faz três dias que a vejo assim, é quase como... Se não quisesse ser mais a minha amiga – a voz de Rosaly embargou levemente tentando conter as lágrimas.
Claro, ela sempre foi uma pessoa sentimental, mas imaginar Alura magoada com algo que nunca a contaria mexia com o seu coração mole. Seja contra ela ou contra outra pessoa, ela precisava saber o que afligia a sua amiga para que pudesse ajudá-la também. Ela não era tão forte ou tão corajosa quanto a Murray transparecia, mas enfrentaria o mundo pela morena. Queria ser para Alura o que Alura era pra ela.
Alura piscou algumas vezes, em seus olhos brilhou um lampejo de algum sentimento que a fez voltar á superfície novamente. Ela suspirou, seu coração batendo apertado no peito, a carga emocional que a sua marca mesclada com o super emanava quase a fazendo vacilar antes de responder.
— Você é sempre tão irritantemente dramática, sabia? — então Alura fez algo que Rosaly nunca esperaria de espontânea vontade: ela a abraçou. O contato pegou Rosaly de surpresa, seus olhos aguados se arregalando antes que os seus braços moles ao lado do corpo reagissem e devolvesse o seu abraço com força, afundando o seu rosto no pescoço da morena enquanto fungava – Urgh! Você está passando meleca em mim de novo.
Rosaly riu, uma mistura de choro e riso que fez seus ombros tremerem.
— Ora, cale-se! Você me deixou preocupada, sua vaca.
Alura se afastou antes que a loira quisesse, depositando um beijo leve em sua bochecha esquerda que aqueceu o seu coração e a fez se sentir segura. Alura não demonstrava afeto com frequência e não sabia o que tinha acontecido para deixá-la longe dos seus muros, mas mesmo que soasse egoísta ela estava grata. Tirou um peso dos seus ombros saber que ela a considerava ao ponto de partilhar contato físico com a mesma espontaneamente em momentos de conflito, sabia o quanto a mesma se sentia desconfortável com demonstrações físicas de afeto.
— Você é insuportável, mas se eu não quisesse mais a sua amizade não seria te ignorando que você receberia minha mensagem. Eu não sou uma completa imbecil – ela sorriu de lado á sua frente, limpando uma lagrima solitária que rolava por sua bochecha – Você é uma chorona feia.
— E você é uma desgraçada, idiota! – Rosaly estapeou a sua mão de brincadeira, sorrindo com todos os dentes para a morena – Você me preocupou, lua. Perdeu o juízo? Não sabe o quanto eu sou paranoica?
Então Alura rolou os olhos, daquela forma entediada e involuntária qual já era característico seu.
— Não queime os seus neurônios comigo, ross. Eu apenas – então ela parou novamente, os seus olhos brilhando de algo qual ela não entendia, suas sobrancelhas negras se franzindo como se ela estivesse com dor.
Então Rosaly percebeu o quanto a sua amiga parecia ruim. Alura nunca foi fanática por aparências mas a blusa regata preta qual ela usava estava desbotada, suas calças jeans claras estavam muito frouxas nos quadris e os seus tênis eram gastos. Os seus cabelos estavam embolados numa polpa grande acima da cabeça não contento todos os fios, como se não tivesse visto pente hoje, e pra finalizar ela vestia o seu sobretudo azul marinho de meia estação quente demais para uma tarde em Metrópolis. E então os seus olhos. Uma fonte interminável de ambares opacos como um vidro qual nunca fora limpo. Rosaly ofegou. Alura parecia mal. E ela nunca tinha visto Alura mal.
— Quem fez isso com você? – ela perguntou, a sua voz trêmula. Alura piscou saindo de seja lá onde estivesse e se fixando em seu rosto.
— O quê?
— Você está péssima, Alura. Eu nunca te vi assim. E-Eu não sei quem foi mas vou acabar com a raça dessa pessoa. Não sei como, mas vou!
Alura a olhou surpresa antes de balançar a cabeça novamente, coçando a própria testa.
— A falta de firmeza em sua voz nunca assustaria alguém. Não seja tola, sabe que eu jamais deixaria alguém passar por mim – ela sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, e antes que Rosaly pudesse protestar ela voltou a falar – Estou tendo uma semana difícil, ross. Não é nada demais. Acho que estou sobrecarregada.
— Você não está mentindo pra mim, não é? Somos amigas, protegemos uma á outra. Foi James? É alguém na faculdade? Sua família? – então rosaly pensou sobre a pequena lista de pessoas qual Alura pudesse ter contato e a olhou novamente, disposta a acertar o palpite – Foi Clar-
— Sabe o que eu preciso, ross? De uma bebida. Nós ainda não tomamos aquele porre essa semana.
Rosaly a olhou estranho, sua mente se forçando a trabalhar tentando pegar algum detalhe que talvez ela tivesse deixado passar.
— Você sempre reclama quando te chamo pra beber no meio de semana. – respondeu desconfiada.
— Isso porque não iremos beber no meio de semana pois somos adultas responsáveis que trabalham – ela a alfinetou, fazendo uma parcela da sua desconfiança sumir enquanto sorria – Que tal sexta-feira? No Havanna?
Rosaly sorriu radiantemente, o mesmo murchando levemente logo em seguida.
— O Havanna entrou em reforma domingo passado, você saberia se tivesse atendido as minhas ligações – Alura rolou os olhos de novo, a fazendo rir – Mas podemos ir no Tony's!
— Odeio o Tony's. – declarou entediada, como se aquela briga fosse antiga entre as duas. Rosaly bufou exasperada.
— Você sabe que não tem nenhum motivo concreto pra isso, não é?
— Claro que sim. Pra começar o dono não se chama Tony, a cerveja é cara e as pessoas são esnobes. Isso sem falar no detalhe mais importante: é mais uma boate do que um bar.
— A dona do Havanna também não se chama Havanna, duh! Vamos, lua. Se a gente não gostar nós vamos embora. Por favoooor! Eu pago a primeira rodada!
— O lugar se chama Havanna porque é onde a dona nasceu, ross – ela suspirou a olhando com fendas miúdas – Tá, que seja. Se a noite for uma droga lembre-se que eu avisei, como sempre.
— Como sempre – Rosaly a finalizou ao mesmo tempo que ela, cruzando os braços – Você é um saco, Alura. Insuportável.
— Eu nunca te enganei sobre isso. Agora anda, vai embora. O trânsito vai ficar uma merda daqui uma hora, você mora longe e dirige como uma psicopata.
— Preocupada comigo, lua? – ironizou, uma risada escapando dos seus lábios.
— Se manda, Rosaly! – disse ríspida, com humor. Rosaly a envolveu num abraço sufocante antes que ela tivesse chance de protestar absorvendo o conhecido cheiro natural da sua pele preso na curva do seu pescoço, apertando os seus ombros – Você sabe, metade do escritório deve achar que a gente tem um caso agora. Me larga, mulher!
Rosaly a soltou rindo do seu conhecido mau humor, percebendo o movimento ao redor e notando que ainda estavam frente ao prédio qual elas trabalhavam e algumas pessoas as olhavam de rabo de olho, alguns quais trabalhavam na mesma empresa que elas. Ela sentiu o seu rosto escurecer de vergonha.
— A culpa é sua, eu não estaria tão sentimental se você não tivesse me dado gelo o dia todo – ela acusou timidamente.
— Eu sou irresistível, sim, mas você não faz o meu tipo. Agora se manda, Rosaly. Vai, anda!
— Irresistível como um coice de mula – ela se dirigiu ao seu BMW vermelho-berrante o destravando, não notando que suas palavras foram semelhantes á uma certa pessoa qual Alura evitava pensar á todo custo, tornando sua expressão sombria. Rosaly assumiu o volante, ajeitou o espelho e olhou pela janela – Quando é que você vai me deixar levá-la pra casa? Seu bairro é perigoso, sabe que não é nada pra mim te levar até lá.
— Eu acho mais perigoso estar aí dentro com você, honestamente. Tchau, ross – ela acenou se virando.
— Ei! – Alura a olhou por cima do ombro, uma sobrancelha levantada – Estamos bem, não é?
Então ela rolou os olhos de novo, erguendo a mão direita ao mesmo tempo que fechava o seu punho e levantava o dedo do meio. Rosaly sorriu e buzinou, arrancando com uma velocidade doentia a chamando de vaca enquanto gargalhava. O pouco diálogo qual teve com a morena não sanou as suas desconfianças mas ao menos sabia que não era nada contra ela, o resto tentaria descobrir com o tempo, afinal conhecia bem Alura Murray pra saber que a mesma não funcionava sobre pressão, deixando-a mais nervosa. Com o tempo ela descobriria, pensou confiante enquanto desviava de alguns carros na pista.
Quando o carro berrante de Rosaly sumiu numa curva acima da velocidade duas esquinas depois, Alura murchou novamente.
Guardou as suas mãos nos bolsos da calça caminhando á passos lentos em linha reta, mal enxergando um palmo á sua frente. Ela não chorara mais, sua ruptura estúpida não passou do fim de semana, ela não se permitia desmoronar pois esse era um luxo que ela não tinha. Sendo dona da sua própria vida ela não podia se dar o privilégio de chorar escondida nas cobertas igual a uma garotinha tola quando achava que convinha, ela já não o era á muito tempo e não tinha mais tempo para desperdiçar com dramas. Estava disposta a seguir em frente daquela bagunça como se tudo o que ouviu não passasse de um completo absurdo. Mas os dias passavam pelo o seu corpo com indiferença, o seu trabalho era metódico, e apesar de se esforçar pra esquecer ela se via tentando filtrar tudo o que aconteceu. Mas não podia. Ela não conseguia absorver a história, era surreal em níveis tão alarmantes que logo a fez acreditar que aquilo tudo não passava de um mal entendido. E nos momentos em que sua mente viajava pra fora do corpo listando mil e uma razões sobre o porquê aquele destino não a pertencia ela sentia a marca latejar com um fervor esmagador enraizado em seu ser, uma sensação muito além do físico, além do seu corpo, como se fosse a única coisa que a ancorasse á realidade ao seu redor. Mas ainda assim, ainda que a sentisse com uma vibração muito mais intensa que antes (talvez porque agora ela estava ciente do seu significado) ela não conseguia aceitar, a situação por um todo parecia surreal demais.
Onde ela havia errado? Como isso aconteceu? Quando isso aconteceu? Porque ela?
Ela não via a marca como nada além de indesejada, o seu significado sendo egoísta e cruel, algo acidental que a pegou e a mudou sem o seu consentimento. Mas não podia deixar de pensar que a sua pessoa não era nada demais para um significado tão importante quanto uma ligação de alma, não que ela quisesse ser também. Ela era uma cidadã comum, era apenas Alura todos os dias da sua vida sendo confortável com sua rotina solitária, ela não tinha sonhos brilhantes nem portava sorrisos radiantes, não era ambiciosa e a rotina era uma amiga conhecida e bem vinda. Ela era apenas Alura-fodida-Murray, uma jovem britânica de classe média-baixa raramente agradável e ela realmente não se importava com o quão ferrada sua vida e personalidade fossem vista aos olhos do outros, obrigada. Ela foi escolhida por acidente, tinha certeza que sim, não havia nada em si que fosse ceder á um papel de submissão tão arcaica a um homem qual mal a conhecia. E sendo assim nem uma centelha de si aceitava pertencer a alguém, nem uma centelha de si estava confortável com essa ideia, muito menos com o seu 'dono' sendo alguém qual ela não poderia enfrentar até a morte num coliseu público, lutando com sangue nos olhos pela sua liberdade.
Nos noticiários a mídia não precisava inventar absolutamente nada que pudesse contribuir com a sua enorme força, ele não precisava disso. Superman era um milagre por si só: as suas mãos erguia prédios, os seus ombros amparava mísseis, os seus lábios sopravam gelo e dos seus olhos escapavam raios. Ele era a personificação de um deus que merecia ser cultuado pois ele era real, a sua bela estrutura exalando poder em cada mínimo detalhe, ele era um desafio ambulante qual ninguém jamais pudesse vencer. Superman, por si só, era a resposta muda para as suas perguntas incansáveis; não, ela nunca poderia fugir dele. Isso devia amedronta-la, sinceramente á dois dias atrás ela estava apavorada, mas não hoje. Chateada, sim, mas não com medo. Dentro de si sentia que ele não causaria nenhum dano físico á ela, se o sentimento repugnante que a invadia só de pensar no assunto fosse alguma coisa. Alura estava em conflito. Ela estava confusa, estava chateada, sentia-se usada.
E sentia-se triste.
Ela chegou em casa sem que soubesse, trancando a porta por reflexo e se jogando em seu sofá com a bolsa ainda atravessava pelo o seu corpo. Não tirou os sapatos ao se deitar e puxar os joelhos para o peito, fechando os olhos com força tentando fazer seus pensamentos divididos cessarem, tentando trazer paz á sua mente.
E então, exausta por tentar bloquear os seus sentimentos e os dele durante todo o dia, naquele lugar onde só ela e si mesma habitava, ela deixava os sentimentos virem á superfície novamente. Ela o sentia.
Em poucos momentos os seus olhos já cansados se encheram de lágrimas, mas ela não se culparia porque os sentimentos não eram dela então logo as lágrimas também não. Alura se sentia negativa de diversas formas, sim, mas somente quando se concentrava na marca e na possível conexão do outro lado da mesma ela se sentia verdadeiramente e profundamente devastada, como se o mundo tivesse sido tirado sob os seus pés a fazendo cair em espirais infinitos num buraco negro, a deixava enjoada. Era solitário, frio e devastador. Era uma sensação de desamparo tão grande que sentiu o gosto de cobre nos lábios ao morde-los em agonia, tentando aliviar os sentimentos. E eles não eram seus. Eram de Clark. E doía tanto que ela se encolheu, um soluço escapando dos seus lábios levando a sua mão ao seu peito tentando fazer parar de doer, querendo arranhar a marca até que a mesma saísse em pele crua dentro das suas unhas.
Ela se sentia só. Ela se sentia desesperada. Ela se sentia completamente desamparada, como se de uma hora pra outra tudo de bom no mundo tivesse deixado de existir. Um domingo sangrento sem um raio de sol ou um som de riso, soava como desesperança. Ela se sentia tão triste e tão só que a sua garganta secou de forma brusca, como se tivesse gritado por horas. O seu estômago afundou como se não comesse por dias mesmo que tivesse ciência que ela relutantemente ingeria seus poucos alimentos diariamente. Ela estava desesperada, ela estava machucada, ela estava com tantas saudades que o seu peito quase implodiu. E embora pudesse ter uma centelha dos seus sentimentos misturados com aquela agonia tão terrível ela tinha certeza que eles não eram seus. Essa carga potente de frequência repetitiva não a pertencia, ela não era capaz de ter tantas emoções dentro de si, alguns tão intensos que nem ela mesmo sabia nomear.
Era os sentimentos de Clark Kent. E ele estava uma merda.
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A sexta-feira chegou antes que ela percebesse sentindo-se mais cansada do que nunca. Tão cansada que os seus joelhos tremiam e os seus ombros pesavam uma tonelada. Ela havia dedicado cada segundo do seu horário ativo para trabalhar e focar nos seus trabalhos acumulados da faculdade, as pontas dos seus dedos doloridos á qualquer toque de tanto teclar no computador da empresa. Trabalhara tanto que os resultados dos seus esforços fora compensados com nenhum problema externo diário a fazendo se sentir quase como uma pessoa normal, e mesmo se tivesse ela também não perceberia. Estava focada, precisava preencher sua mente com tudo e esvazia-la de tudo ao mesmo tempo. O trabalho de pôr uma parede em suas confusões internas e focar inteiramente em suas obrigações era algo qual ela havia se educado arduamente quando sua mente dispersa ameaçou ser sua ruína assim que chegou na grande cidade de Metrópolis, o desespero quase a varrendo quando pensava nas palavras rudes da sua mãe ao sair de casa, as mesmas sendo instantaneamente sua fonte de inspiração para reparar aquele defeito em particular, e ela nunca esteve mais grata por qualquer coisa em seu corpo que houvesse clicado e seguido de acordo com o que ela desejara tornando sua mente extremamente focada quando seriamente queria. Ir contra sua natureza dispersa exigia um desgaste mental tremendo, mas a compensava de forma surpreendente.
Mas sendo a fodida teimosa que ela era Alura não podia deixar de se auto sabotar assim que pisasse os pés em casa, desligando a sua mente do mundo exterior e se jogando em qualquer superfície macia, logo se conectando aos sentimentos do herói. Ela não sabia porque continuava se torturando dessa forma, não havia necessidade de saber o que Clark estava sentindo, uma parte da sua mente gritava histericamente que o que ele sentia não importava e a mostrava o fim que aquela conexão sempre teria depois que ela acordasse após desmaiar de cansaço depois de tanto observar o bem-estar do super á distância: culpa. Alguma parte de si assumiu uma pequena parcela de culpa pela merda que Clark sentia. De alguma forma ela também se sentia incrivelmente culpada por invadir algo tão íntimo e tão complexo quanto os sentimentos de alguém, principalmente porque isso era algo bizarro que jamais deveria ser possível, a ideia de alguém sentir os sentimentos de outra pessoa era tão íntima que deveria ser considerada um crime, um pecado contra a natureza, principalmente porque recentemente ela sabia que ele não podia lê-la com a mesma frequência que ela o lia. Não entendia como mas conseguia controlar essa peculiaridade melhor do que ele mesmo. Mas embora o ato fosse bizarro, talvez até mesmo repugnante, ela não podia se parar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Porque ela estava preocupada.
Clark Kent estava sendo tão desleixado consigo mesmo que estava afetando o físico dela uma vez que ela pudesse sentir sua garganta crua, seu peito pesado e o seu estômago vazio como se estivesse sendo mantida em cativeiro. Ela não era burra o suficiente pra deixar de cuidar das suas necessidades mais básicas, embora não com tanto afinco como normalmente seria, então ela sabia que aquele desgaste físico não tinha nada a ver com a sua rotina. Mas além do bem-estar físico do herói ela também se preocupava com o que estava apertando o seu peito. Ela não deveria, não era o seu papel, a sua própria raiva, remorso e desgosto ainda era tão grande que era corrosivo ao seu coração, mas a cada conexão que forçava com Clark ela sentia que morria um pouco. E algo em sua mente era tão firme que ela sob nenhuma hipótese podia deixar de duvidar, ao menos não sobre isso: a marca não mentia. Nunca e sob nenhuma circunstância.
O que significava que Clark Kent estava no fundo do poço.
Mas embora a sua empatia estivesse desesperadamente gritando pra sair do cativeiro da sua frieza para a superfície ela se via firmemente disposta a ficar em seu próprio lugar. Ela tinha suas próprias merdas pra lidar sozinha e não queria mais desperdiçar a sua energia em algo tão anormal e surreal quanto sentir os sentimentos de alguém. A parte mais teimosa da sua mente gritava ‘dane-se Clark Kent, ele que se foda, sua vida já tinha virado uma merda mais desgostosa do que normalmente já era somente pelo simples fato dele ter nascido’.
Seus familiares se acharam no direito de marca-la como um gado para o abate para aquecer a cama do seu privilegiado filho perseguidor idiota, a pondo na linha de frente em uma batalha qual não a pertencia e que marcaria os seus pesadelos por longos anos. A simples existência dele significava perigo, um alvo ambulante para quem ousasse desafia-lo. Clark Kent significava tudo de ruim que havia acontecido em sua vida desde Metrópolis e ela não o perdoaria por isso. E então movida puramente pela raiva e pelo cansaço ela tomou uma decisão, reconhecendo a si mesma como teimosa e focada em seus objetivos o suficiente para tentar cumpri-la sem falhas: ela não se conectaria mais com Clark mesmo que sua mente a mate por isso, mesmo que a marca chore contra seu corpo. Ela não o faria mais. Ele não teria controle sobre a sua vida, então para isso ela teria que desapegar do hábito idiota que havia adquirido.
E ela realmente fez isso.
E ela realmente foi afetada de formas quais não pensou que seria.
Naquela noite ela ignorou a vontade de senti-lo. O seu telefone havia sido bloqueado para o número dele á muito tempo, então a única conexão que tinha com Clark seria encerrada nesse momento. Ela chegou em casa, tomou um banho e comeu qualquer sobra de aparência não tão boa das prateleiras da sua geladeira, se arrumou e pegou um transporte para o Tony’s. Rosaly, como sempre, já estava alguns copos á sua frente, sendo encontrada com facilidade por uma Alura não muito feliz por beber em um lugar fora do seu costume. E então ela pensou nele. Para sanar qualquer sombra de falha que o seu corpo poderia ter ela engoliu um copo muito cheio de algo forte que fez a sua garganta queimar, uma música pop de ritmo dançante ecoando pelo bar de temática alternativa fazendo o líquido vibrar na garrafa em cima da mesa, e em seu estômago também. Volta e meia os seus pensamentos ousaram deslizar mais uma vez, se perguntando como ele estava, então ela os calava descendo mais um copo. Outro copo. E mais outro. E outro. E outro. A cena se repetiu até que tudo o que seria ouvido fosse o zumbido embriagado contra os seus tímpanos, a música alegre e o sorriso bonito de Rosaly á sua frente na mesa falando sobre alguma coisa relacionado ao bar flutuando como se ela estivesse numa piscina.
Ela precisava disso. Era exatamente disso que ela precisava.
Rosaly a chamou para dançar em algum momento e ela não negou, seu corpo leve das suas próprias inibições pensando que assim ela estaria mais próxima de Rosaly podendo a proteger se alguém chegasse muito perto contra a sua vontade. Então elas dançaram uma com a outra, Alura balançando sozinha contra o ritmo frenético alguns minutos depois quando Rosaly beijou alguém desconhecido qual ela achou bonito, a morena ainda entretida em si mesma mas sempre atenta a loira para caso ela precisasse de alguma ajuda. Não precisou, embora. Por incrível que pareça a noite se encerrou com uma Rosaly cambaleante passando coriza em seu ombro e falando besteiras como sempre, algumas quedas no meio do caminho, mas nenhum acidente com algum cara havia acontecido.
Rosaly havia se divertido bebendo mais do que a morena e beijando quem ela achasse atraente, Alura se divertiu bebendo e mantendo uma distância segura da loira quando ela se entretinha com alguém, ambas dançando juntas sempre que ela voltava. Ela não era uma puritana, tinha os seus próprios desejos e entendia a desinibição da amiga mesmo que os olhos da mesma quase nunca brilhassem na direção de alguém decente, e mesmo que Alura se preservasse por livre e espontânea vontade ela não podia manter a loira em rédeas curtas sempre. Alura sabia o quanto a loira precisava de contato e afeto, as vezes precisava tanto que a cegava para os alertas óbvios. Não a julgava, mas ela sempre foi mais consciente sobre Rosaly do que ela mesma e a loira sempre teve o dom de atrair más pessoas para se envolver, o que fazia com que Alura quase sempre apresentasse um comportamento agressivo e sem culpa contra eles.
Mas não naquela noite. Tudo foi perfeito. Talvez o Tony’s não fosse mais tão ruim assim, ela pensou.
Elas voltaram pra sua casa e adormeceram uma do lado da outra, o braço de Rosaly voando na sua cara de tempos em tempos a fazendo chuta-la pra fora da cama ocasionalmente, a loira se levantando do chão e a xingando com palavras incoerentes enquanto desabava na colchão e todo o processo se repetia ao longo da madrugada. Mas isso era normal. Isso era rotina. E Alura sempre gostou de rotinas. Por um momento, mergulhada no álcool jogada na sua cama sem que os seus pulsos doessem por esmagar o nariz de alguém ou a sua cabeça nadando de preocupação por Rosaly, ela se permitiu descansar pela primeira vez na semana. Nada mais importava.
Nem mesmo o pensamento no fundo da sua mente sobre como um certo homem de olhos tão azuis quanto um céu sem nuvens estaria se sentindo agora.
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Mais um final de semana se foi, seguido de mais outro, somando tudo fazia três semanas que ela tinha visto ou ouvido qualquer notícias de Clark Kent além dos inevitáveis quais eram capa das revistas da sua empresa, evitando firmemente qualquer outra fonte de informação sobre ele mesmo que fosse quase impossível, afinal grande parte de Metrópolis o venerava. Mas ela estava conseguindo.
E os seus pesadelos aumentaram drasticamente.
Alguns eram seus, seu próprio ponto de vista da batalha contra Zod meses atrás, a maioria, entretanto, visto de um ponto qual não a pertencia. Em alguns ela estava voando com uma velocidade absurda contra os céus, seu coração aflito no peito sendo guiada por um sentimento que clamava e chamava por ela qual ela nunca conseguia alcançar por mais que a pressão do vento contra os seus punhos estendidos machucasse os nós dos seus dedos. Em outros ela ouvia sua própria voz gritar pelo nome de Kal-El em puro horror e por mais rápido que ela voasse ela jamais conseguia alcançar á si mesma, o sentimento de aflição cobrindo sua pele de suor á deixando ansiosa durante todo o dia depois que acordasse. Em outros ela se via deitada em sua própria cama, sua respiração calma e sua pele reluzindo contra a luz da lua que emanava da sua varanda, uma parede de vidro inquebrável que a impedia de chegar até ela mesma por mais que o seu peito chorasse por isso. Em outros, os mais terríveis, os seus olhos estavam vazios enquanto segurava o seu próprio corpo sem vida contra o peito com força, sentindo lágrimas derramar como cachoeiras dos olhos e soluços de puro desespero sair dos seus lábios com uma abundância anormal. Naqueles sonhos em especial ela sentia que jamais seria feliz novamente.
E então o mais frequente: um que ela se via em pé frente a si mesma, o corpo qual ela tinha no sonho sendo bem maior que o seu próprio porém, alvo do seu já tão conhecido olhar de raiva, sentia-se pequena. Desamparada. Nesse sonho Alura via a si mesma á olhar com desgosto e se virar de costas, passos firmes caminhando para cada vez mais longe de si.
— Alura! – sua voz anormalmente mais grave gritava o seu nome em desespero, sua mão grande estendida em direção á si, seu corpo enorme não conseguindo se mexer. – Por favor, por favor, não me deixe de novo, por favor!
Sua voz implorava repetitivamente até sentir sua garganta crua vendo a si mesma parar e se virar parcialmente, o olhar gélido qual ostentava fazendo tremer sua estrutura.
— Vou tirar essa maldição, Clark – sua voz soava fria, seus olhos repletos de raiva – Os Magos me ajudarão. Irei quebrar essa ligação pra sempre.
— Não! Não, não, não, por favor, não. Por favor, por favor, não, por favor, NÃO!
Alura acordava, a negação ainda presente na sua garganta em repleto desespero, seu coração frenético e a sua marca completamente machucada. Dolorida. Sentia-se fraca, sentia-se doente e impotente, sentia-se magoada de formas tão absurdas em níveis tão profundos que imediatamente ela tinha ciência que os sentimentos não eram seus. Então, com raiva por ter até mesmo o seu sono alterado por causa da marca, ela o bloqueava. E sentia-se oca. Depois de algum tempo ela começou a se achar infantil. Relutantemente ela admitia para si mesma que por todos os motivos do mundo que ela teria para odia-lo ela não poderia culpa-lo pela marca, por mais que ele fosse a fonte mais próxima ligada á sua maldição particular a culpa não poderia ser despejada em cima dele uma vez que ele não á criou. Claro, ele alimentou uma aproximação indesejada e aturou a sua personalidade unicamente porque uma marca em seu corpo o dizia que era a sua obrigação, esses eram os seus mais escondidos e sombrios pensamentos, mas depois de sentir toda a profundidade da marca ela sabia que aquele símbolo não estava ali por causa dele e uma hora ou outra teriam que se falar por causa disso. Era inevitável.
Mas ele também não foi atrás dela.
Alura havia deixado grande parte das suas birras na infância, alguns traços apareciam em seu mau humor diário mas era algo que fazia parte de si e não havia como mudar. Mas se chatear por Clark Kent não ter ido atrás da mesma uma vez que ela o privou da sua presença e bloqueou o seu número era algo infantil demais até para si mesma. Mas de acordo as semanas se passavam ela havia deixado de se importar com isso na mesma medida em que sua raiva mudava de foco, no entanto. Estava chateada demais para se importar com o que sua mente pensava de si mesma. Sim, claro, ela não o deu grandes pistas sobre como acha-la, mas caramba, ele descobriu onde ela estudava! E ele também era um repórter, não é mesmo? O tão invencível Superman? Era a sua obrigação dar um jeito de encontrá-la mesmo que ela não quisesse, para que ela o xingasse e o acusasse de perseguição antes que eles sentassem para discutir sobre a marca novamente.
Por que nem fodendo ela iria atrás de Clark Kent, era quebrar mais barreiras do que ela estava disposta então ele que desse um jeito.
Só que mais uma sexta-feira chegou e com ela a solidão de um apartamento vazio. Ela não quebraria a sua promessa, não iria contactá-lo e não o sentiria pela marca também, iria resolver as suas angústias como tem resolvido ultimamente: iria ao Tony’s e gastaria a sua grana suada com bebida alcoólica compartilhando da presença de pessoas indesejadas. Porque, pra melhorar o seu humor, Rosaly havia viajado com o seu pai de volta á Leipzig em negócios da família. Algumas temporadas ela viajava mais do que as outras, já sabia da rotina da loira, mas essa em particular contribuiu para a sua tão normalmente ansiada solidão justo quando ela precisava da presença tagarelante da amiga para distrair sua mente dos seus problemas. Ela não estava feliz, não estava mesmo.
Ousava dizer que estava no limite, se sentindo na borda de um precipício, sua mente confusa repleta de pensamentos incoerentes e conflitantes.
E não podia culpar a marca por isso.
Não se importou com o que vestiu, seu rosto rabugento não olhando para nada á sua frente além do celular em sua mão. Respondeu algumas mensagens quando entrou dentro do Uber que á levaria ao bar: mandou Rosaly ir á merda quando a mesma perguntou ironicamente se ela sentia a sua falta numa sexta-feira, enviou uma sincera mensagem feliz para um áudio fofo cheio de erros de pronúncia que Pietro á enviou do whatsapp de Sophie e ignorou ao chamado da secretaria de James á perguntando sobre as edições daquele dia. E era só. Ela olhou mais algumas vezes para o contato sem foto de Clark-fodido-Kent pensando e repensando em várias palavras diferentes em várias entonações que poderiam o mandar ir se foder.
Porque diabos ele não á procurou? Ele não sabia que havia algo que ela queria falar com ele? Idiota!
Assim que chegou ao Tony’s ela pagou ao motorista com uma cara fechada se perguntando porque diabos ambas – ela e Rosaly – haviam adquirido o costume de beber em bares tão longe da suas próprias casas. Para a loira não fazia diferença já que o seu pai sempre estava presente para sanar suas despesas se ela não as conseguisse quitar no fim do mês, mas porque Alura continuava fazendo isso? O taxímetro nunca marcava abaixo de trinta dólares, o Uber sempre dava a mais do que marcava no aplicativo e ela nunca poderia deixar de pensar que com aquele valor e mais quinze dólares em cima ela podia comprar sua pizza favorita. O pensamento azedou ainda mais o seu humor, desviando das pessoas e empurrando algumas até chegar ao balcão assim que entrou no bar.
— Á cerveja mais gelada que esse lugar tem pra oferecer, por favor – ela pediu cansada ao barman á sua frente, o vendo sorrir de lado á entregando uma caneca.
— Noite difícil?
— Vida difícil – respondeu levando o copo aos lábios, dando três goles longos e pousando audivelmente a caneca no balcão limpando grosseiramente os resquícios da sua boca com as costas da mão – O destino é uma puta ladra.
Ela declarou sombria, o barman entregando outra bebida para um homem ao seu lado rindo audivelmente.
— Isso é verdade, mas não deixa de ser prazeroso, não é? – ela desviou os olhos do seu copo e reparou ao homem á sua frente. Talvez ele estivesse perto dos cinquenta, calvo com um cavanhaque grisalho e com braços completamente tatuados. Alura grunhiu aborrecida.
— Uma pessoa positiva é tudo o que eu não preciso agora – resmungou o fazendo rir de lado enquanto servia outra pessoa.
— Não, mas uma bebida mais forte sim. Se está sofrendo e quer ter um bom tempo você não deveria beber cerveja e sim uma Bloody Mary – ele sugeriu piscando um olho em sua direção. Alura bebeu mais um gole da sua cerveja com as sobrancelhas franzidas.
— O coquetel? Não, odeio suco de tomate. E quem disse que estou sofrendo? Eu não estou sofrendo, nem por nada nem por ninguém. – declarou firme, seu rosto sério de olhos afiados desafiando o barman á contradize-la. Por incrível que pareça ele riu fazendo sua expressão se aprofundar em uma careta mau humorada.
Era só o que ela precisava agora; seus dons em afugentar pessoas a deixando na mão.
— Sabe, você é fofa – ele comentou para a sua surpresa, girando uma garrafa com malabarismos exagerados e finalizando num timing perfeito, servindo uma moça escorada no balcão do outro lado do bar. Ele logo voltou para si – Meu nome é William, á propósito.
— O meu nome é me-chama-de-fofa-novamente-e-eu-corto-as-suas-bolas – ela estendeu sua mão direita contemplando a cara surpresa do barman antes que ele risse audivelmente e apertasse a sua mão num cumprimento firme.
— Caramba, que nome longo. Deve ser difícil assinar – ela revirou os olhos cansada enquanto virava sua cerveja, pedindo outra. Wiliam se virou sorrindo para a infinidade de bebidas e ferramentas nas prateleiras e fez uma mistura de tudo um pouco. Demorou cerca de oito minutos antes que ele virasse para si com um pequeno copo de mistura cor de creme espumosa com algo preto queimado com maçarico em cima.
— O que diabos é isso?
— Seu novo melhor amigo, Srta. Corta Bolas. – ele sorriu de lado, divertido.
Alura grunhiu desgostosa, tentada á revirar os olhos mais uma vez.
— O nome é Alura, idiota. E eu não pedi por isso.
— Claro que não, fui eu que inventei – ele empurrou o copo na sua direção com cuidado – Se chama Shot de Crème Brûlée, uma mistura rápida de vodca de baunilha, licor Strega Cream e licor de baunilha. Por cima tem açúcar cristalizado e café queimados com maçarico. Experimente, vai adoçar a sua vida.
— E me enviar direto pro pronto socorro, não é? Parece um coquetel perfeito para hipertensos – ela resmungou o levando a rir novamente.
— Se não gostar não precisa pagar. São as regras da casa – ela ergueu uma sobrancelha pra ele, chateada com a sua audácia.
— E quem é você? O dono? – perguntou irônica. Inesperadamente ele se aproximou de si, seus olhos brilhando diversão.
— Você parece ser uma garota legal então vou te contar um segredo, Srta. Corta Bolas – ele pôs uma mão na lateral do da boca, como se fosse dizer algo sério – Eu sou o dono.
Então ele se afastou sorrindo e se dirigindo á outros clientes que se amontoaram rapidamente ao redor do bar. Alura piscou rapidamente não entendendo se ele tinha falado de forma literal ou figurativa. Balançou a cabeça em seguida disposta a esquecer o assunto, principalmente porque não era da sua conta, e virou o copo de uma única vez. Por alguns segundos ela engasgou com a mistura de sabores. Doce, extremamente doce como xarope, mas não tão doce quanto era forte, a bebida á aquecendo instantaneamente. Apesar do seu paladar não apreciar tanto coisas doces ela tinha que admitir: foi como passear no paraíso proibido.
— Merda, Wiliam – ela praguejou quando ele estava próximo novamente, o vendo rir convencido – Eu não deveria ter virado de uma vez.
— Não, não deveria. Foi como caminhar nas nuvens, não é?
— Mais como o inferno. Doce e quente.
— Parece sexo pra mim – ambos riram, Alura instantaneamente se sentindo aliviada ao não ouvir nenhuma ambiguidade direcionada a si. Ele recolheu o seu copo e logo preparou outro, depositando no mesmo lugar que a anterior.
— Não acredito que vou ter que pagar por isso. – comentou sorrindo de lado, a nuvem negra acima da sua cabeça lentamente se dispersando.
— Se me dissesse que não havia gostado eu teria que pedir aos seguranças pra chutar sua bunda pra fora, de qualquer forma.
— Você é bem convencido, não? – ela tomou mais um gole da sua bebida, lentamente, saboreando as misturas doces que explodia em sua língua e apreciando o ardor no fundo da sua garganta.
— O segredo do sucesso é confiar no seu trabalho, e eu sei que o que eu faço é bom.
— Ora, ora, pule do topo antes que alguém o derrube meu caro – ela sorriu divertida o fazendo rir, se sentindo bem melhor do que quando entrou.
— Eu não tenho medo da queda. Sou forte como o Superman, minha cara.
Foi um comentário bem humorado dito de forma risonha, mas que fez o recém bom humor de Alura desmoronar como um termômetro no ártico. Tudo o que ela não precisava agora era lidar com Clark Kent e a seu alter ego Superman. Sem que ela percebesse os seus dedos foram direto para a marca entre os seus seios a sentindo tão inchada e inflamada quanto tem estado desde a briga de ambos, um sentimento saudoso deitando sobre os seus ombros os fazendo despencarem.
Evitando-o como ela tem evitado, sabia que o sentimento não era dele.
Merda.
— Oh, não, minha bebida não fez isso – ela piscou rapidamente, voltando para onde estava. A música estava mais alta agora, talvez porque estivesse mais tarde na noite. Ela olhou para Wiliam á sua frente o vendo servir várias bebidas de uma única vez, percebendo que o número de pessoas haviam crescido em poucos minutos. Ela se sentiu desconfortável no meio de tanta gente, virando o resto da bebida doce sentindo os olhos lacrimejarem pelo ardor.
— Eu não sei do que você está falando – recuou do assunto, tendo que falar mais alto por conta do som das vozes ao seu redor. Wiliam sorriu afetuoso.
— Escuta Alura, nos meus vinte anos de barman eu sei que só há alguns poucos motivos para uma moça jovem e bonita estar chateada em uma boate completamente sozinha: ou é briga de família, ou foi demitida ou levou um fora de alguém.
Alura ergueu uma sobrancelha perplexa, um sorriso incrédulo no canto dos lábios.
— Você já parou pra pensar que uma moça bonita só quer se divertir sozinha? Ou que talvez ela não tenha levado um fora, mas dado um?
Wiliam sorriu abertamente como se tivesse conseguido algo que queria.
— Eu não estou reproduzindo minhas opiniões pessoais, estou apresentando fatos diários no Tony’s. E levando em conta que a única situação que a incomodou foi ter levado ou dado um fora em alguém acredito que foi isso que á trouxe aqui, estou certo?
Altura franziu as sobrancelhas incomodada, se remexendo em seu assento. Não estava disposta a abrir sua vida conturbada para um completo desconhecido, mas que motivo á faria sair de casa sozinha pra gastar dinheiro, sabendo que ela sempre lutava com Rosaly quando a mesma a chamava, senão pra despejar seus problemas para pessoas que provavelmente ela nunca mais veria? Não era o seu feitio, claro. Quer dizer, ela é Alura-fodida-Murray, caramba! Ela não fazia isso, não tinha necessidades de explanar suas confusões internas nem para a sua melhor amiga, porque ela faria isso com estranhos? Mas nada do que tem acontecido na sua vida era o seu normal ultimamente. Em dias normais ela estaria aproveitando sua sexta-feira solitária com pizzas gordas e cerveja gelada frente á sua televisão, compartilhando da sua própria e ansiada presença e torcendo como uma tiete para o cavaleiro negro de Gotham. Mas o que a trouxe aqui? Sentia em alguma parte dentro de si que bloquear a marca estava chegando ao seu limite, sentia Kent empurrar e coçar atrás da mesma como se forçando a sentir Alura, e talvez foi isso que a trouxe até ao Tony’s: ela não sabia até quando continuaria evitando suas tentativas de contato pela marca uma vez que estivesse completamente só sem nada nem ninguém para distrair a sua mente, mesmo que relutantemente admitisse que quisesse a atenção dele depois de semanas sem procurá-la. Ela estava uma bagunça. Uma completa covarde confusa, frustrada e chateada. O que havia de errado consigo?
Fora desperta com dedos estalando frente aos seus olhos, o sorriso zombeteiro de Wiliam se focando quando ela voltou á realidade.
— Você se foi por um tempo lá – ele comentou com humor a fazendo suspirar, percebendo então mais um pequeno copo bonito do xarope alcoólico que estava tomando reabastecido, não demorando em tomar um gole. – Eu vou arriscar um palpite, posso?
— É um país livre – ela bebeu mais um gole, suas bochechas se aquecendo.
— Acho que deu o fora em alguém e se arrependeu, e agora que você quer algo com ele ou ela essa pessoa já não á quer mais. Estou certo?
— De jeito nenhum – Alura riu, virou o resto da bebida e pediu outra – É mais complicado do que parece.
— Bem? Conte-me. Não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer – ele imitou seu revirar de olhos a fazendo engasgar com a bebida enquanto soltava um riso alto, percebendo que durante toda a conversa, mesmo que a genuína atenção dele estivesse nela, os seus braços não haviam parado de servir os clientes ao redor.
Certo, não havia nenhum conhecido ao redor para julga-la e bem provavelmente ela não voltaria á esse lugar barulhento novamente, então aí vai:
— Vou lhe dar a versão resumida da coisa – ela bebeu mais um gole, sentindo o bolo alcoólico descer com mais facilidade pela garganta – Conheci um homem no meio do acidente de aliens meses atrás, e ele parecia muito interessado em mim por mais tempo do que deveria. Eu não sou a pessoa mais simpática do mundo, não é como se os homens me perseguissem em demanda depois de conhecer a minha natureza.
— Você jura? Vamos, não é algo que as pessoas percebam – Wiliam comentou ironicamente a fazendo suspirar.
— Ele é um homem decente com uma história de vida complicada, história qual confidenciou para mim, mas eu não sou muito de afeto. Não é algo que eu procure no momento. Então ele insistiu mais, e eu comecei a adivinhar que havia algo a mais em sua incansável busca pela minha atenção. Bem, o fato é que realmente tinha algo a mais, algo que não deveria ter acontecido. Eu só...
— Ao que parece alguém á decepcionou justo quando tinha conseguido sua rara atenção.
— Bem, sim – ela suspirou – Ele buscava a minha atenção pelos motivos errados, motivos quais não impactou só as nossas vidas como a de terceiros também. Caramba, ele desfez um noivado por minha causa! Quando nem nos conhecíamos! Isso não é... Certo. Os motivos que o levaram a me aturar mesmo eu sendo quem sou, os motivos que me envolveram em problemas que não eram meus, os motivos que o fez tomar decisões sobre sua vida que também impactaram a minha não eram motivos corretos. Ele arriscou tudo por uma desconhecida que não quer nada com ele por algo que não deveria existir. Um tiro no escuro.
Ela despejou de uma vez, deixando enfim os seus sentimentos mais tristes virem á borda. Ela não sabia que se sentia além de chateada, mas se sentia. Ela estava magoada também. Muito. Sabia que a sua natureza selvagem afastava as pessoas e estava feliz com isso, preferia estar sozinha sendo ela mesma do que cercada por pessoas sob uma faceta que agradaria á todos. Isso não quer dizer que as vezes ela sinta falta de contato. E depois de perceber que Clark, qual tão ousadamente havia conseguido sua atenção e atração, estava á aturando unicamente porque os seus pais haviam o ensinado que era isso que ele deveria fazer quebrou as suas pernas em um único movimento. A deixou sem chão.
Ela realmente estava magoada.
— Você me deu poucos detalhes, mas ao que percebo você está decepcionada porque os motivos que o fez investir em você eram os errados, e antes que você soubesse quais eram já havia se apegado ao homem. É isso?
— Bem... Talvez? Eu não sei, lidar com sentimentos não é bem minha zona de conforto.
— Oh, aí está; você está magoada por ter criado sentimentos por alguém que não investiu pela sua atenção por motivos unicamente atrativos, não é? – Alura assentiu relutante, um bolo na sua garganta a impedindo de falar. Wiliam grunhiu chateado – Minha nossa, olha só, uma moça tão bonita sofrendo tão jovem.
— Não é sofrimento! Estou chateada... T-Talvez magoada, como disse. Ele só... – ela mastigou o lábio inferior, evitando os olhos do barman – Ele não tinha o direito de me fazer confiar e gostar dele se os motivos que o faziam ter atração por mim não eram os certos. Como se fosse obrigação, algo além da escolha.
Wiliam a olhou com simpatia, trocando o seu copo vazio por um novo.
— Ou talvez ele esteja tão apaixonado que está disposto á abrir mão de tudo por você sem pensar duas vezes, já pensou nisso? Talvez a sua reputação de garota malvada não o incomode. Ele pode simplesmente querer uma chance acima de tudo.
Alura arregalou os olhos surpresa, á palavra paixão nunca antes vindo em sua mente. Ela balançou á cabeça firmemente.
— Você não entende, Wiliam. Não tem nada a ver com isso, é bem mais complicado do que parece.
— Você fala como se ele fosse literalmente obrigado á ficar com você. – Wiliam sorriu descrente, servindo outra pessoa. O coração de Alura afundou.
— Bem, esse é o ponto: ele é.
O barman á olhou desconfiado, suas sobrancelhas franzidas em confusão. Então sua expressão mudou para realização, como se conseguisse entender o que ela estivesse dizendo.
— Mesmo sendo o século vinte e um vou supor que seja um casamento arranjado qual você não estava ciente, organizado por suas famílias. Certo?
Alura franziu as sobrancelhas incrédula, talvez até mesmo ofendida, mas assentiu lentamente. Mesmo que ferisse sua moral ética a situação qual eles estavam era mais ou menos isso, no fim.
— É o mais próximo que dê pra definir a situação, sim.
— Bem, supondo que você começou a gostar do homem antes de saber desse arranjo eu preciso lhe dizer, Alura: nenhum homem sobe no altar ao menos que tenha uma arma apontado para a sua cabeça. Um casamento arranjado é arcaico e priva o direito de ambos, mas pelo visto ele gosta de você e você começou a gostar dele. Não estou dizendo que deva se casar quando não quer, é uma decisão muito importante para a vida de ambos e você precisa conversar com os seus pais sobre isso, mas não chute o cara para as latas de lixo. Talvez, no meio desse fogo cruzado, vocês foram feitos para dar certo, não? Talvez, acima da obrigação, ele realmente goste de você.
Alura piscou desorientada, sua boca levemente aberta. Não era ao seu costume absorver as opiniões alheias, assim como também não era do seu costume se abrir para estranhos. Mas quem liga, afinal? Nada naquela noite podia ser nomeado como algo da sua rotina. E talvez, mesmo não estando sequer perto da imensidão do problema qual ambos foram presos... Wiliam estivesse certo. Internamente ela empurrou a voz das serpentes negras que sibilavam contra sua insegurança que aquela era uma péssima ideia, que jamais deveria confiar em alguém. Não, ela era realista e ponderada mas estava cansada de afasta-lo. Talvez o barman realmente estivesse certo, quem sabe? Ela piscou mais algumas vezes trazendo o copo para os lábios, sentindo os seus dedos trêmulos. Suas têmporas doíam pelo o esforço gigantesco que fazia para bloquear Clark Kent, ela estava cansada e decepcionada também, mas talvez um pouco mais disposta á enfrentar a situação.
Talvez ela pudesse simplesmente abrir mão de algumas restrições e dar uma chance? Ela não podia ficar numa situação pior do que estava, não é?
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