You Only Live Once
4 Capítulo 4
Notas iniciais
I said the right things
But act the wrong way
I like it right here
But I cannot stay
Hard to Explain — The Strokes
– Você é muito legal, Liss.
Estou sem graça pelo seu comentário. Não sei se foi por que ele disse do nada, para quebrar nosso silêncio, ou se ele está sendo verdadeiro. Na primeira vez que disse isso, estava muito bêbado. Agora, sóbrio, é tão calmo e humorado. Na verdade nem tão calmo, devido ao chilique de agorinha ao falar de Leona. Mas eu ainda tenho uma pergunta que envolva ela.
Respiro fundo antes de prosseguir, esperando que a resposta dele seja positiva.
– Julian.. É conhecido pela mídia por sempre brigar com sua namorada. Qual a principal razão das brigas? Seria o..
– Meu vício? – ele me corta. – Sim, ela odeia que eu beba. E sempre que estou bêbado, falo merda demais e.. – ele tenta parar o que iria continuar. Droga, só porque finalmente ele estava se abrindo.
Ele pausa o gravador. Mas que raios, ele prometeu que não iria tocar.
– Desculpe, caralho.. – ele ri e despausa o gravador. – É que eu não queria falar demais. Na verdade, não quero, entenda isso. Apenas posso afirmar que sim, brigamos muito, e o principal motivo são as bebidas e meu fumo. Eu fumo pra caralho em casa, e ela odeia isso. E um fato é, que sempre discutimos quando estou bêbado, e isso não é nada bom. Eu fico muito agressivo e, sei lá.. Idiota. Acabo cuspindo palavras grosseiras e a magoando, sempre. Mas ela não é uma mulher fraca, ela sempre dá um jeito de me colocar para baixo também. Digamos que nossas brigas são frenéticas. – ele sorri, mas sem humor algum. – É isso.
Penso em perguntar se ele já pensou em terminar com ela, mas decido não aprofundar mais o assunto sobre Leona. Eu vejo que ele não gosta muito de falar da relação dos dois, mas não há quase nada sobre eles na internet, eu preciso saber de algo a mais, que eu tenho certeza que tem envolvido entre esses dois.
– Ok.
Conversamos mais um pouco um com o outro, e hoje eu tive a oportunidade de conhecer o verdadeiro Julian.
Não o Christopher do passado, aquele garoto que sofreu sem um pai, vendo sua irmã ser estuprada e ver a morte de sua mãe logo após de ter enchido a cara num bar.
Mas sim Julian Wilde. Aquele cara sem tempo para ninguém, que sai com os amigos no Rabbit’s para chapar até não ver mais nada, e quando Leona está, tenta passar a maior parte do tempo com ela. Aquele que não gosta de dar entrevistas e já quebrou guitarras no Letterman ou tirou sarro de Jimmy Fallon. Ele contava animado como foi cada uma de suas turnês, quando uma fã pulou no palco e rasgou a sua roupa, e como elas gritaram quando ele continuou o show sem camisa. Ou da vez em que chamaram um fã louco no palco que tentou roubar o baixo de Jay Blanco, e até aquele que fez guerra de bateria com Peter Turner. Disse como foi bom fazer a turnê pelo mundo, sua primeira turnê mundial, onde visitou um dos piores lugares e também os melhores. Disse que seu favorito foi a Alemanha, que aquele lugar era lindo e que moraria lá sem dúvidas, além de ter uma lindas alemãs e muita bebida. Contou dos milhares de famosos que conheceu, da sua treta com Katy Perry, por um motivo que não faço ideia, que também sonha em conhecer Eminem e até fazer uma música com ele, que Julian afirma ser impossível. Falou como Rihanna era maravilhosa pessoalmente e como conheceu uma de suas maiores inspirações quando era moleque, o Mick Jagger.
Seu telefone toca no meio da conversa em que ele diz como terminou sua última turnê.
– Wilde.
Ele revira os olhos logo após atender, provavelmente é alguém incomodante.
– Por que não avisou? Caralho. – ele tira o telefone de perto de sua boca. – Licença, Alice, é rapidinho. – ele pisca e desparece pela cozinha.
Claro que ainda posso ouvir sua conversa, ele só sabe gritar. Decidi não prestar atenção e comecei a guardar minhas coisas para ir embora, eu passei muito tempo com ele. Olho para meu celular, 15h37. Caramba, eu fiquei muito mesmo. Me apresso e olho para a janela. É claro que estaria chovendo! Nem sei se vou mesmo voltar com o carro de Julian, aliás, porque aceitei essa carona? Eu poderia muito bem voltar para casa sem preocupações agora. A chuva está muito grossa, desde a pouco tempo atrás não parou. Estou em pé, do lado do sofá, quando Julian volta com uma cara péssima.
– Merda, Alice, desculpe. – ele olha para minhas coisas prontas. – Já vai?
– Passeia as últimas quatro horas com você, Julian.
– Foram ótimas quatro horas, não concorda? – ele sorri e eu assinto. Ele tem até razão, consegui muito conteúdo, muito mesmo, e acho que o chefe Luthor ficaria contente. Mandaria tudo para o e-mail dele hoje mesmo, como combinado, e eu estaria livre disso. Livre de Julian, livre de preocupações.
– Posso te levar até.. sua casa? – Julian pergunta e eu arregalo os olhos. Por que ele e não seu motorista, como combinado?
– Ah.. eu..
– Está chovendo pra porra e meu motorista foi buscar.. Ahm, Leona.
– Se Leona está vindo, por que vai sair então? – pergunto, impaciente. Queria mesmo ir embora, ainda mais porque ela estaria aqui.
– Como você vai embora então? Porra, seja mais fácil, aceite logo, não vou demorar.
Suspiro em rendição e ele agarra uma jaqueta de couro preta, pegando a chave de seu carro. O sigo até sua enorme garagem, e lá tem uns 5 carros. Wow. Do jeito que imaginei.
– Você escolhe o carro. – sorri convencido, e tenho a certeza que está se amostrando. Gosto do vermelho, é o mais discreto de todos. Os outros pareciam carros de corrida, exageradamente chiques.
– O vermelho.
Ele pega seu chaveiro, contendo uma chave de cada carro, e entra no vermelho, destranca a porta do passageiro e me sento, colocando o cinto logo em seguida. É claro que Julian não usaria cintos.
– Já esteve na casa de uma celebridade antes? – ele quebra o silêncio e já estamos na estrada chuvosa.
– Pra ser sincera, não. Você é o primeiro.
– Isso é bom. – ele sorri novamente. Esse homem, ele adora sorrir. – Quero dizer, bom, deve ser empolgante estar na casa de uma celebridade.
– É normal. – como se estar na casa de alguém “importante” fosse algo para se gabar. Pessoas tolas fariam isso, mas eu não sou disso. Não vejo vantagem, é uma casa como todas as outras.
– Normal? Fala sério, se eu fosse conversar com Mick Jagger em sua casa, eu estaria aos nervos.
– Mas você é fã dele, é diferente. – fui um pouco dura, mas não admiro Julian em nada. Talvez tenhamos nos aproximado um pouco, mas não vai passar disso.
– Já entrevistou seus ídolos? Quer dizer, se tiver..
– Ed Sheeran. Não, nunca o entrevistei. Ele é britânico, é bem mais difícil dele vir para os EUA, ainda mais para Seattle.
– Eu já conheci esse cara, gente fina. – “esse cara”? Sheeran é minha maior inspiração e faz composições como ninguém, e o jeito como Julian se refere a ele é um tanto quanto incômodo. – Ele iria compor uma musica para nós, mas sabe como sou, não faço o estilo romântico. Acho que não temos nenhuma música desse estilo, e se tenho, foi Jay que escreveu e quis gravá-la. Eu só tive que concordar, afinal a banda não é só minha. Jay é o cabeça. – ele explica, não tirando os olhos da estrada. — Caralho, agora que lembrei, onde você mora?
– Me deixe no Rabbit’s, meu apartamento é lá perto. Não é bom você ser visto saindo com uma garota.
– Tem razão. Paparazzis estão em todo lugar, não posso nem sair com uma amiga mais que sou bombardeado, isso é uma merda.
Amiga? A que ponto chegamos? Eu não sou amiga dele afinal, só tivemos umas entrevistas, umas conversas.. Mas nada demais. Chegamos perto do Rabbits e mando ele parar o carro.
– Bom, até mais. Nos vemos em breve.
Nos vemos mesmo? Eu acho que não. Julian é muito ocupado. Eu queria saber mais sobre a relação amorosa dele, não tenho nada e pra fazer uma ótima entrevista eu teria que ter algo bombástico. Perdi a oportunidade, então só me resta esperar alguém fazer esse trabalho por mim.
– Até. – digo rápido e saio do carro, esperando que ninguém tenha visto Julian lá dentro. Não seria nada bom pra mim. Está chuviscando fraco aqui fora, então não vejo problema algum pra seguir andando até o apartamento. Se tivesse chovendo como estava chovendo em sua casa, eu teria que esperar a chuva passar, dentro do bar, e eu não queria mesmo isso.
Entrando no apartamento, vejo Diane na cozinha fazendo algo. Ela manda um sorriso assim que me vê e eu sento-me no balcão para comer algo.
– Como foi? – ela pergunta como sempre.
– Melhor do que eu esperava. Julian deu um pequeno ataque quando perguntei sobre Leona, mas ele logo se recompôs. Queria saber mais deles dois.
– Não tem muito o que saber. A relação deles é caótica, e todos sabem disso. Todos sabem que eles discutem por causa dos vícios de Julian e pelas supostas traições de Leona.
O quê?
– Traições? – estou confusa. Nunca pensei que Leona seria disso.
– Claro, ela sempre é vista com alguém em festas. Julian tem uma má reputação por isso, e apesar dele saber que ela faz isso, ele não a trai. Bom, pelo menos eu acho. Se ele dorme com uma ou outra é por “vingança”. Mas Leona não liga. Ela não liga pra Julian.
Será que Diane está certa? Acho que tenho que começar a ver fansites do Julian, assim posso ter a certeza que ela está falando sério.
– Já rolaram boatos de que ela o traiu com Peter, o baterista. Deu uma treta daquelas. Julian acredita em tudo que vê e os dois brigaram. Haveria um show, e ele foi cancelado.
Eu lembro disso. Passou na TV várias vezes, e rolaram altos boatos de que a banda iria acabar a partir disso. Foi tudo desmentido depois e eles se reconciliaram. Não sei porque tanto alarde na época.
Decidi ignorar, aliás não tem porque eu me preocupar com ele mais. As entrevistas já se passaram. Me junto a Diane para ajuda-la a cozinhar, apenas para me ocupar mesmo, já que nunca tenho o que fazer. Eu preciso arrumar uma ocupação enquanto não sou chamada para fazer reportagens, mas não sei o que. Diane talvez possa me ajudar, mas não quero pensar nisso agora. Prefiro pensar em qual será o próximo famoso que irei entrevistar.
Já são 8 da noite quando eu e Diane estamos nos decidindo que filme ver e comendo comida japonesa. Quando eu cheguei, a ajudei com os cupcakes, mas pedimos comida japonesa para a janta, que nenhuma de nós queríamos fazer. É mais que normal eu e Diane nos juntarmos na sala para ver filmes ou séries em dias como esse em que estamos a toa. As vezes ela corrige provas ou planeja coisas para os alunos, porém ela deve estar de folga deles, visto que estamos quase nas férias. Enquanto Diane coloca um romance clichê no dvd, meu telefone toca.
– Oi?
– Alice! Incrível!
É o Luthor.
– Desculpe?
– Julian me ligou assim que acabou a entrevista. Ele me disse que foi incrível! Até me mandou reposta de algumas perguntas em meu e-mail! E certifique-se de mandar a sua parte também.
O quê?
– Oh, sim, claro. – eu mal conseguia falar. – Eu.. já as digito. E mando para o senhor.
– Brilhante. Ele não parava de falar bem de você!
– Ah, eu mantive o profissionalismo a todo momento, e ele é um garoto muito humorado, digamos que foi fácil lidar com ele nessa segunda vez. – decido deixar de lado o pequeno desentendimento que tive com ele.
– É, ele me disse que finalmente estava sóbrio pra alguma entrevista. Isso é bom, Julian está virando gente. – ele ri. É bem improvável isso.
– Pois é..
– Bom, de qualquer forma, obrigado pela incrível matéria. Não se esqueça de mandar, hoje mesmo, a entrevista pelo e-mail. Até mais, Alice!
– Eu que agradeço, até mais.
– E mais uma coisa.. Você está de folga, menina. Aproveite, pois iria ser bombardeada de entrevistas, mas chega de por esse peso nas suas costas, não é mesmo?
– Eu não me importo, sério.. – tento parecer convincente, eu não quero ficar um mês, ou até meses atoa.
– De verdade Alice, você merece. Aproveite esse mês, e boas férias!
Ele desliga o telefone antes de eu dizer algo e aviso a Diane que tenho coisas para fazer. Deixo-a vendo o filme sozinha e subo para transcrever a entrevista e mandar tudo para Luthor.
Ouvir a entrevista me traz divertidas lembranças. Julian desligando e ligando o gravador inúmeras vezes, falando sobre estupro, chutes na máquina de fliperama, duas doses de cerveja achando que eu iria beber com ele, e seu sorriso humorado sempre que fazia comentários sarcásticos. Fazia tempo que eu não me divertia numa entrevista. Apesar de na primeira ter sido tudo péssimo, a de hoje foi melhor. Passamos horas conversando sobre coisas de sua vida e o conhecendo melhor. O conheço a dois dias, porém parecia que tínhamos intimidade a muito tempo.
Coloco as partes mais importantes de nossa conversa, e a parte sobre Leona que deveria estar na matéria. Ele falava tão bem dela. Parecia um.. apaixonado. Eu não sei o que se passa, todos dizem que eles vivem brigando, mas ele parece gostar mesmo dela. Espero que venha o mesmo dela.
– Atrapalho? – me assusto assim que vejo Diane na porta, eu nem havia a visto entrar.
– Oh, não, eu já terminei. — ela sorri e deita em sua cama, deve estar exausta e nem terminou o filme. – Estou de folga, Diane. – anuncio e ela pula, literalmente, da cama.
– Como? Faltam umas duas semanas para as férias, não vai trabalhar durante esses dias?
– Não.. Bom, eu queria, mas não. – digo desanimada e desligo o notebook, colocando numa mesinha perto da cama.
– Você precisa arranjar algo pra fazer, lembra que já falamos disso né?
Sim, é verdade. Tinha até me esquecido da possibilidade de eu arranjar um emprego de meio período.
– Eu conheço um estabelecimento perto do colégio em que uma senhora está precisando de alguém para a substituir na bancada. Talvez se quiser, eu converso com ela para você.
Estabelecimento? Bancada? Tipo caixa, atendente? Eu não queria, mas preciso de algo para ocupar meu tempo e ainda ganhar mais dinheiro. Talvez fosse uma boa, talvez eu devesse aceitar.
– Converse com ela amanhã, se puder. – Diane sorri e deita de volta em sua cama, para finalmente poder dormir. Aulas amanhã para ela, e se tudo der certo, trabalho para mim. Estou até ansiosa para começar a me mover daqui.
Fale com o autor