Notas iniciais
Oi. Minha primeira história original, espero que arranquem uns comentários de vocês, eu adoraria muito ler e saber de vocês se gostaram desse capítulo, me ajudaria a escrever. *-* Obrigada qualquer coisa. ♥

And sometimes you close your eyes and see the place where you
Used to live
When you were Young (...)

When You Were Young – The Killers

Mais uma tarde difícil de entrevista. Meu chefe mais uma vez arrumou 3 entrevistas para essa semana, todas para a Rolling Stone. Trabalho como repórter na Rolling Stone, encarregada de entrevistar diversos famosos para matérias da revista. Dessa vez, o vocalista do Naughty Collapse, banda Indie Rock, e uma das maiores do atualidade, estaria na capa. E hoje, estou encarregada de entrevista-lo. Já havia feito as duas outras longas e cansativas entrevistas, e estou preparada para mais uma dessas entrevistas, ainda mais com o inconsequente do Julian Wilde. Conheço ele por notícias, e do que li eu já sei que ele não presta, que ele é uma pessoa difícil de lidar. Porém, não sei nada dele além disso. Não sei de onde veio, seu nome completo, sua idade, nem ao menos ouvi músicas de sua banda. Considero Julian muito mais famosos pelos seus atos do que pela música, a música é só algo a mais para apaixonar as garotinhas que amam um bad-boy. E ele é o exemplo perfeito de bad-boy. Lendo essas matérias que minha ideia de que ele estará bêbado e será difícil de lidar só aumentou. As perguntas foram feitas pela minha amiga, que divido apartamento desde meus 18 e que é fã desses caras desde a época que eles tocavam nos barzinhos daqui de Seattle. Sim, eles são de Seattle. Não são perguntas absurdas ou constrangedoras, nem muito clichês. Eu diria que são meio comuns. Vi que uma delas é sobre sua namorada de longo tempo, Leona Rogers, uma atriz de renome mundial, tão chique, fina e importante que nem acredito que esteja com ele. O que uma mulher como ela iria querer com um cara desses afinal? Talvez para salvar um pouco da má reputação que Julian faz questão de deixar clara. Ele só ainda não faliu porque é cheio de fãs, afinal tem muita garota que adora um cara como ele e sonha em dormir com ele um dia. Eu realmente não entendo.

Finalmente me levanto da cama, por volta das 7h30. Acordei cedo demais e a entrevista seria apenas a tarde, é um péssimo costume meu acordar cedo até em dias de Domingo. Quando desço para comer algo antes de me arrumar, Diane já está na cozinha preparando seus tradicionais sanduíches, provavelmente ela esperava que eu fosse acordar cedo como sempre e acabou fazendo dois.

- Bom dia, Alice! – Diane diz com sua animação de sempre assim que me vê descendo e estende seu sanduíche em meu prato.

- Bom dia. – sorrio e pego o meu sanduíche, dando uma mordida logo após. – Obrigada.

Eu e Diane nos conhecemos desde o primeiro ano do Ensino Médio, e divido esse apartamento com ela desde que nos formamos. Ela perdeu seu pai 1 ano antes de nos formarmos, o que tinha deixado todos nós arrasados. Tanto eu como ela sofremos muito, e eu e minha mãe nem hesitamos e logo a oferecemos para morar conosco. Ou isso, ou ela voltaria para Hartsdale, pra morar com seus avós, que pelo visto não gostavam muito dela. Nosso plano sempre foi se mudar de Seattle assim que ficássemos adultas, ter um ótimo emprego e viajar pelos Estados Unidos, sempre juntas, registrando todos os momentos em fotos, vídeos e escrevendo. Uma paixão que compartilhamos é pela literatura e escrita. Porém, eu virei repórter, e ela, professora de Inglês. Eu sei, caminhos totalmente diferentes, mas os dois vêm da paixão pelo Inglês. Eu não sou muito focada em literatura, afinal fiz curso de jornalismo, mas eu sempre amei. Já Diane dá aula para alunos de ensino médio e eu diria que ela se dá super bem com todos, seu entusiasmo é contagiante. Diane apesar de todas as dificuldades, ter crescido sem uma mãe e ter perdido o pai que tanto amava no auge de sua adolescência, ela sempre mantém um sorriso no rosto, está sempre radiante e adora ajudar os outros. Ela é a melhor pessoa que eu poderia ter conhecido.

Pois aqui estamos; não saímos de Seattle, temos 21 anos, estamos no meio do ano e nossa vida continua a mesma. Porém além de tudo, estamos felizes por tudo estar ocorrendo bem. Ainda temos tempo de sobra pela frente para seguirmos o plano de viajar pelo país.

- O que tem pra hoje para ter acordado tão cedo? – Diana quebra o silêncio, me desviando dos pensamentos. Logo percebo que quase acabei meu sanduíche e Diane já está com uma jarra cheia de suco. Nem percebi quando ela foi fazê-lo.

- Vou terminar as entrevistas para a Rolling Stone. – digo naturalmente e pego um copo de suco de morango. – A última, que é hoje a tarde, será com Julian Wilde.

Diane cospe o suco de volta ao copo e eu logo rio da situação. Esqueci do pequeno detalhe que ela tem uma queda enorme por astros do rock, ainda mais se for Julian. Eu não sei que poder ele tem de conquistar tantas garotas, até as mais cultas como Diane. E sempre é assim quando entrevisto astros do rock: “Me traz um autógrafo?” ou “Faz um vídeo dele mandando ‘Oi’ para mim?”. Diane é incrivelmente entusiasmada com meu trabalho.

- Eu não consigo acreditar! Finalmente você vai entrevistar o Wilde!

- Nem eu. Não estou muito ansiosa para isso.

- Ah qual é. Julian não é tão mau. Se ele estiver sóbrio, ele é pacífico igual nas entrevistas para TV, chega até a falar bem. Mas quando está bêbado, é bem divertido. Ele pode ser rude se não lhe agradar. Enfim, Julian é um cara bem incompreensível. – ela levanta-se e pega uma de suas revistas que tem ele e sua banda na capa.

- Você já conheceu Julian? – não pude evitar a curiosidade em minha voz. Ela dá um sorriso fraco.

- Já sim. Ally, eu vou subir, minha aula é daqui uma hora, eu nem deveria estar aqui! – ela ri e pega seu casaco. — Boa sorte com a entrevista. – então a porta se fecha e agora estou aqui pensando no que ela falou e cogitando se pode ser verdade ou não. Claro que eu não duvidaria de Diane, então eu acho que ela o encontrou eu alguma circunstância, afinal ele também é de Seattle e ela mora aqui desde que nasceu.

Tenho os contatos de Julian em meu telefone, já que meu chefe fez questão de eu guarda-los para eu poder marcar o horário que quiser, e se houvesse um imprevisto, eu mesma ligaria para Julian. Decido não mexer com isso e deixar a entrevista para as 14h mesmo, afinal a última coisa que eu queria era contato com o Julian, a não ser a entrevista. Espero que seja a única, eu não vejo ele como um grande astro. Preferia estar entrevistando agora pessoas como Rihanna, ou até as polêmicas como Lady Gaga, o melhor tipo de entrevista são com essas pessoas loucas, mas não loucas ao nível de Julian. Porém entrevistar alguém tão famoso quanto Julian pode ser bom para eu entrevistar pessoas mais famosas ainda.

Subi para o quarto levanto um copo de café. Preciso me ocupar com algo até a hora da entrevista, e hoje não tenho nada pra fazer. Meu chefe me deu uma folga para eu poder formular melhor as perguntas e levar o tempo que eu precisar para entrevistar os 3 artistas. Eu levei realmente a sério, geralmente faço matérias para Rolling Stone, mas nenhuma foi capa de revista. Precisaria fazer algo bem bolado para poder chamar mais a atenção do público. Não terminei as perguntas, não deixei Diane fazer todas, e eu precisaria totalizar umas 15. 20 no máximo, para reserva, e na hora eu escolheria. Sento na cama e abro meu notebook para começar uma pesquisa básica sobre Julian. Sei sobre suas polêmicas, mas não sei nada sobre ele.

Ao digitar “Julian Wilde” no Google eu tenho milhares de fansites e informações sobre ele. Wikipedia é muito genérico, mas é minha primeira opção.

Christopher Reed Wilde (Forks, 13 de Dezembro de 1987), mais conhecido como Julian Wilde, é um músico norte-americano, conhecido como o vocalista, guitarrista e principal compositor da banda estadunidense de punk rock The Naughty Scar.

Biografia

Julian é popularmente conhecido por ser “A voz do indie atual”, apesar de o estilo de sua música ser puxado para o punk. Formou sua banda em 2004 com amigos de colégio, Larry Hooker, Jay Blanco e Peter Turner, mas só fizeram sucesso no mundo da música em 2006, quando a banda lança o seu single de maior sucesso “You Only Live Once”, que vendeu milhões de cópias e levou os Naughty ao estrelato instantaneamente. (...)”

Passei horas lendo sobre Julian. Eu não costumava passar tanto tempo tentando ler e entender a história de um artista. A última vez que fiz isso foi para entrevistar Justin Timberlake, pois ele me interessou bastante. Posso até dizer que hoje em dia eu aprecio muito sua música, talvez posso até ser uma fã, mas fanática nunca. Descobri que seu nome não é Julian, e sim Christopher; descobri que ele é chamado de Julian desde seu ensino médio, quando uma namorada deu esse apelido à ele, por que era esse o nome que ela queria por em seus filhos. Terminaram um ano depois. E mesmo com o término, amigos continuavam a chamar ele Julian, ou Jules, e ele simplesmente gostou e pegou o apelido, afinal achava Christopher cafona. Eu particularmente prefiro Christopher. Também sei agora que ele veio de uma família pobre de Forks, uma cidade bastante fria daqui do estado de Washington. Eu nem conhecia até ler Crepúsculo. Ele morava lá com sua mãe, Anastacia Reed, e sua irmã 2 anos mais velha, Naomi Reed Wilde. Seu pai havia morrido dois dias depois de Naomi completar seus 2 anos, o que dificultou muito a situação financeira na casa, porém Anastacia conseguiu segurar as pontas até Julian completar 5 anos de idade e eles se mudarem para Seattle, para morar com sua irmã, Karine Reed. Ela ajudaria eles a melhorar de vida, mas não foi isso que ocorreu. Dois anos depois, Anastacia ficou grávida de um terceiro filho, com um cara que viria a ser padrasto de Julian e Naomi por 3 anos e com quem ela havia casado. Nasceu uma garota, de novo, e Julian que escolheu seu nome; Rebecca. Mas as situações começaram a ficar pior e elas tinham que ralar para conseguir pagar as contas. Julian, com 7 anos, e Naomi, com 9, começaram a cantar por gorjetas, mas mal ganhavam dinheiro, afinal Julian ainda era um menininho, porém com um grande potencial de voz. Houve um choque na família, que foi quando o atual marido de Anastacia e padrasto dos meninos, violentou sexualmente Naomi, que tinha 14 anos. Julian presenciou a cena, porém se pronunciasse ou fizesse algum movimento, ele mataria Naomi e Julian. Julian tentou contar para sua mãe, porém sempre era impedido por Naomi, por ter medo dele fazer algum mal a eles. Por isso, aquele homem continuava a abusar de Naomi, até que Julian tomou coragem e contou tudo para sua mãe, que ficou em choque. Naomi estava cheia de hematomas e cortes ao redor do corpo, e chorava constantemente. Houve brigas, e o homem quase matou Anastacia na frente dos filhos. Os dois se separaram rápido e ele foi preso por abuso sexual de menores e tentativa de homicídio. Naomi havia ficado traumatizada, então teve apoio psicológico por anos. Julian amava muito suas irmãs e fazia tudo para as fazer felizes, então seu senso de humor vem de cedo. Ele não suportava ver Naomi chorar, então sempre dormia no mesmo quarto dela. Ele a protegia, mesmo sendo mais novo que ela.

Julian arranjou um trabalho com 15 anos, e Naomi na intenção de ajudar, aos 17, tentou arranjar um emprego também, já quase formando-se no ensino médio. Julian começou entregando jornais. Aos 17 anos, já começava a entregar pizza na casa dos outros, para ajudar sua mãe nas finanças. Todo o dinheiro que ele ganhava ele tentava dar mais da metade para ela. Ainda aos 17, ele formou uma banda com seus amigos de colégio, um deles namorado de Naomi, e com o dinheiro que ele juntara desde seus 15 anos, comprou para si um presente de 18 anos: uma simples guitarra Fender Stratocaster preta. Ele nunca esteve tão feliz. Desde então, eles ensaiavam no porão da casa de Jay Blanco (o namorado de Naomi), o baterista da banda, e ao mesmo tempo Julian trabalhava entregando pizzas. Abandonou o último ano do ensino médio para se dedicar á musica, então entrou no mundo das drogas junto com seu ex-colega de banda, Trevor Malone. Ele era o pior pesadelo da família de Julian. Ele fez Jules se afastar de todos, virar um delinquente e estúpido. Aos 19 anos de Julian, sua mãe faleceu de parada cardíaca. Julian ficou tão devastado que se afundou mais ainda no mundo das drogas e bebidas. É por isso que é o que é hoje. Apesar de ter se perdido e da fama toda, ele ainda mantém contato com suas irmãs, de acordo que li numa entrevista de um fansite, ele liga para elas sempre que pode, porém lamenta pelo comportamento compulsivo dele. Li que Naomi tem uma personalidade forte e pretende lançar uma biografia sobre a infância e adolescência de Julian daqui poucos meses, daqui um ano quem sabe. Também diz que aprendeu muito com sua infância, porém bebe para esquecer os baixos que viveu, para esquecer a cena de estupro de sua própria irmã, ou esquecer de quando ele voltou para casa e sua mãe estava no chão, já morta. Não quero nem imaginar como ele se sentiu, o que ele fez na hora. Eu ainda não sei como é, mas eu pude sentir metade da dor de Diane quando perdeu o pai.

Dizem que Trevor Malone continua amigo de Julian e causa ódio em suas irmãs. Naomi está noiva de um rapaz muito bonito, e é bem afastada do mundinho de Julian. Odeia ser fotografada ou o seu conhecimento por ser “A irmã coitada de Julian”. O mesmo ocorre com sua irmã Rebecca Reed, que cresceu atormentada por seu pai ser um estuprador e quase ter tentado matar sua mãe. Ela foi a que mais sofreu nisso tudo, e precisou de mais apoio psicológico do que Naomi. Porém o amor de seus irmãos e sua mãe a ajudou a superar a dor.

E é basicamente essa a história de Julian. Eu li tudo isso e mais um pouco, e estou chocada. Julian passou por tanta coisa que nem imaginei; eu pensava que ele era um playboyzinho inconsequente, que não dava valor a nada. Mas ele foi o homem da casa, foi ele que teve que ajudar e apoiar sua irmã Naomi, ele que tentou ajudar sua mãe quando ela foi quase assassinada. Ele sempre tentava ajudar, mesmo que com misérias de dinheiro, sua mãe e tia passando por dificuldades. Apesar de todas as coisas que ele faz, ele é um menino de ouro por dentro. Não quero tocar na parte de sua vida pessoal, voltar no passado ou fazer perguntas do tipo “Quantas namoradas você teve?” ou “Quando foi seu primeiro beijo?”, apesar de tudo, eu já li isso mesmo. Revista de fofocas adolescente tá ai pra isso. Fiz algumas anotações sobre ele e salvei todas as informações possíveis num documento, para revisar antes de ir entrevista-lo. Nunca estudei tanto uma pessoa, e nunca fiquei tão entretida numa história. Definitivamente vou comprar a biografia que Naomi escrever. Eu adoraria ver o ponto de vista dela em relação a todas as coisas que aconteceram. E mais do que nunca, também tenho vontade de vê-la, ainda mais que Julian.

Fecho o notebook, vejo que passei 3 horas só nisso, e decido tirar um cochilo. Ligo meu despertador, e tento pregar os olhos, pensando nas coisas que acabei de ler.