You On Me

1 Capítulo 1 - Fingir


Notas iniciais
Esse é só o começo e é bem light ao comparar ao que estar por vir. É mais para dar o entendimento à história. Enjoy.

E lá estava eu encarando com lágrimas pendentes minha adversária como se fosse a última coisa útil que eu faria da minha vida. E talvez fosse. Conseguia ver alguns fios de seus longos cabelos loiros; um pouco acobreado; cobrindo uma parte de seu rosto delicado que agora já estava coberto pelo sangue que escorria de seu supercílio enquanto ela respirava ofegante e me olhava com seus profundos olhos castanhos que eu jurava ter visto iguais em outra ocasião. Em outra pessoa. Sentia seu abdômen subir e descer ofegante em baixo das minhas pernas enquanto eu tentava manter o foco pra não desistir de tudo naquele momento e colocar tudo a perder. Fraca. Observei com dificuldade meu antebraço sobreposto sobre seu pescoço fino e suado enquanto, agora, eram os meus fios loiros que caiam sobre o seu rosto e atrapalhavam minha visão turva não só pelo cabelo em minha face, mas, também, pelos olhos marejados. Todo o esforço de anos de preparação e treinamento foi pra chegar a isso? Meu olhar seguiu direto aonde meu treinador e por mais irônico que fosse, meu irmão, gritava meu nome incansavelmente seguido por um “Finaliza! É a sua chance!” que eu realmente não estava dando ouvidos e segui meu olhar para fora do ringue e desejei não ter feito isso quando meu olhar se cruzou com o dele. Eu não podia fazer aquilo com ele, eu não podia fazer aquilo comigo, eu não podia fazer aquilo com a minha adversária que se encontrava exausta embaixo de mim e foi aí que eu voltei o olhar para ela. Ela que eu temi minha vida inteira e que agora estava sobre o meu controle. Eu estava lutando comigo mesma, eu estava lutando com a minha irmã, — ou o que eu ainda imaginava dela.

Enfield, 14 de maio de 2012, 6:29a.m.
Uma manhã normal como julgada pelo estereótipo e com o tão esperado sol em Enfield, o qual raramente podia ser visto nessa época do ano, era algo como o clima londrino. O sol por mais fraco que fosse acordou a menina Luna, — como a simpática governanta Dominique a costumava chamar -, que já estava mais do que acostumada quando exatamente 6:30 o pequeno relógio branco em cima da cabeceira da sua cama, que ela necessariamente achava um exagero pro seu porte médio, soava irritante e ela fazia um esforço gigantesco pra não jogá-lo na parede. Pensou consigo se esses relógios eram feitos de um material resistente, se não, os fabricantes realmente deveriam pensar em fazê-los resistentes o suficiente ao encontro do soar irritante com a parede. Mas se os fizessem resistentes eles não quebrariam o que resultaria em uma diminuição relativa nas compras de relógios do criado-mudo, uma queda nos bolsos dos empresários de relógios o que poderia depois de um tempo falta de dinheiro. Esqueça. O relógio não seria jogado contra a parede. Depois de toda a cerimônia de acordar, se arrumar e todas aquelas coisas que as mulheres fazem para ficarem apresentáveis até para uma mísera barata no lixo à frente de sua casa e respirar fundo pra criar coragem pra sair do quarto, ela desceu para tomar café. Sabe aqueles dias que você acorda e não quer ir pra nenhum lugar que seja fora do seu mundinho aconchegante, vulgo cobertores, porque "tem gente" lá fora? Certamente hoje era um dia vinte vezes pior que esse para Luna, não só pra ela, mas provavelmente para todos que tem que acordar a esse horário em um dia como se passava esse 14 de maio.
Passou pelo corredor largo e bem pintado de uma cor sem vida, uma mistura entre amarelo, verde e bege que ela julgava de muito mal gosto e prestou sua atenção nos quadros perfeitamente alinhados pendurados nas paredes em ordem. Perguntou-se o que fariam aqueles quadros sem fotos pendurados na parede já que passou ali na noite anterior e não os avistou ali. Ou ela estava cansada o bastante para não ter reparado ou sua irmã teria os colocado talvez hoje mais cedo. Desceu as escadas já escutando as clássicas gargalhadas matinais de Alison e Lúcio — seus irmãos os quais ela vivia junto — e adentrou a cozinha avistando Lúcio na frente da torradeira enquanto Alison gargalhava de alguma história aleatória que o irmão contava.
— Bom dia, meu anjo! – Lúcio disse com um sorriso no rosto que derreteria qualquer mulher (que não fosse sua irmã obviamente) enquanto virava novamente para checar se seu pão não havia torrado além da conta. Ele sempre fora um péssimo cozinheiro.
— Bom dia, grandão! – respondeu bem humorada, apenas para ele e nem dirigindo o olhar para Alison que estava ocupada, — ainda — rindo com algo que ela não sabia do que se tratava — Bom dia Alison!
— Bom dia, sweetheart! — respondeu em meio de todo aquele riso.
— As coisas de vocês já estão arrumadas? Só vou comer e já sairemos, Thara já está na academia... — Lúcio alertou as irmãs e antes mesmo delas responderem completou: Odeio atraso e vocês sabem então...
— Falta pouco — Alison sorriu radiante para a irmã gêmea quando as duas trocaram olhares cúmplices uma para a outra e mal sabia Luna que aquele seria um dos últimos sorrisos que ela veria na irmã.

Enfield, 5 de março de 2013, 5:47p.m.
— Só isso que você consegue fazer, maninha – Luna ouviu a voz de Thara a chamando do jeito que acostumou ouvi-la chamar Alison e abriu os olhos vendo Lúcio, seu treinador e irmão, olhando desapontado para ela enquanto a mesma fazia força para se manter acordada o bastante para talvez reverter a situação e virar o jogo contra Thara. Sentia-a apertando cada vez mais seu antebraço no seu pescoço suado em algo que chamavam de mata-leão, Luna já respirava com dificuldade e sabia que não aguentaria por mais tempo. Bateu sua mão três vezes no braço de Thara sentindo ela a soltar e rir satisfeita enquanto tirava o protetor bucal. Thara com certeza era uma das melhores na categoria dela, peso médio, enquanto Luna estava a uma categoria abaixo da dela, meio-médio. Frustrada. Frustrada por perder mais uma fez para Thara, Luna secou o suor na sua testa com as costas da mão e olhou para sua irmã que tinha o brilho da vitória sempre nos seus bonitos olhos verdes. Se ela se sentia boa o bastante? Não tinha tanta certeza.
— Luta finalizada por desistência, de novo — Lúcio nem precisou olhar para Luna, a garota sabia que o desapontamento na sua voz já a deixava pequena o bastante, enquanto entregava uma garrafa de água para Thara e Luna por sua vez apenas abaixou seu olhar tirando o protetor bucal e tentando se focalizar em qualquer coisa que não fosse a direção onde os dois estavam — Luna olhe para mim, — pediu o irmão a repreendendo e ela olhou imediatamente para ele, — Se você continuar assim, vai à lugar nenhum no campeonato, focaliza menina! Se você não vencer nem que seja pelo menos uma vez Thara, não tem condições de competir, eu lamento mas é a verdade.
Luna sabia que se tratava da verdade, a mais pura verdade. Thara por sua vez não estava preocupada ou com pena da irmã, ela queria ganhar e estava disposta a passar por cima de quem seja para isso. E dito isso Lúcio saiu do ringue seguindo para uma especie de escritório deixando Luna ali cansada e se sentindo ainda mais pequena e indefesa pelo olhar de Thara.
— Você sabe que é melhor desistir né?
— Você sabe que eu não vou, — Luna rebateu persistente e foi até ela pegando a garrafa de água de sua mão, — Não vai ser tão fácil assim pra mim desistir. Você sabe. Não tenta, Thara.
— Não vai ser tão fácil assim para você ganhar, você sabe que não consegue. Não seja tola, maninha.
Você sabe que não consegue. Talvez ela não conseguiria, mas faria de tudo para sair vencedora nem que fosse só em sua mente. A promessa que fez para sua gêmea antes de sentir seu coração parar e os olhos azuis se fecharem não iria passar batita. Lembrou de quando chegavam da escola de tarde e quando Thara e Alison iam direto para a academia para treinar enquanto Luna ficava brincando com as malditas bonecas que hoje em dia ela as julgava incrivelmente assustadoras. Lutas nem sempre foram o principal na sua vida, se importava mais em estudar do que ficar malhando para ganhar força ou treinando para ganhar técnica, preferia fazer faculdade do que participar de competições para ganhar medalhões ou o tão desejado cinturão. Tudo isso não fazia sentido na sua vida até o dia que Alison morreu.
Iria fazer 1 ano e 4 meses desde que uma bala atravessou o peito de Alison enquanto iam para o treino e Luna prometeu a si mesma que não a desapontaria. Alison sim amava lutar. Era admirável como ela se entregava quando entrava em ringue, o que mais a intrigava é que ela nunca quis participar de competições sempre dizia que ela lutava por prazer e não para ter títulos pendurados nos armários.
Luna jogou a garrafa de água que estava em sua mão para o chão e foi até o armário no qual guardavam as luvas, capacetes, protetores bucais e coisas do gênero ignorando Thara e pegou uma luva de boxe se direcionando até um saco de pancadas enquanto coloca as luvas devidamente certas. Parou na frente do mesmo e começou a socá-lo. Dava socos diretos, cruzados, ganchos, direto e alto, chutes que poderiam seriamente machucar alguém. Estava com raiva. Raiva por não ter conseguido de novo. Raiva por não ter se dedicado. Raiva por ter deixado Thara tomar conta de sua vida. Raiva por Alison não estar mais ali. Lembrou que evitava de se olhar no espelho para não ter que ver um fantasma diante de seus olhos azuis idênticos aos da irmã, era horrível se lembrar dos momentos que já passara com a irmã que agora não se passavam de memórias tristes. Por mais que fossem momentos felizes como datas de aniversário e altas risadas era triste porque ela nunca mais viveria nisso. E foi nesses pensamentos estúpidos que ela parou com os socos e chutes e se segurou no suporte já chorando. Encostou sua cabeça no sacos de pancadas e chorou não se importando se Thara ou Lúcio estariam ali ou não.
— Você tem que parar com isso — uma voz masculina e confiante ecoou na academia quase vazia e Luna não moveu um músculo sequer para se virar e ter que encarar Luke, levando em consideração o estado que se encontrava. Não que isso não tivesse acontecido várias outras vezes porém quem sempre a encontrava desse jeito frágil e desesperada era Kien que mesmo não a entendendo ele sempre a ajudava de um jeito ou outro. Nenhum dos outros garotos jamais havia encontrada Luna nesses momentos, isso não quer dizer que eles não saibam o que acontece. Sempre que ela tinha esses ataques de raiva e percebia que eles estavam chegando, corria rápido para o banheiro onde podia respirar com calma e lavar o rosto pra depois mentir que era apenas uma simples alergia.
— Com isso o quê? — a voz baixa e abafada que Luke ouviu de Luna, por causa do saco de pancadas onde ela ainda estava apoiada, parecia desesperada e ao mesmo tempo implorando para ele parar com aquilo.
— Não finge que não sabe.
Fingir.
Tá aí uma coisa que Luna andava fazendo. E muito. Não só ela mas todos na academia.
Thara fingia que não escutava os avisos de Lúcio para ela manerar com os treinos.
Lúcio e Jaiden fingiam que não ficavam abalados com a morte de Alison e até mesmo as contas pra pagar.
Os garotos fingiam que não sabiam de nada.
E Luna fingia que estava razoavelmente bem.
— E como você sabe? — finalmente Luna se soltou do saco de pancadas e se virou para Luke, — Quer dizer, você não entende o que é perder sua outra metade. A pessoa que sempre esteve ao seu lado, em tudo! Sabe o quão difícil é eu me olhar no bendito espelho e ver minha irmã? Que está morta? É como se eu tivesse vendo um fantasma — Luna tirou as luvas impaciente e sentindo seus olhos arderem um pouco então permitiu-se olhar para Luke. Ele estava sem camisa o que deixava a mostra a tatuagem no lado direito do peito que podíasse ler claramente: "If you can't, you must. If you must, you can." além do óbvio abdômen definido, ele olhava para suas mãos que seguravam uma camiseta azul.
— Eu posso imaginar, — olhou para Luna e mordeu de levo o canto inferior esquerdo do seu lábio já que o esquerdo era ocupado por um fino e preto piercing — Sabe, depois do que aconteceu com a sua irmã eu paro pra pensar o que seria que mim se acontecesse alguma coisa do tipo com o Jai, você sabe... Eu tenho uma ideia do que você sente. Eu iria enlouquecer.
Jai, irmão gêmeo de Luke, que também treinava na academia. Luna se lembrava vagamente de passar os domingos ao lado de seus pais e os irmãos Brooks e sua mãe. Se reuniam sempre na casa de uma das famílias e passavam o dia basicamente fazendo nada. Eles cresceram juntos e Luna sentia que eles realmente se entendiam muito bem, até a morte de Alison. Depois do que aconteceu Luna ficou afastada no mínimo cinco meses da academia e isso afetou tanto o seu desempenho na luta quanto nas amizades que ela tinha ali. O pior é que Luke tinha uma breve noção o que Luna sentia. Das milhares de vezes que ele parou para pensar nas coisas horríveis que aconteceria se Jai morresse nenhuma vez ele deixou de pensar nas gêmeas Wynter e em como ele não queria que o mesmo que aconteceu com Luna acontecesse com ele. Sempre quando Jai ficava doente, nem que fosse com um simples resfriado, ele já ficava preocupado. Imagine então com a morte.
— Desculpe, eu... Eu não me dei por conta — Luna olhou para o chão e cruzou seus braços.
— Tudo bem — Luke largou sua camiseta e a mochila, que Luna percebeu estar no seu ombro o tempo todo só agora, no chão e foi em direção a garota beijando o topo de sua cabeça e a abraçando. Luna respirou fundo sentindo o cheiro de Luke o qual ela estava tão familiarizada e que achava que era uma mistura de perfume masculino, chocolate e sabonete barato que diga-se de passagem o resultado dessa mistura ela julgava maravilhoso.
— Você cheira a suor — Luke comentou baixinho e Luna deixou-se sorrir.
— Obrigada — disse simplesmente ignorando e o abraçando mais forte e Luke deu uma risadinha involuntária enquanto apertava a garota mais fortes em seus braços.
— Então... O que você vai fazer agora? — Luke tentou parecer o mais sutil possível ao fazer aquela pergunta à Luna.
— Sobre o que? — a voz da garota ainda estava fraca por mais que ela não quisesse demonstrar.
— Tudo isso.
— Sinceramente? — suspirou — Não faço a mínima ideia.

Enfield, 5 de março de 2013, 6:12p.m.
Lúcio olhava para o relógio que fazia um barulho incrivelmente irritante em cima da porta de saída do seu escritório pequeno e escuro tentando encontrar uma solução para todos os problemas que Jaiden jogava em cima dele cada vez que passava pela porta.
— E então? O que você acha? — escutou a voz alta e jovem de Jaiden e virou seu olhar para ele que estava com um misto de confiança e esperança nos olhos.
— É ótimo para o reconhecimento da academia, vai ser grande mas-
— Podemos dizer que sim então?
— Mas... Quer saber? Jaiden eu não posso colocar tudo em risco. E isso — Lúcio levantou de sua cadeira empoeirada e se apoiou com os punhos na mesa de madeira escura — É um grande risco. Todos prometeram concordar com essa situação! Não vou colocar tudo isso em risco. Eu não posso fazer isso.
— Ah vamos Lúcio! Deixe isso de lado. — Jaiden sorriu gananciosamente para Lúcio que desviou o olhar de Jaiden.
— Isso envolve minha família Jaiden, eu não posso colocar tudo a perder, eu não posso fazer isso e arriscar aquilo ali. — Lúcio sugestivamente olhou para a porta indicando o lugar onde todos estavam treinando.
— Você não tem escolha, é isso ou vamos ter que fechar. Você sabe disso, velho — Jaiden sentou-se na em uma das duas cadeira postas na frente da mesa de Kien e manteve um sorrisinho bobo estampada.
Lúcio na verdade nem sabia o porque de Jaiden estar ali. Por amor ao esporte com certeza não era. Que tipo de amor é esse que preza mais a ganancia e o reconhecimento do que a própria arte? Por mais detestável que Jaiden fosse, ele estava certo. Se não arrumassem um jeito rápido de ganhar dinheiro para manter os equipamentos, acessórios e o espaço ativos e pagar as dívidas, iriam fechar.
— Ligue para eles e diga sim. — por mais que tivesse que passar por cima dos seus valores e da sua promessa, esse foi o decreto final de Lúcio.

Notas finais
Talvez vocês estejam se perguntando sobre as irmãs e blah blah blah. Bom, sintam-se à vontade para fazer quantas perguntas desejarem. E by the way, eu imagino Luna e Alison como Sasha Pieterse se isso importa. Espero que gostem. Beijos?