You Make Me Wanna Die
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Finalmente meu pai resolveu mudar de vida, novamente. Não que isso fosse bom, mas era melhor do que o jeito como estava nos últimos 4 anos, com a minha, acho que quinta, madrasta, a Medellyn. Ô bicha nojenta.
Não somente ela quanto seus modos de vida e onde morava. Odeio e sempre vou odiar Nova Iorque. Uma cidade muito movimenta para uma pessoa demasiada lenta como eu. Nunca me acostumei e nunca me acostumaria. O fato de em 4 anos não ter feito nem um amigo era uma prova muito forte de que eu não pertencia aquela cidade.
Me apressei para arrumar minha última mala. Enfiava minhas roupas de qualquer jeito, não me importava se estariam amassadas ou não quando chegasse no meu novo lar. Só me preocupei em ser rápida. Não queria ficar ali nem por mais um segundo.
– Marie! – Ouvi a voz rouca e infantil do meu irmão mais novo, em um tom de alegria.
– Mick! – Falei, me direcionando para a porta, onde ele se encontrava apoiando seu corpo minúsculo e dando um abraço esmagador nele. – Tenho que terminar as malas, pequeno. – Sussurrei no seu ouvido, ainda o abraçando.
– Acho bom, arrume rápido, quero ir logo para o avião! – Falou com animação.
Foi ótimo ver Mick animado. Sorri com isso.
– Mick, — Falei cheia de pausas. – isso não irá ser possível se você não me ajudar. Que tal?
Nem precisei de resposta. Ele se direcionou, meio emburrado, mas ainda sorrindo, para meu armário, me ajudando a guardar o que restava por ali.
Já tinha arrumado tudo. Aproveitei para dar uma ultima olhada na casa. Passava meus dedos sobre os cômodos largos e sujos que ali estavam, lembrando dos momentos bons, porém raros, que ali tive. Eu não sentiria falta disso, com certeza não... Mas gostava da casa, de algumas memórias...
– Vamos? – Apareceu meu pai, Rick, na porta de entrada, cortando totalmente minha despedida da casa.
– É, pode ser. – Sorri fraco. – Vamos.
A verdade é que estava cansada de me mudar de casa. Mudar de cidade, família, modos, colégio... Queria alguma coisa que permanecesse pela vida inteira.
O aeroporto não era tão longe da minha ex casa, assim, não demoramos tanto para chegar. Mas durante os 15 ou 20 minutos de trajetória, não deixei de por meus fones e escutar uma música qualquer no último volume.
Música é indispensável.
Chegamos um pouco cedo, o que foi bom, pois Mick e eu estávamos famintos. Resolvemos tomar um café da manhã por ali, rapidamente.
Chamada para o vôo 345, de Nova Iorque para Londres.
Tá ai nossa deixa. Logo que ouvimos fomos direto para a fila, fazer o check-in.
Como isso poderia demorar tanto? Fazia minutos que havíamos entrado no avião e nada dele partir. Eu estava ansiosa... Não por causa do vôo, pois já havia pegado aviões até demais; mas porque queria conhecer minha nova casa. Esse sempre era um motivo de suspense e curiosidade. Será que dessa vez era uma casa vitoriana? Uma casa litorânea? Seria antiga? Nova? E os móveis?
Espero que tudo seja diferente da anterior. E das anteriores á anterior.
Mick estava inquieto do meu lado. Era o seu primeiro vôo de avião, já que nascera em Nova Iorque.
– Calma, moleque, vai ficar tudo bem. Sabe que já viajei muito nestas coisas, não é? – Sorri confiante, tentando confortá-lo. Mick nunca foi um menino muito corajoso...
– Mas Marie, e se cairmos? E se um passarinho entrar no motor e nós morrermos? Eu não quero morrer hoje.
Não agüentei, ri da desgraça do pobre. Logo levei um tapa no braço, que fez com que eu me endireitasse.
– Sua gorda, não é pra rir.
O abracei, tentando deixá-lo menos tenso.
A viajem foi longa. E quando digo longa, digo que sobrevoei por 8 horas que mais pereceram uns 15 dias. O pior foi os berros desesperados e constrangedores que Mick dava ao passarmos por alguma turbulência. Porém o que mais sofreu com tudo isso foi o meu cabelo, que era puxado sem dó nem piedade pelo meu irmão enquanto eu ria de sua desgraça. Mas era inevitável...
Cheguei dolorida e com dores de cabeça, carregando um Mick molenga de tanto sono.
Fui procurar meu pai no meio da multidão que saia do avião, já que não conseguimos assentos próximos, nem imaginava onde ele estava. Mas com toda a certeza ele tinha ouvido os berros de Mick... Pessoas surdas teriam conseguido.
Avistei ele saindo do avião meio grogue. Cara de quem dormiu a viajem inteira... Típico dele.
Ele se aproximou de nós e eu apenas lancei um olhar significativo para ele, tentando demonstrar o quanto queria chegar na casa.
Uma coisa positiva entre eu e meu pai era nossa comunicação. Nós nunca precisamos de muitas palavras, só quando queremos contar detalhes. Quando queríamos contar alguma coisa um para o outro ou dar algum tipo de aviso, nos comunicávamos por olhares. Acho que isso deu-se porque eu e meu pai somos muito reservados, ou apenas porque nos conhecemos muito bem.
Ele logo fez sinal para um táxi e nós entramos. Ele deu o endereço da casa para o senhor que dirigia, que logo se concentrou em segui-lo.
Olhei com admiração para a bela Londres. Apreciei seu clima e fiquei curiosa para saber que horas eram ali, para ajustar meu relógio.
Mick permanecia molenga, porém com um pouco de animação. Olhava através das janelas com certo brilho nos olhos.
Londres parecia calma. Apreciei seu ritmo, que tanto se encaixava ao meu.
De repente o táxi parou, alegando a nossa chegada.
– Mick, Marie! Tratem de ajudar eu e o Sr. Kimberly a descarregar suas malas! Elas não são nada leves. – Exclamou meu pai lá de trás do táxi, onde estavam guardadas todas as malas. Como tudo coube ali?
Animados, saímos eu e Mick do táxi, carregando o número de malas possíveis.
– Pai, qual das casas é a nossa? – Perguntei, olhando para todas as casas que ficavam naquela rua. Qualquer que fosse seria linda.
– A do outro lado, querida.
Virei, fitando uma casa que parecia ser muito antiga. Retiro o que disse. Ah não, tudo menos casas antigas. Por que não fomos morar em uma caixa de papelão em uma praça qualquer? Seria milhões de vezes melhor.
Eu tenho pavor de casas antigas, velhas. Não simplesmente pelo fato de rangerem e serem infestadas de bichos inimagináveis. Eu tinho pavor das pessoa que encontraria ali. Ou “Pessoas”, melhor falando.
Das pessoas que por um incidente morreram ali e por lá ficaram. Fantasmas. Almas perdidas procurando por uma razão pela qual ainda não seguiram em frente. E imagina quem tinha que ajudá-las a achar a razão? Não basta eu ter meus problemas, eu tenho que ainda resolver os problemas de pessoas que nem mais vivas são. Isso é ótimo.
Me direcionei desanimada para o portão da casa, que rangia conforme eu o empurrava com a perna direita.
Mick entrou completamente eufórico, achando tudo aquilo o máximo.
– Pai, — Mick falou, sorrindo e sacudindo seu corpo de um lado para o outro. – Essa casa é demais! Ela é gigaaaaaaaante!
– Não é legal? – Falou, demonstrando satisfação ao ver a reação de Mick.
Não queria mostrar meu desgosto pela casa, para não cortar o momento deles. Afinal, nem um dos dois tinha culpa se eu sou uma mediadora. Muito menos se eu resolvi esconder esse “pequeno” grande segredo da minha família.
Entrei levando minhas malas para a sala, que era razoavelmente grande, tentando dar o meu melhor sorriso. Não esperava a hora de ver qual pé junto que iria aparecer para me encher primeiro...
– Pai, pode me mostrar meu quarto? – Falei.
– Sim, sim. Vêm! – Falou apoiando suas mãos em minhas costas, me direcionando para a escada que levava ao segundo andar. – Vem você também, Mick. Quero mostrar seus quartos.
Subimos as escadas, que como de costume em qualquer casa com mais de uns 30 anos, rangeram como se fossem partir-se ao meio.
Direcionamo-nos para uma porta que ficava no início do corredor largo.
– Marie, seu quarto é esse aqui. – Falou abrindo a porta.
Após abrir a porta por completo, não consegui deixar de perceber o quanto tudo era muito... Rosa. Um colchão de casal rosa, com colchas rosa e paredes rosa com um armário rosa bebê e uma penteadeira, que adivinha? Também rosa.
Tudo que não era rosa era branco, incrível.
Uma pena que eu odiava rosa. Uma pena mesmo...
– É... – Fiquei sem graça. – Bastante rosa, não? – Ri, ainda sem graça.
– Eu sei que não chega a ser uma de suas cores favoritas, mas era o único molde feminino que estava no valor que eu poderia comprar. Desculpe.
– Não, não, eu adorei. – Abracei-o, em agradecimento. Eu sabia que ele estava se esforçando para fazer com que eu e Mick fossemos felizes e tivéssemos tudo àquilo que precisarmos.
– Pai, quero ver o meu! Anda! – Mick, impaciente, puxava a blusa de Franck.
Eu e meu pai trocamos um sorriso, um abano de mãos e logo fechei a porta no meu novo quarto, mergulhando naquela imensidão rosa.
Coloquei todas as malas em cima da cama, que era gigante, e me virei, pronta para ir em direção da janela que ali ficava, com uma ótima vista de Londres, quando dou de cara com um menino jovem, sentado no sofá que ficava próximo á janela.
Um “menino”.
– O que você quer? – Perguntei já impaciente e fuzilando-o com os olhos.
Ele pareceu realmente surpreso. Olhou para os lados, certificando-se de que era para ele que eu dirigia a pergunta. Assustado, olhou para mim e tentou limpar sua garganta, para poder falar alguma coisa.
– E-eu? –Sua voz era rouca e denunciava que não era utilizada a um bom tempo.
– Não, capaz. Estou falando com a minha tartaruga, sabe? A que eu não tenho. – Debochei.
Ok, eu não estava sendo nem um pouco legal com o “garoto”. Mas foda-se... Cansei de ser legal com os mortos e receber um hematoma em troca.
– Desculpe, não sabia que podia me ver. – Sua voz demonstrava espanto, ainda sendo calma e as palavras pausadas. – Meu nome é Harry, e o seu, senhorita?
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