O sangue pingava incessantemente do braço de minha vítima. Ela berrava, chorava, se esgoelava. Eu sorria. Adorava quando eles ficavam assim. Descontrolados. Correndo. Berrando. Fugindo como se isso fosse possível. A pele dela se tornara mais branca. O corpo começara a produzir adrenalina. E isso deixava o sangue delicioso.

Os olhos dela varreram todos os meus dentes. Suas mãos foram à cabeça, em forma defensiva. Eu era grande. Dava duas dela. Aquilo não era proteção nenhuma. Não quanto a mim. Apertei minhas mãos ao redor do pescoço dela – não o suficiente para mata-la. Eu queria fazê-la sofrer. Queria ver o medo nos olhos dela. Queria que ela me implorasse pela vida, e quando eu começasse a mata-la – pouco à pouco, arrancando-lhe a pele – queria que implorasse pela morte.

Ela começou a soluçar. Soltei o pescoço e tomei-lhe a mão. Ela agradeceu de uma forma peculiarmente idiota. Até que comecei a pressionar seus dedos- para trás, devagar, quebrando-os osso por osso. Ela se agarrou à minha capa com a outra mão. Meu capuz caiu, pôde ver meu rosto transfigurado. Os cortes iam paralelamente por minha bochecha, que sagravam eternamente. Um globo ocular meu, pendurado pelo ligamento, fora da órbita, dependurado, com lágrimas a escorrer dele, lembro quem me fez isso.

Lembro do olhar dele. Lembro da missão dele. Seu corpo era naturalmente desfigurado. Seu rosto era uma mistura de feiura comum com uma maldade sórdida adquirida pela vivência num mundo que o derrubou. Que o chamou de aberração. De monstro. Até que ele virasse um. Ele fez isso comigo. Agora, eu passaria esse legado adiante. Essa mulher não morreria mais. Ela definharia. Mataria e beberia sangue de cada ser humano que lhe cruzasse o caminho. Mataria com prazer.

Vou lapidá-la. Com fogo, sangue, dor. Com ódio, lágrimas.

Algo morreria nela – a humanidade, a sanidade, ou qualquer coisa do tipo. E algo nasceria – sede de sangue (mate, mate, eles não ligam mais para você), uma loucura interminável (faça-os sofrer, eles querem te enlouquecer, te trancar numa jaula, e te ver cair, cair, num precipício sem fim, e rir, rir do pobre monstro, que já se foi tarde, tarde demais) e uma invulnerabilidade ( não se canse, não, nunca mais, só mate, persiga, uma, duas, tire-lhes as almas, quatro, cinco, seis faça-os sofrer, torture-os)

Eu era Frankenstein – criaria o monstro perfeito, a minha imagem e semelhança. Ela seria minha marca para o mundo – mais um desajustado, mais um assassino desvairado, rindo e desossando suas vítimas- ainda vivas – uma a uma. Deixa-las sofrer- como vão deixa-la quando a olharem e a virem como monstro (desfigurada, horrível, digna da morte, ou pior, digna de pena).

Um olho azul – logo será manchado de sangue. Um rosto perfeito- logo será marcado pela lâmina. Ela já está perdida, só tem que aceitar isso- aceite logo. Ela já está transfigurada pelo medo- olhe-se no espelho. E depois que passasse por isso em vida, seria amaldiçoada- mil vezes amaldiçoada seja – e passará de novo em morte, em vida eterna. Seus ferimentos sangrarão para sempre, suas marcas lhe atormentarão para sempre. Sua esperança será massacrada, como uma caixa torácica comprimida até o ponto de romper-se.

Não haverá dia, não haverá noite, o tempo vai perder significado. E ela vai amaldiçoar a todos – isso, assim, passe a maldição adiante. E quando começar a esperar um fim – fim? Que fim? Estará morta, será eterno, matará, causará dor, verá dor nos olhos dos outros (assim como vejo nos seus agora), não tem escapatória, nem para onde correr, nem como se esconder. Amaldiçoará espelhos-cortará carne humana- não se reconhecerá.

Seu sorriso se tornará perverso – haverá ódio, e dor, e prazer pela dor alheia. Seu corpo se tornará perverso – cada músculo, membro ou célula ficará alerta ao cheiro de sangue. Seu olhar será seleto – vai caçar vítimas à distância, marca-las, persegui-las, destruí-las. Seu coração será manchado – morram, morram todos, amaldiçoados todos sejam, eu não pedi para nascer, mas implorei para morrer, me enganaram com a paz eterna.

Sendo assim o dia de hoje é um evento- o primeiro dia da sua queda sem fim. Levantei-a prendendo-a contra a parede – lembre-se de mim, sua puta, eu quero me lembrar de minha amaldiçoada. Sinta a faca- como ela corta sua pele e separa seus ossos tão fácil – sinta meu ódio – logo você terá um tão grande quanto o meu – grave meu rosto – quero te causar pesadelos a noite — que reviva esse momento de novo e de novo e de novo – que quando fechar os seus olhos – você terá que fechar alguma hora – você me veja. Veja e me tema, e me odeie, e queira me matar- você não pode matar quem já não vive mais.

Você vai adorar os pesadelos- eles serão reais. Quando você acordar- suas marcas estarão lá. Quando enlouquecer – estará se transformando no mesmo que eu. Ao amaldiçoar – aumentará o meu legado. Um osso a menos –você não precisa dele. Um olho a menos – vai combinar comigo. Um dedo a menos – não reclamara da dor que sentira quando o quebrara? Uma cicatriz no rosto – todo dia de manhã se lembrará de mim quando se olhar no espelho do banheiro. Uma facada na coxa – só para que a sinta latejar quando pensar em mim, minha querida putinha. Um sorriso meu – para que veja no seu sorriso o meu , cada vez que fizer uma vítima.

Deixei-a inconsciente – praguejei contra ela. Larguei-a semi-morta- para que ela tivesse uma semi-vida. Limpei minha faca em minha língua – só pra sentir o gosto do sangue da minha pupila. Sai dali – para que ela entrasse em desespero, ao descobrir que não fora um pesadelo. Deixei-lhe o osso removido na porta – assim, ela se desesperará. Deixei minha maldição escrita em sangue, nas pedras do chão – sangue dela, num pacto infernal. Ela nunca mais será a mesma – ela nunca mais será humana. Está fadada à desgraça – não parará de cair. Mas há de derrubar outros – os levará ao túmulo, ou à ruína. E eu irei rir – assistindo minha aprendiza se tornar mestra.

Ou será que nunca se perguntou...

...de onde os monstros vêm?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.