You Got Enough For The Both Of Us
1 Sun Shines Through The Rain
Notas iniciais
O cavaleiro de Virgem estava no alto de um altar de pedra cinza, na posição de lótus. O cosmo dourado emanava de sua armadura e também de seu corpo. Seu longo cabelo dourado esvoaçava, flutuando no ar, quase como se dançasse. A Casa de Virgem era banhada por um luar prateado, era primavera e as cerejeiras que enfeitavam a entrada estavam salpicadas de flores.
Subindo a escada vinha Nagato, trajando uma capa cinza até seus calcanhares, seu cabelo branco caído até os ombros refletia o prata do luar. Subia os degraus com vigor, logo estava na entrada do templo, sob as cerejeiras.
— É bom estar em casa novamente. — falou para si mesmo. Pegou uma flor caída e sentiu seu aroma. Sentira tanta falta dali, como nunca antes.
Adentrou no salão passando pelos gigantescos portões de mármore — que nunca foram fechados, em sinal de boas vindas aos que chegassem —. O interior estava mal iluminado nem era possível enxergar — para olhos normais — as estátuas de Buda cravadas nas paredes laterais, mas os olhos de Nagato captavam tudo ali até uma faísca de luz que entrava no salão através de uma rachadura no teto. Andou mais um pouco e a luz dourada iluminou uma sala grande e ceio de colunas que acabara de entrar.
— Antes tarde que nunca! — disse o cavaleiro de Virgem num tom alto e áspero. Continuou flutuando no topo do altar. Seus olhos estavam fechados demonstrando que o convidado não era bem-vindo e que não interromperia sua oração.
— É bom te ver novamente. — disse Nagato, mostrando um sorriso torto.
— O que faz aqui? — perguntou num tom ainda mais alto e mais áspero.
— Vim rever as cerejeiras — disse com calma. — e você!
— Mas eu não senti sua falta e tenho certeza que as plantas também não.
Shaka desfez sua posição, flutuou lentamente até o topo do altar e desceu lentamente a escada. Seu cosmo queimava de tal modo que ofuscou a visão de seu velho amigo; era possível apenas ver o vulto no centro da explosão do cosmo.
— Será necessário muito mais que isso para me deixar cego! — disse o dono do rin’negan, cobrindo os olhos com os braços.
— Você não é bem-vindo, acredito que já tenha percebido isso. — um sorriso apareceu em seu rosto. O massacre ao visitante lhe confortava. Deu alguns passos para trás para manter uma distância razoável.
— Nada mudou aqui dentro — disse olhando as paredes e o teto — Parece que estive aqui ontem, mas...
— Faz 15 anos — disse o protetor da Casa de Virgem com raiva e rancor em suas palavras. — Desde aquele dia... Se não me engano era o segundo dia de inverno, lembra Nagato? Lembro-me também que a neve se acumulava sobre as jovens cerejeiras que você plantou. Agora recordo perfeitamente, a neve caía forte naquele dia, tão forte que limpei as plantas várias vezes enquanto você não chegava. Confesso-lhe que eu estava realmente disposto a ir embora com você para a vila da chuva e morarmos na torre mais alta, como você disse inúmeras vezes para mim. Naquela época eu estava apaixonado, ocorreu-me agora que, talvez, pudesse ser mais que amor; talvez eu estivesse obcecado com a ideia de que fossemos viver juntos. Eu abandonei minha vida de cavaleiro, mas quando você não veio meu mestre me deu outra chance de consertar o terrível engano que havia cometido. Eu deveria ter previsto que você e a felicidade não viriam no mesmo barco.
A armadura de Virgem desprendeu do corpo do cavaleiro e flutuou até o topo do altar onde Shaka flutuava. Ali se montou mostrando a mulher que orava que representava a armadura de Virgem. Shaka usava roupas brancas com o símbolo de Virgem.
— Mas eu vim – disse Nagato.
— Não conte mentiras! — gritou, seus olhos ainda permaneciam fechados, mas era possível ver a raiva brilhando através da pupilas.
— Então use seu poder e veja o que realmente aconteceu — Nagato se referia a uma das habilidades especiais de seu amigo. Uma habilidade que lhe permitia entrar na mente e ver qualquer lembrança que quisesse.
O cavaleiro estava imóvel, seu rosto não mostrava nenhuma expressão. Talvez ele pensasse que toda aquela situação era inacreditável, até por que o Nagato que ele conhecia jamais o abandonaria.
— E... Se eu descobrir que o que você fala é verdade — disse calmamente — que diferença fará?
— Talvez isso nos ajude. — falou lentamente, dando uma longa pausa entre cada palavra. Ele estava rompendo a barreira que Shaka erguera em seu coração. — Na realidade, desse modo você saberá o que aconteceu comigo ao longo desses 15 anos em que estive longe.
Depois de muito evitar, o cavaleiro de Virgem abaixou a guarda, acreditando, realmente, que aquilo os ajudaria. Andou lentamente na direção de Nagato.
— Me entregue sua mão direita — disse ao chegar a menos de 2 metros de distância.
— Sua pele tem a mesma suavidade de quando nos conhecemos.
— Fique em silencio! — gritou Shaka.
Depois que o laço entre eles foi feito — depois que deram as mãos — o cavaleiro de Virgem teve acesso a todas as lembranças do herdeiro do rin’negan de um modo organizado. Procurou entre elas aquela que lhe interessava, há de 15 anos antes.
— Feche os olhos, Nagato.
Shaka foi sugado por um buraco que o levou velozmente até uma pequena casa que ficava perto de uma colina. Aterrissou suavemente na sala de estar do que aparentemente era a casa de Nagato. Do lado de fora a neve caía fortemente cobrindo todo o gramado. Nagato amontoava umas coisas em uma mochila, ele estava se preparando para partir, era certo. Mas antes que o herdeiro do rin’negan pudesse deixar sua casa, um ser mascarado materializou-se na sala.
— Sou um ninja da Ambu da Vila Oculta da Chuva — disse o estranho, curvando-se em sinal de respeito.
— O que quer?
— Amegakure está sob ataque — disse rapidamente — Yahiko pediu para que eu viesse lhe buscar.
— Isso não é possível — procurava alguma coisa na mente — Até onde me lembro não há mais nenhum inimigo de nossa vila vivo.
— Essa é uma ameaça nova. Nem mesmo Yahiko e Konan o reconheceram.
— Eu não posso ir...
O ninja tirou um rolo de pergaminho e entregou à Nagato que leu atenciosamente cada palavra.
— Preciso que você me faça um favor antes de irmos — os olhos cheios de lágrimas.
— O que quer eu faça?
— Há uma colina ao leste daqui com uma cachoeira, e no alto dela há um tempo. Quando chegar lá procure por Shaka aprendiz de cavaleiro de Virgem e lhe diga que voltarei em breve para buscá-lo. Mas, por favor, não mencione invasão. Apenas contenha-se ao que lhe pedi para dizer. — seus olhos estavam presos no pergaminho amarelecido — Vou indo na frente, nos vemos em Amegakure. — e saiu correndo, pisando fortemente na neve que cobria o chão.
As pernas de Shaka fraquejaram, ele se apoiou numa cadeira para evitar a queda. Porém, antes que pudesse ter mais alguma reação foi sugado por outro buraco para outra lembrança. Ele estava num campo de batalha muitos shinobis jaziam no chão enlamaçado, a chuva castigava aquele campo. O cavaleiro de Virgem viu seu amigo mais a frente ajudando um companheiro que estava morrendo; ele aproximou-se e viu que os braços de Nagato estavam sujos de sangue assim como sua capa. Pouco tempo depois o shinobi parou de se mexer, o brilho de seus olhos se apagou, a batalha entrou num ritmo frenético e o exercito em que o dono do rin’negan fazia parte estava sendo derrotado.
Antes que mais alguma vida fosse perdida Nagato ficou de pé, mordeu a ponta do dedo, fez alguns selos e invocou uma grande estátua em forma de homem com oito olhos, a estátua ganhou vida e avançou contra o exército inimigo, derrubando mais soldados do que Nagato foi capaz.
E mais uma vez ele foi sugado por outro portal que surgiu. Shaka reapareceu no mesmo campo, porém a chuva não caía mais, muitos estavam mortos, a estátua estava destruída. Restavam apenas dois shinobis e um deles era Nagato que ainda estava com os braços sujos de sangue. O outro ninja tinha um cabelo azul na mesma altura que o de Shaka, carregava duas espadas com as pontas curvadas. O ninja desconhecido avançou na direção de Nagato que não revidou e recebeu todo o ataque desferido pelas espadas deles. Foi atingido no peito, as lâminas atravessaram seu corpo. Ele caiu, o sangue se misturando com a lama. Ele não estava mais entre os vivos.
— Percebeu que eu não mentia? — disse Nagato com a voz de tristeza, mas um sorriso torto nos lábios.
Shaka de Virgem deu alguns passos para trás com a boca aberta. Seus olhos arregalados revelavam um azul profundo e misterioso, e lágrimas.
— Nagato...
— Sei que foi loucura ter me entregado! — disse suavemente.
— Mas como? Você não poderia estar aqui. Você morreu! Eu vi! — ele mesmo não acreditava em suas palavras.
— Vou lhe explicar tudo. — disse com a voz trêmula.
— Por favor!
Respirou fundo e começou lentamente.
— Bom... Quando cheguei a Amegakure entendi que o motivo daquela batalha era eu, o líder do exercito inimigo tinha uma rivalidade com meus pais, e só haveria trégua quando eu, herdeiro do rin’negan e sobrevivente da desgraça que assolou meu clã, estivesse morto. Mas acredito que ele queria também meus olhos. Então quando vi meus amigos morrendo não tive outra escolha se não me entregar para salvação de meu povo. Eu tinha razão, assim que me rendi ele recuou e voltou para casa como herói. O engraçado é que meus olhos ainda estão aqui então deve ter havido algum contratempo ou ele, realmente, não tinha interesse nenhum no meu doujutsu. Não me arrependo porque salvei muitas vias e garanti um futuro para as crianças que lá moravam ou viriam a morar. Mas se eu não tivesse morrido eu teria voltado para você, para nós.
O silêncio esmagava as palavras não ditas. Shaka relutava em aceitar a verdade, relutava em acreditar que Nagato estava bem na sua frente. Ele ainda guardava no peito todas as sensações boas que Nagato lhe despertou.
— Eu não sei o que dizer — falou Shaka. A amargura em sua voz sumira, agora ele falava baixo e com um nó — de choro — na garganta, mas manteve sua postura ereta.
— Shaka, se você quer mesmo se tornar um cavaleiro de ouro é necessário esquecer todo tipo de sentimento que te arrasta para trás, isso quer dizer também que você deve esquecer aquele shinobi chamado Nagato. Mesmo se eu concordasse com isso eu não te deixaria ir, prometi aos seus pais que cuidaria de você e lhe daria o melhor futuro como cavaleiro. Por favor, facilite as coisas e esqueça essa besteira de fugir.
— Sei que você quer o melhor para mim, sensei, mas o senhor não sabe como me sinto.
— Sim, eu sei. Já fui inconsequente como você, acredite. Shaka, não adianta jogar seu futuro para o alto quando a pessoa que você espera nunca voltará. Vocês estão destinados a seguir caminhos diferentes.
— Como sabe que ele nunca voltará?
— Porque eu já abandonei alguém também, e nunca voltei. E já se passaram 30 anos. Talvez ela tenha morrido ou ainda esteja viva e velha como eu.
— O senhor nunca pensou em voltar?
— Todos os dias. Mas com a passar do tempo me foquei no meu trabalho como cavaleiro e percebi que o caminho é sempre reto. Então perceba que por mais que você queira esperar ele jamais voltará, jamais!
— Você está me ouvindo? – perguntou Nagato, ao ver a expressão de perdido dentro de si de seu amigo.
— M-Mas como você voltou?
— Alguém me invocou usando o Edo Tensei...
— Essa técnica é imperdoável até para mim!
Ficaram em silêncio, olhando o vácuo. O cavaleiro de virgem com uma expressão tensa no rosto, já o homem de cabelos brancos estava com uma expressão enigmática.
— Meu tempo aqui esta acabando.
— Preciso lhe mostrar uma coisa — secou as lágrimas que estavam se formando. — Me siga! — o tom rude voltou à suas palavras.
Andaram lentamente por trás do altar, entraram num corredor de pedras polidas iluminado por tochas presas às paredes. O corredor serpenteava e seguia reto, descendo cada vez mais fundo. O ar frio passeava por ali vindo do fim do túnel. Chegaram num pequeno jardim com uma enorme cerejeira no centro, havia uma pequena ponte de pedra ligando a ilha onde a árvore estava a entrada do jardim. A grama crescia baixa ao redor da cerejeira. O luar iluminava aquele jardim por uma enorme abertura. Atravessaram a ponte, por baixo dela corria um pequeno rio que ia desaguar na cachoeira embaixo do templo.
— Lembra Nagato, esta cerejeira estava morrendo e você a trouxe para mim, foi logo quando te contei que ia ser um cavaleiro de Athena. Você me pediu que eu a curasse e cuidasse dela dizendo que eu tinha jeito para coisas delicadas, e no final você tinha razão.
— Lembro como se fosse ontem... — alisou o tronco da árvore. — Há coisas que nem a morte apaga...
Se aproximaram, juntaram os corpos e depois os lábios.
— É hora de partir — disse o shinobi de Amegakure, secando as lágrimas que caía dos olhos do cavaleiro de ouro.
Nagato não conseguia ficar de pé, suas pernas estavam fracas, mas Shaka o pegou nos braços antes de cair.
— Faz tempo que não vejo um azul tão profundo e apaixonante. Queria poder mergulhar.
— Talvez você possa.
O corpo de Nagato começou a rachar como se fosse um boneco de porcelana.
— Foi difícil te deixar há 15 anos e está sendo ainda mais difícil agora.
— Cale-se!
— Saiba que te amo.
— Te amei mesmo naqueles dias em que não conseguia lidar com o fato de você ter me deixado. — disse Shaka, mas lágrimas corriam por seu rosto.
— Deixou de me amar?
— Claro que não.
O corpo do shinobi se quebrou em minúsculos pedaços, depois virou pó.
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