You Are Someone's Altar

4 Is This Love?/Simon


Notas iniciais
"[...] But I want it, it's a crime That she's not around most of the time. ... And it's worth it, it's divine And I have this some of the time The way she shows me I'm hers and she is mine Open hand or closed fist would be fine The blood is rare and sweet as cherry wine." Hozier - Cherry Wine.

Com os olhos vívidos, ela desperta do sono. Ele pareceu longo. O corpo atordoado, pesado e ainda nu.

As manhãs deveriam trazer paz, mas nem todos a esperam com seus lençóis vazios, uma vez enfeitados com a memória de perfume que talvez nunca existiu.

Bonnibel duvidou de suas lembranças, no momento em que percebeu seu vestido precisamente acomodado no canto da cama. Ela estava em seu próprio quarto. Ela notou as mãos, as mesmas que tocaram o corpo da sacerdotisa, cada traço e suavidade. Ela sentiu-se abençoada, pois aquele calor ainda permanecia e em sua mente entoavam as palavras ditas na noite anterior, dos pedidos disfarçados, nublados de desejo. Uma voz que ela desconheceu.

Não foi um delírio.

Sua mente estava leve, mas naquele vazio pairava um incômodo: a questão de todos os amantes; a ansiedade para o próximo encontro.

***

"Srta. Bubblegum foi acometida por uma terrível febre e precisou permanecer nos próprios aposentos"

Isso que foi informado a todos sobre a sua suposta condição, e o mundo seguiu, as moças continuaram com as obrigações delas, juntamente com a sacerdotisa que permaneceu a mesma mulher: silenciosa e rígida.

Os olhares de soslaio, as duras palavras. E Bonnibel realmente acreditou em seus delírios.

Por certo, a primeira vez não foi inevitável. A segunda não foi incômoda; e as que seguiram, seus corpos acomodaram-se um ao outro.

Os encontros eram furtivos e tardios.

Ela acreditava ser incapaz de revelar cada expressão da sacerdotisa, sempre calada e feroz. Ela entra em seu quarto, parecendo flutuar em cada passo comedido e com aqueles olhos que embebem a luz, guardando-a para si, quase predatório. Pertubador. Mas, Bonnibel não desvia a atenção, somente pelo pensamento de tão poucos panos sobre a nudez dela. Os seus sentidos engatavam e a sucessão de acontecimentos tornavam-se apenas borrões e sensações.

Srta. Abadeer começava cálida, mas sem engano algum, pois, as mãos ríspidas que a levavam rapidamente reivindicavam cada membro seu com um poderoso aperto. Bonnibel acomodava-se aos lábios ásperos daquela mulher, os dentes afiados contra a sua pele sempre tão permissiva.

E com os sons mais sujos, presos no fundo da garganta, às vezes contidos pelos beijos de sua amante, ela alcançava várias pequenas mortes, mas para essa mulher de alma sombria havia sempre mais, mais e era preciso.

Quando Srta. Abadeer precisar, ela prenderá os quadris de Bonnibel na cama, moendo a boca contra o calor escorregadio dela até Bonnibel choramingar e torcer sob ela, além das palavras, enquanto ela agarra os cabelos pretos de Abadeer. Ela vai segurar Bonnibel espalhada sobre seu colo e transar com ela com a força de seus três dedos, sem parar, mesmo quando Bonnibel geme através de seu clímax, determinada a atraí-la para a beira repetidamente.

Quando Srta. Abadeer precisar, ela ficará sobre o rosto de Bonnibel, joelhos pressionados nos dois lados da cabeça, montando as deliciosas ondulações de sua língua. Ela vai levá-la por trás, lambendo sua boceta, sua bunda, deleitando-se com os ruídos perdidos e oprimidos que caem dos lábios de Bonnibel. Ela abrirá Bonnibel, a espalhará e a foderá até poder pegar o punho inteiro dela, sentindo o aperto quente e derretido do interior de Bonnibel enquanto seus olhos rolam e ela se apega desesperadamente aos seus ombros

Para finalmente, Bonnibel perceber que quando a Srta. Abadeer necessitasse ela estaria lá; e depois, não haveriam conversas somente o amanhecer seguinte com a solidão em uma cama, como o despertar de um sonho e receber um soco no estômago e junto a repulsa crescente daqueles lençóis.

***

Srta. Abadeer olhava sua amante de longe, não se passaram alguns minutos e seus dedos formigavam pelo contato.

A jovem estava diante da penteadeira, colocando suas roupas e com olhar melancólico no reflexo do espelho. A grande parte do vestido de Bonnie foi arrastado para baixo e Marceline percebeu a quão fervorosa ela tinha sido na noite anterior. Alguns hematomas de toda sorte de cores que ela gostaria muito de tocá-los, antes que eles desapareçam, ver como as impressões de seus dentes se sentem na carne de Bonnie.

Ela se aproxima por trás, olha sobre o ombro de Bonnibel e sorri para aqueles lábios dos quais queria algo novamente roubar.

E pela primeira vez, elas se olharam. Os segundos se estenderam e Bonnie interrompeu o silêncio.

— Você não precisa ficar.

E para Marceline Abadeer foi o seu aviso: "Você já a teve, ganhou o que desejava e ela precisa que você saia"

***

Bonnibel observou o sorriso e quis corresponder na mesma intensidade, mas ela queria conversar estando vestida, sem as pupilas dilatadas e sem fome, por certo, ela estava recebendo o que pediu: "Sem conforto. Pecado".

Ela desejou a paixão. Essa era a paixão? Ela desconfiava da paixão que recebia. Por certo, elas entraram em um acordo sem muitas palavras, mas era justamente a falta de palavras que a afetavam. Os demônios de Srta. Abadeer eram silenciosos, escapavam por horas, atacavam-na sem pudor, para depois retornar, ainda demônios, mas saciados.

Ela estava sozinha e sentia principalmente a diferença dos seus relacionamentos na vila e no templo. As outras quando não estavam alheias com as tarefas de manutenção do templo – ela mesma investida em sua função esquecia-se da vontade de ter as conversas mais triviais que sejam – as moças conversavam entre si sobre a constante indisposição de Bonnibel, a diminuição de algumas suas tarefas e duvidaram da natureza do relacionamento da jovem discípula com a sacerdotisa. Elas sabiam que a sacerdotisa sempre manteve vários corpos para aquecer seu quarto, mas diante do suposto favoritismo, a tratavam com desdém.

Contudo, os boatos contradiziam-se, sendo que sacerdotisa aparentava sentir prazer em ignorá-la também quando fora do quarto.

***

A sala cheirava a nostalgia, um lugar esquecido, longe de toda realeza. A mistura de momentos fragmentados que a enchiam. O frio que um dia acolheu uma criança. As folhas de menta para saborosos chás. Iodo para os constantes arranhões.

— Gunter, caro amigo, já era hora de retornar com as minhas ferramentas! – Simon diz distraidamente de sua mesa e levanta a visão.

— Ó menina, você está aqui. Somente você. E retomou suas atividades.

A filha de Hunson sempre estivera sob os cuidados de Simon, homem conhecedor de toda e qualquer ciência e principal conselheiro, contudo, exilado por um comentário inapropriado sobre a criação da menina Marcy.

Ele apenas sugeriu menos rigidez no comportamento de Hunson e suas severas exigências para com a menina.

"Ela não é minha filha!...Não mais" Hunson respondeu e o exilou aos livros.

O tempo e a poeira caíam manso sobre os móveis e livros. Ela passou os dedos em uma das mesas, onde uma bela pintura emoldurada pendia resistente ao tempo. Uma mulher com um forte olhar e cabelos castanhos.

— Não se preocupe, não o perturbarei.

Ela permaneceu em pé, observando-a e com os dedos tocou cada detalhe da pintura, talvez na tentativa de invoca-lá para o plano real. Era uma das últimas recordações de sua mãe, após a ordem de Hunson para destruir qualquer lembrança dela.

— Eu consigo sentir seus pensanentos, você não está aqui para limpar a poeira dos meus móveis. – Simon comenta do outro lado da sala.

— Realmente, não sei o porquê de estar aqui.–Marceline responde, mas seu interior confessava saudade.

Ela sorri para a pintura clandestina e toca o pequeno colar de pingente azul-turquesa envolto no pescoço de sua mãe. Seu olhar persiste em cada traço da pintura. Claramente, surge a memória de um colar semelhante. O inseparável acessório de Bonnibel.

— "Ó, preciosa e bela turquesa, tu és uma jura, uma promessa ao eterno encontro dos amantes." – Simon diz próximo a Marceline.

— Eu...Eu não entendi.

— "Ó preciosa e bela turquesa dos amantes..." — Ele repetiu casualmente.

— Sim. Sim. Mas, o que significa?

— Foi o que Hunson disse quando a presenteou. Parte de uma profecia antiga. – Responde com desdém.

— Por que?

— Paixão, minha cara amiga. Paixão.

— Há outra joia igual?

— Temo que não, Hunson assassinou o ourives, para que houvesse uma única peça. Pobre homem. – O velho, pensativo olha para o chão, mas volta para Marceline com um sorriso no canto da boca. — E essa curiosidade repentina?

— Você nunca mencionou nenhuma profecia ou joia, eu ainda não tinha visto nenhuma pintura dela com o colar. – Marceline atenta para cada detalhe da imagem na tentativa de resgatar alguma lembrança, mas Simon pega o quadro das mãos de Marceline.

— Nós sabíamos que esse dia chegaria, cara amiga. — comentou Simon para o quadro com o ar cansado.

Ela estava em completa confusão, enquanto o velho ostentava apenas uma face não afetada.

***

Naquela noite, a sacerdotisa decidiu ficar. Não foi uma de suas melhores decisões. Não havia som e o ar estava estático. Ela percebeu o desconforto de Bonnie por estar ali, cada contato com seu corpo parecia arder. Ela não deveria estar ali. Mas, novamente aquela mulher a surpreende e quebra o silêncio.

— Onde você foi criada?

— Aqui mesmo, quando era simples, diria até colorido.

— Sua mãe também serviu à deusa? –Bonnie perguntou com os olhos entreabertos e um bocejo próximo.

— Sim – disse somente.

O momento pareceu inconsciente, falso. E acomodada nos braços de Marceline, ela adormeceu. Para enfim, Marcy perceber que sempre deveria ficar para justamente apreciar o sono pacífico de Bonnie.

Marceline nem sempre foi influenciada para seguir a carreira religiosa. Como a criança de Lilita iria responder ao desaparecimento repentino da mãe e ao posterior tratamento ríspido do pai? Nada descobririam nas crônicas não escritas da cidade, logo, a servidão parecia ser o caminho mais óbvio, e apesar de vários desvios cometidos, ela sempre retornava ao templo.

Bonnie, ainda adormecida, abraçou seu corpo em um longo aperto e inspirou o ar; interrompendo seus pensamentos ao passado.

Ela havia compreendido com Simon, os motivos da jovem ao seu lado não ser apenas um corpo disponível, mas um vício, como bálsamo de vida quando junto ao seu corpo. A descoberta real de uma alma gêmea não agrada ninguém, não há presente ou passado. Tudo, tudo que vai acontecer já foi decidido e isso foi a causa da grande ira no coração da jovem sacerdotisa, mas ela manteve segredo.

Com o olhar complacente, os deuses distantes em um plano irreal, entornados nas paredes, mas presentes em suas ações, gozando com vida de nós, tolos.

Todos os seres eram designados aos seus respectivos companheiros, sejam eles vampiros, demônios ou humanos. Assim como os pais dela acreditaram e falharam.

Mas, ela também merecia amar, ser amada. Era a história que ela queria acreditar.

Mas, um Abadeer não podia ficar aos devaneios de uma vida que não pode ter.

"Isso não é uma história de amor" ela lembrou, além dos nomes de todos os rostos dos seus antigos companheiros, aparecendo em sua memória, sem vida. Mortos. As pessoas que ela prometeu amar.

A descrença nas palavras de Simon. O desespero pela vida da jovem. Os motivos para não seguir com as suas escolhas nubladas pelo desejo e invadir todas as noites o quarto da moça para desposá-la. Pensou em diversas soluções para o seu dilema, porém, o sono já se fazia presente.

Notas finais
"Se a fatalidade ou o destino rege os nossos passos. Não temos liberdade, e nem temos, propriamente, presente ou futuro. Tudo que vai acontecer já estava decidido: vivemos assim um eterno passado." Álvaro Walls