Estava a chover quando o avião aterrou no aeroporto de Londres. Tinha saido á pouco mais de 1 semana do hospital, depois de ter ficado internada quase um mês, por causa do que se passara no metro.

Agora, tinham-me enfiado dentro de um avião e mandado vir passar um tempo a casa do meu pai, no Reino Unido. "Vai ser mais fácil para ultrapassares tudo" disse a minha mãe como soubesse do estado em que a minha cabeça estava. Eu nunca iria ultrapassar nada do que se tinha passado naquela noite. Aqueles monstros destruiram a minha vida e o meu sonho.

-Aven!! — gritou o meu pai mal me viu entrar no aeroporto. Naquele momento só queria um buraco para me esconder. Normalmente, iria a correr até ele e pouco me importaria com o que as pessoas pensariam. Não é que agora me importasse, mas depois do que se passara eu quase não falava com ninguém ou me tocava sequer com o facto de me ter de vestir, quando mais correr no meio de um aeroporto.

Cheguei á beira dele e ele deu-me um longo abraço, mesmo eu não retribuindo.

Havia algo naquele aeroporto que me sufocava e não era decididamente o abraço do meu pai. Havia algo mais, algo com que eu já tinha lidado anteriormente, algo que me assustava de morte. Não podia ser, não podia acontecer de novo.

Senti uma energia a puxar-me e olhei ao meu redor. As emoções abraçavam as pessoas como nuvens de diferentes cores. Eu não queria sentir aquilo.

Um homen de cabelo preto, que envergava um casaco de cabedal também ele preto e umas calças de ganga um pouco gastas passou á minha beira, fazendo com que o meu coração parasse por segundos.

Era como se o conhecesse, como se ouvesse algo nele que me levava a querer esconder-me o mais fundo que conseguisse.

-Aven!! — chamou o meu pai mais uma vez, abanando-me. — O que é que se passa? — perguntou-me quando viu a minha cara assustada.

-O mais fácil seria perguntares o que não passa. — respondi secamente. — Podemos ir embora? — ela acenou a cabeça, pegou nas minhas malas que já tinha ido buscar e conduziu-me até ao carro.

Nenhum de nós disse uma palavra durante a viagem até casa. Ele porque sabia que quanto mais me tentasse fazer esquecer das coisas, mais eu me lembraria e irritaria e eu simplesmente porque as palavras recentemente não têm chegado ao meu cérebro.

Apenas tinha vindo aqui passar um verão desde que os meus pais se separaram. Não porque não quisesse, mas porque simplesmente o meu pai não tinha tempo, estava sempre a trabalhar. Tinha sido essa a principal razão da separação. Até estava para ver se ele ia passar algum tempo em casa enquanto eu lá estivesse. Por mim, até podia ir para a lua, não estava nada preocupada, não esperava estar muito tempo fora do quarto.

Entrei em casa depois dele e segui-o para o quarto.

- Já sabes onde fica tudo, não sabes? — eu apenas acenei com a cabeça- Então pronto, não sei se há grande coisa no frigorifico, mas deve dar para arranjar alguma coisa. Sai e faz alguns amigos — disse ele enquanto me dava um beijo na testa — Vou trabalhar, devo voltar por volta das 9h. — e saiu.

Deixei-me ficar deitada na cama por algum tempo. Senti uns olhos em cima de mim e levantei-me sobressaltada. Não havia ninguém no quarto, nem sequer uma mosca. Percorri o espaço entre a cama e a janela e tentei perceber se havia alguém a observar-me. Haviam poucos sitios de onde o podiam fazer, eu devia era de estar a ficar demasiado obcecada pelo facto de 3 dos homens do metro ainda estarem por aí á solta.

Peguei na chave de casa e decidi sair por um bocado.

Andei uns bons 15 minutos á volta por sitios que nem sequer conhecia, até que ouvi uma espécie de música. Vinha de um pavilhão pintado de branco no meio da cidade. Senti logo uma vontade enorme de dançar por apenas um minuto, apenas uma última dança antes de tudo acabar. Mas não podia, o médico proibira-me de qualquer outro movimento com a perna, tirando andar durante os próximos 2 meses. E o pior de tudo, tinha que esquecer a dança a nivel profissional.

Não sei bem como, fui parar á entrada do pavilhão. Já que estava lá, porque não espreitar?

Abri um pouco a porta e coloquei a minha cabeça entre ela e a parede.

Tudo o que eu desejava estava ali. Haviam raparigas a dançarem cronometadamente pelas suas vidas, pelos seus mundos á parte que me inundavam naquele momento. Queria entrar ali, esquecer o passado e voltar ao meu mundo que se encontrava desmoronado devido a uma guerra nuclear, da qual eu tinha saído derrotada.

Era assustador saber o que um segundo da tuda vida pode fazer com o resto. No entanto, existem sempre duas opções depois desse segundo. Ou te levantes e fazes o teu próprio caminho, ou deixas que aquele segundo te continue a arrastar até quebrares. Eu iria quebrar e não havia nada que conseguisse fazer quanto a isso.

- Ouvi dizer que a Mrs Carter anda a fazer... — disse alguém ao meu ouvido, fazendo-me gritar e quase ter um ataque cardiaco — ... audições.

Tentei respirar fundo e tirar as imagens horripilantes que me tinham aparecido na cabeça, de um raptor\\violador. Fechei os olhos por uns momentos, enquanto tentava estabilizar o meu coração.

-Tu...és...doido? — consegui finalmente dizer. Há minha frente estava um rapaz bem mais alto que eu, com o cabelo aos caracois e uns olhos verdes que me metiam uma inveja desgraçada.

-Calma... — disse ele pondo a mão no meu ombro. Não foi por maldade, mas mal ele o fez eu sacodi o ombro. Desde aquilo, o meu corpo não permitia o toque de nenhum rapaz ou homem. — Desculpa, só pensei que quisesses entrar.

-Só estás desculpado...se o meu coração não me sair do corpo fora. — disse e ele riu-se. Não sei bem se foi pela minha cara de quem parecia que tinha acabado de ver um fastama ou se pela frase ser totalmente verdade.

-Sou o Harry — disse ele estendendo-me a mão — E gosto do teu casaco com pandas.

Como é que eu estava prestes a rir-me feita estúpida com uma coisa daquelas?! Não, pior, como é que eu estava prestes a rir-me feita estúpida com uma coisa daquelas, depois daquele mês?

-Aven.