You And The Stars
30 Human, baby
Notas iniciais
Pov's Matthew
Algumas vezes na vida, as pessoas fazem escolhas que nem sempre é a melhor para se orgulhar. Algumas vezes na vida, eu fiz escolhas pensando no outro, algumas vezes, só fiz pensando em mim, e em todas essas escolhas, só uma coisa é semelhante: eu me fodi em todas elas.
–- E-Eu não sabia -- murmurei para a loira. Minha cabeça girava, meu coração batia forte no peito, o suor escorria por minha testa e eu sentia uma espécie de eletricidade usufruir por meu corpo. Péssima hora para eu ter feito uso de drogas.
Devia estar estampado na minha cara que eu sabia. Era perca de tempo dizer que não sabia que meu querido e desgraçado velho pai e a mãe perfeita e santa de Samantha eram amantes. Ironia nunca morre.
–- É mentira -- exclamou ela. O cabelo dela estava mais loiro, seus lábios mais rosados e seus olhos eram verdadeiras piscinas. Seu corpo parecia tremeluzir. Ei, aquela ali era outra Samantha? Samantha, tô vendo duas de você!
–- Querida, por favor...
–- Por favor o caralho. Vou fazer minhas malas, vou embora dessa joça -- duas Samantha me olharam raivosamente. -- E você... me esqueça!
–- Samantha, não posso deixar você ir! E ir para onde?! Provavelmente depois desse todo escândalo, não vai haver jeito, teremos que ir embora de qualquer modo -- falou a mãe de Samantha. Ela encarava eu e Josh.
Uma música vibrante tocava no fundo. Eu sentia vontade pular e dançar ao ritmo da música, mas ao mesmo tempo, eu me sentia capaz de cair em depressão.
–- Qual é, Samantha, fique calada, droga, você vai arruinar tudo -- falou meu pai.
–- Onde está Carly e papai? -- gritou a Sam número um.
–- Eles ficaram no mercado resolvendo um problema com o cheque -- falou Amanda, com um suspiro cansado.
–- É mesmo? E vocês dois decidiram voltar para casa por quê? -- exclamou ela. -- Ah, foda-se! Eu alcanço Carly e papai em um instante.
Ela ia começar a descer as escadas, mas se virou para mim com os olhos marejados.
–- Eu confiei em você! -- a decepção era óbvia.
–- Sam, eu...
Antes que eu continuasse, as duas Samanthas saíram correndo.
Pov's Matthew OFF
Enquanto eu corria, me perguntei se naquele dia algo mais iria me surpreender.
Que Matthew era um mentiroso, eu já estava farta de saber... mas, a esperança é sempre a última que morre. Eu jurava que achava que Matthew tinha mudado. Mas não, ele não mudou, ninguém muda tão drasticamente assim, e o caso dele não era o de força de vontade, e sim de um milagre, e essas coisas não existem.
Eu me sentia horrível. Acabada, decepcionada, destruída, pisada. Como eles tinham essa coragem? Carly era tão doce e papai... bem, papai era um coitado.
Sinceramente, eu estava desistindo da raça humana.
Uma brisa leve acariciava meu rosto. O mar soava nos meus ouvidos, o cheiro era tão bom... e eu só queria desaparecer.
Corri durante vários minutos. Só parei quando o letreiro vermelho surgiu na minha frente. A pista de skate ao lado, a praça, as luzes, era tudo tão bonito.
Entrei no mercado e logo vi meu pai e Carly. Eles estavam numa mesa um tanto distante dos caixas, conversavam com uma mulher extremamente maquiada.
–- Pai! -- falei quando o vi.
Ele me olhou um tanto assustado.
–- Sammy? -- falou.
–- Papai, mamãe e o Sr. Stonem... eles estão... eles estão
–- Eles? -- completou Carly. Não sei se já a descrevi antes, mas Carly era baixa, tinha cabelos escuros e um rosto sardento. Era bonita e bondosa, seu rosto entregava logo isso.
–- Juntos -- murmurei tão baixinho que temi que eles não tivessem ouvido. Uma lágrima escorreu dos meus olhos.
Mas eles ouviram. Me olharam assustados e se levantaram das cadeiras produzindo um barulho chato.
Então eu soube, soube que eles sempre desconfiaram... só precisavam que alguém dissesse, e agora tinham certeza.
–- O quê? Mas eles foram embora para vigiar vocês! Eu os mandei! — Carly baixou os olhos e eu temi que ela fosse chorar.
Ela saiu correndo.
–- Vá, pai! Vá! Você não merece isso -- falei me virando para meu pai.
Meu pai me encarou bem.
–- Eu sempre desconfiei... -- ele suspirou. -- Vamos voltar. Eu te levo.
–- Não. Eu não vou voltar. Não agora! Pode ir... eu me viro -- dei um meio sorriso, mas o que eu queria fazer era berrar e chorar, dizer que odiava tudo.
Meu pai saiu correndo.
Cruzei os braços, e fiquei ouvindo os sons do mercado "bip, bip, bip..." era o sons dos produtos sendo passados pelos os caixas.
A mulher maquiada me encarou. E eu quis xingá-la também e dizer pra ela parar de esfregar a cara naquelas porcarias que a faziam parecer um espantalho macabro.
–- Dê logo a porra desse cheque -- falei puxando o cheque da mão dela. Ao lado, as compras que Carly e papai haviam feito estavam abandonadas, e provavelmente ainda não pagas.
Parei na porta do mercado e fiquei olhando para a frente, a praça. Nada parecia ter mudado desde aquele dia que Matthew e eu havíamos estado ali.
As rampas de skate, as luzes, as árvores,os arbustos, os garotos, as vadias. Tudo igual, a não ser pelo chafariz, que soltava uma água colorida e viva. Caminhei até a praça. Me sentei na calçada, próxima ao meio-fio. Fiquei encarando meu all star surrado, alisando as têmporas e mordendo meu lábio inferior, fazendo um esforço para não voltar a chorar.
Eu podia ir embora, morar com tia Jô, pelo menos por um tempo. Não iria ser ruim. Tia Jô era uma mulher viúva, que vivia em uma mansão velha em Oklahoma com uns cinquenta gatos. Gatos são fofos, amo gatos, então não fazia mal nenhum dividir o banheiro com eles.
–- Você tá horrível, princesa -- falou uma voz rouca e calma atrás de mim. É... sim, quando eu disse que estava tudo igual, isso também valia para ele.
Me virei e encarei o rosto mau barbeado dele. Não senti absolutamente nada, nem medo, repulsa, raiva... tesão.
–- Nicholas -- murmurei.
Ele semicerrou os olhos e apontou dois dedos para mim.
–- Samantha! -- exclamou.
Ele parecia ainda mais magro e pálido. O cabelo estava enorme, caindo nos olhos a cada instante. Olheiras profundas delineavam seu rosto. O piercing ainda estava lá.
–- Você também está horrível -- respondi.
–- Eu sei. Combinamos, né, gata? -- falou.
Me levantei, encarando-o nos olhos.
Os olhos dele pareciam mudar de cor constantemente, azul... verde, mel... como um caleidoscópio. Fascinantes, mas não tanto quanto o de Will. Chora.
–- O que você quer? Me estuprar? Muito bem, faça o que quiser comigo. Não me importo mais -- falei com raiva.
Ele riu.
–- Não vou fazer nada que você não queira. Eu estava drogado naquela noite e bem... você é completamente irresistível, e meu pinto respondeu por mim.
–- Você é patético -- respondi com uma careta.
Ele passou a língua nos dentes, revelando mais um piercing.
–- Sabe, princesa, eu que o que eu fiz foi horrível, mas eu me arrependo -- Nico disse.
–- Agora é fácil falar. Eu podia tê-lo prendido, sabia? Você merecia.
Nicholas sorriu, tirou um cigarro do bolso e o colocou nos lábios. Em seguida, tirou um isqueiro do bolso e me deu.
–- Acende? -- pediu, provocativo.
Arqueei a sobrancelha, e acendi o isqueiro. Coloquei a pequena chama no cigarro, protegendo com a mão, contra o vento. Acendeu.
Nicholas tirou o isqueiro da minha mão e tragou o cigarro. Soprou a fumaça pelo canto da boca, de uma maneira que, não vou negar, causaria arrepios em mim de tão sexy, mas não naquele momento. Eu estava destruída demais para isso.
Ele alisou a barba mal feita, ou melhor, não feita.
–- Você queria -- afirmou ele. -- Você queria mais do que eu naquela noite. Você só estava com medo. Você nem me conhecia. Não culpo você, princesa. E estava muito bêbada. É, e sim, você poderia ter me prendido em dois segundos. Sua mãe é bem persuasiva quando quer.
Fiz um muxoxo.
–- É, eu queria -- resmunguei. -- E não fale dela.
Voltei a me sentar no meio-fio, apoiando a cabeça no queixo. Nicholas se sentou ao meu lado.
Ele era atraente. Fazia Matthew parecer uma Barbie moda & magia, sinceramente. Mas nenhum dos dois me causavam mais borboletas no estômago.
Nicholas vestia um jeans escuro surrado e cheio de rasgos, coturnos e uma camiseta cavada branca, com uma enorme caveira preta estampada.
–- Mas e aí? Firmão no busão? -- perguntou, tragando.
–- Legal no bananal -- respondi baixinho. Por que estávamos falando daquele jeito? Legal no bananal?! Que diabos?!
–- Que mentira, você está péssima. Olhe só para seus olhos, estava chorando.
Funguei.
–- É que... ninguém presta nesse mundo, Nicholas? Ninguém mesmo?
Nico riu de novo. Parecia que com ele, nada nunca estava ruim e o sorriso nunca iria desaparecer de seu rosto.
–- Ninguém. E eu não sou exceção, princesa.
–- Se você sabe disso, por que não tenta mudar? -- sussurrei.
Ele fez um barulho com a boca, e depois tragou de novo o cigarro e soprou a fumaça para cima.
–- Porque eu sou humano -- respondeu. -- Somos humanos, Samantha, todos nós. Humanos erram.
–- Bela filosofia -- debochei.
Nicholas deu de ombros.
–- Mas é verdade, gata.
Suspirei.
–- Eu sei.
Ficamos em silêncio. Longos minutos depois, Nico jogou o cigarro no chão e o apagou com o calcanhar.
–- O que você vai fazer? -- perguntou.
–- Sobre?
–- Sei lá, princesa. Sobre esses bagulhos aí de que ninguém presta, talvez.
–- Não tenho ideia. Acho que vou pegar minhas coisas e desaparecer por uns tempos.
Nicholas sorriu.
–- Tem lugar na minha casa.
Me levantei do chão, ajeitei meu cabelo e enxuguei meu rosto.
–- Nicholas, levante -- falei, frente a frente a ele.
–- Bah, não gosto de receber ordens. Mas por você, tudo bem.
Ele se levou. Seu rosto ficou a poucos centímetros do meu. Coloquei minha mão no rosto dele, fazendo uma carícia em sua barba. Seus lábios eram vermelhos e cheios, seu piercing parecia um convite para atravessar as barreiras da boca. Nicholas colocou a mão em minha cintura e então eu o beijei demoradamente, explorando o quanto possível.
Nada. Eu não senti nada.
Hm, isso era bom. Digo, não sentir nada.
Me separei de Nicholas e olhei bem no fundo dos olhos dele.
–- Espero nunca mais te ver, príncipe -- falei e me afastei, ficando de costas.
–- Ei -- chamou ele. Eu me virei e ele sorria, como sempre, e seu piercing fazia aquele sorriso especial, de certa maneira. -- Adeus. Ou até logo.
Caminhei sem pressa de volta para a casa, decidida a pegar minhas coisas e sumir.
Sobre algumas coisas eu tinha certeza. Por Matthew, desprezo. Por Nicholas, nada. Por Will... dúvidas.
Mas naquele momento, ir embora era a questão.
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