Yotsuba no Kurooba

4 Incerteza. Incerteza,


Notas iniciais
25/01/2015 Como vocês já sabem eu sou péssima com prazos e responsabilidades (as minhas estao perdidas algures, num sítio de que nao faço ideia). Mas bem, estou aqui com um capítulo novo, espero que gostem. Tenham em conta que o meu estilo de escrita mudou drasticamente ao longo desses quase cinco anos, e por isso o início da história está narrado numa linguagem diferente dessa. Espero que ainda assim isso não distraia os leitores de apreciarem a história. Sem mais demoras, uma boa leitura. :3

Shaka não tinha bem a certeza de saber como as pessoas se sentiam quando sabiam que alguma coisa estava errada e não sabiam o que era, mas estava seguro de que estava a receber uma boa dose daquela sensação no momento.

Depois de ter feito uma curta viagem de carro até à estação de Ueno (só um louco transportaria aquelas malas pesadíssimas pela rua), uma única dúvida inquietava o loiro. Surpreendentemente, era uma pergunta fútil – ele devia saber aquilo. Olhou desesperadamente à sua volta, tentando neutralizar a expressão facial (pelo amor de deus, ele quase não mostrava emoções e, para dizer a verdade, preferia-o assim), procurando ostensivamente algum sinal que lhe indicasse o que raios deveria fazer. Shaka estava perdido. Primeira vez pegando um trem na vida – ou tentando, pelo menos -, e as coisas estavam correndo muito mal. Se continuasse assim, só amanhã pegaria a maldita coisa...

«Preciso de apanhar o tren-bala», repetia para si mesmo, e logo depois contrapunha, ainda em pensamentos, «Ok, o que é um tren-bala, e como raios eu apanho um?»

Decidiu-se que o melhor era, para o bem de todos – dele, de seus amigos expectantes que pareciam fãs histéricas e para Mu, claro – perguntar por ajuda num posto. Porque era aí onde as pessoas iam quando tinham dúvidas, não era? Shaka não tinha certeza porque nunca tivera antes dúvidas sobre nada, mas agora perguntar para alguém o que era o tren-bala parecia uma opção tentadora.

Olhou em sua volta, meio desesperado: na sua mente, ele era um protagonista de um filme qualquer, um dramalhão romântico, provavelmente, pronto para salvar a sua princesa – quer dizer, príncipe encantado. E ele era, portanto, o protagonista belo, inteligente e astuto, mas não para as coisas mais terrenas aparentemente.

Dirigiu-se a um balcão de ajuda e pediu informações. Quanto custava o bilhete, o tempo que demoraria a chegar lá, quando partia o comboio, quanto custava viajar em 1ª classe.

Pegou nas suas duas malas pesadas e arrastou-as pela estação, apreensivo, até encontrar um sítio onde se sentar. Avistou um banco, e, sem hesitar, sentou-se nele. Estava aborrecido. Tanto quanto sabia, e tanto quanto a mulher que estava no balcão das informações lhe tinha dito, o comboio chegaria dentro de 15 minutos. Olhou em volta. Era uma estação normal, com pessoas normais, tudo normal. Até um certo ponto, tanta normalidade era... entediante. Monótona. Mas Shaka estava demasiado aborrecido para se entreter a observar a normalidade. Quando avistou uma máquina de bebidas e lanchinhos dirigiu-se para lá, com a carteira na mão, pronto para comprar algo para comer na viagem, já que, na certa, teria fome muito antes de chegar a Hokkaido. A verdade é que não gostava muito de máquinas de venda automática, já que estas quase sempre apresentavam uma escolha de produtos que eram bombas calóricas misturados com sumos que se faziam passar por saudáveis e garrafas de água. (Hey, pelo menos a água era igual a todas as outras. E não engordava).

Shaka foi abanado dos seus pensamentos quando percebeu que o código do produto que tinha digitado não estava disponível. Crédito de 1000 yens, e não tem uma única garrafa de água. Fantástico.

Resignou-se a tentar a sorte outra vez, desta vez optando por um pacote de bolachas que sabia que estava disponível. Retirou o produto da máquina e dirigiu-se para o banco onde estavam as suas malas (felizmente ninguém tivera a infeliz ideia de as roubar, porque se o dia de Shaka estava uma merda, aí ele viraria uma merda colossal, e talvez o loiro não contivesse seus impulsos homicidas).

Espraiou-se no banco, sentiu o friozinho do contacto das suas costas com os azulejos da parede. Desviou os olhos azuis para o relógio da gare: marcavam 17h10. Provavelmente estava a cometer a maior loucura da sua vida. Não devia ir. Algo lhe dizia para ficar. Algo lhe dizia para ir. Vai.

O trem chegou à estação, abrandando a velocidade astronómica à medida que entrava na gare. Em letras laranja, por cima das portas que agora se abriam, brilhavam as palavras “Destination: Hokkaido.”

Era provável que estivesse prestes a cometer a maior loucura da sua vida, mas, olhando as pessoas entrando em multidões apressadas pelas portas do tren-bala e o céu cinzento que se desenhava do lado de fora das janelas da estação, o da sua cidade, Shaka pegou as malas, uma em cada mão e, apesar de olhar por cima do ombro com incerteza, adentrou o trem em passos que a qualquer outra pessoa pareceriam seguros.

Não havia volta a dar.

Já fazia quase duas horas que viajava no trem em direcção a Hokkaido: já passara por cidades enormes, engarrafamentos à saída de Tokyo, e, agora, estava ultrapassando uma estrada localizada no meio de um número sem fim de vastos campos que cobriam o Japão. Verde, muito verde, muito vivo, muito extenso. Adorava aquela paisagem, em que o céu e o verde-esmeralda dos campos pareciam se encontrar em perfeita harmonia, delimitando a linha do horizonte.

Olhava pela janela da cabine constantemente, apreciando a vista; ao seu redor, via campos e mais campos, alguns de flores de cores exóticas, outros cobertos de relva verdejante: uma paisagem linda e privilegiada por demais.

Estava impaciente apesar de não poder fazer nada a respeito; queria chegar ao seu destino o mais depressa possível, encontrar-se com Mu o mais depressa possível. Agora que o relembrara, tinha tantas saudades dele... Fazia muito tempo que não o via, e nesse tempo que passara, percebera que seus sentimentos pelo amigo haviam evoluído para algo mais que simples amizade. Não sabia se Mu ainda sentia o mesmo... Estava correndo o risco de ser rejeitado pela segunda vez, e temia isso.

Mas, no seu interior, Shaka sabia que isso não era bem assim. Por um lado, o que tinha acontecido entre eles no secundário já estava ultrapassado (será que Mu também esquecera?), e por outro, ambos tinham crescido consideravelmente desde o seu último contacto. Estavam completamentes diferentes, ou pelo menos Shaka queria acreditar nisso.

Corria o risco de o loiro já não lhe dizer nada. e, nesse caso, o ignoraria, o que talvez doeria mais que uma facada nas costas. Sinceramente, Shaka era quem tinha o direito de ficar zangado com aquela história toda. Mas tudo bem, ele esquecera, afinal tinha de seguir em frente a qualquer momento. Agora se se reencontrassem seriam como dois velhos amigos, Shaka assim o esperava. Mas Mu podia ter-se fechado, podia muito bem não querer saber dele... Será que ainda estava com Saga? Se sim, era pouco provável que quisesse falar com ele, mas o loiro tinha esperança. Talvez dessa vez pudessem mudar a sua história.

Can I stay here

Can I sleep on the floor?

Havia quem pensasse que viagens de qualquer tipo eram colossalmente aborrecidas – aviões, barcos, yachts, carros, motas, metros -, mas Shaka discordava. Aqui, na solidão da sua cabine, sentia que tinha todo o tempo do mundo para pensar na sua situação, remoer todos os detalhes dos estranhos acontecimentos que tinham sucedido após a visita de Milo, após a menção de Mu aos seus ouvidos. Se fosse honesto consigo mesmo, teria de admitir que aquela história mirabolante do secundário estava mais que esquecida, morta e enterrada, pois nem uma vez depois de se terem separado misteriosamente, Shaka tentou contactar o outro. A verdade é que Shaka não tinha os pés bem assentes na terra no momento – por alguma razão, Mu sempre tinha esse efeito nele -, e preferia acreditar que nunca tinha realmente esquecido o rapaz de cabelos lilases. Mas era difícil ignorar o estrago de 7 anos de esquecimento numa relação.

Quando tinha acabado, para ele foi o fim. Tudo bem. Mas Shaka aceitou esse fim, e começou assim, aos poucos, a esquecer proprositadamente todas as memórias que retinha do rapaz de cabelos lilases. Mas ele era forte, e ele conseguiria.

Menos de um ano depois, já estava completamente ultrapassado disso, dessa doença que chamam amor, ou o fim deste. Já nada lhe lembrava mu como lhe lembrara antes – o c+eu azul, que lembrava o azul celeste característico dos seus quadros; o verde das árvores, de um lago límpido e profundo, que lhe lembravam a cor dos seus olhos; porcelana, que lhe lembrava a sua pele, pálida e brilhante à luz do luar, suave, demasiado suave -, tinha esquecido completamente esses três anos tão complicados e atafulhados de conflitos da sua adolescência. Era tempo de recomeçar. Se o ariano assim o queria, ele também. Se fosse honesto, era o melhor para os dois. Para shaka talvez melhor, devido à facilidade em que tinha tido em ultrapassar esses tempos conturbados, emocionantes e apaixonantes da sua vida. Shaka estava bem, e acreditava que Mu estivesse também.

Os amigos não o mencionavam mais. Em conversas de café, ou discussões completamente sérias, o seu nome nunca vinha a baile. Era assim fácil de esquecer, claro. Em menos de um ano tudo estava bem: Shaka tinha voltado à sua pessoa fria e soturna, sem se juntar muito com os outros, mas ainda assim fazendo o esforço necessário para ter amigos sempre que precisasse. Tinha de concluir que não tinha sido um período muito bom. Lembrava-se odiar quem era, a cada segundo que passava, cada hora que batia no relógio. E depois, tão subitamente como tinha recuperado, fingiu ser feliz. Ria quando os outros riam, chorava quando choravam. Sentia que a sua vida estava cada vez melhor – se calhar, a separação não o afectara assim tanto. Saía à noite, bebia uns copos, juntava-se com os amigos depois do trabalho para beberem uma cerveja, para rirem das suas desavenças.

Tudo aquilo lhe parecia extremamente falso, agora. Não tolerava como isso se tinha tornado uma parte normal da sua vida, uma atitude recorrencte, um lema de vida. Tinha mudado completamente. Não era o rapaz adolescente, frio mas que escondia um bom coração por baixo do seu formalismo; também não era a pessoa falsa que ria de tudo, que dramatizava, fingindo viver a vida a 100%. Era outra pessoa, mas Shaka não conseguia definir-se.

E agora, Mu voltava aos seus pensamentos. Começava a lembrar-se vagamente de momentos no tempo em que os dois estavam juntos. Era ridículo para duas crianças de 13 anos estarem juntas; mas algo o havia atraído sem cuidado para aquele que tinha chamado de seu namorado. Davam as mãos, alguns beijos castos no rosto, nas bocas pequenas; talvez um ou outro toque que fosse mais impuro. Mas nada. Eram apenas crianças, brincando de relação. Shaka nºao se importava, mas Mu parecia verdadeiramente feliz com aquilo (fosse o que fosse) que eles tinham, e ele não ia destruir o que sentia ser uma ilusão para si mesmo. Mas por vezes, Shaka sabia, as coisas não tinham que ver com ele. Neste caso, a sua relação fazia não só Mu mas os amigos dos dois felizes, assim que Shaka considerou que sabendo estar a fazer algo bom para tanta gente, ele não se importava assim tanto de não estar realmente feliz.

Agora tudo isso lhe parecia distante. Dias antigos, como fotografias a sépia que passavam pela sua mente em flashes, confundindo-o. O que tinha sido realmente aquilo? Uma relação um quanto peculiar, pelo menos. Por ele estava tudo bem. As recordações que mantinha da época adolescente eram desfocadas, e Mu não estava presente em quase nenhuma delas. Bem, em quase nenhuma. Uma em particular, lhe chamava a atenção, sempre que surgia por trás de sua cabeça...

«Me dói tanto vê-lo assim, se entregando, porque parece que estou olhando para mim mesmo.»

Alguns raios de sol penetravam na penumbra do velho sótão utilizado pelos estudantes como um atelier: era o fim de uma solarenga tarde de verão, com o céu tingido de tons alaranjados misturados com algumas nuvens que sobrevoavam, baixinhas, a cidade de Tokyo. Olhares de namorados, não namorados, admiradores, pessoas sem nada que fazer da vida, pessoas com algo que fazer da vida, se perdiam naquela visão encantadora.

Pouca era a luz que chegava ao atelier, mas a necessária para que os estudantes que ali se encontravam pudessem ver bem a graciosidade de seus quadros, trabalhos artísticos, esculturas... Se via de tudo um pouco: algumas esculturas permaneciam intocadas nas prateleiras poeirentas encostadas à parede, mostrando bustos humanos perfeitamente esculpidos, alguns pratos e taças fabricados pelos estudantes de olaria, uns frescos, outros esquecidos na sombra. Havia duas filas de telas dispostas no meio do atelier, pois afinal, a aula de pintura terminara à cerca de uma hora. Eram quase palpáveis as sensações que aqueles quadros, geralmente pintados num rápido por alunos exemplares, conseguiam transmitir a quem os olhasse, como ele.

Não estava contando quanto tempo fazia que estava ali, mas tinha a ligeira sensação de que talvez uma hora e meia correspondesse à realidade. Suas pernas doíam e estava cansado, mas seus olhos nunca se cansariam de olhar a pessoa singela que se encontrava à sua frente. E ele.

Sempre ele. Sempre o impedindo de se aproximar de Mu. Ao mesmo tempo que Saga dava um passo para o proteger do loiro, recuava dois. E Shaka sabia que era isso que fazia algumas lágrimas mancharem o rosto pálido do ariano quando Saga «abusava da sua condição». Mas, ao mesmo tempo, sabia também ser isso a origem do sorriso que se espraiava no rosto de Mu, um sorriso feliz, sincero e infantil. E doce.

Todavia, Saga parecia estar sempre um degrau acima dele. Shaka daria tudo para ter aquele sorriso só para si, mas Saga dava mostras de não se importar com isso: quando Mu sorria para ele, Saga dava outro sorriso como resposta, e balançava a cabeça, um gesto que o pequeno ariano achava adorável. E, o loiro pensou com pesar, ele sorri. Ele também sorria quando Mu sorria, ou apenas quando o via passar todos os dias para chegar na aula. Na verdade, não importava bem a ocasião: se contentava apenas de o ver, de o ter ao pé de si.

– E agora, Saga? O que faço? – perguntou Mu, olhando para cima, os seus olhos verdes, agora muito abertos em sinal de confusão indo ao encontro do rosto do seu «instrutor». – Depois de ter usado este azul, eu não sei mais se quero pintar essa parte – Mu apontou para um detalhe na tela que não era visível do sítio onde Shaka se encontrava – em carmim... Não acho que vai ficar legal...

Mas Saga não estava a olhar para ele; Shaka temeu que pudesse ter sido descoberto, pois fora um pouco descuidado e sem querer dera um pequeno chute com a ponta do tênis num armário em que se guardavam trabalhos antigos, o que o poderia ter denunciado ao geminiano. Os olhos de Saga percorreram o atelier e se fixaram justamente na parede atrás da qual o loiro se escondia.

Felizmente, o rapaz de cabelos azuis voltou os seus olhos para o ariano à sua frente, que o encarava em dúvida com um pincel na mão direita e segurando a paleta de tintas na outra.

– Me desculpa, Mu, o que há? Ah, sim... Hanamoto-sensei disse que essas duas cores combinariam bem, mas tenho de concordar com você, não gosto muito de ver elas juntas... – Saga falou sorrindo para Mu, que corou, e, com uma mão despenteou os cabelos lavanda da nuca do menino. – Como você quer fazer agora?

Shaka se segurou com mais força à parede, quase cravando as unhas nela se fosse possível. Apertou os lábios, tentando não se pronunciar. Era aquilo que doía no seu coração, ver Mu sempre pronto para receber um pouco da atenção de Saga, e Saga apenas lhe respondendo com gestos fraternais, pois o dono de seus sentimentos era outro. Mu sempre esperava algo mais, mas depois de se decepcionar tantas vezes com as reacções de Saga, já não dava a devida importância à sua própria dor. Sorria para Saga, o abraçava por vezes e deixava que ele fizesse carinhos em seu cabelo ou em seu rosto sem se preocupar em não ser retribuído.

– Então, uso verde-água – Mu sorriu fechando os olhos, o pincel na sua mão pousando em um tom verde-água na paleta. A sua mão o conduziu à tela, onde pintou com graciosidade o detalhe por cima do sítio que outrora colorira com um azul céu, alegre e radiante.

Saga o olhava pelo canto do olho, pois seu olhar estava pousado na parede que escondia Shaka, que respirava agora com alguma dificuldade, não só devido ao calor sentido no atelier mas também devido à tensão que pairava no ar. Apesar de não poder ver Saga nem Mu detrás da parede, o loiro conseguia sentir o que se passava: Saga estava desconfiando de algo.

– Saga... Se passa algo? – o ariano perguntou ao mais velho, que olhou rapidamente para ele, dando algum tempo a Shaka de o ver também: as suas faces estavam avermelhadas, assim como os olhos muito abertos, que brilhavam devido à luz do sol... E a mais algo que Shaka pôde distinguir como uma lágrima, solitária, no canto do olho, segura por Mu.

– Me espera um pouco, pequeno, eu já volto... – o geminiano falou de braços cruzados, perscrutando o atelier com seus olhos azuis, muito atentos: caminhava agora na direcção de Shaka, que tremia... Na certa Saga já o descobrira, só podia ser isso... Se encostou o mais que pôde à parede, como se assim se pudesse fundir com ela, o estômago colado às costelas, o coração batendo acelerado e a respiração entrecortada...

Mas Saga estava demasiado perto... fechou os olhos, na ânsia de se acalmar e tentou pensar no que faria quando o geminiano o encontrasse... Só uma questão de segundos.

– Shaka? – ouviu o dito cujo perguntar, por detrás da parede. Shaka suspirou e relaxou, já fora descoberto mesmo. Abriu um olho, relutante, e viu o rosto de Saga a centímetros do seu, sorrindo, os olhos bondosos mas mesmo assim penetrantes querendo vasculhar cada canto da sua alma. – Que bom que você está aqui! Vem ver a gente pintando... Bem, eu não estou fazendo nada né, o trabalho é todo de Mu... Eu só estou ajudando... – estendeu uma mão para o loiro, que a apertou – Saga pôde notar – desconfortavelmente, e seguiram os dois para a beira da tela que Mu estava pintando.

– Saga!... – exclamou Mu, mas o resto da frase que pensava dizer morreu-lhe na garganta ao ver os dois rapazes aproximarem-se dele de mãos dadas. Saga trazia um sorriso feliz no rosto... Seu coração pareceu estilhaçar-se em mil pedaços, ao ver o geminiano sorrir tão seguro... Irradiando felicidade... A felicidade que nunca poderia alcançar... Não pelo menos se continuasse chorando, como fazia várias vezes... Tinha de aceitar.

– Mu? Que tem? – perguntou Saga, pegando-o pelos ombros. O ariano tinha a cabeça baixa, oculta pela franja lavanda, mas ainda era possível ver o rastro de lágrimas que escorriam pelo seu rosto branco. Saga sacudiu-o pelos ombros, tentando perceber o que o levara a chorar. Shaka assistia a tudo sem falar nada, também ele com a cabeça baixa, pensando que poderia ter evitado o que estava acontecendo...

– Sa-Saga... – Mu falou encobrindo o rosto com as mãos, tentando ocultar as lágrimas dos outros dois.

– Me diga o que se passa! Mu! – exclamou o geminiano, erguendo a mão para tocar a sua face e parando a meio do caminho, quando Mu se virou e saiu correndo do atelier, abrindo a porta bruscamente e descendo as escadas que levavam ao piso debaixo do edifício. Shaka se preparava para o seguir, mas Saga foi mais rápido e, segurando o pulso do loiro, falou:

– Não, você fica aqui. Deixe-o ir.

– Não! Saga, eu preciso... – o loiro tentou se virar, tentou fazer com que a mão de Saga largasse o seu pulso, mas parou quando viu o rosto do geminiano se aproximar do seu e se viu beijado impetuosamente.

Tentou debater-se, mas Saga tinha muita força; os seus braços musculosos apertavam todo o seu corpo nem um pouco delicadamente, quase esmagando-o, à medida que a sua língua exigia passagem pelos seus lábios. Fechou os olhos, esperando que assim aquilo pudesse passar mais depressa, enquanto abria a boca relutantemente.

A língua de Saga vasculhava sua boca com um desejo tão grande que acabara tornando o beijo violento. Se aquilo podia ter algum lado bom, Saga estava acabando com ele.

Saga. O pesadelo dele.

Bem, para dizer a verdade, os dois haviam se tornado amigos depois do secundário. Depois Saga decidira ir viver para Hokkaido, e deixaram de se falar. Uma vez ou outra os amigos tinham ido visitá-lo, mas Shaka nunca esteve disponível nas ocasiões. Hokkaido? Saga estava vivendo em Hokkaido?

O puzzle começou a encaixar na sua cabeça... Era óbvio, tão obvio, e ele era um burro por não ter visto isso antes. Saga estava em Hokkaido, juntamente com Mu. Obviamente. Obviamente óbvio. Não sabia como ia lidar com isso. Se ainda estivessem juntos, o seu ‘retorno’ seria realmente... Estranho. Shaka só queria que tudo corresse normalmente, sem constrangimentos, mas era óbvio que isso seria difícil com Saga presente. O geminiano tinha um lado um pouco ‘descontrolado’, por assim dizer. Um eufemismo para violento, agressivo, que não tolerava que o desrespeitassem ou afrontassem. Era difícil prever o próximo modo de Saga, pra dizer a verdade. Shaka encolheu os ombros instintivamente. Quem queria saber de Saga.

Porque no momento, ele só queria saber de Mu, aquele que não via há tanto tempo, que pelo mero facto de estar nos seus pensamentos o arrepiava, o fazia questionar tudo o que tinha construído desde a separação, fazia apertar o seu peito com uma saudade que o próprio Shaka não sabia sentir. Depois de tanto tempo, era estranho que quisesse tanto ver o ariano. Tudo bem, eles tinham ‘namorado’, mas... shaka não pensava nele há tanto tempo que a memoria do seu nome era o suficiente para o destabilizar.

E, finalmente, Shaka suspirou, o tren começava a abrandar, aproximando-se cada vez mais da estação de Sapporo, numa velocidade que ainda assim seria suficiente para atropelar alguém...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!