Yoonay

17 Sculptures et sensations.


Notas iniciais
Boa leitura.

Quarta-feira, 14 de junho de 2017.

Depois do dia anterior, quando Noah por fim deixou o prédio da galeria, o rapaz seguiu para sua casa num estado completamente reflexivo quanto ao modo a qual sua relação pessoal com Seung crescia. Sentia-se ao mesmo tempo que incomodado, assustado, pois com o correr dos dias, percebeu que seu coração acelerava mais que o normal quando estava com ele, e de igual modo, os friozinhos em sua barriga eram intensos, e aquilo era errado, para ele, pois em sua visão, o coreano tinha de ser somente seu chefe, e a crescente de outros sentimentos era algo quase que pecaminoso.

E quando Noah, na manhã daquela quarta-feira, entrou na galeria sem aquela habitual empolgação diurna, Yuna logo estranhou, pois era ele quem a fazia dar os primeiros e mais lindo sorrisos de suas manhãs. No entanto, Noah estava desanimado, cabisbaixo e, após fechar a porta, encarou sua colega de trabalho.

─ Bom dia! ─ ela exclamou com um sorriso largo que expunha sua arcada dentaria imaculada, sentindo suas bochechas se comprimirem e estreitar os olhos de íris esverdeadas.

Ela tentou manter-se animada pelo amigo, porém, sua faísca de euforia durou não mais que três segundos, quando notou a fisionomia desanimada de Noah, seu próprio cenho tornou-se fechado e ela tratou logo de ajeitar sua postura, preocupada.

─ Bom dia. ─ ele a saudou, forçando um simples sorriso.

─ Hum... o que houve, hein? ─ Yuna indagou de forma rápida, espremendo os cílios e olhando bem ao fundo dos olhos do loiro, vendo-o soltar um riso nasalado, de modo que desse a entender que já esperava por aquilo.

─ Alguns probleminhas... ─ ele sussurrou desanimado, e ela soube que algo, de fato, não estava certo.

─ Eu nunca te vi tão triste assim, Noah. Me diga, o que está te fazendo mal?

─ Ah, não. ─ ele disse, puxando o ar pesadamente e se desencostando do balcão para se afastar. ─ São coisas pequenas demais para lhe tomar o tempo, mas obrigado pela preocupação, isso sem dúvidas me acalma o suficiente. ─ ele finalizou, já virando para os degraus sob o olhar preocupada da amiga.

Independente do pouco tempo que trabalhavam juntos, Yuna havia criado por Noah um forte laço sentimental. Por isso, naquela manhã, quando viu-o virar na escada de cabeça baixa e com os ombros abatidos, ela realmente sentiu pelo seu amigo.

O loiro subiu calmamente o último degrau, sentindo seu nervos tremerem enquanto se preparava para as dezenas de peripécias que viriam logo depois de abrir aquela porta, e ele sequer levantou a cabeça para olhar seu superior, somente encostou a porta e caminhou até sua cadeira, sentindo, claro, o olhar de Seung sobre si.

─ Bom dia? ─ o moreno disse quase que num sussurro, observando atento os movimentos limitados que seu semelhante fazia. ─ Está bem?

─ Bom dia. ─ Noah o respondeu, retirando uma cartelinha de chicletes do fundo da satchel preta e puxando o fechecler rapidamente, quase o estourando no nervosismo aparente.

Seung obviamente estranhou, e tornou a perguntar: ─ Você está bem?

─ Ah sim, estou. ─ Noah soltou apressado, percebendo o quão estranho estava sendo, então respirou calmo para não demonstrar seu desconforto, e engoliu em seco, antes de encara-lo. ─ Estou bem, sim.

─ Uhum, eu só vou fingir que acredito. ─ ele confessou, o olhando mais incomodado do que desconfiado. ─ Dormiu bem?

"Por que ele tem que ser assim?" pensou o pobre Noah.

─ Dormi sim, obrigado.

Mas era mentira, ele não havia dormido bem, sequer havia dormido, pelo contrário, havia passado toda a madrugada em claro, pensando à respeito do que deveria fazer diante de toda aquela situação, e criando várias opções, uma delas, repelir Seung.

─ Bom, hoje nós iremos escolher as obras, se lembra disso? ─ Seung insistiu, o encarando com atenção e vendo um biquinho confuso se formar nos lábios gordinhos. ─ Vamos então? Para não perdermos tempo.

Noah assentiu, sentindo certo pânico, e pôs-se de pé para logo deixar a sala e se juntar a Seung, que logo o conduziu ao terceiro andar.

Havia uma única porta, que se localizava na parede frontal, e de frente para esta parede havia um belo gradeado preto, que protegia as pessoas duma queda nos degraus da escada embaixo. E Noah passou por esse vão e depois que Seung abriu a porta branca e entrou para a sala, ele fez o mesmo.

─ As esculturas são diferentes, mas espero que goste. ─ Seung soltou num fio de voz, cortando o desgostoso silêncio que se instalava entre eles, coisa que nunca havia acontecido.

"Eu não poderia não gostar nem se quisesse!" Noah novamente pensou, e como da primeira vez, optou por guardar aquele mero devaneio para si, acompanhando Seung para o interior da sala climatizada.

A saleta tinha um cheiro terno de tinta e outras coisas que Noah não conseguira bem diferenciar, e havia também, no centro da sala, uma ampla mesa de madeira, com caixinhas bem organizadas sobre o tampo, e exagerados respingos de tinta por toda a área.

Noah reconheceu os potes de tintas da loja do senhor Paul, e acabou sorrindo ao lembrar-se do velhinho, precisava fazer-lhe uma visita.

Os potes estavam distribuídos pelos vários nichos chanfrados nas paredes daquela saleta, assim como algumas bolsas, sustentadas por parafusos, e outras prateleiras. Ele, também, identificou os vários cavaletes de pintura e os godês, todos do senhor Paul.

─ Bom, é aqui onde eu solto toda a minha imaginação. ─ Seung se pronunciou, tirando o loiro de seu breve transe. ─ O que achou?

─ Estou realmente surpreso com a sua organização, eu achei que aqui fosse estar uma completa bagunça. ─ ele respondeu, sincero, arrancando um riso de Seung. ─ Mas parabéns, é um lugar realmente agradável.

─ Obrigado. ─ ele esperou um pouquinho antes de continuar. ─ As divisões são feitas pelos materiais, ou seja, de acordo com a composição de cada peça.

─ Como assim?

─ Hum, eu as separei entre as esculturas que foram erguidas na argila, as que foram esculpidas em gesso, e as que foram esculpidas no mármore, sem dúvidas as mais demoradas em todo o processo. ─ Noah assentiu e seguiu o movimento que a mão de Seung fez, ao ser erguida e direcionada para o canto mais interno da sala. ─ Aquelas são as de mármore, as deixei mais à frente por serem mais resistentes. ─ o moreno indicou, mordiscando o lábio inferior em nervosismo.

Noah nunca havia visto suas peças de fato, alguns quadros que produzira até chegou a ver, na recepção, ou seja, ele conhecia seus traços e tudo mais, mas as esculturas não, e o medo de que ele pudesse não gostar o afligia totalmente.

─ Eu sempre quis vê-las. Eu posso? ─ Noah indagou, umedecendo os lábios, e Seung sorriu por ver pelo menos uma pequena porcentagem do entusiasmo alheio sendo exposta, e logo assentiu, dando permissão ao rapaz.

Bem como, semelhantemente à uma criancinha abrindo o embrulho de seu primeiro presente, só que mais cuidadoso, ele caminhou até fundo da sala que tinha uma excelente iluminação, e abaixou-se minimamente ao pé duma escultura, segurou a ponta do lençol que a cobria e ergueu-se, puxando o pano com cuidado e expectando tudo com ansiedade.

Noah queria muito saber qual era o resultado final que as mãos de Seung deixavam em suas criações, e quando o lençol finalmente saiu todo, Noah suspirou, totalmente pego pela satisfação diante daquela obra-de-arte.

─ Céus... ─ ele sussurrou somente, nem sentindo o lençol ser retirado de sua mão, por Seung, que também o olhava com atenção.

Noah entrelaçou as mãozinhas à frente de seu corpo e inclinou levemente a cabeça para a lateral, observando os traços da imagem magistralmente esculpida.

A escultura alta, ultrapassando os dois metros, se tratava de uma mulher, que exibia seios redondos e pequenos, levemente arrebitados, que se difundiam quando o nariz achatado era apercebido, assim como seus belos lábios carnudos a qual se fechavam num bico enfurecido.

Ao meio de seu corpo, cobrindo o ombro esquerdo e todo o seu ventre e vulva, algo que imitava um lenço fino de cobria. Tudo muito delicado, tanto que chegava a aparentar ser real!

E os seus cabelos eram longos e ondulados, na altura da cintura, bem como, observando do ângulo em que Noah estava, tendo a escultura sutilmente inclinada para trás, a sensação que se tinha era de que os fios acompanhavam o curso da posição e do suposto movimento que a mulher fazia.

As coxas da escultura feminina eram fartas, e Noah percebeu o cuidado na lapidação quando até o torneamento era feito com muita precisão, deixando algo leve e perceptível, assim como seus pés, que eram gordinhos, com dedinhos espaçados e unhas quadradinhas perfeitamente desenhadas, dando um toque totalmente delicado semelhante ao das mãos, a qual haviam sido lapidadas com esmero.

Os detalhes de todo o corpo da escultura eram formidavelmente profundos, num toque quase que realista, dando ao mesmo tempo que a presença da intensidade; a beleza da graciosidade. Isso somado à total delicadeza presente em cada terminação daquela obra. Sim, era espetacular!

─ Seung, ela é linda. ─ Noah sussurrou, num tom ainda embasbacado.

─ Você achou? ─ Seung perguntou rapidamente, secando o irritante suor que brotava na palma de sua mão. ─ Eu achei que você não fosse gostar.

─ Eu estou encantado. ─ ele pausou antes de continuar, pensando se deveria realmente pedir o que queria. ─ Posso... tocá-la?

─ Sim. ─ Seung somente disse, puxando o ar lentamente e observando os movimentos seguintes do loiro.

No primeiro momento, sentindo a superfície confortavelmente gelada, Noah tocou as bochechas, que eram precisamente cavadas, não deixando tão profunda a marcação. Depois ele escorreu as mãos pelos lábios, onde sentiu as linhas delgadas que há, também, nos lábios humanos, e sorriu, porque realmente, era muito parecido com traços humanais.

Depois ele tocou-a no cabelo, nas orelhas pequenas e cuidadosamente lapidas, com todas as minúsculas cavidades, e em seguida o pescoço, que tinha abaixo clavículas bem marcadas. Deus, os detalhes eram deslumbrantes.

─ Tocar é muito diferente do que somente ver, né? ─ Seung se pronunciou baixinho, umedecendo os lábios diante do olhar majestoso do loirinho.

Noah terminou de correr os dedos pelos braços adelgaçados, e de veias saltadas, e tocou-lhe os dedos finos com uma delicadeza assustadora. E foi ali que Seung sentiu certa pontada em sua virilha, uma pontada que há muito tempo não sentia.

Uma pontada dolorosamente deliciosa.

E o moreno suspirou, abaixando a cabeça logo em seguida, quando percebeu que quanto mais Noah corria os dedos por sobre a superfície de sua obra, mais sensação estranhas aquele inocente ato lhe causava.

Talvez porque ansiasse aqueles mesmos dedos, aquele mesmo toque, correndo sobre a sua pele.

─ É realmente linda. ─ Noah se pronunciou, o puxando com brusquidão de seu breve transe. ─ Ela com certeza tem que ser uma das que serão expostas, sério.

Seung sorriu e assentiu. Ele não conseguiria negar um simples pedido vindo do loiro, nem se quisesse, não agora.

E atrapalhado, Seung desencostou-se da mesa onde estava e caminhou até o Noah, parando há uma distância razoável de seu corpo, o que causou nele certo alerta e quase um pavor quando percebeu-o tão próximo.

E não causou somente um alerta, causou também certo arrepio na espinha e uma confusão engraçada em seu cérebro, o que quase o fizera estourar, porque céus, não é possível que uma simples proximidade pudesse deixa-lo naquele estado.

─ Já temos uma para a lista, então. ─ Seung sussurrou, próximo do ouvido de Noah, e em seguida desviou de seu corpo, aproximando-se da estátua e tocando-a no nariz. ─ Olha ai, Force, você vai passear.

Noah, que antes se encontrava num supérfluo, mas diferente ao seu ver, estado de ecstasy, estreitou seus cílios ao escutar o que Seung dissera.

─ Você tá falando com uma escultura, Seung? ─ Noah perguntou, totalmente divertido, esquecendo-se totalmente do plano de se afastar do mais velho.

─ Ué, mas é claro que sim! ─ ele logo rebateu, também risonho ─ Essa daqui é a Grace, ─ ele suspendeu o pano duma escultura de pequeno porte. ─ uma das minhas filhas queridas.

─ Oh, ─ Noah sussurrou, olhando para a pequena escultura. ─ É realmente linda.

─ Sim!

─ Quanto tempo você levou nelas, mais ou menos?

─ Ah... as de argila foram as mais rápidas. Algumas consegui terminar entorno de uma semana, ou algo assim, mas as de mármore, misericórdia, ─ ele soltou, fazendo um barulhinho estranho e agradável, para os ouvidinhos de Noah. ─ levei meses.

─ Sério?

─ Sim! A Force, por exemplo, levei sete meses nela, pois acabei desenvolvendo um problema sério nos ombros, artrose.

─ Que horror!

─ Ainda tenho que comparecer a algumas seções de fisioterapia, mas tudo bem. ─ ele sorriu, voltando a encarar o loiro. ─ Eu gosto do que faço, então toda a dor vale a pena, porque se eu me doo, faço bem, e se faço bem, meus resultados são mais que espetaculares.

Noah cerrou os cílios em sua direção, tombou a cabeça levemente para a esquerda e pensou: Eu não conseguiria te repelir nem se fizesse um pacto com o satanás.

─ É, sem dúvidas elas são mais que espetaculares.