Eram dez horas da manhã quando eu saí de casa para ir ao estúdio. Não me lembro como era a manhã, como eram as suas cores, cheiros e sabores; não me importava na época.

Mas, agora que conto esse dia para você, leitor, anos e mais anos depois de tê-lo vivido, se eu fosse Deus eu pintaria o céu de cinza – seria uma manhã fria, nublada. Cinzenta. Terrível. Trágica.

Cheguei depois de trinta minutos. Fiz o procedimento que fazia ano após anos: tranquei as portas do carro, ativei o alarme, guardei as chaves e caminhei para dentro do estúdio.

Abbey Road: havia toda uma mística naquele lugar. Aquele lugar era onde a mágica tomava forma – virava música! Minha segunda casa. Meu paraíso particular.

Cumprimentei a recepcionista com um aceno com a cabeça ao entrar na recepção e segui pelos extensos corredores do estúdio, procurando a sala certa – número quatorze. Ela era estava sempre reservada para nós, ela sempre seria nossa – pelo menos, nossa até que a morte nos separasse.

Quando entrei, não me deparei com George ou com Ringo, mas com John – com ele e com uma mulher. Ela era baixa, era branca. Tinha traços orientais, os cabelos pretos e longos e olhos penetrantes. E, ao que tudo indicava... Era uma namorada.

Mas ela não era uma namorada qualquer – ela era a namorada do John.

O primeiro sentimento que senti em relação a ela foi de ódio. Eu quis matá-la! Quis colocar as mãos naquele pescoço e quebrá-lo e em mil pedaços. Quis arrancar aquele coração maldito de seu peito e apertá-lo co força, até que ele se desfaria em minhas mãos. Quis arrancar seus lábios dos lábios que um dia foram meus. Quis tirar seus olhos macabros das órbitas, aqueles olhos que olhavam para mim e pareciam divertir-se com a minha raiva, que fazia meu corpo tremer, meu coração rebelar-se e a minha voz enrudecer-se.

Ela roçava a sua língua na língua da dele, afagava-lhe os cabelos, brincava com os lábios, seduzia-o com suas mãos enfeitiçadas, cheirava-o por inteiro.

Maldita! Bruxa conhecedora das mais profundas magias negras! Dissimulada! Louca! Maldita! Vadia!

Como disse Dom Casmurro, “só não a matei por não ter à mão ferro nem corda, pistola nem punhal – mas os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam suprido tudo. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingança pronta, com este acréscimo que, para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a vítima.”

Eu a via ali, aos meus pés, a contorcer-se de dor, a gritar, a urrar e a gemer por ajuda, enquanto os meus olhos, loucos de ódio, de raiva e de rancor, a torturavam, a cortavam e a queimavam inteira. Os ossos a quebrarem-se em mil e um pedaços... E o sangue! Ah! O sangue, aquele sangue belo, aquele sangue vermelho paixão, a escorrer pelo chão...

Porém, infelizmente, meus olhos não tinham tal capacidade. E, naquele cenário, naquele sujo cenário, a situação era exatamente o contrário do meu delírio do parágrafo anterior: Era eu que me contorcia no chão, urrando de dor, implorando por um fim, com o sangue a sair, sair e sair, o coração a doer, doer e doer, e as lágrimas, as lágrimas de um amor sofrido, a caírem pelo meu rosto quente, febril. Ai de mim!

Respirei fundo. Tentei controlar o ódio em minhas veias e chamei John para um canto, para longe dela. Ele teria que me falar tudo! Quem era ela? Aquela maldita! Quem ela pensava que era para entrar assim, em nosso estúdio, em nosso paraíso, em nosso mundo? Ninguém de fora tinha permissão para entrar em nosso estúdio – era um lugar sagrado, aonde nem Mal Evans, por exemplo, que era do nosso círculo de amizades, ousava entrar. Imagine as nossas mulheres, acompanhantes, namoradas, ou o que quer que ela fosse! Ah, ele teria que me falar, sim. Ai dele se não o fizesse!

John foi ter comigo, sem nenhuma objeção. Arrastei-o para um canto distante do estúdio, fiquei próximo possível dele, a tentar penetrar em seus olhos e em sua alma, e comecei o interrogatório. “Quem é ela?” eu perguntava. “Quem é?!”. A cada pergunta, minha respiração ficava mais falha, minhas mãos tremiam, ansiando cada vez mais um pescoço para estrangular e quebrar, e que, de preferência, fosse o dela.

John nada respondia, a apenas me olhava, indiferente, com um ar... distante. Parecia cansado, os olhos estavam caídos, quase que sem vida. Os óculos bem que tentavam ocultar tal fato, mas eu podia ver através deles – durante dez anos, foi o que, na maioria das vezes, eu fiz: vi através de John e de quaisquer barreiras que ele colocava no caminho.

Estava sob o efeito de drogas, com certeza – mas não o ácido ou a maconha. Era algo diferente, algo que eu desconhecia. Algo que ele experimentara com ela.

“John?” eu chamava. “John? Você está me ouvindo?”

Ele balançava a cabeça, dizendo que sim, mas, na verdade, eu sabia que ele nada ouvia. E tal fato só me deixava cada vez mais irritado do que já estava.

Calei-me por alguns segundos, tentando procurar me acalmar, tentando procurar alguma saída. Passava furiosamente as mãos, que continuavam a tremer, por todo o meu rosto, que continuava febril, tentando forçar algum pensamento. Mas nada me veio à cabeça. A única coisa que eu tinha em mente era que ela deveria sair dali.

Enquanto isso, ela, cautelosamente, chegou perto de nós. John pareceu despertar de um sono profundo quando ela colocou suas mãos em sua cintura. Finalmente ele prestava um pouco de atenção no mundo que tinha em sua volta.

“Esse é aquele... parceiro do qual você me falou?” perguntou ela enquanto afagava as mãos de John com as suas, dizendo a palavra “parceiro” com um tom que me desagradou imediatamente. Ela parecia ter tanta raiva e tanto receio de mim quanto eu dela.

John não falou nada, apenas assentiu com a cabeça.

E então rapidamente um silêncio pesado estabeleceu-se entre nós. Eu e ela nos fitamos furiosamente. Faíscas de ódio saiam dos meus olhos. E mais uma vez tive vontade de matá-la ali mesmo, pouco se importando para os que assistiam aquela cena.

Mas o confronto foi interrompido por George Martin, que agora nos chamava para gravar. John foi com ela, e eu fui logo atrás.

A música escolhida para aquela sessão era “While My Guitar Gently Weeps”, uma pérola do George. Realmente uma das mais belas músicas dele que eu havia escutado. A melodia era magnífica, eu admito. E a letra, a letra era sensível, algo de dentro, praticamente uma parte de George. Mas, na época, eu realmente não vi nada demais nela, como em todas as outras que já havíamos gravado.

E lá estava ele, George Harrison, violão a tira colo, mostrando pela enésima vez a canção para o George Martin. Martin assentia com a cabeça e fazia alguns comentários, mas aquela canção estava longe de impressioná-lo. Ao nos ver, Martin levantou-se e nos cumprimentou. Seus olhos, ao chegar nela, demonstraram estranheza e confusão. Big George conhecia bem a nossa regra de ouro, sabia sobre o que pensávamos sobre a companhia das mulheres. Com certeza, ficou com um pé atrás por justamente o beatle que mais defendia a regra agora quebrá-la.

George foi outro que teve a mesma reação. Ringo, idem. Ninguém fazia idéia do que passava na cabeça de John. Não fazia sentido nenhum.

Quando ambos saíram para ir ao banheiro, nós quatro, Big George, Ringo, George e eu, começamos a levantar hipóteses sobre a mulher que acompanhava John. Quem raios é ela? O que ela faz? E, o mais importante, por que ela está aqui?

Estávamos todos distraídos, a navegar pelos mares da memória, quando John e ela entraram. John parecia final e totalmente desperto, porém com a mesma aparência de drogado que estava antes, os olhos dilatados. E ela tinha um sorriso malicioso borrado nos lábios.

“Gente...” ele começou, com um pouco de hesitação, mas, encorajado por ela, respirou fundo, mediu palavras e finalmente disse: “Esta é Yoko Ono.”

Yoko Ono. Então esse era o nome dela. Yoko Ono. Não já tinha ouvido falar sobre ela? Sim, já. Não seria aquela artista plástica que tinha convidado John a ir em sua exposição...? Não seria aquela que tinha perturbado John durante a viagem inteira na Índia com cartas...?

“Ela, a partir de hoje, vai ficar aqui, comigo. Acompanhar-nos na gravação” limpou a garganta. “Espero não ter nenhuma objeção por parte de vocês. Ou será que há alguma?” E os olhos drogados nos fitaram duramente por alguns segundos.

“Ótimo! Vamos à gravação.” E foi para perto de sua guitarra, acompanhado por Yoko.

Nenhum de nós quatro disse nada. Não nos atrevemos – sabíamos como John ficava quando alguém se colocava contra suas idéias, principalmente quando ele estava sob o efeito de drogas, como agora. Embora a voz que acabara de conversar conosco tinha um tom calmo, havia algo de ameaçador nela também – uma fera esperando por alguém lhe retirar os grilhões. E nenhum de nós queria pagar para ver a destruição que ela faria quando libertada.

Embora tivesse esse medo, a revolta contra essa atitude de John e a raiva de Yoko não se apagaram em meu espírito. Continuei com a mesma vontade de matá-la. E a cada segundo, ela caminhava para um nível colossal de ódio. Eu era uma bomba relógio ambulante, esperando para explodir.

Caminhei até meu baixo, e tentei afiná-lo, procurando uma distração. Tal tentativa foi em vão – a todo instante, eu ouvia uma risada, um beijo, um carinho, um sussurro entre os dois. E aquilo me perturbava até as minhas entranhas.

Depois de vinte minutos, estávamos todos prontos. Ringo estava posicionado em sua bateria Ludwing, ainda com o bulbo escrito “Love”, George e John com suas respectivas guitarras e eu, com o meu baixo, um Hofner.

Fizemos cinco takes normais, como fazíamos antigamente, sem obter um resultado satisfatório. George estava insatisfeito com o jeito que tocávamos, e John toda hora criticava o jeito que George cantava, enquanto Yoko fazia sugestões para todos, sobretudo para mim, com um tom de voz bastante questionável. Ringo ouvia as críticas – coisa como “Precisa de mais sentimento nessa merda de bateria!” – calado, assentindo com a cabeça. Big George também entrou na discussão, o que me fez, sem pensar duas vezes, lhe gritar: “Se você quer assim, então venha aqui tocar você mesmo!”

Mas minha guerra foi maior com Yoko, claro. A discussão ficava cada vez mais quente e cada vez mais pessoal, até quase chegar num corpo a corpo. Ringo, infelizmente, nos separou. Mas não por muito tempo. No dia seguinte, e no outro e no outro e no outro, lá estávamos nós, a ofender uns aos outros, a criticar uns aos outros.

Até que chegou num ponto em que não pude mais agüentar. Não, não conseguia mais, de jeito algum. A fera em mim, e não a fera em Lennon, arrebentou os grilhões, e foi pra cima de John.

O soco que lhe dei, bem no nariz, pareceu ser libertador para minha alma. Rapidamente senti meu corpo livre de parte da tensão que carregava, mas não totalmente, claro – era preciso mais, sempre mais, para satisfazer a fera.

John, quando percebeu o que fiz, revidou. Uma das pancadas mais doídas que recebi – bem na boca. Um filete de sangue começou a escorrer dos meus lábios, mas não era sangue o suficiente para me parar – fui para cima dele com toda a força que pude.

Socos e mais socos depois, estávamos com uma aparência meio macabra. Algumas partes do corpo inchadas, algumas sangrando. De qualquer modo, continuamos a lutar mais e mais, com unhas e dentes.

A pequena platéia nada fez nos primeiros quinze minutos de luta – estavam atordoados demais por causa da cena que passeava por seus olhos. Mas assim que recobraram a consciência, procuraram nos afastar – Ringo e George foram para mim, e Yoko, somente Yoko, para John.

“Idiota! Filho da puta!” gritávamos, dedos, lábios e narizes sangrando, unhas cheias de pedaços um do outro. “Você ficou louco de vez?”

Já ameaçávamos ir para a briga de novo quando fomos interrompidos por Ringo, que até agora tinha ficado calado em todas as discussões, gritou, ou melhor, urrou, jogando suas baquetas no chão: “Já chega! Eu vou é sair dessa porra! Chega! Acabou!” e saiu, xingando meio universo.

Ficamos chocados, como podes imaginar. Ringo era o mais harmonioso e calmo de nós quatro, nunca se metia em brigas, sempre nos equilibrava no que se diz respeito a temperamento – se ele estava mal, então imagine o resto da banda.

Levantei-me, meio cambaleante. Sacudi a cabeça, tentando recuperar um pouco de juízo. Olhei para todos em minha volta duramente, mas com uma dureza especial para a “pequena e delicada” japonesa sentada ao lado de John. Respirei fundo e anunciei, em alto e bom som: “A sessão de hoje acabou.”

Ninguém ousou discordar.

Quarenta minutos depois, todos, já calmos e limpos, começaram a sair. Primeiro John e Yoko, sempre juntos; depois, George, resmungando em indiano; e por último, Big George, a discutir com seus engenheiros possíveis férias para si. Eu quis ficar por mais alguns instantes.

O que estava acontecendo com todos nós, eu não sabia – não tinha como saber. Mas de uma coisa eu tinha certeza: aquele era o começo do nosso fim.

Notas finais
Precisa de uma boa revisão, eu sei. Vou fazer com mais calma no fim de Junho tudo - com o final do Simestre de tal.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!