Yokan

1 oneshot


Notas iniciais

DEUSES, há quanto tempo não posto nada do Dir.
Tive a idéia pra essa fic enquanto eu ia para o colégio de manhã, no metrô lotado, é.

Boa leitura.

Os dois guitarristas mantinham os olhares vidrados, um no outro. Nenhum deles pensava ou queria desviar o olhar –um queria manter o olhar dentro dos olhos do outro, saber o que o outro pensava, ler sua alma. Estavam alheios à tudo, inclusive aos outros integrantes da banda.

Daisuke não agüentou e acabou se remexendo no sofá, um pouco inseguro –como sempre ficava quando Kaoru o olhava daquela forma-, um pouco relutante ao desviar o olhar. Normalmente o guitarrista mais velho o olhava daquela forma fixa quando queria algo –trepar, por exemplo- mas uma voz bizarra sussurrava, murmurava e as vezes até gritava no ouvido do mais novo que dessa vez o líder não tinha algo tão bom assim para pedir –mandar, exigir.

Niikura franziu sutilmente as sobrancelhas, um movimento tão ínfimo que só alguém que o conhecia bem perceberia. E Andou percebeu, e se inquietou ainda mais.

-Cansei, Die.

-...O-oi?!

Daisuke se inclinou para frente, sentindo um arrepio esquisito subir sua espinha. A voz bizarra agora só gritava, gritava e berrava, irada, soando um alarme. Mais um pouco e o guitarrista beberrão duvidaria da própria sanidade.

Não entendera o que Kaoru quisera dizer –rotina, até- mas sabia que não era algo bom. Que era algo relacionado consigo. Dessa vez observou-o suavizar a expressão, trocando a expressão ‘ligeiramente irritado’ para a ‘ligeiramente cansado.’

-É isso, Die. Cansei.

-D-do... Do quê?

-De nós. Não... De você. –disse pausadamente, torcendo para Daisuke não surtar ali no backstage. Os staffs que passavam concluíam que os dois guitarristas apenas estavam conversando ou brincando de alguma brincadeira interna, se olhando daquele jeito. –Chega, Die, a brincadeira acabou.

A voz se silenciou, e em parte, Andou agradeceu mentalmente. Mas logo o peso das palavras de Kaoru foi largado sobre si.

Recostou-se no sofá que estava posicionado de frente para a cadeira onde o outro guitarrista estava sentado, sentindo a tensão pré-show piorar, provocando uma suave –mas em breve absurda- dor de cabeça. Levou as mãos às têmporas, as massageando lentamente, degustando como degustaria um vinho as palavras de Niikura.

-Cansou? É isso? Simples assim?

-Simples assim. Complicar por quê? – os lábios se curvaram sutilmente e por entre eles um riso de escárnio se fez presente, cessando tão subitamente como começou.

-...É, devo ser algum tipo de... – Die procurou alguma outra palavra que fosse menos clichê, mas não achou. – Brinquedo. Boneco.

-Não. Mas é comum cansarmos de outras pessoas, Die. E olha que estou cansando de você como amante, e não como pessoa. –pronunciara aquilo como se fosse um conforto para o outro guitarrista. Não era.

Die se sentiu um inútil, como há muito tempo não se sentia. Passou as mãos num ato de nervosismo pelos cabelos escuros, os jogando para trás.

-Foda-se, Kaoru. – foi tudo que conseguiu pronunciar num momento daqueles.

-É, foda-se, Kaoru. – e Niikura repetiu o que ele dissera, permitindo-se sorrir amargamente por alguns momentos. Era melhor assim. Melhor acabar antes que virasse algo sério, algo... Inquebrável. Como o laço que representara com um kanji na tatuagem de seu braço*. Um laço que queria ter com o outro guitarrista, mas o medo era maior que a vontade, e isso, o Líder tinha que admitir a si mesmo. E tinha que ser assim, um término violento, agressivo, que magoasse Daisuke o suficiente para que ele nunca mais fosse atrás de si.

Um staff parou entre a cadeira de Kaoru e o sofá de Die, avisando que o show iria começar, que eles deviam ir andando.

Kaoru se levantou primeiro, batendo na calça jeans, tentando relaxar. Die levantou rígido e caminhou à passos pesados para fora do backstage. Que Kaoru se fodesse.

Niikura respirou fundo, levantando o rosto, fitando as lâmpadas foscas no teto. Grunhiu relativamente alto, saindo à passos pesados também.

Podia ser o melhor à fazer, mas à vista do líder –e claro, à de Die-, estava sendo o pior.

Notas finais

*: galere, vamos lá, todo mundo sabe que o Kaoru tem o kanji 'kizuna' tatuado no braço né? kizuna = laço, no caso, um laço inquebrável, num sentido sentimental. Mais ou menos.

Bom, é. Reviews?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!