Yin Yang (Reescrevendo)
3 O Fato
O quarto era pequeno, com uma esteira de palha no chão e uma manta dobrada sobre a plataforma de madeira que servia de cama. A janela de papel deixava passar a luz da lua em fatias finas.
Po ocupava quase todo o espaço.
Estava jogado de bruços, os braços abertos, uma perna pra fora da coberta. O ronco vinha em ondas: uma inspiração funda, uma pausa, um grunhido baixo no fim.
Tigresa ficou de pé por alguns segundos, olhando pro quarto que cheirava a macarrão e tinha tigelas empilhadas perto da janela. Tudo ali era dele. A manta amassada, as marcas de óleo no chão, o calor que ainda pairava no ar mesmo com a janela aberta.
Ela se acomodou na esteira de palha, o mais longe que a corrente permitia, e apoiou as costas contra a parede fria.
Fechou os olhos e tentou encontrar o silêncio.
Não veio. No lugar, veio o ronco dele, o rangido da cama toda vez que ele se mexia, e o tilintar fino do metal sempre que um dos dois respirava fundo demais. Tigresa esticou o braço no escuro, não em direção a ele, mas só pra sentir os elos passando entre os dedos, um por um. O peso. O frio. Depois parou, deixando a corrente repousar sobre a esteira.
— Não dorme?
A voz dele saiu pastosa, amassada contra o travesseiro.
Ela hesitou.
— Durmo.
— Hum.
Po não perguntou mais nada, só virou o corpo, arrastando a corrente com ele, e ficou de lado olhando na direção dela. Mesmo no escuro, Tigresa sentia o peso do olhar.
— A corrente tá incomodando? — perguntou ele.
— Não.
— Então o quê é?
O silêncio esticou entre eles por tempo demais.
— Não sei — ela admitiu, e odiou o quanto aquilo soou vulnerável.
Po não insistiu, e ela agradeceu mentalmente por isso.
O ronco demorou a voltar, e quando voltou era mais baixo, abafado, quase respeitoso. Ele estava tentando não fazer barulho. Tigresa percebeu e sentiu algo estranho apertar no peito, mas não tinha nome pra aquilo, então fingiu que não tinha percebido.
De madrugada, ele acordou pra beber água. Sentou na cama esfregando os olhos com o dorso da pata, e a corrente puxou. Tigresa sentiu o peso deslocar no próprio pulso.
— Desculpa — Po murmurou, ainda meio dormindo.
Ela não respondeu.
Ele ficou ali sentado, piscando devagar, tentando lembrar por que tinha acordado. Depois pareceu desistir e deitou de novo, ajeitando o braço num ângulo que não puxasse a corrente.
— Po.
— Hm?
— Você ronca.
Ele soltou uma risada baixa, abafada no travesseiro.
— Desculpa.
Tigresa deixou o silêncio voltar e ocupar o quarto de novo. Mas quando o ronco dele já tinha recomeçado, quando ela tinha certeza de que ele estava dormindo, disse baixo:
— Não precisa pedir desculpa.
A madrugada avançou devagar. O ronco preencheu o quarto num ritmo tão constante que quase parecia proposital. A lua se deslocou no céu, e as fatias de luz no papel da janela mudaram de ângulo, desenhando novos padrões nas tábuas do chão.
Tigresa continuou acordada, a corrente imóvel sobre a esteira, os olhos fixos no teto.
Ele é o Dragão Guerreiro, um fato, tão simples assim .
Ela dormiu quando o céu começou a clarear, e pela primeira vez em anos, o sono veio sem que ela precisasse forçar.
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