Yes, Your Highness

1 Capítulo 1 - Oneshot


Notas iniciais
primeira fic de kuroshitsuji, espero que gostem!

“Olhos famintos me observam se piedade, á espera de um pequeno descuido, para me ferirem novamente. Mas isso não vai acontecer.

Essas pessoas... Não são nada além de demônios-humanos, voltados para si mesmos, cujo único objetivo em vida é tirar vantagens uns dos outros ate não poder mais. Ate um dos lados estar irremediavelmente derrotado.

Como fizeram com meus pais.

Não me recordo mais deles. Um dia eles simplesmente desapareceram, deixando meu irmão e eu sozinhos neste mundo podre. Mas aquele ainda não era o fim. Tínhamos um ao outro e isso parecia bastar. O fato de estarmos fracos, o fato de termos de lutar dia a dia para não morrermos de fome era apenas mais um desafio alucinante a se vencer. Juntos.

Mas ele também se foi. E foi neste dia que minha vida realmente acabou.”

Não consigo lembrar quando tudo começou. Lembro-me apenas que, numa noite fria e vazia, eu o vi frente a mim.

Talvez já o tivesse visto antes; talvez, aquele primeiro contato fosse apenas mera formalidade para uma perseguição que durava meses; talvez, minha alma podre e estagnada já o tivesse atraído a ponto de vigiar meus passos, se oferecendo a mim, ante aquelas simples e confusas palavras.

Mas lá estava ele, como muitas outras vezes estivera, a tocar meu corpo.

Suas mãos eram fortes. Sim, muito fortes. Porem tinha certa delicadeza. Seus braços me envolviam com possessividade e através do espelho eu podia ver seus olhos negros a fitar meu rosto, meu corpo, minha alma.

Era sempre assim.

Ele colocava-me frente ao grande espelho do quarto, de costas para ele, e começava.

O ritual que ele fazia todas as noites, quando, sozinhos no quarto, ele me colocava na cama. Sempre, suas mãos trabalhavam rápido, desabotoando cada botão do colete, retirando-o de mim e o colocando elegantemente sobre o sofá ao nosso lado. Depois, abria a camisa sem pressa, apreciando o físico á sua frente. Suas mãos passeavam rápidas e quase nervosas por minha pele, tocando, maculando ainda mais o nada que eu era.

Logo sua atenção era voltada ao short que eu usava e este era retirado de mim com certo cuidado. Quando a peça já estava ao chão, suas mãos fortes me erguiam no ar e me levavam ate a cama, sentando-me na beirada e passando para a segunda fase do ritual noturno: contemplação.

Durante longos segundos – ou minutos, dependendo de meu gosto – ele admirava-me com olhares famintos e um sorriso quase pervertido nos lábios. Massageava cada parte de mim com suas mãos habilidosas retirando toda a tensão do dia e, devagar, desciam por minha perna ate alcançar os sapatos e retira-los mecanicamente. A ultima peça, a roupa intima, era então retirada e meu corpo rapidamente coberto pelo felpudo roupão. Era a hora do banho.

Sentia-me içado por ele que, sem demora, me levava ate a quente e luxuosa banheira de mármore, pronto a continuar o que começar.

Deitou-me suavemente naquela agua quente e com determinação, retirou suas luvas alvas e tocou-me novamente.

“A estrada pela qual eu andava era escura e lamacenta. Havia chovido a noite toda e eu estava tremendo de frio. Coberto apenas por farrapos de roupas, minha única alternativa era a morte, mas eu era orgulhoso demais para me entregar á ela. Continuei a caminhar.

Prometi ao meu irmão que ia viver. Que ia me vingar de todos os que me faziam sofrer, que ia viver. Mas agora esta promessa parecia tão etérea e vazia que eu me obrigava a não pensar nela. Tudo o que eu queria naquele momento era comida e uma cama confortável para dormir. Mas este pequeno desejo ainda me seria negado por muitos meses.

De repente, naquela estrada abandonada, uma carruagem passou. Ao me ver o guia a parou e me olhou de cima a baixo.

E novamente me senti despido por olhos famintos e cruéis.

Um homem me fez subir na carruagem, já cheia de crianças mais ou menos de minha idade, e igualmente esfarrapadas e seguimos viagem.

Não reagi. Não tinha forças para isso. De qualquer jeito, o lugar para onde ele me levaria não podia ser pior do que a lama em que eu estava.

Como eu errei...”

Suas mãos gélidas percorriam meu corpo com vontade como se quisesse guardar na memoria dos dedos cada sensação, todos os arrepios de minha pele, para sempre. Logo sinto a bucha macia a passear por meu corpo limpando o suor, a poeira, deixando minha pele pálida imaculadamente fresca e alva. Mas ela não podia alcançar minha alma. E, ainda se pudesse, não seria Claude a limpá-la... Não. Definitivamente não. Ele me preferia assim, maculado, sujo, pedante por ele. Seus movimentos eram precisos e luxuriosos, extraindo o máximo de mim.

Quando terminou, ele logo me enxugou e sutilmente deixou que seu toque gélido me despertasse, com sua mão deslizando pelas partes mais sensíveis de meu corpo, para então, egoísta, vestir-me com o pijama branco e deitar-me sobre a cama, me negando seus toques.

“A partir daquele dia vi-me ser ainda mais odiado e maltratado que antes, e eu sequer sabia o porquê. Aquele velho imundo me odiava, me feria, e se não me tocara naquelas primeiras semanas era por não suportar olhar para mim. Mirar meus olhos carregados de desprezo, de amargura. Os olhos azuis tão iguais aos dele.

Com o passar do tempo vi cada criança daquela carruagem a morrer de peste, uma a uma, caindo doentes, febris e cheias de feridas nojentas, naquele porão frio e úmido no qual no confinaram. E ninguém se importou. Vivas, mortas, todos ali que já não podiam ficar em pé eram jogadas numa valeta longe da mansão, e suas historias se perdiam. Soterradas por centímetros de terra e pedras.

No fim daquela epidemia, vi-me solitário ali. Eu era o único sobrevivente. O único que suportara a peste e saíra dela sem macula ou sequelas.

Então, como se premiado pela minha resistência, os empregados me tiraram de lá.”

Logo em seguida, uma grande bandeja de prata era posta perante meus olhos. Nela, chás caros, leite quente, biscoitos e doces dos mais gostosos. Tudo para mim.

Servidos em lousas de porcelana, por um mordomo de alta classe.

Após o chá noturno, ele me deitava na cama macia e cheia de almofadas e cobria-me com um lençol de seda pura. As cortinas eram fechadas e um confortável cobertor era colocado sobre mim.

Todas as velas eram apagadas, restando apenas as do castiçal que ele segurava.

_ Durma bem, milorde.

Todas as noites eram assim, mas esta... Foi diferente.

Depois do ostentoso jantar preparado e servido por aquela serva inútil, iriamos para a biblioteca jogar, porem Claude me parou. Era hora de dormir.

Assim como antes ele se aproximou e tocou-me, libidinoso. Sua voz gelidamente macia a sussurrar em meu ouvido:

_ Esta na hora de se recolher, my highness.

Sempre a mesma frase. Sempre os mesmos gestos de me guiar, como a uma criança, ate o quarto escuro e ricamente decorado no qual eu dormia, para banhar-me e depois colocar-me na cama.

Mas naquela noite, havia algo estranho no ar. Sim, algo estava errado em seus gestos, uma pressa quase aflita se mostrava em seus atos, e, o que antes era uma caminhada tranquila ate o quarto, agora era feita quase como uma urgência.

Suas mãos fortes me empurravam, ansiosas, e logo vi-me novamente frente ao espelho, com ele a admirar cada traço de meu corpo, cada linha de expressão, me avaliando como um comprador exigente avalia uma obra de arte cara demais. Mas seus dedos, que deveriam distribuir prazer, começaram a percorrer meu peito por sobre as roupas. Quando percebi, eles rasgavam-na e penetravam pela minha carne, impiedosos.

_ ... Claude... O que...

_ Xiuuu. O tempo para brincadeiras já passou, Alois. O contrato já foi cumprido e agora só lhe resta um ultimo pedido, nada mais.

_ Então é isso...? hum. Todo este tempo apenas esteve brincando comigo... Apenas esteve ao meu lado ate encontrar algo mais interessante para fazer... ah... Essa dor... Eu quero que pare! Claude... Pare!!

Como um bom mordomo, ele parou. Sua mão que antes me feria, agora repousava sobre o colete encharcado de sangue.

_ O que deseja que eu faça agora, meu lorde?

_ Se este é o fim... Apenas me faça parte de você, Claude. Sem tortura. Não quero ouvir minha voz a gritar de novo. Nunca mais!

E assim ele o fez.

“Eu fui levado ate um banheiro grande e meu corpo foi cuidadosamente lavado. Trataram de minhas mãos e pés, maquiaram-me e me vestiram com um longo quimono feminino para me levarem á ele.

O quarto era imenso e todo decorado. Cortinas negras cobriam as janelas e inúmeras velas tratavam de iluminar todo o local. A cama parecia feita de ouro e coberta com os mais caros jogos de lençóis. No entanto, nem todas as riquezas do mundo poderiam encobrir aquele cheiro azedo que vinha dele. O homem parecia apodrecer em vida.

Ele me esperava sentado aos pés da cama, impaciente. Seu rosto se contorcendo numa careta de raia a me ver. Ao ver meus olhos mortos.

A primeira coisa que recebi ao adentrar o quarto majestoso e fedorento foi um golpe que me fez cai ao chão. Ele me detestava.

Mas eu não ia deixar minha vida acabar ali. Não. Eu o venceria. Eu viveria.

E foi para isso que o seduzi.

Senti suas garras imundas e imaculadamente cuidadas a rasgarem meu peito, mas nenhum som deixava meus lábios. Ele usava de seu poder para bloquear minha voz e com isso, apenas meus olhos poderiam descrever as sensações que me acometiam.

Dor.

_ Como desejas, Alois Trance, hoje tomo sua alma sem que seus lábios exprimam sofrimento. A partir de hoje, você pertence a mim.

Sem poder falar, pela primeira vez, em anos, eu via meus olhos chorarem. Lagrimas quentes escorriam por minha face antevendo o futuro negro que me esperava. Não devia ser assim.

Não devia acabar desse jeito.

Com cada vez mais gana, Claude deixava suas garras afiadas retalharem-me por dentro, ate que eu já não conseguia mais ficar em pé, procurando algo que devia estar dentro de mim. Pedi, sem palavras que me livrasse daquela dor.

Eu não queria senti-la. Não queria morrer ali, só queria fazer parte dele. Estar com ele para sempre e apenas isso.

Mas meu mordomo era cruel, e sem palavras, ele não atenderia tal desejo.

Logo aquelas mãos poderosas agarraram meu coração. E neste momento eu senti que não tinha mais volta. Uma energia estranha tomando conta de mim, travando meus movimentos, me completando de uma forma impura e cruel. Meu corpo cada vez mais fraco, minha consciência afundando no mais escuro abismo, se apagando lentamente.

Ele estava me matando.

“Quando percebi eu estava embaixo dele. Aquele corpo imundo e detestável me comprimia sobre a cama, quase me sufocando, enquanto suas mãos grudentas me tocavam sem pudor. Seus lábios odiosos percorriam meu corpo, e a boca mordia, chupava, marcava cada parte de mim, como se mostrando que eu o pertencia e a ninguém mais.

Assim, num ataque de raiva e luxuria ele me virou sobre a cama e entrou. De uma só vez, causando uma dor excruciante e quase insuportável, mas eu não gritei, sequer permiti-me chorar. Enquanto ele estocava sem piedade eu apenas gemia, apenas o incentivava, excitando-o ainda mais. Incitando-o a me querer mais e mais.

Quando finalmente acabou eu me sentia exausto, dolorido, sujo; sentia como se nada neste mundo pudesse limpar de mim aquele liquido nojento que escorria por minhas pernas, o cheiro dele em meu corpo, a saliva dele espalhada por minha pele, o sangue que respingara por minhas penas e pelas dele. Os líquidos asquerosos que ele me fez engolir ao comprimir minha boca contra aquilo... Era como se aquele gosto jamais fosse sair de meus lábios. Nada, nada podia devolver a pouca inocência que eu tinha antes de adentrar aquele aposento.

Naquele momento eu era apenas isso: um animal indefesso e imundo nos braços de seu dono.

Mas eu consegui. Dentro de semanas ele estava aos meus pés, me dando tudo o que eu queria, me tratando como um nobre devia ser tratado. Mergulhando-me em riquezas.

Ate que um dia ele me deu um nome. Deu-me sua fortuna e posição. Mas isso já não era mais o que eu queria.

Meu desejo por riquezas mudou.

Eu queria... Mata-lo.”

Sentia o sangue a deixar meus lábios, sentia os dedos dele brincando com meu coração, indelicados, precisos. Sentia seu hálito em minha orelha e tudo aquilo de repente se tornou bom.

A proximidade que eu tinha do corpo dele era boa.

Uma sensação de anestesia me percorreu, acalmando a dor, e destravando minha boca.

_ Claude... Agora ficaremos juntos para sempre, não é? Agora, seremos um só... Você me ama, Claude-san? Me ama?!

_ Sim, Alois. Eu amo sua alma. Amo seu corpo. E a partir de agora, você servira a meus propósitos obedientemente. Sua alma é minha. Seu corpo é meu, milorde.

Sim.

Obedientemente eu o amei.

Obedientemente entreguei-lhe tudo.

E com esta mesma obediência, Claude me concedeu todos os meus desejos.

“Ele apareceu num momento em que eu já não desejava mais a vida. Em que tudo á minha volta era podridão, mascarada em ouro e prata.

Sim. Graças á Claude eu continuei a viver. Sua voz retumbante veio a mim, numa noite de loucura, pronta a me dar tudo o que eu desejasse, bastando apenas um pedido.

Mas o que eu pediria?

Mesmo sem ter um objetivo, ele me esperou.

-

Era uma noite tão escura e chuvosa quanto à noite que me trouxa á mansão Trance. Após ser abusado por aquele homem e vê-lo deitado na cama, suado e nojento como sempre, que eu finalmente encontrei a resposta que a muito procurava.

O pedido que aquele demônio queria.

E com as mesmas palavras confusas que proferi em nosso primeiro encontro, eu o chamei novamente.

_ Eu quero tudo. Quero o que todos negaram a mim e ao meu irmão. Quero a riqueza dos Trance, quero uma vida de luxos sem este homem ao meu lado. Demônio, conceda-me esta vida de riquezas e me deixe pisar em todos que um dia me olharam com frieza. É este meu desejo!

Bastou apenas isso para que minha vida mudasse radicalmente.

O senhor Trance ficou estranhamente doente e, em questão de dias, seu corpo podre parou de respirar em meio á gritos de dor e sofrimento.

Como único herdeiro eu fiquei com tudo e ordenei a Claude que destruísse todos os malditos empregados que um dia me pisaram e entregaram àquele homem asqueroso.

Feri a todos os que tentaram me rebaixar. Zombei daqueles que queriam minha riqueza. Tornei-me importante. Conheci a própria rainha e tornei-me seu assassino particular. Minha ambição aos poucos se completava, e ninguém podia se por em meu caminho.

Afinal, eu era Alois Trance. A aranha da rainha.”

Mas agora... Acabou.

Sinto meu coração parar de bater, apertado pelas garras dele. Sinto minha vida maculada escorrendo pelas mãos do mordomo, manchando o chão. Manchando minha própria alma perdida.

Meus olhos mergulharam em vermelho e logo, tudo tornou-se vazio.

E mais uma vez eu mergulhei numa pesada e angustiante solidão.

Para sempre.

Notas finais
e ai? gostaram?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!