Yes, My Lady.
5 Capítulo V - Imundos
Notas iniciais
– Fi-filha... – começou Baldroy.
– Ah, por favor, não me vem com essa de filha agora. Quanto vocês recebem para fingir ser meus pais?!
– De onde você tirou isso? – perguntou Meirin assustada.
– Um Phantomhive nunca seria empregado da mansão Phantomhive! Vocês não passam de usurpadores! – os olhos de Louise se encheram de lágrimas, mas ela se recusou a soltá-las. A dama logo se sentou na cadeira novamente – Digam a verdade pelo menos uma vez.
Louise logo percebeu que eles não iriam responder nada, um silêncio intimidador começou a tomar conta do local. Baldroy encarava Meirin; a mesma o encarava também, deviam estar pensando no que responder, mas os dois estavam sem palavras. Sebastian estava sem expressão, com um olhar indecifrável. Louise suspirou, cansada.
– Esses anéis... – ela retirou os dois anéis que usava, o dourado que ganhara de presente há um tempo de seus pais; o com a grande pedra azul que ganhara de Sebastian e os jogou na mesa – Eram dele, não eram? – ela apontou para o garoto da foto – Vocês me falaram que os anéis passavam de geração para geração e na foto eu consigo vê-los nos polegares dele... Vocês trabalharam pra ele! O quê vocês fizeram depois? O mataram e começaram a se passar por Phantomhives? Mas, não é possível que ninguém se lembre que vocês eram meros empregados!
– Exato, ótimas conclusões. Não poderia esperar menos de uma Phantomhive. – Sebastian finalmente falou – O conde da foto se chama Ciel Phantomhive e eu já fui o mordomo dele.
– Pai... Não; não devo chamar alguém que se passa por outra pessoa de pai. Baldroy e Meirin, vocês vão ficar mesmo em silêncio?! Eu quero respostas! – ninguém respondeu – Espera... Como eu fui imbecil! Como não pensei nisso antes?! O tio Finn também é um usurpador como vocês? Ele é o Finnian da foto, não é?! Falem alguma coisa! – dessa vez Louise não se segurou, lágrimas rebeldes pularam de seus olhos e escorriam pelo seu rosto – Vocês mentiram para mim! Esse tempo todo... E eu fui ingênua de mais para perceber... Tu-tudo isso foi uma mentira! – Louise então correu para as escadas e disparou para o seu quarto, batendo a porta do mesmo.
...
Sebastian subia as escadas da mansão, rumo ao quarto de Louise. Talvez a mesma já estivesse dormindo, mas não custava nada conferir. Aquelas lágrimas... Não eram de tristeza. Talvez raiva... Pensava o mordomo enquanto chegava perto da porta. O mesmo resolveu bater na porta, mas não obteve nenhuma resposta.
...
Toc toc toc.
– Eu disse que você podia entrar, Sebastian? – houve uma leve pausa — Você está mentindo para mim também?
– Obviamente não, madame. – Sebastian se aproximou de Louise que estava sentada na cama – A única coisa que eu quero é a sua alma, mas ela já me pertence. – Em um movimento inesperado o mordomo a tirou da cama e a colocou á alguns centímetros de um espelho grande. O mesmo continuava atrás da menor – Para quê eu mentiria? – o mordomo retirou a luva de sua mão esquerda com a ajuda dos dentes, deixando a marca do contrato à mostra.
Logo o mesmo abaixou cuidadosamente a manga da camisola de Louise, deixando o seu branco ombro direito nu, sua pele parcialmente pálida estava agora com a mesma marca. Uma estrela de cinco pontas rodeada por um círculo; em volta do pentagrama outro círculo, mas decorado.
Louise estremeceu com o gélido toque de Sebastian em seu ombro. Agora a marca do maior estava sobre a marca da dama.
– Se eu te fizesse uma pergunta, — Louise encarava o mordomo pelo espelho – você jura que será sincero.
– Yes, my Lady. – Sebastian falou baixo.
– Meirin e Baldroy não são os meus pais biológicos. – aquilo tinha soado mais como uma afirmação.
– ... – Sebastian suspirou, derrotado – Não. – Louise abaixou o rosto e por um instante fechou os olhos.
Em um milésimo de segundo o mordomo pegou a menor no colo, aninhando-a confortavelmente. Louise continuava com os olhos fechados enquanto o mordomo sentava-se na cama com a dama em seus braços.
– Sebastian, você me disse que... Quanto mais visível for a marca, mais forte o contrato é. Aquele conde, Ciel Phantomhive, havia feito um contrato com você, por isso ele usava um tapa-olho. Então por que a minha marca...
– Eu simplesmente não gostaria de vê-la usando um tapa-olho. – Sebastian se inclinou e beijou levemente o olho fechado de Louise, o qual estaria a marca do contrato.
Louise enterrou seu rosto no peito de Sebastian, aspirando o seu cheiro. Depois de alguns minutos naquela posição, a mesma adormeceu.
...
O dia de sábado finalmente chegou. Para Louise, o dia em que ela era obrigada a dançar em um baile. Depois daquela discussão com Meirin e Baldroy e do acontecimento entre Sebastian e a dama, os dias voltaram a ser os mesmos, ou quase os mesmos.
Agora Louise tinha que tomar cuidado com a cozinheira da mansão, Mary, já que a mesma havia tentado lhe matar. Cada vez mais casos de assassinatos, cada qual com seus diferentes códigos, sempre escritos com o sangue da vítima, um pouco de diversão para Louise.
“açnraF an zevlaT. mis euq res eveD ?metisxe soinomeD.”
Demônios existem? Deve ser que sim. Talvez na França.
“tal uma Perigord? encontrarmos região na belo para Está viagem um Que dia nos de”
Está um belo dia para uma viagem. Que tal nos encontrarmos na região de Perigord?
“Vcoê prcrouou no proão? Dvee tre ncntrdeoao mua trfua, as mlhrseoe são de Prgxéiueu.”
Você procurou no porão? Deve ter encontrado uma trufa, as melhores são de Périgueux.
“Oin fer noes tá Vaz io, todo sos dem ônios estãoa qui .Talv ezconhe cium per todaCa tedral deSt-Fr ont”
O inferno está vazio, todos os demônios estão aqui. Talvez conheci um perto da Catedral de St-Front.
O último que Louise havia resolvido era praticamente uma citação de Shakespeare, então foi mais fácil. Os métodos que o assassino usava para “deixar” as mensagens eram quase sempre os mesmos, facilitando o trabalho de Louise.
A dama logo saiu de seus devaneios, já que estava com aquele grande incomodo de colocar o corset*. Karen estava fazendo todo o trabalho. Vez ou outra Louise prendia a respiração. Talvez colocar um corset fosse a pior coisa, e ela nunca conseguia se acostumar com aquilo.
Finalmente Louise terminou de se arrumar. Seu longo vestido chegava ao seus pés; a longa saia era volumosa, com a ajuda de uma crinolina**, sua tonalidade era de um lilás bem claro, com bastante rendinhas. Uma outra camada de tecido, de um roxo mais escuro, da cintura para cima, até as longas mangas do vestido. Nos ombros as mangas eram bufantes, marcadas por uma tira de tecido lilás. Da tira para o resto do braço as mangas eram mais apertadas, mas logo chegando ao punho as mangas se afrouxavam mais. As costas do longo vestido eram fechadas sem muitos detalhes, a não ser na altura da cintura, um grande laço, também lilás.
Louise usava seu longo cabelo preto acinzentado preso com duas fitas de cetim, como uma maria-chiquinha. As pontas estavam onduladas e seu rosto cheio de pó de arroz. A mesma usava um sapatinho preto, preso por uma fivela e uma curta luva branca.
A carruagem já estava a esperando do lado de fora. Sebastian a ajudava a subir.
– Não acredito que vou mesmo ter que ir para este baile. – Louise finalmente falou, quando já havia se acomodado no banco.
– Os bailes não são tão ruins. A senhorita vai se divertir por lá. Uma ótima oportunidade para dar vida a novas invenções. – falou Sebastian.
– Pessoas ignorantes falando sobre negócios.
– A senhorita é proprietária da Empresa Funtom, vai ser reconhecida por lá, já que não há um dia no qual você não vê esse nome.
Mais alguns minutos se passaram ouvindo-se apenas o galope dos cavalos, até que a carruagem finalmente parou.
– Chegamos. – anunciou Sebastian, enquanto abria a porta da carruagem e ajudava Louise a descer.
O grande salão estava bem iluminado e cada vez mais pessoas chegavam. Música clássica tocava graciosamente e muitas mulheres altas e magras desfilavam seus vestidos exuberantes. Homens exibiam seus ternos e chapéus das melhores marcas, fumando também charutos. Um velho simpático foi ao encontro de Louise.
– Senhorita Phantomhive, é uma honra vê-la aqui. – ele beijou as costas da luva de Louise.
– Igualmente. – Louise tentou parecer empolgada, mas sua voz saiu fria, sem nem um pingo de empolgação. O senhor não pareceu perceber.
– A empresa Funtom vem crescendo bastante, junto com sua reputação. Sempre trazendo inovações que a maioria de nós nunca viu. Impressionante. – antes de a dama perceber, estava com um grupo de pessoas falando sobre negócios.
– Impressionante mesmo é a empresa ter crescido tanto em tão pouco tempo. Isso fez com que ricos e burgueses apoiassem-na fortemente.
– A empresa Funtom é o rei dos doces e dos brinquedos. Parece que faz com que as crianças implorem por mais.
– A sua empresa também, sir Mountbatten. Cresceu bastante nos últimos tempos e, não posso negar, mas os melhores tecidos são sempre da empresa Batten. – Louise tentava ser o máximo convincente possível, o que não era difícil, já que os homens dali só se importavam com si próprios.
– Pude perceber que vocês fizeram uma brincadeirinha ao escolher os nomes das empresas. Funtom de Phantom, Phamtomhive e Batten de Mountbatten. Incrível. Falando no assunto, temos um projeto...
– Louisee! – uma voz cantarolou perto da conversa – Me desculpem pela interrupção senhores, mas eu vou roubá-la de vocês por uns minutos.
– Trancy, é um prazer vê-lo. – mas Aaron já havia puxado Louise para o outro lado do salão. Ela teria ficado brava, mas como não estava interessada em falar de negócios; nem sequer se deu ao trabalho de descobrir o nome de cada um.
– Mas que menino insolente... – bufou o mesmo senhor que havia começado a conversa com Louise.
– Me desculpem, sir Mountbatten, senhores, pelo comportamento não adequado de Louise, logo ela virá resolver os negócios com vocês. – Sebastian se desculpou e fez uma reverência discreta.
– Lady Louise Phantomhive, é um prazer vê-la. – Aaron fez uma péssima imitação dos homens dali – Quer dançar? – o menor a puxou para o meio do salão e lá começaram a dançar.
– Aaron, você sabe que eu não gosto de dançar. – Louise falou enquanto rodopiavam e dançavam lentamente pelo salão.
– Você está dançando melhor do quê da última vez. – Aaron riu – Pena que eu gosto de dançar. Ah! Não seja tão chata! Parece até aquelas senhoras que só ficam sentadas comendo bolo e reclamando.
Eles dançavam no meio do salão e muitas pessoas paravam para os encararem. Aaron tagarelava e Louise se concentrava em não pisar no pé do garoto, em meio de tantos olhares, para fazê-lo calar a boca. Talvez não fosse má ideia... Não, era melhor não fazer nada. A música finalmente terminou e Louise deu um jeito para buscar um copo de água e desgrudar de Aaron.
– Sebastian, eu quero que você distraia o Aaron para que ele não me atrapalhe essa noite. Deixe-o bem longe de mim, entendeu?
– E a senhorita vai ficar sozinha?
– Eu sei me virar. Mas essa noite só quero que o distraia.
– Yes, my Lady... – Sebastian fez uma reverencia rígida.
Louise estava apenas presenciando a dança das pessoas, mas se recusava a dançar com qualquer um que a convidava. Até que um homem alto e elegante passou por ela, deixando cair uma imagem de seu bolso. Aquilo devia ter sido de propósito. A dama se abaixou discretamente e pegou a imagem. Mais um assassinato. Mas dessa vez não tinha nenhuma mensagem, apenas uma figura desenhada com sangue na parede do local, que ela conhecia bem, bem demais na verdade. A marca do contrato.
Sem pensar duas vezes a mesma começou a seguir o homem pelo salão, até que quando percebeu, era tarde de mais. Ela saiu do grande salão e agora estava em uma grande floresta, com altas arvores e a noite caia sobre as folhas. A única iluminação dali era a lua minguante. Estava bem silencioso, até que som de passos saíram de trás de três árvores. O homem elegante agora estava ali, na sua frente, acompanhado por dois homens fortes. Ela se virou lentamente para tentar correr de volta para o salão, mas a porta estava longe demais. Suas vestes eram bem pesadas também, seria impossível correr com elas.
– Calma Louise, não vamos te machucar. – falou o homem elegante de antes – A não ser que você não colabore conosco.
– O quê querem comigo? E não se aproximem se não eu grito!
– Impossível você gritar.
– Quê? – um quarto homem apareceu na árvore atrás de Louise e a amordaçou. Uma armadilha...
– Me ajudem aqui rapazes... – ele estava amarrando seus braços, pernas e colocando uma venda em seus olhos. Logo ela estava deitada no compartimento de uma carroça; a mesma se debatia loucamente e tentava gritar, mas seus gritos saiam abafados – É melhor ficar quietinha, senão...
Logo Louise desistiu de fazer qualquer coisa, já estava rouca e cansada. Depois de um longo tempo, talvez duas horas sem poder se mover, a carroça finalmente parou e um homem a tirou do compartimento. Depois de descer algumas escadas o homem desamarrou seus braços e pés, tirou a amordaça e a desvendou. Louise tentou andar, mas sua circulação havia parado, a mesma caiu.
– Ahahaha, que coisa mais repugnante, uma Phantomhive caída no chão... Anda! Se arraste mais nessa sujeira! É isso que você merece.
– Seu...! – Louise se pôs de pé e examinou melhor o local, pelo que ela havia deduzido, estava em um celeiro. – Cretino! O quê quer?
– Shhh... – ele colocou a mão na boca de Louise. O homem tinha cabelos castanhos claros e aparentava ter trinta e poucos anos. Sua pele era bronzeada e seus olhos eram da mesma cor que os cabelos. Seus músculos estavam bem a mostra, já que o mesmo estava sem camisa, sua pele e roupas estavam um pouco sujas também.
– Tire suas mãos imundas de mim! – ela gritou com autoridade.
– Ah, quer que eu tire? – ele riu começou a beijar o pescoço de Louise – Posso tirar, mas não minhas mãos. – ele tentava tirar o vestido de Louise.
– Sa-aia de perto de mim seu verme, cretino! – Louise o empurrava com as mãos, mas a diferença de força entre os dois era injusta.
– É melhor ficar quietinha. – dessa vez ele descia as mangas do vestido.
– Prefiro morrer a obedecer um verme como você! – Louise gritou chutando a canela do homem.
– Isso te lembra de seu passado, Phantomhive? – ele lambeu a bochecha de Louise e depois cheirou seu cabelo – Você tem um ótimo cheiro.
– Ti-tira essa língua nojenta do meu rosto! – um flashback de imagens tomou conta de Louise – Desgraçado, mandei me soltar!
– Ora ora, o quê temos aqui? – o homem elegante agora descia as escadas. O mesmo tinha cabelos longos, presos por um rabo de cavalo e usava uma camiseta regata que realçava também o seu ombro musculoso.
– Que droga! Não tem espaço pra mais um? – outro homem apareceu. Sua cabeça tinha o cabelo bem curto, como se tivesse acabado de raspar. Em seu rosto tinha uma curta barba. Era o único ali que era magrelo. — Ei cara, não seja guloso! Deixe um pouco para mim também.
– Largue a garota. – o homem elegante falou friamente – Vocês não vão fazer nada com ela.
– Mas... Não posso nem me divertir um pouco? – o homem ainda não havia soltado Louise.
– Se o mestre achar algum defeito nela... Sei que ele não vai gostar.
– Ela parece esperta... Vamos deixá-la na caixa. – falou o magrelo – Conseguiu até que aquele mordomo idiota a parasse de seguir.
Ca-caixa? Não! Não posso ficar numa caixa! Como vou me mover? Enxergar? Respirar? Não! Que droga! Eu não posso, nunca!
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