Yes Girl
1 Won't be your yes girl, no, not anymore
Notas iniciais
[Bea Miller - 'Yes Girl']
Conhecemo-nos na escola. Logo nos primeiros dias. Caí perto do lugar onde os meninos maiores brincavam, tive medo, dei cabo de um joelho. Mas ele não me gozou, esticou a mão, sorriu, mostrando a janelinha da nossa idade, ajudou-me. Depois deste simples episódio, a nossa amizade foi sendo construída. Ele, Afonso, era um ano mais velho que eu, eu tinha 6 e ele 7 anos. Chamava-me sempre Bia, porque dizia que Beatriz era grande demais.
O meu primeiro beijo foi com ele, simples. Estávamos a falar sobre o que os adultos faziam. O Afonso disse que tinha beijado uma amiguinha da escola, da turma dele. Quando disse que nunca tinha beijado, ele sorriu, aproveitou esse momento para me beijar. Não poderia pedir por nada melhor. Confiava a minha vida nele, os meus sentimentos, aos 16, andavam num reboliço, só sabia que me sentia bem com ele. A primeira vez foi-lhe, também, consagrada. Começámos a namorar, eu sentia-me preparada, era ele, o menino que me sorriu quando eu chorei por causa de uma queda. O mesmo menino que roubava uma flor do jardim da minha casa para me dar, inventando mil e uma histórias sobre o significado disso.
Mas havia uma coisa, ele queria ter sempre o controlo. Não era somente a nível sexual, por vezes gostava que ele tomasse as rédeas numa situação mais íntima. Jantar fora era igual a que ele escolhesse os pratos, as bebidas, o local, até ao cúmulo de dizer o que eu deveria vestir. Não entendia bem o alcance deste controlo. Ao princípio, namorada deslumbrada, acreditava que era a forma dele de dizer o quão gostava de mim, estava a tomar conta do que era dele...
[Dele? Eu era dele? Ele era meu da mesma forma?! Doava-se com a mesma intensidade que eu?]
Lembro-me de um dia, ficou muito marcado na minha memória... Era verão. Eu estava a trabalhar num café e ele numa loja relativamente perto, uns 15 minutos a pé. Estava um calor infernal, então decidi ir com um vestido de croché, comprido, pensava eu ser muito discreto. Como de costume, na pausa dele, vinha ter comigo e eu fazia a minha pausa. Perto da hora do costume, fui à caixa, pagando por duas sandes e dois sumos, indo em direção a uma mesa de piquenique. Estava sentada, à espera, a estalar os dedos, quando ele chega e se passa completamente por causa da escolha.
— Pareces uma pega...
[Doeu tanto, mais que um estalo]
— Afonso, isto tem forro [de meio da coxa até ao topo dos seios], ninguém vê nada.
— Mulher minha não anda assim para os outros abutres tirarem um pedaço.
Lanchámos em silêncio. Levantou-se, dando-me um beijo na testa e uma nova recomendação sobre as minhas escolhas de vestuário. [Quem manda?] Fiquei mais alguns minutos, a pensar. Ele tinha razão...
Com a chegada da faculdade dele, fiquei desamparada sem ele. Era a miúda do Afonso, estava naquele grupo por ser namorada dele. Não sabia quem era sem ele. Mas tinha mensagens ao longo do dia, da noite... imensas mensagens. Eu sabia dos passos dele, ele sabia dos meus. Era um carinho de longe, mas bom. Ele ainda se preocupava comigo, mesmo estando longe.
E foi neste tempo de separação física que eu conheci uma nova professora. Logo na primeira semana me confiscou o telemóvel por um dia inteiro, quando o tive de volta tive que responder a mil e uma perguntas do Afonso, que estava a ponto de voltar para perceber onde e o que estava a fazer. Mal a professora foi percebendo a magnitude da nossa relação, foi-me desafiando a ser apenas a Beatriz. Não a namorada do Afonso. A escolher sem ele. A escolher com ele. Mas tendo sempre a palavra final. Mesmo respondendo-lhe sempre, ele dizia que eu estava a afastar-me [e tu? a quantidade de vezes que me afastaste?], levando a longas discussões.
No Natal, quando nos reencontramos, notei-o esquivo. Quando lhe disse isso, que ele não me deixava entrar, tivemos uma discussão enorme. Tentava dizer-lhe que não, não havia mais ninguém ["Beatriz, tens a certeza que essa é uma relação saudável?", questionava a professora], mas não houve solução para a teimosia dele. Saiu do próprio quarto, deixando-me lá, trancada, a pensar no que tinha feito de mal. [serei eu alguma criança para ser castigada assim?]
Quando voltou, meia hora depois, encontrou-me na mesma posição. Apenas ouvia a voz da professora na minha cabeça. Seria esta uma relação saudável? Ele fazia isto por medo de me perder? Pediu-me mil desculpas, disse que estava a passar por uma altura de muitas avaliações e descontou em quem mais amava. Sorri. Ele beijou-me.
Na semana de ano novo voltou para a faculdade. Novamente discutimos, mais ele. Eu apenas ouvia, resignada [onde está a tua vontade própria, Beatriz?]. Quando se apercebeu que eu não estava com a cabeça ali, agarrou-me pelos cabelos, obrigando-me a olhá-lo. Beijou-me com tanta força, de tal maneira possessivo, que não me conseguia mexer. Mordeu o meu lábio até uma reação mais veemente [ainda mais que os empurrões? as lágrimas?] da minha parte: sangue.
— És minha! Não te atrevas a trair-me...
Vivia com medo. Tinha que andar em volta dele e dos desejos dele. Os meus pais ainda o viam como o menino que brincava comigo, que me protegia [por favor, mãe, ajuda-me]. Não acreditavam quando eu falava de uma demasiada vigilância, à falta de melhor termo, da parte dele. Dos meus receios... "ele adora-te, querida".
Depois de demasiadas conversas familiares que me faziam duvidar de mim mesma, um escalar de tom e de possessividade que chegava a aterrorizar-me, cheguei-me à frente, no final de uma aula, pedindo para falar com a professora. Repeti tudo o que aconteceu, da mesma forma que disse aos meus pais. A reação foi completamente diferente "Beatriz, isso não é amor, é quase terrorismo". O meu mundo abalou, enquanto apenas desconfiava da forma abusiva que a nossa relação se tinha tornado, para aquilo que evoluiu, não era real. Ouvir da boca de outra pessoa uma confirmação dos teus medos é bom e, em igual medida, mau. Bom, porque é um certificado de não-loucura, de sanidade mental que há muito me deixava de pé atrás. As noites insones, o medo, o choro. Mau, porque era mau, uma peste do nosso século. Uma doença silenciosa que mata e esmaga.
Mas eu amava-o. Queria-o. Precisava do Afonso. Ele era o meu pecado favorito. Nesse primeiro momento, defendi-o. Mas sentia-o a milhas de distância de mim... Ele precisava do controlo, do poder de me reduzir a um elemento passivo da relação. A minha mente via-o, eu via isto, cada fim de semana que ele vinha a casa, eu dava mais razão à professora. Eu chorava de medo. Sabia que tinha que sair daquela relação, mas não sabia se seria capaz... queria pedir-lhe para apenas me deixar ir. Pedi-lhe uma vez, passei a noite a chorar com o que tinha ouvido dele, da pessoa com quem tinha idealizado uma vida, uma casa, uma família.
[escreve, meu amor, liberta todo esse mal]
Quando enviei as cartas para as faculdades, ele perguntou "e para a minha?". Disse-lhe que sim [já não sou a tua miúda sim, não mais]. Não queria que ele viesse ao baile, mas apareceu todo arranjado, auxiliado pelas nossas mães. Tremi, ainda era o meu ponto fraco. À ida para o baile, disse que ia cantar. Recebi um olhar de lado, nada mais. Cheguei, sorri à professora [ela espelhou o meu medo de meses atrás], agora, eu tinha o controlo da minha vida. "Esta música é para ti, ouve-a bem". Escapei àquele beijo, assim como a todos os outros que ele tentou. Apenas me conseguiu marcar o braço, com o puxão que me deu, ainda com os nossos mais presentes. Senti o olhar alerta do meu pai. Eu conheço-te, tenho tentado dizer-te não, e aqui estás tu.
Cantar o que ia na alma, vendo a batalha entre nós, a tensão, a forma como ele percebeu que eu não era mais a boneca de trapos que ele queria. Mesmo sendo a principal tentação, ele era o demónio que eu precisava de fugir.
Se não eu, quem iria tomar as rédeas da minha vida? Ele?! Os meus pais?! Não, eu sou minha senhora de mim... Acabou, Afonso, não mais... Conheço-te, expus ao mundo aquilo que era, mas já não é. Falei a tempo, falei no meu tempo...
"I got you figured out, you need to have control
You think that I don't know you, I know you, I know
Trying to tell you now, I've been doing what you want
But I won't be your yes girl, no, not anymore
Just let me go, just let me go
Won't be your yes girl, no, not anymore
Just let me go, just let me go
Won't be your yes girl, no, not anymore
Not anymore"
Notas finais
Todo e qualquer "Afonso", dono e senhor do controlo e da "sua" mulher, não é um amante atencioso.
Falem, gritem, não se deixem ficar e ser a "yes girl" que ele tem à espera.
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