Yellow - Dramione
10 Tudo Novo de Novo
Querido Draco, Como vai? Espero sinceramente que esteja o melhor possível. Eu e seu pai precisamos falar com você, o assunto é urgente. Lucius quis muito escrever, mas achei melhor que a notícia viesse de mim. Nós te amamos, Draco, e eu não quero mais que seja obrigado a fazer algo que não esteja de acordo. Essa família atravessa um período particularmente difícil, a sociedade ainda está dividida no que diz respeito a nós. O sobrenome Malfoy já não causa mais as mesmas reações que antes. Em vez de respeito e inveja, agora somos alvos de fofoca. Do tipo mais baixo, inclusive.
Acho que já percebeu onde queremos chegar, não é? Não sabemos o que está havendo, mas estamos muito preocupados. Seu pai insiste que não quer o nome da família envolvido em mais escândalos e que já há lama suficiente para manchar nossa reputação. Concordo com ele, mas com algumas ressalvas.
Obviamente o assunto é Hermione Granger, querido. Se de alguma forma está tentando se vingar, escolheu a pessoa certa. O que há de errado nisso é a própria vingança, isso não adiantaria nada. Se realmente gosta dela, queremos lembrá-lo que a mídia não os deixará em paz. Ninguém irá. Nosso pedido é que se afaste dela, Draco. Já tivemos confusão demais, não sabemos se a família Malfoy resistirá ao impacto de mais um escândalo.
Prezo pela sua felicidade, por isso o pedido. Por mais que me doa, preciso perguntar se já considerou se ela planeja alguma vingança também. Analise a situação e leve nossa opinião em conta, filho. Te amamos e só queremos a sua felicidade. Em breve nos veremos, fomos convidados para o Memorial de Guerra que acontecerá em Hogwarts.
Atenciosamente, Narcisa Malfoy.
Draco leu aquilo e esperou. O quê? Bem, primeiro que um significado oculto para aquelas palavras enfim surgisse. Não era possível que fosse aquilo mesmo que entendeu. Ele leu a carta completamente ultrajado, seus pais não tinham o direito. Aonde já se viu, foderam com sua vida ao longo dos anos o ensinando a odiar, passaram valores totalmente equivocados a ele e agora isso?
Sua mãe sequer perguntou se a notícia era verdadeira, simplesmente disse que não queria obrigá-lo a nada e tentou dissuadí-lo de todas as maneiras a abandonar Hermione Granger. Narcisa e Lucius mais uma vez não estavam levando seus aparentes desejos em consideração — já que não estava de fato namorando a garota — e queriam decidir por ele o que era certo. Algo que deixou o sonserino tão irado naquele momento foi justamente por que no início daquela maldita carta eles disseram que não queriam mais obrigá-lo a nada e fizeram exatamente isso. O pior, mais uma vez.
Para começo de conversa, foram os ideais dos pais que o levaram até aquela situação extrema de precisar se tornar um Comensal da Morte. Mais de Lucius, especificamente. Draco não era um bom garoto e tampouco desejava ser, mas admitia sua responsabilidade nas coisas que fez. Não foi sempre que pensou como agora, ele realmente desprezava nascidos-trouxa e adorava humilhá-los, nunca foi um santo. Mas mesmos depois de tudo o que houve, seus pais pedirem para ele se afastar de Hermione era a gota d'água. Não respeitavam as escolhas que ele queria fazer na própria vida, tentavam o dissuadir de uma vingança que nunca existiu. Cogitaram a possibilidade da Granger querer se vingar. E isso tudo em nome de quê, senão reputação? Aquilo era mais do que patético, chegava a ser vil. Enquanto os pais se recolhiam em casa e diminuíam consideravelmente as aparições na sociedade bruxa, a responsabilidade de devolver o brilho ao sobrenome Malfoy era toda dele.
Por vezes ele só queria se livrar do sobrenome que costumava ser motivo de orgulho, mas agora não passava de um fardo. Precisou respirar fundo algumas vezes para não perder o controle de novo, pois já teve alguns ataques de pânico que quase foram vistos por outros alunos. Se lembrou do que David Granger lhe disse certa vez, que agora poderia buscar as próprias referências sozinho. Ficaria para depois, pois agora não tinha forças.
Felizmente Blásio não estava no dormitório que compartilhavam naquele momento, Draco não queria demonstrar fraqueza. Para falar a verdade, o moreno desenvolveu um hábito recente que consistia em sumir dos lugares e voltar bem depois com uma animação suspeita e muito distraído. O loiro já havia percebido a nova rotina do amigo, mas fingiu ignorar. Seja quem fosse a garota envolvida, estava fazendo bem ao amigo e não ficaria com Blás por muito tempo, não valia a pena o esforço.
Ainda assim, quando conseguiu se acalmar, Draco sentiu falta do amigo. Não queria sair do dormitório e procurar quem fosse, então seus pensamentos se voltaram para a própria rotina nos últimos dias. Ele pensava na carta que recebeu dos pais como consequência da publicação da matéria do Profeta Diário e se sua decisão de se afastar foi a correta. Primeiro foi obrigado a se aproximar de Hermione, de certa forma estavam começando a se dar bem... Agora Draco não aparentava se importar com nada que não fosse ele mesmo, até dos amigos se distanciou. E se tinha uma coisa que o loiro sabia fazer, era parecer indiferente. Anos de prática o deixaram excelente nisso.
O loiro ouviu um barulho e já desconfiando quem o fez, esperou. Blásio chegou no dormitório que dividia com Draco de maneira espalhafatosa. Abriu a porta em um rompante, estava ligeiramente afobado, com um sorriso idiota e conseguiu se atrapalhar até para fechar a porta. Malfoy estava furioso por tudo o que estava acontecendo, em especial a carta de seus pais. Isso não o impediu de achar o melhor amigo patético e rolar os olhos diante de tamanha afobação. Fingiu que tudo estava bem ao iniciar uma conversa.
— Quem é a garota? — Diante do amigo que ignorou suas palavras, Draco largou o pergaminho ao seu lado e deitou na cama. — Esqueça. Que diferença faz, não é mesmo? Você nem deve lembrar o nome dela.
— Dela?
— O que, vai dizer que é dele? Eu sei que sou bonito, mas pensei que seus olhares fossem de outra natureza. Não adianta ter esperanças, você não faz meu tipo.
— Acho que no fundo não tem como não admirar a sua autoestima, Bro. — Blásio disse ao se deixar de qualquer jeito na própria cama. — Você é uma inspiração de amor próprio, mas há caras muito mais bonitos na escola.
— Veio correndo para escapar de algum deles?
— Eu não estava correndo.
— Ah, então agora começarão as mentiras no nosso relacionamento? Eu achei que fôssemos especiais um para o outro. — Draco sentou-se e falou com um sorriso ladino, estava citando uma garota que no quinto ano deles grudou em Zabini e não queria mais largar.
— Não acabe com o meu bom humor, loira. A Lindsay foi um pesadelo, por Merlin! Só me encontrei com a garota duas vezes e ela já queria me apresentar aos pais. Ela escreveu para eles marcando! — O moreno sibilou, indignado, mas Draco gargalhava às custas do sofrimento do amigo. — Não ria, seu cretino, você sabe muito bem como foi difícil me livrar dela.
— Saudades da Linda.
— Por favor, não me lembre! Eu sei flertar, posso fazer muito melhor do que isso. Onde eu estava com a cabeça? — Ele perguntou para si.
— Na Linda.
— E você na sabe-tudo. — Blásio rebateu. Péssima ideia, o humor de Draco mudou instantaneamente ao ouvir o apelido de Hermione.
— Eu só quero passar um dia sem a influência daquela garota, sem que ninguém fale dela. Um mísero dia, será pedir muito?
— É por isso que está aqui trancado enquanto as garotas te caçam por aí?
— Não que eu seja do meu feitio reclamar de atenção feminina, mas até alguns dias atrás todos me olhavam torto.
— Inclusive as meninas... — O moreno completou.
— Sim! Inclusive as meninas, cara. E de uma hora para outra voltei a ser interessante? Me sinto usado.
— Mas é claro que você sabe o motivo disso, não é? Seu namoro com...
— Sim, o suposto namoro com a Granger. — Ele não deixou Zabini terminar. — Como alguém pode acreditar nisso? Ela jamais aceitaria algo assim, não haveria por que estar comigo ou... — Percebendo que falou demais pela expressão que Blás fazia, ele tentou consertar. — O quê? Eu não desejaria isso nem amarrado, é claro, mas a Granger também não por...
— Sei, sei. — Interrompeu. — O fato é que sua maldição passou para ela, estão destratando a coitada.
— Por achar que ela tem algo comigo?
— É o que parece. Eu quase cheguei a defendê-la. Mas aí minha... — Foi a vez de Zabini quase se entregar.
— Sua? — Draco inquiriu.
— Minha força de vontade sonserina voltada para mim, e somente a mim, me fez ir embora. A Granger parecia prestes a explodir, acho que fiz bem em ir embora.
— Está prestação atenção demais nela.
— É, quem sabe eu não estivesse com sua namorada em algum canto do castelo, não é mesmo? Você nunca vai saber. — Um travesseiro voando no rosto de Zabini foi sua resposta. O garoto se contentou em rir e provocar mais ainda. — O pior é que não sei se está com ciúme de mim ou dela.
— A Lula Gigante deve ser mais agradável que vocês dois.
— Falou Draco Malfoy, um apaixonado pelas criaturas mágicas... Só tenho uma palavra para você: hipogrifo.
— Ora, seu... — Draco foi em direção a Blás para fazê-lo ficar quieto, percebendo isso o moreno deu a volta no quarto e se sentou na cama do loiro, em cima da carta dos pais dele.
— O que droga... — Zabini levou a carta aos olhos e ficou subitamente sério. — Desculpe, amigo, não li quase nada. Pensei que fosse de alguma maluca do castelo.
— Tanto faz, Blás. Leia, não me importo. — Alguns instantes depois o garoto voltou a falar com Draco.
— Eu sei que são seus pais e amo a tia Cissa, mas cara... Hermione Granger tentando se vingar de você com um namoro? Sem ofensas, mas é mais fácil o contrário acontecer. O que ela ganharia com isso?
— Bom, no caso absolutamente improvável de conseguir me conquistar ou quem sabe fazer eu ingerir a Poção do Amor, a Granger poderia me humilhar e dar o troco pelas coisas que fiz. — Ele deu de ombros.
— Tia Cissa disse isso? — Ele perguntou, cético.
— Não, é só uma possibilidade. Bastante óbvia, até.
— Você se esquece que a Granger é uma boa moça e não teria coragem de fazer isso.
— Tecnicamente, ela é da casa dos corajosos. — Draco revirou os olhos uma outra vez. — Então em tese, coragem não é problema.
— Acredita mesmo que ela faria uma coisa dessas?
— Claro que não, Blás. Já disse o que aconteceu no maldito orfanato e que inclusive fomos embora por causa disso.
— Sim, e depois simplesmente voltaram para Hogwarts. Aonde estavam nesse meio tempo?
— Andamos muito, por isso voltei tão exausto. Mas o que é isso, virou minha mãe?
— Virei o amigo que não é idiota e sabe quando você está mentindo.
— Já era a hora! Pensei que a idiotice seria eterna.
— Por isso assistiram o jogo juntos? — Ele ignorou a provocação.
— Blás, isso não é hora de gracinhas. Aquele professor tem algum problema conosco e não vai superar isso tão cedo. Como se não bastassem ainda tem essas malucas, meus pais...
— O que pretende fazer?
— Eu não sei. Gostaria de ter um pouco de paz, sabe?
— E eu ser um jogador de Quadribol, loira.
— Não adianta mesmo falar com você.
— Adianta se falar o que realmente está sentindo.
— Depois diz que não quer mais saber da Linda, Blás. Não espere que eu fale de sentimentos, como a sua ex-namorada psicótica. Isso tudo deve ser saudade dela.
— Draco Malfoy, pela última vez... Eu só saí duas vezes com aquela maluca! E eu não acredito que você divida as coisas comigo como um amigo faria, simplesmente por que nós não somos amigos normais. Eu também nunca fui do tipo que faz essas coisas, mas há pouco tempo descobri algo... É tão bom saber que uma pessoa se importa conosco e que quer nos ouvir, quando necessário, que meu medo está indo embora.
— Medo de quê, Blás? — O sonserino perguntou intrigado. Blásio sempre aparentava estar bem consigo mesmo, não se importar verdadeiramente com nada. O que uma pessoa assim poderia temer?
— É sério que logo você não sabe? — Fez uma pausa e diante do olhar confuso de Draco, continuou.
— Minha mãe se casou sete vezes, eu não tenho exatamente um exemplo de estabilidade. Nunca fui tido como simpático, esse é meu jeito. Aprendi desde muito cedo a me colocar em primeiro lugar e me defender do que fosse, mas agora vejo que esse extremo não me trouxe coisas boas. Eu estou mais leve agora, Bro. Por que não se aventura a ver como é boa essa leveza?
— O que sugere que eu faça?
— Não seja tão duro consigo mesmo, já é um começo. Se não quer falar, tudo bem. Mas você não vai ficar mais nesse quarto. Vamos dar uma volta, o que me diz?
— A última coisa que eu preciso agora é ver a... — Ele se calou a tempo e fingiu nunca ter dito esse pedaço de frase, se levantou e foi em direção a porta. Blásio respeitou a recusa do amigo em terminar a frase, sem jamais saber o que Draco quase revelou. Mas em pensamento, o loiro terminou a sentença. "A última coisa que eu preciso agora é ver a Granger com o novo amiguinho dela".
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