Yellow - Dramione
24 A Hard Day's Night
McGonagall adentrou a sala, observando os alunos com gravidade. Seu olhar demorou-se em Hermione, fazendo-a lembrar do descontrole de sua melhor aluna. No fundo sabia que não podia culpá-la. Por mais que tivesse passado por muitas coisas, a bruxa mais inteligente da geração era só uma garota ainda. Uma garota que viu diversos conhecidos morrerem na segunda guerra bruxa e que compreendia o risco de perder os amigos novamente em decorrência do novo ataque. Sendo ou não errado o tom dela ao se dirigir a diretora do colégio, McGonagall entendia.
— Desculpem por fazê-los esperar. — Disse a mulher impecavelmente austera. — Estive ocupada resolvendo algumas coisas, mas finalmente podemos conversar a respeito do que houve. Quem será o primeiro a se pronunciar?
Antes que Hermione pudesse partilhar suas suspeitas, Harry contou a diretora que esbarrou com Malfoy por acaso e que em seguida o garoto começou a passar mal.
A voz do amigo se tornava um som distante e indistinto enquanto Hermione relembrava os acontecimentos do dia. Em seu íntimo agradeceu por não ter tomado um café da manhã reforçado, pois se o tivesse, provavelmente vomitaria. Seu estômago dava voltas, um nó angustiante lhe dando a impressão de perigo iminente. Tentava se convencer que passara pelo pior, era a resposta mais óbvia. Mas e se estivesse errada? Se aquele dia louco fosse apenas o começo de algo ainda maior?
— Senhorita Granger, está tudo bem?
A voz de Minerva lhe trouxe de volta a realidade, uma em que as coisas pareciam mais estáveis do que o futuro apocalíptico que sua mente traidora tomava como certo. Suspirando, e só então notando o tremor nas próprias mãos, Hermione pôs-se a falar a primeira coisa que lhe passou na cabeça, apenas para não mentir. Porque não, ela não estava bem e tampouco sabia quando aquele sentimento angustiante iria embora. Algo nela tinha rompido, qualquer coisa dentro de si poderia estar dilacerada. Não era justo e jamais seria, porém era a vida. Com esforço, buscou dentro de si a fibra que já a fez ganhar tantas batalhas, seja dentro ou fora de um duelo envolvendo magia.
— Eu sei porque os atacaram. — Ela declarou, para espanto geral. Fungou, em uma clara tentativa de manter o controle. — Com exceção de Blásio Zabini, os alunos que foram envenenados representaram a escola no memorial. Minha impressão é que foi um atentado contra Hogwarts.
— É uma acusação muito grave, Granger. Como pode ter certeza?
— Eu não tenho. É uma possibilidade, e como uma pode estar certa. Ou não. Porém alunos de todas as casas foram atacados, e não pode ser coincidência serem justamente os escolhidos para representarem-nas.
— Mas Mione, eu falei também. — A voz conhecida de Harry chegou até ela com hesitação. — Se quem fez isso fosse atacar todos os alunos que subiram naquele tablado, teríamos muitas outras vítimas.
Ele expôs seu ponto, recebendo discretos acenos em concordância. Mas Hermione havia pensado naquilo também.
— Para um ataque como esse, é necessária muita organização. Quem o fez parece ter uma boa noção de como sair limpo nisso, tanto é que não fazemos ideia da identidade do culpado. Max, Malfoy, Luna e Neville eram os representantes das casas, toda Hogwarts sabia. Você, George ou o senhor Diggory, não. Vocês se voluntariaram para subir lá, não era algo planejado. Portanto atacar a todos exigiria improvisação, o que não é a melhor estratégia para evitar ser pego.
— Suas palavras tem seu peso, senhorita Granger. — Minerva a avaliou novamente, a expressão atenta e grave. — Mas onde o senhor Zabini se encaixa nessa história?
Buscando apoio, Hermione olhou para Gina. Qualquer que fosse a informação secreta que a ruiva possuísse, não parecia disposta a compartilhar. E de segredos a Princesa da Grifinória entendia, portanto não seria ela a julgar quem fosse.
— Eles poderiam estar juntos quando aconteceu. Teremos que esperar que acordem para termos certeza, diretora.
Foi quando Harry lembrou de um detalhe importante.
— Quando cheguei na enfermaria com Malfoy, Madame Pomfrey estava examinando Luna e Blásio, senhora. Eles chegaram lá primeiro, e podem sim ter ido juntos. Acho que a Mione pode ter razão.
— Mas por Merlin, por que alguém faria uma atrocidade dessas? Ainda mais depois de tudo o que passamos… Em Hogwarts, no Memorial de Guerra! — McGonagall exclamou.
Independente de seu papel no colégio, não era fácil para ninguém lidar com o que estava acontecendo. Eram vidas, afinal. Aqueles jovens conviviam com as demais pessoas do castelo desde que tinham onze anos, foram vistos crescer até por quem não tinha uma relação próxima a eles. Quem fez aquilo não tinha o menor vestígio de empatia ou algo do gênero.
— Justamente por isso, diretora. — Pansy Parkinson declarou. — Consegue imaginar uma oportunidade melhor?
— Era a oportunidade perfeita para atacar e passar um recado. Só nos resta saber quem fez isso e impedir o resto de seu plano. — Hermione concluiu o pensamento da sonserina.
O tom monótono da garota poderia passar a falsa sensação de calma ou conformismo a quem não a conhecesse bem, mas não era isso o que a bruxa sentia. Seu interior queimava em antecipação, pois era claro que aquele não era o fim. A história que começou a mostrar suas consequências em algum momento daquele dia ainda poderia estar longe do fim. Infelizmente.
Em dado momento McGonagall saiu da sala, mas o silêncio incômodo permaneceu ali. A conversa chegou ao fim nos poucos minutos em que várias perguntas ficaram sem resposta. Os alunos se entreolhavam com apatia, pois nem a presença de uma sonserina entre os quatro grifinórios era considerada estranha depois de tudo. Pansy estava passando pela mesma situação, afinal. Eram os amigos dela na enfermaria, assim como os dos leões. Algo precisaria ser feito quanto a isso.
Um a um os alunos foram embora da sala, a maioria voltando para a enfermaria do castelo. A noite caía quando Madame Pomfrey pediu que todos se retirassem da Ala Hospitalar, inclusive Vince e Mary. Antes que Hermione pudesse protestar, o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas já estava ao seu lado. Ela apenas assentiu. Sem precisar pedir que a garota o acompanhasse, Vince a viu se despedir dos demais e andar em direção a saída, esperando-o lá. Como se tivessem combinado, andaram em silêncio por aqueles corredores sem chegar a lugar algum. Isso até Hermione se sentir pronta para conversar, conduzindo-os para a Torre de Astronomia e sentando-se no chão gelado.
O professor apenas a seguia, pois assim como ele, a aluna claramente precisava de alguém. A confiança mútua que depositaram um no outro poderia ser o único ponto positivo do dia, e não era algo que ele estava disposto a jogar fora. E não que estivessem pensando nisso agora, mas justamente em momentos de adversidades é que costumamos conhecer os verdadeiros amigos.
— Ontem, por volta desse horário, nós estávamos aqui. Sequer brigamos, acredita? Ao menos não de verdade. Pode ter sido minha única chance.
— Acredito que ele ficará bem, e não estou dizendo só para te consolar.
— O que aconteceu quando estive fora, professor?
Vince não sabia como responder aquilo, ainda assim tentou. Devia isso a ela. Se identificava com Hermione por diversos motivos, sendo a inteligência apenas a característica mais óbvia. Mas ao que tudo indicava naquele momento, nem toda a inteligência do mundo seria capaz de salvá-los do que sentiam.
— Tenho que ser sincero, Granger. Malfoy e o seu amigo lufano são os que estavam em pior estado…
— Houve alguma complicação, é isso o que está tentando dizer?
— Não. Depois que tomaram as poções para dormir não houve incidentes.
A grifinória mal respirava nesse momento. Seus olhos atentos não saíam de Vince por um minuto sequer, pois finalmente alguém estava sendo honesto com ela. E seja qual fosse o real estado dos amigos, a bruxa precisava saber. Entretanto, o fato do senhor Adams parecer reticente sobre algo ainda a incomodava. Hermione engoliu em seco, olhando alarmada para o homem que parecia estar tão quebrado quanto ela.
— Por favor, conte tudo o que sabe. Eu aguento.
— Vou confiar na sua discrição. Não é qualquer um que pode saber a respeito. — Ao ver a garota acenar em concordância, Vince pôs-se a falar. — Acontece que eu estava lá quando Madame Pomfrey examinava os cinco, e depois, ao contar o diagnóstico para Minerva. Todos ingeriram o mesmo veneno, um que é extraído de uma raiz. Os trouxas costumam usar o mesmo método, o que pode não ser nada.
— O senhor também está pensando na relação entre o ataque e o Memorial de Guerra, não é?
— Bom, o memorial está na equação de qualquer jeito. Um dia depois que a escola foi aberta para pessoas de fora, houve um ataque. Isso é fato. Se não foi algum convidado, o verdadeiro responsável aproveitou a distração causada pelo evento. Mas voltando para seus colegas na Ala Hospitalar, devo alertá-la que Malfoy e Owens foram os que chegaram mais perto da morte. Um pela quantidade de veneno ingerida, o outro por quase não conseguir socorro a tempo.
Antes de conseguir esconder o rosto nas sombras da Torre de Astronomia, as lágrimas já chegavam aos olhos de Hermione. Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando conter a vazão de sentimentos que a tomavam, transbordando quando bem entendiam. Sua voz embargada falhou quando ela lamentou-se, pois sentia que era sua culpa.
— E-eu estive com o Max desde que ele começou a passar mal. — Pausou, tentando se controlar. — Quanto ao Malfoy, sequer consegui atender o pedido de ajuda do Harry e chegar até eles. Se eu não tivesse falhado os dois não precisariam chegar a esse extremo.
— Culpe a pessoa que fez isso, Granger. Estou certo que deu o máximo de si para ajudá-los. Se eles conseguiram se safar por tão pouco, cada detalhe foi crucial. Se martirizar não adianta de nada agora, sem contar que é um equívoco gigantesco. Se você não envenenou ninguém, a culpa não é sua. Parece simples para mim.
— O senhor tem razão. Desculpe, estou amarga demais hoje.
— Não se cobre tanto, está bem? Qualquer um na sua posição estaria surtando. Pelo que pude perceber, você só está tentando entender o que houve para proteger as pessoas que gosta. Tentar se manter calma em uma situação dessas já é muito complicado.
Hermione riu, um som fraco que não passou despercebido por Vince. Curioso, a encarou.
— Está falando isso para a garota que afirmou ser mais fácil expulsarem-na de Hogwarts do que daquela Ala Hospitalar.
— E eu pensei que você amasse essa escola.
— Amo com todas as minhas forças. — Ela confessou, nostálgica por lembrar da primeira vez em que pôs os olhos no castelo. Hogwarts sempre seria sua casa.
— Ainda assim, desistiria de um lugar que lhe é tão importante para vigiar um garoto inconsciente e torcer que isso fosse o suficiente para ele não morrer. Um garoto com o qual, até onde sei, nunca se deu bem.
A bruxa estava mais que desconfortável. Sua vulnerabilidade estava exposta, e Vince querer saber mais a respeito não ajudava em nada. A única pessoa que sabia sobre Malfoy era Harry, e isso por um acaso. Se o amigo não visse que seu Bicho-Papão era o sonserino gravemente ferido, provavelmente nunca teria desconfiado dos sentimentos que tinha por ele. E agora por pura astúcia o professor Adams sabia também, pois deduziu acertadamente que tanto zelo por Draco não se devia ao fato dele ser mais um entre as vítimas de um maluco qualquer. Ela o admirava e amaldiçoava por isso.
— Não foi uma pergunta, mas já sabe a resposta. A viu mais cedo.
— Desculpe, não tive a intenção de pressioná-la. Não precisa dizer nada. Foi extremamente indelicado da minha parte, Granger.
— Hermione. — Ela o corrigiu. — Afinal, não estamos em uma sala de aula. E o senhor foi esperto o bastante para perceber que há algo a mais entre mim e Malfoy.
— Ok, Hermione. Espero que retribua a gentileza me chamando de Vince quando não estivermos em classe, já que por algum motivo conseguiu arrancar de mim o segredo que guardo sobre a Mary sem nem fazer esforço.
— Parece que sua situação também não é das melhores.
— Veja o lado positivo, pelo menos ela não sofreu um atentado.
A garota o encarou, sua expressão mesclando incredulidade e revolta. Vince apenas riu, desculpando-se enquanto provava sua teoria.
— Lamento, o que acabei de fazer foi pura maldade. Só queria provar que você realmente se importa com ele.
— Achei que já tivesse provas até demais. Isso é para me distrair, para assim eu não perguntar sobre a senhora Palmer? — Hermione levantou uma sobrancelha. Dessa vez foi a vez de Vince Adams se sentir exposto.
— Você é mesmo uma sabe-tudo. Mas primeiro me conte sobre o idiota loiro. Isso, é claro, se estiver confortável para fazê-lo. Se depois ainda se sentir disposta a tal, poderá se sentir melhor com as desgraças dos outros, pois te conto sobre a Mary.
— Tudo bem. O que o senhor quer saber? Se estamos namorando?
— O que quiser contar. Só torço para entender como pode haver uma coisa tão bonita entre duas pessoas que até pouco tempo eu juraria que se odeiam. É o que eu costumava pensar quando os obrigava a ficar juntos, pois tinha esperança que aprendessem a conviver.
— O senhor foi mesmo muito inconveniente. — A morena lhe lançou um olhar de advertência, mostrando por meio desse gesto que os métodos do professor não foram completamente aprovados. Vince, por sua vez, não parecia particularmente envergonhado. Pelo contrário, o orgulho era evidente em suas feições. — Mas essa não é a questão agora.
— Certo, vamos ignorar minha inconveniência.
— Acho que a primeira coisa a se esclarecer é que eu e Malfoy não temos nada. Até ontem eu acreditava que isso era algo completamente unilateral. Quero dizer, nós obviamente não nos gostamos da mesma forma. Malfoy gostar de mim já é algo tão surreal que só o fato de eu gostar dele consegue ser mais estranho.
— Diz “até ontem” por conta dos ataques de hoje cedo? — O homem perguntou com cautela.
— Não. Depois do memorial eu vim para cá, pois não me sentia bem e aproveitei a situação para me afastar de todos. Acontece que ele apareceu, nós conversamos e foi como se eu não fizesse ideia de quem foi o garoto que me insultou durante anos. Draco parecia tão… Diferente, sabe? Acho que nunca o conheci de verdade.
— Se ajuda de alguma forma, não conhecemos bem sequer a nós mesmos. Mas continue.
— O fato é que só vir aqui já transmitiu a sensação que ele se importava. Então de repente as pessoas foram envenenadas e eu ainda não sei o que fazer.
— Ninguém tem todas as respostas o tempo todo. Mesmo você.
— Isso é uma droga.
— A vida não costuma ser justa. — Ele devolveu, confirmando o que a bruxa pensou mais cedo a respeito de justiça.
— E quanto a senhora Palmer, o que tem a me dizer?
— Que às vezes uma única noite tem o poder de mudar uma vida.
— Disse que ela não se lembra de você, certo?
E pela primeira vez em muito tempo Vince contou sobre a garota que nunca conseguiu esquecer, e como que por castigo, não fazia ideia de quem ele era.
— …então hoje eu disse que ela não precisaria mais falar comigo se não quisesse. É óbvio que Mary não vai querer, eu fui um idiota desde que ela pôs os pés aqui. — Ele terminou sua confissão.
— Mas por que droga ficou implicando com a coitada? Tenho certeza que havia outro jeito de se aproximar.
— Orgulho ferido. Eu queria chamar a atenção dela.
— E é claro que o faria do pior jeito possível. — Suspirou, exasperada. — Tinha mesmo que fazer essa promessa estúpida de deixá-la em paz? De um modo muito estranho, me parece pior prometer não falar mais com ela do que atormentá-la sem motivo aparente.
— Era isso ou Mary não me acompanharia. Você sabe que seu amigo precisava dela lá.
— Eu sei, professor. Só me parece… errado, sabe?
— Foi o único meio que me sobrou para convencê-la. E eu tive meus motivos para ser enervante, não esqueça.
— Só que ela não fazia ideia, então deveria ter sido mais cuidadoso! — Hermione sentia-se frustrada por Vince e Mary, isso ficou claro para o homem. — Sinto muito pelo que houve. Espero que ela não o ignore pelo resto da vida.
O professor sorriu. Só o que precisou foi de uma catástrofe ainda maior do que a que estava vivendo para achar graça da ironia daquilo tudo. Nada como colocar as coisas em perspectiva…
— Talvez eu tenha merecido. — Vince afirmou com resignação. — Nem preciso dizer que esse assunto é segredo, não é?
— Acredite, eu sou a maior interessada em deixar tudo o que conversamos apenas entre nós. Fique tranquilo.
— Então estamos combinados. Até porque não estou em condições de condenar sua péssima escolha amorosa.
— Hey! — Ultrajada, ela logo tratou de se defender. — Não é como se eu quisesse isso.
— Tudo bem, retiro o que disse.
— Obrigada.
— E Hermione…
— Sim?
— Você realmente deveria tomar um banho. Isso na sua camisa não parece muito higiênico.
Confusa, a grifinória olhou para baixo com as sobrancelhas unidas. Qual não foi sua surpresa ao ver a blusa branca coberta de marcas… A pouca claridade da Torre de Astronomia iluminava parcialmente os rastros translúcidos causados pelas lesmas que Max vomitou sobre ela. Somava-se ainda o vômito do que deveria ser o café da manhã do lufano e outras sujeiras que Hermione não saberia indicar a origem. Não fosse por isso, apenas a camiseta completamente amassada já garantiria seu desalinho. Com tudo o que aconteceu, a aparência era a última das preocupações da Princesa da Grifinória. E quem poderia culpá-la, afinal?
— Por Godric… Como ninguém me avisou antes?
— Prioridades. — Ele respondeu gentilmente, ficando de pé e oferecendo uma mão para ajudá-la a fazer o mesmo. — O que acha de, pela primeira vez no dia, cuidarmos de nós mesmos? Aposto que não comeu direito hoje.
Já de pé, Hermione franziu o cenho ao buscar na memória um argumento contra aquilo. Ora, ela não era nenhuma irresponsável. Sem contar que seu corpo com certeza reclamaria da falta de nutrientes, se fosse o caso. Mas então… nada.
Com muito esforço, lembrou-se que a única vez que comeu durante todo o dia foi pouco depois de Gina acordá-la na mesma Torre de Astronomia na qual estava agora. Ela acordou, conversou com a amiga, tomou banho e comeu. Depois disso foi para a biblioteca, onde encontrou Max e tudo só piorou. Hermione ficou ligeiramente chocada ao se dar conta que após o começo dos ataques sequer uma de suas atitudes foi em benefício próprio.
Ela não tinha como rebater as palavras de Vince, portanto só assentiu. Ainda parecia perdida, e o bruxo fez bem em não dizer nada a respeito. A sabe-tudo não teria o que responder, de toda forma.
— Venha, vou acompanhá-la até seu salão comunal.
Já estavam no corredor quando a garota compreendeu o que o professor disse.
— Obrigada, senhor Ad… — Diante de um olhar de esguelha, se corrigiu. — Vince. Preciso de um tempo para me acostumar a chamá-lo assim… Obrigada, Vince. Você sabe, por tudo. De verdade.
— Disponha, Hermione. Fico feliz de pelo menos ter sido útil em algo. Foi bom contar contigo também.
Ela assentiu discretamente. Quando o silêncio se abateu sobre eles, não foi incômodo. Ainda perdida em suas considerações, a morena só se deu conta que estava em frente ao quadro da Mulher Gorda quando ouviu um pigarro vindo da pintura.
— Você vai ficar bem? — Sem saber se estava mais exausto ou preocupado, Vince perguntou.
— Sinceramente, eu espero que sim. Mas não se preocupe. Mais uma vez, obrigada.
— Pare de me agradecer, sabe-tudo. Até breve.
E então foi embora, pois ainda precisava de um bom banho, comida e cama. Desejava essas coisas simples com uma adoração que pareceria infundada aos olhos de quem teve um dia normal. E o desânimo já ameaçava o tomar por completo ao lembrar que no dia seguinte a rotina de aulas recomeçaria. O que lhe deu forças para encarar tudo aquilo foi a esperança de que naquela noite houvesse torta de abóbora como sobremesa. Pode-se encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias se a pessoa se lembrar de acender a luz.
Já Hermione disse a senha compartilhada com os companheiros de casa e entrou no salão comunal da Grifinória sem prestar atenção nos olhares que recebia. Não encontrou muitos alunos pelos corredores enquanto caminhava com Vince, tampouco ali. Ela tomou um banho demorado e ficou sentada em sua cama com o olhar perdido. A garota mais inteligente da geração não saberia precisar quanto tempo ficou ali até que Gina viesse a sua procura, obrigando-a a descer para o jantar. Assim Hermione o fez, mas não foi capaz de comer nada. De repente foi como se todo o peso dos acontecimentos estivesse sobre suas costas e se livrar dele fosse impossível.
Os amigos conversavam quando ela saiu da mesa sem ser notada e voltou para o abrigo dos leões naquele castelo. Sorrateiramente entrou no quarto que Ronald dividia com Harry, buscando algo nos pertences deste último. Quando o manto estava em seu poder, a morena arrumou o restante das coisas de modo a disfarçar sua visita não anunciada. Esperou que Gina voltasse para o dormitório e caísse no sono, só então pegando uma bolsa que descansava ali perto e a Capa da Invisibilidade que surrupiou do quarto do amigo.
Já era tarde quando, invisível, Hermione retornou a Ala Hospitalar. A garota então tirou de cima de si o manto que a protegia de olhares indesejados para, um a um, conferir o estado dos feridos. Eles aparentavam estar em um sono profundo, e a bruxa tranquilizou-se com isso. Ao menos assim não sofreriam. Deixou Draco por último, pois sabia que acabaria se demorando quando chegasse até ele.
Sendo a única pessoa acordada ali, Hermione pôde sentir o que a mais pura desesperança significava. No escuro em que a enfermaria estava, ela finalmente se acalmou o suficiente para sentir-se apenas... triste. Uma tristeza opulenta que a prendia no momento ruim de tal forma que para ela era como se a esperança nunca tivesse existido. E foi assim que a primeira lágrima fez seu caminho, do olho vermelho, passando pela bochecha, até desprender-se do rosto e ir parar no chão. Hermione sabia, não adiantaria secá-la. Era a primeira de muitas lágrimas que derramaria naquela noite.
Em pé entre as camas de Max e Draco, virada para este último, a garota pôde contemplar aquela beleza singular que o loiro exibia. Mesmo dormindo, e até mesmo debilitado, Draco preservava algo de nobre em suas feições. Esse era apenas um entre tantos lembretes da suposta superioridade que até algum tempo atrás ele afirmava ter por causa de seu sangue. No fim eram tantas coisas que os separavam que só de pensar no assunto o desejo de Hermione era nunca ter se apaixonado pelo garoto pálido que descansava forçosamente. Pegando a mão branca como a mais fina porcelana, ela temeu pelo garoto de dedos frios.
— Será que pode fazer o favor de ficar bem? — Perguntou baixinho enquanto acariciava a mão do sonserino.
Sentou-se na cama e lembrou de devolver aos garotos os objetos que estavam em sua bolsa. Na mesinha que ficava entre as camas, colocou os óculos de Max e o livro que emprestou a Draco. Tomando cuidado para não acordá-los, cobriu-se novamente com a Capa da Invisibilidade e sentou em uma cadeira que foi deixada ali perto. Sentia-se incapaz de ficar longe, então precisou apelar para aquilo. Se fosse flagrada, a menor das punições seria sair dali. Hermione não queria isso, portanto admitiu tal verdade para si e roubou a capa do amigo para estar ao lado de Draco no pior momento, mesmo que ele nunca soubesse. E no que dependesse dela o loiro não descobriria.
Mas seu plano não deu de todo certo, pois mesmo invisível foi descoberta. Seu corpo gelou quando uma voz inconfundível chegou aos seus ouvidos, chamando-a.
— Mione? — O menino que sobreviveu a chamou baixinho. — Mione, apareça por favor. Eu sei que está aqui e não vou embora sem conversarmos.
Harry não precisava vê-la para saber que Hermione estava ali. Por isso mesmo ficou parado onde estava, atento a qualquer movimento. Não precisou esperar muito para que a amiga enfim se mostrasse. Com um olhar derrotado a morena saiu da proteção da capa, indo lentamente até ele. A culpa era visível no semblante cansado, e o bruxo gostaria que esse fosse o pior dos indícios encontrados. Não era.
Ao chegar perto o suficiente do garoto, Hermione o abraçou. Um abraço longo e apertado como ambos precisavam, que não foi quebrado quando ela começou a falar.
— Me desculpe, Harry. Juro que não quis brigar com você mais cedo. Sei que fez tudo o que pôde. Sinto muito por não conseguir chegar a tempo, eu não consegui sequer dar conta de socorrer o Max. Se o professor Adams não tivesse chegado, ele… Droga, o que seria dele?
— Hey, está tudo bem agora. — O menino que sobreviveu beijou o topo da cabeça dela, antes de levar uma das mãos aos cachos da amiga. Buscava os afagar para confortá-la, de alguma forma ajudá-la a se livrar de tudo o de ruim que estava sentindo. — O pior já passou, ouviu bem? Nós vamos dar um jeito nisso. Não está sozinha, Mione. Os outros também vão se recuperar, e ninguém vai tirar seu Montecchio de você.
Ela rompeu o abraço, rindo incrédula ao secar o rosto com as mangas da blusa.
— Meu Bicho-Papão é esse cretino prestes a morrer e você o apelida com o sobrenome de um personagem que morre. Obrigada, Harry. Você é mesmo um ótimo amigo.
— Ora, pense pelo lado positivo. Morrendo aos dezoito ele será jovem para sempre.
Hermione deu um soquinho nas costelas de Harry, fazendo-o sorrir.
— Você é péssimo em consolar alguém.
— Não precisa se preocupar… — Começou em um tom brando. — Dizem que o primeiro amor nunca morre. Isso é bom, certo?
— Ele pode morrer quando estiver velhinho. — A garota fungou, modulando a voz e tentando mantê-la firme. — Coitado de quem tiver que aturá-lo até lá, mas aí já não é um problema nosso.
— Eu espero que seja, se isso deixá-la feliz. — Admitiu com sinceridade. — Como você está?
Hermione suspirou, farta de tudo. Um som vindo das macas chamou sua atenção, mas ela logo o ignorou quando deduziu ser só um dos colegas se mexendo durante o sono. Não passou por sua cabeça que alguém acordasse naquele momento, já que seria muito azar.
— Esse dia todo foi como um pesadelo para mim, sequer consigo pôr meus sentimentos em palavras.
— O lado bom de um pesadelo é que a gente pode acordar.
— Então seja o bom amigo que me sacode no meio da noite e me traz de volta para a realidade, por favor.
— Malfoy não vai morrer agora, não precisa mais ter medo.
— É fácil para você falar.
— Acredite, não é. Também fiquei assustado. — Diante do silêncio de Hermione, perguntou algo que o estava inquietando desde que se encontraram na enfermaria. — Aconteceu algo entre vocês, não é? O jeito que o acalmou…
Hermione ficou ereta, encarando-o sem saber o que falar. Apesar de ter conversado abertamente com o professor Adams mais cedo naquela noite, não se sentia confortável para contar tudo o que houve entre ela e Draco. O beijo que compartilharam era algo que pertencia somente aos dois, e até que o loiro estivesse bem aquele seria o seu segredo. Depois… Bom, ela ainda não havia pensado no depois. Todos os seus pensamentos estavam focados apenas em uma coisa, a recuperação do sonserino que não saía de sua mente.
A bruxa estava decidida, por mais que lhe incomodasse esconder algo de Harry. Ele era seu melhor amigo do mundo inteiro, o irmão que escolheu ter. Só com ele Hermione podia ser totalmente sincera sobre o Draco, e quando estivesse pronta seria para ele que iria contar. Aquele só não era o momento ainda.
E verdade seja dita, quando acordou o mundo virou de cabeça para baixo. Ela estava destruída pelo que aconteceu. Max quase morreu em seus braços, além da garota também não conseguir ir até o melhor amigo e Malfoy quando este último estava passando mal. Dar a dica a Harry dizendo para fazer Draco vomitar foi importantíssimo, mas ela sentia-se muito mal para se lembrar desse detalhe naquele momento. Então com toda a dor da guerra que o memorial trouxe de volta e todas as consequências indesejadas do dia, não seria qualquer um a aguentar metade do que a bruxa mais inteligente da geração estava passando. Sequer ela foi capaz de passar incólume por tudo aquilo. Seu receio era mais que justificado. Seria difícil alguém julgá-la por querer guardar um momento especial apenas para si. Foi por isso que ela apenas olhou para onde os feridos descansavam quando respondeu baixinho.
— Não sei como respondê-lo, gentil senhor.
Bastou aquela frase para Harry entender que seja lá o que tivesse acontecido, Hermione não estava pronta para admitir ainda.
— Não tem problema. Mas me diga uma coisa… Por que ficar aqui em vez de descansar no seu dormitório?
— Não faz sentido tentar dormir quando tenho certeza que não vou conseguir.
— Quer que eu te faça companhia? — Ofereceu, sério. A grifinória deu um sorriso sincero, um dos poucos do dia.
— Obrigada, mas não. Já fez muito por hoje.
— Tem certeza do que está fazendo?
— Sim. Vá descansar tranquilo.
— Tudo bem. Sei que não tenho credibilidade para pedir uma coisa dessas, mas peço que me ouça mesmo assim. Só tente não se meter em confusão, está certo?
— É a noite de um dia difícil, Harry. Só estou esperando que ela acabe. A não ser que a confusão venha até mim, não há motivo para se preocupar.
Ele assentiu, sendo assistido enquanto caminhava em direção a saída. Antes de chegar lá se virou, deixando algumas palavras que não receberam a atenção devida na hora.
— Boa noite, Mione. Fique o tempo que precisar com a capa e o mapa. Espero que tudo se acerte.
— Boa noite. — Distraída, ela sussurrou para a silhueta que se afastava aos poucos enquanto se aliava a invisibilidade para proteger os colegas de um novo ataque.
Novamente sozinha, passou a noite velando o sono dos cinco estudantes. Nem mesmo o céu que sempre a acalmava conseguiu chamar sua atenção naquela madrugada. Por mais cansada que estivesse, Hermione não dormiu um só momento. Sequer um cochilo roubou sua atenção. Seus olhos ardiam pela claridade vinda das janelas quando a garota ouviu passos e preparou-se para um possível duelo. Os ombros relaxaram minimamente quando identificou a pessoa como Madame Pomfrey, pois era pouco provável que ela fosse os ferir.
Poderia ter ido embora nesse momento, mas algo a impelia a ficar imóvel bem ali, observar o máximo que pudesse para só então deixar a Ala Hospitalar. A curandeira-chefe não parecia fazer ideia de sua presença, checou os feridos e anotava algo em um pergaminho que trazia consigo quando as coisas começaram a mudar. Da esquerda para a direita, Blásio Zabini estava na última das macas. Foi justamente ele que acordou primeiro, mexendo-se desconfortável até levantar em um salto. Desesperado, olhou ao redor até se deparar com Luna ainda inconsciente.
Hermione assistia intrigada a cena e teve uma grande surpresa ao ver o sonserino ir até onde Luna estava, afagando-lhe o cabelo.
— Luninha, acorde. Diga que está bem, sim? Já é dia, meu amor. Vamos acabar nos atrasando para as aulas. — Ele dizia visivelmente perturbado. — Madame Pomfrey, por que ela não acorda?
Hermione mal pôde acreditar na devoção que Zabini demonstrou pela loira naqueles poucos segundos. Sem poder ser vista e posicionada estrategicamente, a grifinória observava enquanto Max acordava, assim como Luna. O alívio de Blásio foi tal que ele só faltou chorar de felicidade. O sonserino abraçava a namorada dizendo o quanto temeu perdê-la quando Max sentou na cama para tentar entender o que era aquilo. O coração de Hermione apertou com a expressão do amigo lufano ao presenciar os beijos, abraços e declarações do — ao que tudo indicava — novo casal de Hogwarts. O desgosto de Max só fez aumentar ao olhar para o lado oposto e se deparar com Malfoy encarando um livro com o cenho franzido. Já Neville deu um risinho aliviado ao concluir que todos estavam bem. Ao menos foi como o grifinório entendeu a situação.
E de repente Hermione não queria mais estar ali. Aquelas pessoas poderiam estar mortas naquele momento. E mesmo que tivesse sobrevivido, Max claramente não estava bem ao ver a garota que gostava nos braços de outro. Draco encarar daquele jeito o livro que Hermione emprestou a ele deixava a morena nervosa, como se fosse ser descoberta a qualquer momento. Talvez todos soubessem de seus sentimentos sobre o garoto. Talvez as coisas dessem terrivelmente erradas agora. Ou quem sabe fosse pior tudo dar terrivelmente certo. O fato é que precisava ficar sozinha por um momento, já que sabia que ao menos os colegas estavam em segurança. Era provável que se atrasasse para a primeira aula do dia, mas Vince teria que perdoá-la por isso. Foi pensando assim que finalmente saiu da enfermaria, andando a esmo por Hogwarts.
Para ela que não dormiu, o dia havia começado há muito tempo. Naquele momento, preparando-se mentalmente para enfrentar a segunda-feira, Hermione torcia que os acontecimentos dali até o anoitecer não fossem tão terríveis quanto os do fim de semana. O que acontecesse até o cair da noite não poderia ser pior que aquilo… Certo?
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