Yellow
1 Prólogo
Notas iniciais
“A maior faculdade que nossa mente possui é, talvez, a capacidade de lidar com a dor.”
O Nome do Vento, Patrick Rothfuss
...
Prólogo
Annabeth
Pulei da cama e fui pro banheiro do quarto velho e cheio de pôsteres nas paredes. Hora de virar o jogo, esquecer o passado e me afundar em grandes novas possibilidades. Escovei os dentes, passei desodorante e corri pro armário: pus um casaco pesado, meia-calça e sapatilha. Estávamos em uma época de neve em Liverpool.
Liverpool é uma cidade em que, diga-se de passagem, nada acontece, mesmo sendo uma cidade grande. Conhecida por ser o berço dos Beatles, sempre fria, cheia de barzinhos e... bom, é isso.
Olhei-me no espelho e peguei um pente vermelho de dentro de uma das gavetas. Penteei meu cabelo e vi que ele estava mesmo embaraçado, então puxei o pente com mais força e quase arrancou um tufo do meu detestável cabelo.
Os dentes da maldita escova prenderam no meu cabelo bagunçado. Depois de uns dois minutos tentando tirar aquela maldição do meu cabelo, consegui. Abri a janela com minha raiva matinal e joguei o pente lá fora. Espero que não tenha caído na cabeça de alguém. Fechei a janela novamente e raspei as mãos como as pessoas fazem nos filmes quando estão satisfeitas e dei um sorriso maligno.
Nada como se livrar de certas coisas.
Ainda dando aquele sorriso, destranquei a porta do quarto com a chave enferrujada e com um chaveiro de Los Angeles. Lembrei-me que iria pro sangrento, poluído e apaixonante Estados Unidos naquele mesmo dia. Sorri mais.
E iria fingir que um rompimento conturbado não havia ferrado com a minha vida, especialmente na área da saúde mental.
Ah, claro, o episódio que eu chamo carinhosamente de TDACV. Digamos que signifique... trauma devido à cabelo vomitado.
Início da Lembrança
Eram nove horas da noite. Fiquei de encontrar Thalia, minha melhor amiga, no prédio dela.
Ela sempre detestou todos e tinha um cabelo escuro e olhos azuis elétricos. Sempre foi magra e alta. Eu? Sempre fui meio gorda e bem baixa. Hoje não sou mais tão baixa assim, tenho 1,65 e peso quarenta e oito quilos. Perdi muito peso na adolescência e não ganhei muitas curvas, mas não me importo mesmo.
Eu tive um pouco mais de "pretendentes" que Thalia, porque sempre tive facilidade em socializar, conversar, etc. Não que eu gostasse. Era só facilidade na dicção. As palavras costumam sair facilmente pra mim e não lembro de muitos momentos na minha vida que me senti realmente sem palavras, comentários, ou gaguejei.
Thalia bem que é legal e sabe conversar um pouco sobre tudo, mas prefere ficar em casa, jogada no sofá (quando seus pais não estão em casa, porque se estão ela fica trancada no quarto) enrolada num edredom de guaxinins e com um balde enorme de pipoca lotado de margarina que derrete no microondas e um tubo de ketchup. Mas isto não vem ao caso.
Vale destacar o quanto eu gostava de Luke. O quanto eu pensava que um dia chegaria à ser amor. Mas deixei de lado todo esse papo de menininha pateta, e foi bem assim:
Ao chegar ao apartamento de Thalia, fiquei lá até as onze. Ela ofereceu um dos colchões do quarto dela e disse que poderíamos ficar lá vendo televisão, já que havia arranjado um monitor pra pôr de TV em seu quarto, e stalkear calouros. Eu disse que realmente queria ficar, mas meus pais disseram que eu tinha que voltar pra casa às 23:30, no máximo. Thalia revirou os olhos.
— Annabeth, acorda. Você tem quase dezoito anos e é obrigada a chegar em casa à essa hora? Até a Cinderela pôde ficar até mais tarde na festinha dela.
— Thals... me desculpa. Tchau.
— Okay, Annabeth, okay. O que custa ligar pra eles e dizer que vai dormir aqui?
— Eu não sei... — resmunguei.
— Então tá bom. Tchau – disse, fechando a porta do quarto dela na minha cara. Suspirei.
— Tchau, Thalinha – disse em um tom completamente irônico e chutei a porta, mas foi o bastante pra Thalia berrar de dentro do quarto.
— VAZA DA MINHA CASA, LOIRA NOJENTA DOS INFERNOS.
Fui até a cozinha e bebi um copo de água, depois peguei um papel e uma caneta na mesinha do telefone e escrevi um “desculpa” e deixei-o em cima do sofá da sala.
Abri a porta e deixei-a destrancada mesmo. Eu não tinha a chave. E também sabia que assim que ouvisse a porta fechar, Thalia ia reabrir a porta do quarto e ir trancar a porta, assim também veria o bilhete que eu havia deixado. Tudo certo. Ela pode parecer durona, e tal. Mas sempre perdoava.
Ao dar um tchau pro porteiro simpático, comecei a voltar pra casa. Se eu tinha medo? Nenhum. À noite, a doce Inglaterra fugia bastante do padrão ceticista que puseram nela. Eram bares lotados, boates bombando, gente bêbada na rua gritando e rindo... Enfim. Fui meio que agarrada duas vezes por dois bêbados bonitos e muito mal-cheirosos na calçada. Os dei um chute sem muita força, mas forte o bastante para fazê-los se afastarem de mim e gemerem de dor.
Cheguei numa parte deserta. No bairro da vadia. Sabia que, querendo ou não, passaria na frente da mansão dos Dare. Só não sabia que o encontraria, o MEU Luke, agarrado com Rachel Elizabeth Que-Me-Dá-Náuseas Dare. O meu choque foi bem previsível.
Tenho nojo de descrever a cena. Ela estava com um vestido curto e preto, de possível poliéster barato. Ela não tinha nada de mais, nem uma curvinha destacável sequer. Ela era reta, mil vezes mais que eu, cheia de espinhas e um nariz torto. O cabelo ruivo e cacheado batia ao lado de seu queixo. Eles estavam “se agarrando”, se eu puder não ser tão detalhista assim.
Fiquei em choque por, o que? Uns três minutos. Preciso dizer que eles estavam ocupados demais pra notar a figura parada de cabelo amarelo no fim da rua? Não. Andei como se não estivesse vendo nada. Ao chegar mais perto, Rachel me viu e arregalou os olhos por um instante. Mas logo depois deu um sorriso diabólico e começou a agarrar Luke com mais vontade. Eu cheguei perto e com meu tom mais cínico, disse:
— Hã, com licença – Luke arregalou os olhos de um jeito que eu nunca pensei que alguém seria capaz, os olhos pareciam esbugalhados. – Desculpem atrapalhar, mas preciso ter uma brevíssima palavrinha com o Luke — declarei, e minha visão estava totalmente embaçada por conta das lágrimas que eu estava tentando prender. Tentando. Porque logo caiu uma em cada lado do rosto. Merda de lágrima.
A esta altura, Luke já havia se recomposto do susto, enquanto Rachel ajeitava o vestido e os cabelos em rápidos movimentos de mão, mantendo o sorriso maldoso no rosto.
— Annabeth, não é exatamente o que vo... — Luke começou, mas não teve a oportunidade de continuar.
AH NÃO. AH NÃO, AH NÃO E AH. NÃO. Eu juro por Deus (por mais que eu não seja nenhum tipo de adepta a religião) que ele podia falar qualquer coisa.
A única coisa que ele não podia dizer era que não era o que eu estava pensando. Dei um tapa na cara dele. Não foi como numa cena de filme, o tapa perfeito no momento perfeito.
Foi um momento tenso.
Eu borbulhava em ódio puro. Ele tentava se explicar da maneira mais ridícula possível e a cara dele chamava com veemência minha mão. Eu não podia perder aquela oportunidade.
Minha mão doía muito. Muito de verdade. E isso intensificava meu choro. Ele acariciava a bochecha com muito espanto e Rachel me olhava chocada.
— O que você fez, sua va... — e nesse momento meu corpo se encheu de ódio. Ela inflamou minha ferida. E, é, iria pagar o preço.
Meti a mão na cara dela três vezes, uma vez com mais força que a outra. Puxei seu cabelo de jeito que sua cabeça se entortava e disse cheia de raiva em seu ouvido.
— Não ouse me ofender. Só não ouse me ofender. Não toque em mim. Não olhe pra mim. Não dirija a palavra à mim mais nenhuma vez na sua vida. — sussurrei. Luke observava tudo muito chocado, mas não fez nada pra impedir. Lágrimas caíam do rosto de Rachel e no meu. Depois que a soltei, se afastou e se encostou no muro de sua mansão, com algumas lágrimas caindo.
Se eu senti pena?
Nem um pouco.
E resolvi continuar minha conversa com Luke. As lágrimas saíam de meus olhos sem meu mais mínimo consentimento.
— Não é o que eu estou pensando? — perguntei indignada — COMO ASSIM NÃO É O QUE EU ESTOU PENSANDO? É CLARO QUE É EXATAMENTE O QUE EU ESTOU PENSANDO — berrei com as últimas forças do meu pulmão e, por um momento, minha defensiva se rompeu.
Então eu comecei a chorar. Chorar mesmo. Aquele choro que vem com todas as forças do seu ser, com soluços e caretas. Aquele choro que representa uma dor tão forte que é de se sentir um aperto no peito. Algo que você sente doer de verdade. Quando você se culpa irremediavelmente por estar chorando mas não consegue se segurar. E sente que nunca mais vai parar porque o nó no seu estômago é tão grande, a sua respiração está tão descompassada, que você só quer chorar e ficar sozinho.
Eu, até hoje, me arrependo por ter dado o gosto àqueles dois de me verem debulhando em lágrimas daquele jeito. Eu poderia ter sido forte, poderia ter mantido a elegância e pôr um ar de superioridade e maturidade na conversa.
Mas eu precisava daquilo.
Eu precisava descontar ao menos parte da minha raiva em alguma coisa, e não me importava se estivesse fazendo um enorme papel de imbecil. Eu não ligava que lágrimas incomodantes, quentes e grossas arranhassem o meu rosto como uma faca. Ou que minha boca tremesse de ódio e eu soluçasse mais de mil vezes em cada segundo.
Era simplesmente uma coisa da qual precisava.
E logo depois, me afastei em passos rápidos. E quase caí umas três vezes em apenas dez passos.
E continuei andando. Ao olhar uma última vez pra trás, Rachel havia tirado o sorriso diabólico no rosto e ficou com a expressão impassível, mas eu via pena em seus olhos.
E o último sentimento que eu queria que tivessem de mim era pena.
Ouvi Luke começar a vir atrás de mim mas saí correndo. Ele gritava meu nome a plenos pulmões. Mas eu não ligava. O nó no estômago só apertava e as lágrimas vinham com menos intensidade, mas a dor ainda era absurdamente forte.
Só queria chegar em casa logo. Em um momento ele entendeu, mesmo com seu cérebro minúsculo, que eu precisava de um tempo para ficar sozinha e parou de correr atrás de mim.
Parei em um pub, sem me preocupar com os olhares que atraía devido às lágrimas que ainda escorriam no meu rosto e a cara vermelha e inchada. Eu estava a definição de destruída. Tomei doses de tequila, que o barman teve a bondade de me ceder mesmo sendo claro que eu era menor de idade. Acho que era perceptível que eu precisava daquilo.
Em algum momento do caminho, eu comecei a passar mal e vomitei com todas as minhas forças. Eu me sentia tão bêbada, tão triste e tão exausta, que só senti os resquícios de vômito no cabelo.
TDACV.
Pode ter sido imensamente trágico, mas dei esse apelido pro acontecimento pela simples razão de querer ver algo absurdamente triste que aconteceu comigo com um pouco mais de bom humor.
Cheguei em casa uns dez minutos depois disso.
Final da Lembrança
E hoje é o dia que vou deixar essas pessoas tão inesquecíveis para trás e viajar para os Estados Unidos. Por fim, amarrei meu cabelo num rabo de cavalo bem preso e vi minhas malas na ponta da escada. Sorri. Eu ia mesmo pra América.
***
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