Yellow

5 Octavian Collins se torna meu novo melhor amigo


Notas iniciais
quem ganhou a enquete passada foi a nina dobrev, fiquei bem feliz que vários leitores fantasminhas resolveram aparecer pra participar. VOCÊS TEM NOÇÃO DA MINHA ALEGRIA COM MINHA 2ª RECOMENDAÇÃO????? THIAGO!!!!!! sua recomendação foi perfeita, transcreveu em algumas palavras tudo o que eu queria saber: que alguém gosta da minha história. eu saí pulando pelo quarto, berrei com a potência de no mínimo 500 decibéis, mas nada disso pôde descrever minha gratidão por tudo o que você escreveu. sério mesmo, muito obrigada, fiquei feliz de verdade. esse capítulo foi feito pra vocês conhecerem melhor os personagens, os casais, etc. a conversa dela com octavian no final é que conta isso. bem, não tem nenhum romance entre a annie e o octavian, antes que pensem errado. PERCABETH, lembram? P E R C A B E T H capítulo que vem começa a trama deles (ou meio-começa). mas até o oitavo capítulo o casal já vai estar no início do desenvolvimento amoroso/sentimental.

“Nós nos juntamos às pessoas porque elas são iguais a nós ou porque são diferentes de nós, e no fim nos separamos exatamente pelas mesmas razões.”

Juliet, Nua e Crua, Nick Hornby

...

Capítulo IV – Octavian Collins se torna meu novo melhor amigo

Annabeth

Na verdade, muitas coisas vieram à minha mente.

Eu estava enterrada em pensamentos, enquanto Judith tagarelava qualquer coisa relacionada à esmalte e como chapinha estraga os cabelos e é bem mais saudável capilarmente fazer uma hidratação. Ou seja, nada que despertasse meu interesse.

Eu pensava em coisas como aquela garçonete. Ela ter engravidado de um menino, Jackson. O único problema é que ultimamente o mundo estava pequeno demais pro meu gosto. Demais. Pensava em milhares de coisas: a faculdade, as opções de trabalho, profissões, mas acima de tudo, pensava nas pessoas. Não em uma pessoa em especial ou algo do gênero.

Sabe quando você deixa sua mente vagar por aí, pra um lugar bem, bem longe mesmo, sem se importar com o que está havendo à sua volta? Quando você se adapta à sua própria própria atmosfera, se fecha no seu mundinho? Era assim que eu estava naquele momento. Na realidade, minha vida é baseada nestes momentos. Momentos em que eu tento pensar e apenas em mim mesma, mas, infelizmente, nunca consegui até hoje. Eu pensava em tudo. Tudo mesmo. Nos meus pais, meus irmãos, minha família no geral.

E, não, eu não abriria mão desses momentos apenas comigo e comigo mesma por nada nesse mundo. Exceto por um, quem sabe, sanduíche de presunto.

Meu lado Bolívia insiste em aparecer nos momentos mais desnecessários.

E, assim, com tantos pensamentos bonitos rondando minha mente, aproveitei os momentos da viagem, ao som de Led Zeppelin.

Eu gostaria de ter me mudado pra uma faculdade num estado mais calmo, não no mais populoso dos Estados Unidos – que era Nova York, no caso. Poderia ser qualquer outro estado: o Kansas, a Califórnia, o Texas, a Flórida.

E eu definitivamente não estava preparada para me instalar naquele bolo de carne seboso formatado como ilha, localizada nos mapas em Nova York – também conhecido como Manhattan.

Mas havia sido a minha escolha, e eu teria de enfrentar algumas das consequências da liberdade.

O preço da liberdade.

Tirei da bolsa um exemplar de Stephen King e o folheei com distração, e enquanto pensava no assunto banal sobre estados, minha mente me guiava à outras partes de meu cérebro – mais banais ainda – me fazendo entrar numa autêntica viagem mental, até que senti o táxi brecar com força e olhei pela janela:

Uma mansão. De verdade. Como naquelas dos filmes. Então eu percebi que não deveria estar ali. Eu deveria estar procurando um hotel para ficar até as aulas, de fato, começarem e eu poder me alojar no campus da faculdade.

Mas não era – definitivamente – o que eu estava fazendo.

– Hum... sem querer ser chata, ou sei lá, mas não era pra você me levar pra aquele hotel que você tinha falado? – perguntei, meio assustada, mas procurei não deixar isso transparecer. E me referia ao hotel que ela havia comentado ainda no aeroporto, um bem baratinho com bons quartos, segundo ela.

E, decerto, não era lá que eu estava.

– Hum, ok, onde a gente tá? – perguntei, cautelosamente.

– Na minha casa, oras! – respondeu Judith, como se estivesse relatando o óbvio – Achou que eu ia te deixar sozinha em seus primeiros dias em Manhattan? Claro que não. Esse lugar está um chiqueiro e é melhor você se preparar antes de andar sozinha por essas vielas perigosas que chamam de cidade.

Acho que perigosa é você, me trazendo pra sua casa sendo que nem nos conhecermos, pensei, mal-humorada.

– Então por que veio morar aqui? – deixei escapar.

– Meu marido veio trabalhar aqui há dois anos, foi transferido – respondeu, parecendo meio distante, e eu poderia jurar que vi seus olhos verdes escuros lacrimejarem – Mas vamos entrando.

Eu não posso entrar, eu nem te conheço, pensei.

– Não tenha medo. É um lugar bem confortável e nós te devolvemos à faculdade quando as aulas começarem – tentou me convencer.

Resolvi aceitar. Afinal, que mal faria? Aquela mansão não parecia exatamente um prostíbulo ou mercado negro, e aquela mulher não era exatamente a cópia do estipulado para a aparência de uma traficante de drogas idosa, então relaxei.

– Tudo bem – me dei por vencida.

Judith bateu palminhas freneticamente com um sorriso no rosto como uma adolescente de 15 anos quando é convidada pra sair.

E assim entramos na casa. O taxista descarregou as malas e foi embora. Agora era só eu, Judith e aquela mansão.

Agora imagine a seguinte cena: você entra na casa de uma recém-conhecida e dá de cara com um estripador de bichos de pelúcia.

Qual sua primeira reação?

A minha foi berrar.

– M-meu Deus... – falei lentamente, com os olhos arregalados e apontei para o loiro de olhos verdes que, distraidamente, passava a faca em bichos de pelúcia – O que aquele cara tá fazendo com o urso?

Judith revirou os olhos.

– OCTAVIAN! – gritou.

– MÃE! – o garoto correu até Judith e a abraçou.

– Oi, filho – falou Judith, num tom cansado – Mas não fuja do assunto, você disse que tinha parado, Octavian. Eu não te dou dinheiro pra você gastar com ursinhos de pelúcia, ainda mais pra esfaqueá-los depois! – falou Judith, mal-humorada.

– Mãe... – Octavian basicamente ignorou Judith, e me olhou cético – Quem é essa daí?

– Ah, claro! Filho, essa é a Annabeth. Eu a conheci no aeroporto e ela precisa de um lugar para ficar – Judith falou.

– Mãe, pare de trazer desconhecidos para se hospedarem aqui só porque os acha bonitinhos. – Octavian falou a palavra "bonitinho" com deboche e eu o olhei feio.

– Dane-se. Eu sou a mãe e a casa é minha! – respondeu, sem humor – E eu vi a Sally no aeroporto! Ah, aquela mulher... Os anos passam e ela continua em forma. – Judith comentou, falando a última frase num resmungo.

– A mãe do Jackson. Que interessante. Estava lavando vários pratos? – Octavian debochou novamente.

Aquele garoto só estava sabendo debochar, Judith só estava sabendo revirar os olhos e eu só estava sabendo olhá-lo feio.

– Enfim. Annabeth passará alguns dias aqui e espero que trate-a bem. Onde está April? – indagou Judith.

– Deve estar no hospital, saiu cedo – respondeu Octavian, se afastando e recolhendo os animais de pelúcia com uma aparência macabra, todos cortados e foi subindo a escada.

– Vai deixar a droga do estofado enfeitando o chão? – Judith falou alto, se referindo à sujeira que Octavian havia feito no chão da sala com o enchimento das pelúcias ao estripá-las.

A palavra estripar me deu náuseas. O que um garoto daquela idade fazia com bichinhos de criança? Fala sério. Acho que um cara de seus 17, 18 anos, deveria estar fazendo coisas mais interessantes.

E os dias se passaram.

•••

Sete dias depois.

Era tarde de quinta-feira e eu estava infinitamente exausta.

Eu havia conhecido April. Era uma loira bonita, alta, e de olhos verdes. Todos que eu já havia conhecido da família dos Collins tinham o mesmo olho: um verde escuro e raso. Tinha seios entupidos de silicone que não contrastavam com o restante do corpo, que era pequeno demais. Me conheceu quando havia voltado do hospital no dia em que cheguei e pareceu simplesmente não gostar de mim, sem me dirigir a palavra em um momento sequer.

Como se eu me importasse.

E Octavian continuava o mesmo cara com rosto de criança e hábitos de maníaco, ou seja, o mesmo mala. E por mais que ele debochasse demais das coisas e fizesse ironia com tudo, ele era muito legal e bem inteligente. Fazia engenharia em Oxford e estava passando as férias na casa dos pais.

Ele teve crises de mutilação mais jovem, mas Judith me contou que nada grave. Ele tinha aqueles hábitos estranhos com animais de pelúcia e se consultou com o psicólogo dos 14 até os 17, largando o hábito da mutilação, mas ainda assim com a mesma mania estranha e doentia com animais de pelúcia.

Ele era parecido comigo em algumas coisas: fechado, calado, estranho, sarcástico, tinha humor negro em excesso, e compartilhávamos a mesma altura de um gnomo. Sim, Octavian era muito baixo.

E o pai dele estava internado, por isso April havia ido ao hospital quinta-feira passada e Judith estava tão tensa no aeroporto. Ele tinha câncer de pulmão. Tinha certeza – pelo modo com qual Judith falava – que ele era um homem maravilhoso e que lutou muito para conseguir o tão majestoso patrimônio da família Collins.

Estava um frio simplesmente infernal. Afinal, aquele era o mais autêntico possível inverno de Manhattan e que seja amaldiçoado quem falou que a Inglaterra é mais fria que o Estados Unidos.

Porque essa pessoa está absolutamente errada.

Eu estava arrumando a mala. Iria sair da casa de Judith e me instalar num dos quartos da universidade.

– Droga, vai, entra, mas que mer... – resmunguei, tentando enfiar as últimas roupas dentro da mala até alguém me interromper, abrindo a porta.

– Pronta, querida? – reconheci de imediato a voz de Judith e me virei pra ela fazendo a cara mais inocente que pude.

– C-claro. Tudo numa boa – falei com um tom estranho, e ela arqueou uma sobrancelha mas se manteve em silêncio, me analisando com cautela.

– Certo. O motorista está esperando na frente da casa, não demore. – falou após alguns instantes – Tem certeza que já arrumou a mala?

Eu podia jurar que até a espinha do meu tornozelo gelou naquele momento. Ela olhava com um ar desconfiado para atrás de mim, mas por fim, deu de ombros e saiu do cômodo. Eu pude sentir minha testa suando frio e me perguntei o porquê de tanto nervosismo. Mas deixando estes pensamentos imbecis de lado, tentei me concentrar e ser racional por alguns momentos.

Já fazia uma semana que eu estava lá, eram quatro e meia da tarde e eu estava com sono e fome. Muito sono e muita fome, para ser exata. Eu tinha que acabar de arrumar minhas malas para finalmente me instalar na faculdade. Dividir o oxigênio do meu quarto, o ambiente que minha vida inteira foi meu favorito, com outras pessoas.

Eu tinha que estar preparada para aquilo, então tentei meditar mentalmente por algum tempo, ainda enfiando roupas na mala.

Uns três minutos depois pensando tem que ser legal, tem que ser legal e tem que ser legal, consegui fechar minha mala.

– Isso, cacete – resmunguei.

Fechei o zíper com pressa e arranquei a mala da cama. Corri pro espelho ao lado do armário do quarto de hóspedes e penteei meu cabelo com a mão rapidamente. Terminei de amarrar meu tênis e saí com pressa do quarto, arrastando uma mala de mão, uma bolsa e uma mala de rodinhas comigo. Desci a escada basicamente correndo e parecia que eu nem sentia o peso absurdo da bagagem em minha mão. Parei completamente ofegante em frente à porta, só então ativando novamente a parte do meu cérebro que de fato pensa e comecei a sentir minha mão latejando loucamente.

Iniciei meu ritual de xingamentos. Sempre que me machuco, coloco a culpa em mim mesma. Até quando me empurram eu ponho a culpa em mim mesma.

Por estar na hora errada, no lugar errado.

Mas voltando ao assunto principal: o motorista me chamou com o dedo com discrição e eu corri a escadinha da entrada da mansão como se estivesse fugindo de um apocalipse zumbi.

Algumas vezes, bem frequentemente, minha elegância me impressiona.

Deixei a mala lá e saí andando.

– Partimos em não muito tempo! – avisou o simpático motorista de longe.

Eu virei o rosto pra trás por dois instantes e assenti, como quem havia entendido. Não havia captado nenhuma intimidade com alguém daquela casa, então estava em uma posição de pessoa tímida e fechada, que não falava muito.

Eu não aprovava muito a ideia de ter passado uma semana na casa de basicamente completos estranhos.

Não que a hospedagem não houvesse sido boa, ao contrário, é claro que foi: suítes com banheiras de hidromassagem, camas de casal enormes e televisões de setenta polegadas (com todos os canais, aplicativos e funções imagináveis, isso para não contar o aparelho de videogame com uma pilha pequena de jogos muito interessantes do lado), além de um colchão de gel e travesseiros de penas cheirosos, fofinhos e macios. E o ar condicionado potente, os pufes e o carpete macio que cobria toda a superfície do quarto e criados-mudos com abajures que continham coisas muito úteis nas gavetas: desde revistas e bloquinho de anotações até cortadores de unha e prendedores de cabelo. Tudo organizado, novinho em folha e cheirando bem.

E aquela sacada maravilhosa, fresca e aconchegante, dando vista pra toda a propriedade:as piscinas, as quadras e o campo de golfe.

Sem contar os banquetes servidos dia e noite, salões de jogos e uma biblioteca gigante (era realmente fascinante a quantidade de livros, pinturas, pesquisas e projetos de engenharia que ficavam socados naquele lugar).

E também os passeios para os quais Judith me convidou para ir todos os dias. Um dia era pra ir provar o melhor cachorro-quente da cidade, o outro era para ir com ela dar um passeio de carro e pegar alguns exames, o outro era pra tomar um sorvete, sentir o sol na pele, ir em clubes, ir ao zoológico, shoppings, cafeterias, restaurantes famosos, museus, feiras, lanchonetes, lojas, cinemas. Passei minhas tardes com ela rodando Manhattan inteira, mas valia apena, apesar de muito exaustivo.

Além de eu ver que Judith como uma boa pessoa e seus filhos como apenas mais dois adolescentes estranhos, assim como eu e provavelmente você.

Mas tenho certeza que meus pais não gostariam nada disso e entrariam numa dicussão, Molly riria e se Paul estivesse presente, reviraria os olhos e diria apenas que sei me cuidar.

E é por isso que eu amo meu irmão.

Mas, deixando de lado estes assuntos banais, entrei na sala e me sentei cuidadosamente no sofá, observando a televisão desligada e comendo um sanduíche que havia meio que roubado da cozinha há alguns instantes. Judith entrou na sala com um roupão de veludo, unhas aparentemente recém-pintadas e cabelo numa toalha, além da quantidade exagerada de cremes na cara.

De início, me assustei, e soltei um grunhido que a fez notar minha presença no recinto.

– Oh, Annabeth, querida! – falou Judith (mais conhecida na alta sociedade por sra. Collins).

– Hã? – respondi, distraída. E ela pareceu notar.

– Está entediada, querida? – cara, eu até gostava dela, mas a mania de falar querida em tudo me irritava.

– Pois é – resmunguei sem interesse.

Se minha mãe estivesse aqui, diria: Annabeth, onde estão seus modos? Se porte como uma dama, outch! Que falta de educação.

Mas vale a pena constar que minha mãe não estava lá.

Eu realmente não gostava muito de ser grossa, mas me vinha naturalmente. Eu falava, ao meu ponto de vista, normalmente, e ao ponto de vista dos outros; cheia de indelicadeza.

A culpa não era minha.

– Hum, creio que talvez queira conversar com alguém, tirar a vida da monotonia. Você falou que conhecia muito sobre arquitetura, em especial a mais antiga e um pouco da moderna. Octavian está precisando de ajuda com um projeto pra o museu onde ele trabalha, você poderia ajudá-lo? – pediu. No dia anterior eu havia comentado que havia estudado muito arquitetura pra passar na faculdade, e que tinha um bom conhecimento sobre o assunto; assim como ela comentou que Octavian estava fazendo um trabalho sobre arquitetura.

Mas ter que ajudar o maníaco destruidor de animais de pelúcia não estava nos meus planos para hoje (por mais que ele tivesse se tornado meu amigo, aquele lance com as pelúcias ainda me assustava, e muito). Eu iria recusar educadamente, mas sempre há um mas.

– Por favor, querida – pediu de novo. E eu sou uma alma doce e serena, e com um coração facilmente derretível. E eu havia me hospedado na mansão incrível dela, comendo a comida requintada dela, dormindo em uma cama de gel limpa e macia da casa dela, tomando banho no chuveiro moderno e sofisticado dela e assistindo a TV de trilhões de polegadas dela, então acho que eu poderia ajudar o filho dela a fazer uma pesquisa qualquer.

Eu tenho uma vaga garantida no céu, cara. Sou fabulosa.

– O.K. – me dei por vencida novamente só naquela semana e subi as escadas. Havia portas. Cinco. Três eu já conhecia: uma era de um banheiro comum, a outra era do quarto de hóspedes e uma outra era do quarto de Judith e seu marido. Havia outras duas, uma rosa e outra comum, sem nenhum enfeite. A rosa tocava uma música suave de teclado dentro, e abri para ver.

– O que você quer? – eu havia deduzido que era o quarto de April, obviamente, mas queria vê-la tocando. Era um som tão... bonito.

– Só queria ver você tocar – respondi, sem-graça.

– Deixa pra outro dia. – falou, grossa, e se levantou da cadeira em frente ao teclado e fechou a porta rosa com um pôster de Harry Potter na minha cara.

Fiquei estática por uns instantes e balancei a cabeça.

Annabeth, como você é idiota. A garota obviamente não foi com a sua cara e você simplesmente abre a porta do quarto dela sem nem bater!, critiquei a mim mesma e fui andando para o quarto de Octavian – o da porta sem-graça – em passos largos.

Entrei sem bater e ele via alguma coisa em seu e-mail. Diferentemente da porta, o quarto de Octavian Collins não era nem um pouco sem-graça. Era cheio de pôsteres das mais variadas bandas e caí em amores por um pôster do Oasis que pendia em seu criado-mudo.

– Paraíso... – sussurrei, admirando os pôsteres.

Quem diria que o maníaco tinha bom gosto?

Só então ele pareceu notar minha presença e, num sobressalto, pulou da cadeira com os olhos arregalados.

– Mas o que é isso, garota? Invasão de privacidade? – Octavian perguntou, assustado.

– Sua mãe quer que eu te ajude com o tal projeto pro museu que você trabalha – falei.

Octavian deu um tapa na própria testa.

– O projeto... hum, okay. Veremos se você pode mesmo me ajudar. Tem noção de geometria plana?

– O básico – respondi.

– Preciso muito disso – ele falou com convicção –, a pesquisa pede demais. Detesto arquitetura. – resmungou a última parte.

– Acho que posso te ajudar – disse com um sorriso.

•••

Depois de mais ou menos uma hora ajudando Octavian com a tal geometria plana, começamos a conversar sobre coisas banais até que desse a hora de me mandar para a faculdade.

Octavian estava sentado na poltrona de couro na frente do grande monitor do computador, mexendo em suas mensagens, enquanto eu estava desleixadamente deitada em sua cama, rindo das coisas que ele falava. O quarto dele trazia uma sensação legal. Me deixava confortável.

– Que tal fazermos uma média social? – Octavian me perguntou, rindo.

– O.K, mas sobre quem? – perguntei coçando a cabeça – Você não conhece meus amigos e eu não conheço os seus.

– Mas eu conheço seus futuros colegas. Os amigos da minha irmã. Que também vão pra faculdade de Manhattan – disse, como se fosse óbvio. –, podemos falar sobre eles pra você já ir os conhecendo melhor.

– Tá bom – concordei, com a sobrancelha arqueada.

– O.K – começou Octavian –, vamos falar das pessoas, agora. Tem a Piper, namorada do Grace...

– Quem é Grace? – o interrompi.

– Jason. Jason Grace. Um cara que faz parte da família mais influente da cidade. Um idiota – criticou Octavian – que já desmaiou umas três vezes quando eu ainda estudava com ele na escola.

Octavian era um ano mais velho que todos que eu iria conhecer. Enquanto eu ia começar a faculdade, ele já fazia planos e mais planos no seu segundo ano de engenharia civil.

E eu faria faculdade de arquitetura e urbanismo, havia desistido de jornalismo há algum tempo. Eu, simplesmente, não me via entrevistando pessoas ou aparecendo na televisão, falando as notícias sobre o clima ou quem morreu.

Não era muito "eu".

Eu me via como uma arquiteta formada, trabalhando com grandes engenheiros e tendo trabalho reconhecido. Tendo meus próprios méritos, planejando prédios, casas, palácios.

Aquilo sim era "eu" o bastante.

E, voltando a conversa com Octavian:

– Continuando. Piper não é muito inteligente, mas é muito bonita – comentou Octavian, meio sonhador.

– Você já esteve a fim dela? – interrompi de novo.

– Já passou há muito tempo – respondeu, como se referisse a uma besteira qualquer. – Além dela também tem a Reyna. Reyna é uma garota até que bonitinha, bem inteligente, mas meio fechada. Tipo você, mas um pouco menos extrovertida na maior parte dos momentos. Quando eu ainda mantinha contato com eles, acho que ela gostava do Leo, sei lá.

– Quem é Leo? – perguntei, curiosa.

– Leo Valdez. Só um cara. Ele namora com uma garota chamada Calipso e quando ainda falava com ele, ele sempre dizia que queria fazer faculdade de engenharia civil, assim como eu. Ele gostava muito de construir coisas, sei lá. E acho que Reyna gosta dele, entendeu? – contou Octavian.

– Calipso? Que nome estranho – respondi, rindo um pouco.

– Também tem a Ella e o Tyson, os dois tipo mascotes do grupo. Os mais afastados, que o resto das pessoas tratam como "bebês". – fez aspas com os dedos – Eles são legais, e gostam um do outro, mas agem como crianças e têm vergonha, timidez, sei lá, cara, não sei dizer.

– São mascotes ou pessoas? – perguntei de uma forma idiota.

– Pessoas que são tratadas como mascotes – falou, sorrindo de um jeito malvado. – E também tem o Frank, a Hazel... sei lá, esses caras são muito clichês, é como um grupo de amiguinhos do ensino médio prontos para viver a vida cheia de unicórnios e campos floridos na faculdade enquanto se apaixonam uns pelos outros – falou, ironizando.

Pausa.

Frank. Hazel. Eu lembrei imediatamente do segurança do aeroporto e de quando ele atendeu a ligação.

Hazz vem de Hazel. Frank e Hazel.

Então, de repente, uma parte da minha vida fez sentido.

– Então, vem cá, Octavian, esse tal de Frank trabalha? – perguntei.

– Sei lá, acho que sim – respondeu, sem interesse. – Por que, conhece ele?

– Não sei, acho que sim – falei.

– Enfim, também tem o Grover, a Juníper, o Nico, a Bianca... – disse Octavian.

– Quem são? – eu não conseguia calar a boca.

– Grover é um cara gente boa, e Juníper é inspetora de quarto e namorada dele. Já o Nico e a Bianca são irmãos. Eles têm um estilo meio dark, sei lá. Nico é muito introvertido e conversei com ele poucas vezes. Já Bianca é bem legal e tenta cuidar do irmão.

– Tem mais gente? – perguntei.

– Alguns – respondeu. – Ainda tem os Stoll, que são dois caras completamente idiotas e são irmãos gêmeos. Acho que Travis tem alguma coisa com a Gardner, sei lá. E Gardner é a Katie Gardner, uma garota qualquer. É bonitinha mas fala meio estranho e tem uma obsessão quase doentia por agricultura.

– Acabou? – perguntei, fitando o relógio que pendia em cima do computador, marcando cinco e meia da tarde. Eu teria de ir embora quinze pras seis, pois seis e dez eu devia estar na faculdade.

– Calma, faltam alguns. Tem a Zöe, uma garota estranha e meio problemática que foi pro reformatório da última vez que vi ela. Também era amiga desses caras aí. Tem o Charles e a Silena, outro casalzinho pacato e não admitido – falou Octavian, com tédio. – Também tem a Drew, uma garota inútil e coreana.

"Inútil e coreana". Conversar com Octavian era tão aberto. Como se nos conhecêssemos há muito mais tempo do que uma vaga semana.

– Tem a Clarisse e o Chris, que desde pequenos namoram – continuou Octavian – mas vivem brigando. E tem o inútil do Jackson. Fim.

Octavian sorria.

Pausa, de novo.

Jackson. Esse maldito nome tão citado na última maldita semana da minha maldita vida.

E um mutirão de cenas vieram em minha mente.

"– Ahn, a propósito, meu sobrenome é Jackson."

"Sério? Eu também moro em Manhattan, acho que também vou estudar lá."

"– O que vão querer? – peguntou uma moça de cabelos escuros e sorriso de “eu tenho 32 dentes”, com o uniforme da loja, cujo crachá dizia Sally Jackson."

"– A mãe do Jackson. Que interessante. Estava lavando vários pratos?"

"– Mas eu conheço seus futuros colegas. Os amigos da minha irmã. Que também vão pra faculdade de Manhattan."

– Mundo pequeno, né? – comentei com Octavian, do nada.

– Por que tá dizendo isso? – ele perguntou, confuso.

– É Percy o primeiro nome desse tal Jackson? – interroguei-o.

– É – respondeu. – O cara mais idiota que já conheci em toda a minha vida.

Estranho, Octavian parecia com raiva. Mas, por que, em sã consciência, alguém ficaria com raiva daquele cara? Tão singelo, tão meigo. Tão bobo.

Octavian riu um pouco.

– Ele é só mais um imbecil que faz garotas, igualmente imbecis, ficarem com ele. Ele é um ser extremamente desprezível e ignorante! – Octavian disse, com raiva.

Não podíamos estar falando do mesmo Percy Jackson, podíamos?

– Acho que não estamos falando do mesmo Percy – falei.

Octavian abriu uma nova guia no computador e pôs nos seus arquivos.

– Aqui tem foto de quase todos os amigos da minha irmã. Vem ver – levantei da cama e fui correndo pro lado dele.

Ele passava as fotos de algumas pessoas até que chegou na foto do menino do aeroporto e parou lá. Ele esta sorrindo sem mostrar os dentes, apenas exibindo as covinhas e acenando para a foto, com uma camisa oficial do Chelsea.

– É esse, né? – perguntou, rindo e eu assenti, meio pasma. – Minha irmã é completamente a fim dele, coitada. Mal ela sabe que ele nunca vai gostar realmente de alguma menina.

– Meu Deus – sussurrei.

– Deixa eu adivinhar. Ele parecia o cara mais meigo e fofo do mundo, daí agora você descobre isso? – perguntou irônico, com as sobrancelhas arqueadas. – Qual é, Annabeth. Pensei que você não era tão inocente assim. Na sua antiga escola não tinha desses caras?

Tinha. É claro que tinha. Mas mesmo assim, a ideia ainda me deixava um pouco surpresa.

– Por que você tem tanta raiva dele? – perguntei, me intrometendo.

– Tinha... tinha uma garota. Isabella Yew, irmã do meu melhor amigo, o Michael. Ela era... ela era tão bonita. E todos sabiam que eu gostava dela. Todos sabiam que "o Collins gostava da Yew". Percy sabia. E mesmo assim, ficou com ela. E ela era... ela era tão ingênua, Annabeth. Tão... tão... – Octavian parecia à beira dos prantos do nada e eu estava meio desesperada.

Se ele chorasse, o que eu ia fazer? Eu era a pior pessoa do planeta pra consolar alguém. Nem quando Thalia chorava eu sabia o que fazer, quanto mais com um garoto.

– C-calma... já passou, não é? – perguntei, colocando a mão em seu ombro.

Ele pareceu engolir o choro e olhar em meus olhos.

– Annabeth. Me escuta. Você promete que não vai fazer o que todas as outras fazem? – ele perguntou.

– Não entendi – eu respondi.

– Cair no plano dele. Entrar na armadilha. Não faça isso, Annabeth. Você tem que me prometer, por favor. Dê uma lição nele. – Octavian pediu.

Eu fiquei estática por um instante, até que bateram na porta. Era a faxineira, Polly. Era uma senhora com seus 50 anos, bem baixinha e magra, com roupa daquelas de uniforme de faxina e cabelo esbranquiçado que batia em seu seio.

– Senhorita Annabeth, a senhora Collins está te chamando. Acho que o motorista vai te levar, agora – Polly disse.

– Já estou indo – respondi, e Polly saiu do quarto.

– Então, Annabeth? – Octavian perguntou.

– Tá... Tá bom... Eu vou tentar, O.K? – respondi, meio indecisa.

– MUITO OBRIGADO! – Octavian pulou da cadeira e me abraçou – Espero que consiga mostrar pro Jackson que garotas não são copos plásticos pra ele ficar descartando por aí.

– Pode deixar – respondi, dando uma risada para descontrair o clima.

Caminhei até a porta do quarto e me virei uma última vez e acenei.

– Tchau, Annabeth – falou Octavian, sorrindo.

– Tchau, Octavian – o imitei e ele riu.

E, assim, eu fechei a porta.

E, assim, eu iria para a faculdade, e, assim, eu tentaria cumprir o pedido de Octavian.

Bastava ver no que iria dar.

***

Notas finais
[NOTA]: não posso colocar todos os personagens. gente, eu lembro do malcolm, do will, do lee, do michael, mas não dá pra eu simplesmente pôr todos eles (secundários ou que morreram em o último olimpiano) na fanfic. e aí, o que acharam??? e só lembrando que eu tenho leitores DEMAIS (mais de cinquenta, gente!!!) pra só uns seis comentarem. mensagens na minha inbox relacionadas a história – se você tiver mandado uma –, saibam que eu li todas e respondo quando tiver tempo. e mais uma coisinha: fiz um cronograma pra minhas fanfics, o link tá no perfil e quem quiser acompanhar melhor a história, é só dar uma passada lá. xoxo see you
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.