Yeah, right

3 3 — Albus e Scorpius percebem uma ironia


Notas iniciais
Oieee O último capítulo saiu quase em cima da hora, mas finalmente chegou!!! Quero agradecer à Trice que SALVOU MINHA VIDA ao betar essa mini bíblia enquanto eu ainda ia terminando de escrever o capítulo com o docs aberto kkkkk Obrigada pela paciência ♥ Vou deixar o chororô de final de projeto pras notas finais, tá. Espero que gostem!

A L B U S

Três dias depois da Deadline

— Você quer parar de me olhar desse jeito? — Scorpius resmungou e Al desviou o olhar, corando um pouco. Pigarreou para disfarçar o constrangimento.

Deveria ter matado o Frank enquanto podia, pelo irritante hábito de ouvir música alta cedo demais ou de sempre pegar suas roupas sem querer. Aliás, Albus preferia que Frank ao menos continuasse fazendo essas coisas ao invés de começar a se intrometer em sua vida pessoal, fazendo dela um pesadelo.

A culpa dessa confusão não era mais de Rose. Era totalmente de Frank, que fez um perfil falso durante o tempo em que Albus estava no banho. Quando flagrou a atrocidade felizmente o match ainda não havia sido dado. Ficou irado com Frank e teve certeza que só foi convencido de continuar com aquilo porque devia estar um pouco bêbado ainda.

Frank garantiu que seria uma sacada muito boa e que os dois se entenderiam logo. Bem, Frank não sabia de nada.

— É que eu nunca te vi com o cabelo curto.

O moreno recebeu um olhar de ceticismo do loiro, que suspirou pesadamente.

— É claro que viu, quando éramos adolescentes eu nunca tive o cabelo grande.

— Mas você também não era bonito desse jeito. — quis morder a língua no mesmo instante que terminou de dizer as palavras. Albus percebeu o olhar confuso de Scorpius, acompanhado de um sorriso de canto muito charmoso. Talvez ele não devesse ter bebido tanto, ainda mais considerando o estrago do final de semana, mas afinal era o último dia oficial de aula e todos estavam reunidos no pub dos universitários. Seu fígado poderia aguentar o tranco.

Achou melhor não tentar arrumar ou acrescentar um comentário irônico, deixando a afirmação morrer no ar. Deu graças a Deus quando Rose chegou de mãos dadas com Lorcan. Apesar do gesto, os dois pareciam muito desconfortáveis desde a conversa chorosa na festa. Albus sabia que Rose tinha dito alguma coisa meio atravessada e que Lorcan tinha garantido a ela que não tinha sentimento algum. Entretanto, conseguia sentir a mentira exalando de cada um. Rose parecia decepcionada e envergonhada, ao passo que Lorcan parecia ansioso e arrependido. Mas a ruiva fazia questão de afirmar que o falso namoro ia muito bem, obrigada. Albus trocou olhares com Scorpius por um instante e os dois deram de ombros.

— Você cortou o cabelo! — Lorcan observou, soltando a mão de Rose para colocar os óculos e vê-lo melhor. — Eu mal lembrava como era te ver assim.

— Pelo menos agora não vamos competir mais pelo cabelo mais sedoso. — Rose sorriu enquanto alisava as ondas extremamente bem hidratadas de seus cabelos. Scorpius apenas revirou os olhos.

— Isso é inveja e é muito feio, Rose. Talvez seu cabelo ficasse como o meu se você desistisse de passar 200 libras nos cabelos em produtos cheios de componentes desnecessários e consumindo sabe-se lá quantos potes de plástico por mês.

— O que te motivou a fazer isso? — Lorcan interrompeu-o quando notou que Rose havia começado a mostrar a língua para Scorpius. Albus o agradeceu internamente por isso, já que quando os dois amigos começavam, ficava extremamente difícil de parar. — Tá passando por alguma grande mudança na vida? Tentando superar alguém?

— Seria uma resposta adequada. — Albus se surpreendeu com a sinceridade de Scorpius. Parecia possuir um tom divertido na voz e ele desejou saber mais o porquê por trás disso. — Mas na verdade eu doei. Foi porque eu comecei a deixar crescer em primeiro lugar.

E aí estava. Um daqueles momentos em que Scorpius era mestre em deixar Albus de queixo caído. Sentia que conhecia tanto, mas ao mesmo tempo tão pouco do amigo, que um turbilhão de emoções lhe percorria quando conhecia um lado novo do loiro.

— Assim você me faz parecer uma megera por ter brincado com o assunto. — Rose resmungou enquanto se encolhia na cadeira. Lorcan a encarou com compaixão e Albus pôde jurar que ele quase se inclinou para abraçá-la.

— É algum assunto delicado? — foi a vez de Albus perguntar, já que o outro rapaz parecia perdido demais em observar sua prima.

— Bom, hoje não mais. — Scorpius passou a mão pelos cabelos agora curtos, parecendo se surpreender com o tamanho, como se ainda não estivesse acostumado.

Albus sabia exatamente o que ele iria fazer, caso os fios longos ainda existissem: passaria os dedos finos na parte de trás, trazendo-os até as pontas. Assim, simples, mas eficaz, pois fazia com que o rapaz mantivesse os olhos verdes naquele gesto e desejasse percorrer os dedos por conta própria. Talvez devesse ter aproveitado para fazer isso quando os cabelos de Scorpius ainda estavam longos, mas como arranjaria uma desculpa? Esperava que agora com a história do namoro falso ele pudesse ter essa oportunidade sem ser julgado. Mas o cabelo agora estava curto.

— Quando minha mãe teve câncer e perdeu os cabelos eu quis raspar tudo também, como apoio, mas ela disse que seria mais útil se eu os deixasse crescer, já que eles estavam em um tamanho relativamente bom, e doasse um dia. — disse como se estivesse contando uma história simplória como o que ele pediu de café da manhã no dia.

Albus podia jurar que suas batidas cardíacas, agora extremamente aceleradas, poderiam ser ouvidas, já que ele estava praticamente grudado em Scorpius graças à Rose, que parecia empurrá-lo nada sutilmente naquela direção.

— Eu… Não sabia da sua mãe. — Albus não dizia aquilo com ressentimento por não saber da história, mas sim por não saber ao certo como prestar seus sentimentos, até porque Astoria parecia muito bem e ele nunca havia reparado em nada. Sentia-se um pouco atordoado.

— Já faz uns bons anos. Deu tudo certo. Obrigado por perguntar. — o sorriso que ele lhe lançou foi o estopim. Albus se levantou para pegar mais bebida. Estava nervoso. Sabia que havia topado ser o namorado falso, mas estava começando a surtar com a ideia. Achava que seria capaz de fingir, porém como ele iria fazer isso se a cada coisa que saía da boca do loiro fazia Albus se sentir com cara de idiota, sem saber o que falar? Iria parecer um… Idiota deslumbrado e… Caidinho. Não alguém que já estava apaixonado e tinha convicção do que sentia.

Foi por isso que, querendo morrer por dentro, chamou Rose quando percebeu que ela também estava indo ao bar fazer mais um pedido.

— Eu preciso da sua ajuda.

S C O R P I U S

O dia seguinte ao corte de cabelo

Não conseguia não se sentir nervoso. Rose havia sido bem clara a respeito do comportamento dos dois um com o outro no bar e sentenciou que eles precisavam parar de ficar esquisitos. Havia algo que ela não estava lhe contando e ele sabia, mas Rose disse que era para ele fazer o que ela mandasse. E como ficar perto de Albus estava sendo uma situação enlouquecedora, ele somente aceitou sem pestanejar muito, o que surpreendeu tanto a Rose quando a ele.

E era por isso que eles estavam em um karaokê, porque, segundo Rose, não havia jeito melhor de retomar o entrosamento do que cantando um dueto na frente de uma multidão de bêbados.

— Eu não acredito que a Rose me arrastou pra cá. — Albus gemeu em desgosto, passando as mãos pelo cabelo preto.

Scorpius não conteve um sorriso. Havia algo no ceticismo e no drama de Albus que havia deixado-o encantado desde o início. O moreno possuía uma personalidade única. Gostava de se fazer de blasé, mas Scorpius sabia que o amigo sentia mais do que realmente mostrava. Entretanto nunca foi muito bom em desvendar o que o rapaz pensava e sentia e isso o intrigava ainda mais. Lia Rose como ninguém; contudo, quando o assunto era Albus havia algo de diferente. Scorpius gostava do ar de mistério e, ao mesmo tempo, desejava poder conhecer o amigo mais a fundo. Sentia que ambos sempre estavam pisando em ovos um com o outro, apesar de serem bons amigos.

Não conteve um suspiro pesado ao pensar no termo “bons amigos”. Ou pior “melhores amigos”, como Albus havia dito semanas antes, em seu ataque por Scorpius não ter contado a respeito da ideia do namoro falso e da briga com o avô. Não queria ser melhor amigo de Albus, não como era com Rose, definitivamente. Torcia o nariz só com a relapsa ideia de beijar Rose. Jamais poderia colocar Albus naquela zona, mesmo se quisesse e se esforçasse para tal. Cada vez que pensava sobre como queria beijá-lo, mais afastava o moreno da zona da amizade.

Ao mesmo tempo Scorpius sabia que não deveria ter esperanças. Mas se ao menos conseguisse beijar Albus uma ou duas vezes talvez pudesse finalmente saciar um pouco de sua curiosidade a respeito de todo o mistério que ronda o rapaz e, aí sim, desencanar. Pelo menos torcia para que isso acontecesse.

Estavam na mesa junto com Lorcan, que parecia vidrado no palco enquanto olhava Rose cantar Dancing Queen com Nina e mais uma garota do curso de Rose.

— Você gosta dela. — falou um pouco alto, fazendo Lorcan pular de susto na cadeira e Albus cuspir parte da bebida.

— O quê? De onde tirou isso, Scorpius?

— Não foi uma pergunta. — observou, arrancando o rótulo da sua cerveja. — Eu sei que você gosta dela.

— Eu também sei. — Albus falou após um pigarro por ter engasgado. — Desde os quatro anos. E sei que a Rose que saiu determinada a conversar com você aquele dia na festa não foi a mesma que me ligou no dia seguinte.

Lorcan encarou os dois rapazes dando um forte suspiro.

— Acho que ela gosta de você. — o moreno comentou enquanto pegava alguns amendoins para comer. — Só que ela não percebe que você gosta dela.

— Você deveria fazer algo a respeito. — Scorpius conseguia sentir o gosto amargo preencher sua boca. Tentou inutilmente cobrí-lo puxando alguns amendoins também. Sentia-se uma farsa por estar dizendo tudo aquilo para Lorcan quando ele mesmo não falava sobre seus sentimentos.

Scorpius não era do tipo que pensava horrores antes de tomar uma decisão. Era impulsivo, despreocupado. No entanto, Albus lhe deixava fora da casinha. E aquilo era assustador.

— Ela acabou de sair de um relacionamento horrível. Ela finge que não sabe o que eu sinto. E é exatamente por isso que eu falei que… Não gostava mais dela.

— Você o quê? — os dois exclamaram com perplexidade e Lorcan arregalou os olhos.

— Ela não falou tudo sobre nossa conversa? Eu garanti que… Havia gostado dela, mas que não sentia mais nada. Sabe, para não forçá-la. E para não deixar as coisas esquisitas.

Al e Scorpius se entreolharam, receosos. Aquilo não seria um bom sinal.

— Olha, Lorcan. — para a surpresa de Scorpius, foi Albus quem começou a falar, o que era extremamente raro. O rapaz não gostava de intervir em questões pessoais como aquelas. — Acho legal da sua parte considerar o bem estar da Rose em relação ao término e tudo o mais. Só que… Acho que não foi a melhor forma.

Lorcan parecia atônito, sem compreender ao certo o que havia feito de errado, mas Scorpius imaginava onde Albus estava indo com aquele discurso.

— A Rose precisa de um tempo, é óbvio. Mas quem tem que decidir se está na hora de seguir em frente ou não é ela. Nesse momento ela nem sequer sabe que possui uma alternativa, entende?

— E definitivamente as coisas estão estranhas entre vocês. — Scorpius acrescentou passando distraidamente os braços pelas costas da cadeira de Albus. Quando se deu conta Albus já havia se ajeitado de uma forma confortável, ainda alheio a presença do braço ali.

Scorpius engoliu em seco e passou a observar Lorcan, que estava em silêncio. Ao término de Dancing Queen Rose retornou para a mesa, com as bochechas coradas e o suor escorrendo pela testa.

— Ok, eu preciso voltar lá de novo.

— Rose, você cantou três vezes seguidas. Tem mais gente querendo cantar, pare de monopolizar. — Scorpius riu enquanto tamborilava a cadeira. — Inclusive, isso me lembra uma coisa. — ele se colocou de pé, atraindo os olhares dos amigos. — Tenho a música certa pra deixar a Rose no chinelo. — anunciou olhando animado para Albus, que parecia mais ansioso do que ele havia pensado. Era empolgante ver que o moreno estava até que gostando da ideia.

Quando subiram ao palco receberam as palmas de praxe, como qualquer pessoa que subisse lá para cantar, com a diferença de Rose e Nina, que estavam gritando e assoviando. Scorpius balançou a cabeça negativamente e lançou um olhar para Albus. A intensidade com que estava sendo encarado de volta lhe fez esquecer por alguns instantes de que precisava colocar a música escolhida para tocar. Na verdade, fez com que esquecesse até mesmo de onde estava.

A L B U S

Ele simplesmente não podia acreditar que Scorpius havia escolhido What’s Up para os dois cantarem. Era a música perfeita não somente para bater Rose no karaokê, mas também para com toda certeza retomarem o entrosamento. Havia sido What’s Up que os tornara amigos, em uma festa de recepção da faculdade. Lembrava-se dos agudos que Scorpius atingia no meio da festa, atraindo olhares, e se recordava também de não ter sentido um pingo de vergonha, pois estava cantando uma música clássica junto com o cara que viria a ser seu melhor amigo e, para melhorar, já era muito querido por toda a família.

De repente sentiu-se extremamente feliz com aquela escolha tão particular de música e percebeu que queria aproveitar o momento. Notou como Scorpius se assustou quando Albus tomou a iniciativa de soltar os agudos, surpreendentemente bons, e sorriu abertamente, ainda se esforçando para cumprir a performance exagerada da música. Desejava que estivesse um pouco mais bêbado para chegar perto dos trejeitos desinibidos que ele e Scorpius haviam realizado da primeira vez, mas, por algum motivo, essa parecia tão especial quanto.

Naquele momento só existiam os dois, apesar de ser um pouco difícil de ignorar o coro de vozes cantando em plenos pulmões e um “se beijem logo!” que ele tinha certeza de que havia vindo da mesa de Rose. Se tinha sido ela ou Nina ele não fazia ideia, mas não se importava. Na verdade não considerava uma ideia ruim.

Raramente quebravam o contato visual e quando a música finalmente terminou Albus sentia cada célula de seu corpo absolutamente eletrizada com o que havia acabado de acontecer. Sentia-se vivo, feliz e encantado.

— Isso não é justo, eu não tenho metade da química de vocês com a Nina e a Lana no palco.

— Mas é porque não cantamos de forma romântica. Cantamos para ser um show. — Nina esclareceu e virou seu copo.

— Cadê a Lana? Vamos voltar lá e fazer melhor que esses dois. — o grande problema de Rose era ser extremamente competitiva. Al e Scorpius apenas trocaram olhares cúmplices e risadinhas, o que deixou a ruiva irritada. — Qual é, agora tão até se comunicando pelo olhar? Scorpius eu achei que esse era um lance só nosso. Vamos logo, Nina.

— Ai Rose, vou encontrar a Freya. A Lana já foi beijar alguém também, arranja outra pessoa. — Nina se desvencilhou da mão de Rose e acenou para a mesa, sumindo pela multidão.

— É uma droga não ter companhia.

Um silêncio constrangedor se instalou. Al e Scorpius olharam na direção de Lorcan, que estava com a cabeça baixa. O moreno precisou chutar de leve a canela da prima para ela se dar conta do que havia falado. No instante seguinte ela bateu a mão no rosto, fazendo com que os três se assustassem com o gesto.

— Eu não quis dizer isso. Me referi no sentido romântico.

— Certo. — Lorcan pigarreou, ajeitando os óculos. Por fim ele suspirou fundo, ficando ereto, e abriu a boca. — Mas eu posso cantar com você, se quiser.

Al precisou esconder o sorriso que abriu ao mesmo tempo em que via Rose corar e, por consequência, Lorcan.

— Isso vai ser interessante. — Scorpius cutucou Albus, indicando que quem escolheria a música seria o rapaz.

— Eu não acredito. — Albus gargalhou ao ouvir os primeiros acordes de You Are The One That I Want. — Talvez ele tenha mais coragem do que a gente pensou.

— Aposto dez libras que ele vai vomitar quando a apresentação terminar.

— Aposto dez que vai ser no meio.

Ambos sorriram um para o outro e apertaram as mãos, assistindo atentamente Lorcan se provar um excelente cantor com uma desinibição totalmente não-inerente a ele. Rose parecia extremamente surpreendida ao passo em que aparentava se divertir de maneira genuína. Em certo momento Rose o puxou pela gola da camisa e Albus jurou que seria o momento em que o loiro vomitaria.

No entanto, Lorcan não vomitou. Encerrou a apresentação girando Rose e segurando-a nos braços, inclinado sobre ela, a poucos centímetros de beijá-la.

— Ok, agora eu estou totalmente convencido de que foi ótimo não ter escolhido ficar em casa assistindo Killing Eve. — Al mantinha os olhos fixos no casal, porém, para a decepção de todos, eles não se beijaram.

— Quer dizer que nossa apresentação não tinha te convencido ainda? — o tom na voz de Scorpius era de brincadeira, mas Albus sentiu que precisava se justificar.

— Acho que ainda podemos nos superar.

— Pensou em alguma outra música? — o rapaz de olhos verdes tentou ignorar a sensação de frio na barriga quando Scorpius voltou a colocar o braço atrás de sua cadeira e começou a fazer movimentos circulares descontraídos em suas costas. Foi apenas capaz de assentir, sentindo-se impossibilitado de formular uma frase coerente.

— I Want It That Way.

— Meu Deus, eu poderia te beijar por essa sugestão genial.

Albus desejou que ele o fizesse.

Antes que pudessem levantar, Rose estava de volta à mesa, sozinha, enquanto sorria abertamente.

— Ué, cadê o John Travolta Jr?

Rose deu de ombros para Scorpius, parecendo estar ainda absorvendo o impacto do que havia acabado de acontecer.

— Ele disse que ia ao banheiro.

— Excelente. — sorriu balançando a cabeça. Quando Rose se virou para pedir uma bebida para o garçom o loiro se aproximou do ouvido de Albus. — Alguém me deve 10 libras.

Foi inevitável não sorrir. Não havia nem ligado de ter perdido.

S C O R P I U S

Dois dias depois do karaokê

— Se eu soubesse que iria ver meu avô tão cedo teria esperado mais alguns dias para cortar o cabelo.

— Pensa por um lado positivo, ao menos isso vai melhorar o humor dele um pouquinho. — Rose tentou soar positiva enquanto lia uma revista, jogada na cama de Scorpius.

— Não gosto quando parece que estou fazendo as vontades dele. — resmungou sem emoção, terminando de editar um texto.

— Então o provoque pra balancear. — a ruiva fechou a revista com tudo, sentando-se ao lado do amigo. — Você sabe que seu avô fica sabendo de todos os passos que você dá fora do campus, então… — ela balançou freneticamente as duas sobrancelhas e Scorpius pensou que talvez Emilia Clarke tivesse alguma competidora forte no quesito “sobrancelhas mais expressivas”.

— Já passou da hora de começar, né? — fechou o notebook com um pouco de força desnecessária. Detestava revisar, porque sempre mudava demais o texto. E pior: acrescentava coisas. Exatamente o que um texto jornalístico limitado a uma quantidade específicas de caracteres não deveria ter.

Não foi um dilema muito grande ligar para chamar Albus para sair, mas sentiu-se ansioso a respeito da resposta assim que questionou. Felizmente Al não estava fazendo nada demais, então eles puderam se dirigir para o centro Londrino.

— Seu avô tem tipo espiões em todos os lugares?

— Foi assim que ele descobriu quando eu fumei maconha pela primeira vez e meu primeiro porre também. — falou com desgosto e passou a mão no cabelo. — É por isso que eu conheço tantos lugares escondidos em Londres e exatamente por isso que estamos aqui agora. Veja só, aquelas duas lojas são de dois grandes amigos deles. Apesar de serem uma do lado da outra eles são praticamente concorrentes. Daqui duas quadras tem mais uma galeria, que recebe o clube de leitura e tricô que minha avó participa e… Bem… Senhorinhas com tempo livre podem ser bastante fofoqueiras.

— Achei que pessoas velhas e ricas se reunissem uns nas casas dos outros e… Sei lá, não ficassem em lojas à vista do povão.

— Eu também achei, mas aparentemente depois de alguns anos fofocar e torrar dinheiro todo dia com comidas e drinks caros nesses lugares parece mais atraente do que bancar o aristocrata caseiro. — ele riu pelo nariz quando um casal saiu de uma das lojas dos amigos do avô. — Você entra ali achando que está indo apenas a uma joalheria, mas na verdade vai encontrar um clubinho ridículo tomando champagne e comendo caviar só porque eles podem. Não é exatamente trabalhar, quando você tem dez funcionários para tocar o lugar.

— É quase como uma extensão da casa deles. — Al observou e Scorpius sorriu, puxando sua mão para segurá-la. Novamente a sensação de ansiedade após um movimento impulsivo despreocupado. A ânsia de ver como Al reagiria. — Vamos começar então.

Sentiu o corpo todo se aliviar ao ver o sorriso se espalhar pelo rosto do moreno. Sabia que a ideia do karaokê havia sido ótima, porque eles realmente estavam confortáveis um com o outro. Caso se esforçasse um pouco, poderia até imaginar que aquilo era um encontro de verdade.

Era fácil conversar com Albus sobre livros, filmes e ditados populares idiotas que o mundo todo parecia acreditar. Parecia natural tentar relembrar de músicas clássicas dos anos 2000 e perceberem que eram melhores do que Teddy e Victoire acusavam, já que foram crianças da década de 2010, enquanto o então casal se gabava de serem algo entre 1990 e 2000 e terem vivido a melhor época. Era confortável rir dos preços absurdos do restaurante mais hypado do centro e escolherem sair dali para comerem em um fast food qualquer.

Estar com Albus era fácil, divertido e confortável. Estava tudo indo bem até receber uma mensagem de seu pai.

“Bem, aparentemente meia hora no centro de Londres já é o suficiente para que a notícia corra pela família toda”

Na sequência havia um print de Lucius Malfoy surtando com o filho a respeito de Scorpius estar andando de mãos dadas por aí com “o filho do bastardo do Potter”.

— Aconteceu alguma coisa? — o moreno perguntou com preocupação durante o tempo em que finalizava seu sorvete e via Scorpius percorrer os olhos de maneira cuidadosamente despretensiosa.

— Já descobriram a novidade. Mas acho que podemos dar uma fofoca ainda melhor para essas pessoas.

Sem mais nenhum aviso, Scorpius grudou os lábios dos dois. A ansiedade agora dava lugar ao choque. Precisou se separar por alguns instantes para refletir sobre o que havia acabado de sentir, xingando-se por sequer ter aprofundado o beijo para ser tão intenso assim.

Não percebeu quando o sorvete de Albus caiu no chão, só voltou a ter consciência do que estava acontecendo quando o garoto juntou os lábios deles novamente. Não era urgente, mas sim um beijo desbravador, um pouco tímido. E, infelizmente, um pouco curto.

— Acho que deu pra tirarem foto. — Al soltou após encerrar o beijo e Scorpius franziu o cenho.

— O quê?

— Depois que você me deu um selinho eu juro que achei ter visto um flash. Aí resolvi dar um tempo apropriado.

Dois minutos depois a foto do beijo estava no celular no Scorpius, encaminhado por seu pai.

“Sei que não era a melhor forma de falarmos sobre isso, mas sua mãe está surtando aqui, ainda mais por ser Albus.”

— Ainda mais por ser eu? — perguntou chocado e o loiro riu abertamente.

— Minha mãe sempre gostou de você e da Rose. Acho que ela ficou feliz de saber que sou bissexual e que pode torcer por você também.

— Também. — não pôde deixar de observar.

— Ela torcia pela Rose, mas entendeu que somos amigos. E só isso.

A L B U S

Três dias depois do encontro em Londres

O rapaz ainda não sabia o que significava Scorpius ter dito que ele e Rose eram apenas amigos e só isso, e, consequentemente, não adiantava em nada Astoria Malfoy torcer por eles. Se não estivesse delirando, talvez o loiro havia deixado implícito que tudo bem sua mãe torcer pelos dois, porque eles poderiam ser mais do que amigos. Entretanto, ao mesmo tempo, não poderia deixar de considerar que isso poderia não ter uma conotação romântica. Só uma reafirmação de que Rose era uma grande amiga e Al nem mesmo aquilo.

Pensou se deveria falar com Rose a respeito, mas ela já estava desconfiada de que ele estivesse gostando de Scorpius, então era melhor não alimentar aquilo. Tentou, inclusive, fugir dos questionamentos de Rose a semana inteira referente ao encontro deles em Londres e da repercussão das fotos que Scorpius havia postado no Instagram.

Na faculdade muitos já sabiam, porquanto Scorpius fez questão de beijá-lo de leve nos lábios assim que o encontrou na hora do almoço. A justificativa foi de que Lucius aparentemente havia mandado alguns olhos para o campus, porém ele internamente torcia para que fosse por um impulso próprio de Scorpius. Talvez devesse parar de cultivar esperanças.

Sua família inteira sabia do que havia rolado na Deadline e perceberam as publicações curiosas de Scorpius Malfoy no Instagram. Ou seja: ele havia sido intimado a levar Scorpius no próximo almoço em família. Não achava uma boa ideia envolver tanta gente na mentira, mas Weasley’s eram bons em fofocar. Nunca imaginou que se assumiria da maneira que fez, muito menos que sua mãe lhe ligaria perguntando sobre o que é que Roxanne fofocava tanto com Lily de uma maneira nada discreta.

Uma longa conversa por vídeo-chamada com os pais havia sido útil, porém não suficiente. Imaginava que os pais seriam compreensivos, não que fossem ser tão amorosos. Sentiu vontade de chorar de alívio e de revelar que odiava o curso que estava fazendo, contudo uma notícia bombástica de cada vez.

Quanto ao restante dos primos e irmãos xeretas, uma mensagem rápida no grupo da família foi o máximo que ele se deu ao trabalho de explicar, dizendo que iria levá-lo para almoçar, mas que ninguém fizesse muito caso pelo assunto.

Não foi muito surpreendente quando Dominique e Louis, que moravam na França, anunciaram que talvez fossem dar uma passada. Afinal, aquela era a notícia do ano: Albus Potter, que nunca namorou ninguém, é gay e está namorando Scorpius Malfoy, neto de Lucius Malfoy, eterno rival de Harry Potter nos tribunais. Albus sabia que ninguém iria perder aquele momento, nem mesmo seu tio Percy, que estava brigado com seu tio George. Seria um absurdo se até mesmo tio Charlie voltasse, o que ele não duvidava, mas esperava realmente que não acontecesse isso. É difícil reunir a família toda em qualquer outra data a não ser o Natal, sem contar que ele não gostava nada daquela comoção toda.

— Hoje vai ser tão emocionante quanto o dia que a Victoire revelou que estava grávida do Teddy no ensino médio. — Rose estava extremamente animada, o que deixava Albus mais nervoso e irritado com a situação.

— Você nem esconde que gosta de ver a desgraça alheia.

— Eu só gosto de confusão e todo almoço Potter-Weasley tem isso.

Albus concordou soltando um muxoxo. Passou mais de vinte anos de sua vida sem ser o centro das atenções em um evento familiar e estava feliz com essa conquista. Sentia calafrios ao pensar em todas as fofocas que seriam feitas dali para frente.

Talvez estivesse transparecendo mais nervosismo do que o normal, porque sentiu Scorpius segurar sua mão e apertá-la forte, sorrindo levemente. Ótimo, agora além de ansioso, Albus estava com fortes borboletas no estômago. Absolutamente perfeito.

Viu os olhares acusadores de Rose pelo retrovisor, mas desviou-os para a janela, focando na paisagem tão conhecida, que indicava que estavam finalmente entrando na região da casa de seus avós.

— Por que o Lorcan não pode ir junto para gente dividir a atenção, Rose? — Albus implorou pela terceira vez enquanto descarregavam as malas de Rose e Lorcan, já que a prima voltaria com os pais para sua casa após o almoço e o loiro, que era vizinho de Molly e Arthur Weasley, viajaria logo em seguida com a família. O moreno tentava não pensar muito em como seria a volta para Londres sozinho com Scorpius, já que, no dia seguinte, jantariam com os Malfoy. Ficar sozinho no dormitório também não ajudava, sabendo que Scorpius estaria ali, também só, a poucas portas de distância.

— Porque nosso namoro falso consta apenas em Hogwarts e nos arredores do campus. Você acha mesmo que eu vou passar deliberadamente por uma reunião traumática como essas?

— Vai dar tudo certo, todo mundo ali já me ama. — a tentativa de Scorpius em animar Albus não funcionou muito, pois era exatamente o que lhe deixava ainda mais nervoso e ansioso. Sabia que quando o namoro falso terminasse ele ainda seria questionado anos a fio do porquê de terem se separado.

— Parece que você vai desmaiar, Albus, credo. Vai dar muito na cara se ficar com essa cara de quem viu um fantasma o tempo todo.

— Tá, tá. — remungou para a prima.

Enquanto se despediam de Lorcan, Albus percebeu o quanto eles pareciam tímidos um com o outro e não deixou de se perguntar quando é que eles iriam assumir os sentimentos.

Conforme iam atravessando o grande jardim já podiam ouvir vozes, provavelmente vindas da parte de trás da casa. Ao menos Albus teria ar o suficiente para tentar controlar as crises respiratórias que estava começando a ter.

— Queridos! — a recepção calorosa de Molly Weasley tornou tudo um pouco mais fácil, porque não havia como não ficar feliz e tranquilo ao lado da avó. — Espero que tenham feito uma boa viagem.

— Sim, sim! Lorcan veio dirigindo para que Scorpius não se canse muito, já que vai voltar com o carro a noite. — Rose comentou abraçando a avó, a qual não deixou o comentário passar batido.

— Lorcan o filho de Luna? E por que não o convidaram para entrar? Ele é seu namorado Rose?

— Quem está namorando a Rose? — a voz de George soou alta do fundo da sala e alguns dos presentes que estavam próximos ouviram.

— Filha, você está namorando? — as orelhas de Ronald Weasley estavam ficando mais vermelhas que seus cabelos. — Não me diga que voltou com o desgraçado do Nott.

— Ronald, não fale “desgraçado” nessa casa. — Molly ralhou, dando-lhe um tapa no braço.

— Fala sério, mãe!

— Ron, não discuta com sua mãe.

— Qual é, Hermione!

— E muito menos com sua esposa, irmãozinho.

Em segundos o foco já estava sobre Rose, que olhou raivosa para Albus.

— Vou tentar arrumar essa merda.

De repente não parecia mais tão estranho estar no meio de praticamente toda a sua família. No fim das contas ninguém de fato perguntou muita coisa sobre o namoro dos dois, apenas cumprimentavam gentilmente o mais novo casal e conversavam amenidades com o loiro, que já era quase um Weasley de tanto que Rose o levava para reuniões familiares.

Scorpius, por outro lado, estava sendo o foco da coisa toda. Albus tentava segurar a risada, sem sucesso, quando diziam que sempre imaginaram que ele acabaria com Rose, mas que estava claro o porquê daquilo nunca ter acontecido de fato.

— Você tem uma paciência invejável. — comentou quando finalmente ficaram alguns minutos sozinhos. Ainda precisavam falar com os pais de Albus, e isso estava deixando-o levemente ansioso de novo. Não se sentia bem mentindo.

— Todos são muito simpáticos e dá pra entender de onde a torcida pela Rose vinha. Só que, por Deus, Rose é só minha amiga. Sempre foi.

E lá estava novamente a dúvida cruel: será que ele também era “só” amigo de Scorpius?

— Você teria chamado ela para ser sua namorada falsa?

— Se ela fosse um garoto, talvez. — a risada de Scorpius não teve efeito algum sobre Albus. O loiro percebeu e, com isso, ajeitou a postura. — Você quer dizer se eu precisasse de uma namorada e não um namorado. Bem, sim. É fácil pedir para ela e todo mundo iria acreditar. Eu não perderia meu tempo no aplicativo, obviamente.

— Por que não pediu diretamente a mim, então? — Scorpius foi pego de surpresa com a pergunta e Al se arrependeu no mesmo momento. Era irracional considerar que o amigo lhe perguntaria tal coisa porque, para todos os efeitos, na época Albus era considerado hétero.

Agradeceu imensamente quando seus pais se aproximaram, impedindo que o loiro começasse a elaborar uma resposta que Albus sabia qual seria.

— Querido, que saudade! — abraçar sua mãe e seu pai foi reconfortante, ainda mais depois da longa conversa que tiveram. Notou como os dois cumprimentaram Scorpius de maneira animada e precisou dar um gole em sua limonada para molhar a boca seca. Sentia que a verdade seria revelada a qualquer momento.

— Ficamos muito felizes com as novidades. — o tom doce de Harry fez com que Scorpius abrisse um sorriso largo e agradecido. O suficiente para Albus perceber que estava absolutamente ferrado: não sairia com o coração intacto dessa experiência.

— Acredito que sua família já saiba… — Ginny levou a taça à boca enquanto dizia, mas Al percebeu que a mãe tinha um sorriso de canto nos lábios, provavelmente morrendo de curiosidade de saber o que Lucius Malfoy achava de tudo aquilo.

Para sua surpresa, Scorpius foi bem sincero a respeito do que seu avô pensava sobre sua sexualidade e, mais especificamente, sobre Albus.

— Mas ele vai precisar aceitar. E se não o fizer, sinceramente, ele não tem a ver com minha vida. — ao final do discurso o casal parecia convencido do amor de Scorpius por seu filho, ao passo que Albus parecia angustiado. Queria que todo aquele sentimento fosse real e não ensaiado.

Felizmente não precisou ficar ao lado de Scorpius o tempo inteiro, já que Rose costumava roubá-lo bastante, bem como os outros primos. Focou em conversar com seus tios a respeito da faculdade. Apesar de ser sofrível, era menos pior do que ficar suspirando por qualquer coisa que saía da boca do loiro.

Quando finalmente foram embora pensou em fingir que tinha caído no sono logo nos primeiros minutos, entretanto ele sabia que Scorpius detestava dirigir à noite, então provavelmente precisaria ficar acordado para deixá-lo mais tranquilo.

— Não foi de todo ruim. — Scorpius mantinha os olhos fixos na estrada durante o tempo em que dizia aquilo e Albus considerou não respondê-lo, porquanto não sabia ao certo o que havia sentido com aquele almoço. — Foi bem agradável até. Eu poderia repetir isso mais vezes.

A cabeça de Albus iria explodir. Que diabos aquilo significava?

— Você está bem? — o loiro questionou após longos minutos de silêncio.

— Só um pouco cansado.

— Tudo bem, não precisamos conversar. Vou só colocar uma música então.

Os dois sorriram ao mesmo tempo ao perceberem que What’s Up tocava na rádio.

— Por que essa música de repente está em todo lugar agora? Eu juro que a ouvi tocando num bar essa semana. E alguém a colocou no dormitório masculino esses dias, você ouviu?

Scorpius riu pelo nariz e assentiu lentamente.

— É meio que o fenômeno Baader-Meinhof.

— O quê?

— Fenômeno Baader-Meinhof. — Scorpius repetiu rindo. — Sabe quando você descobre algo novo e de repente isso está em todo o lugar?

— Tipo quando Rose nos apresentou o k-pop e todo lugar que íamos tocava alguma coisa?

— Exatamente! — soltou animado e Albus franziu o cenho, pegando o celular para procurar mais sobre o assunto.

— Mas teoricamente não é só para coisas novas?

— Talvez você tenha dado um significado novo para a música. — foi a primeira vez que Scorpius retirou os olhos da estrada para encarar Albus. De repente o ambiente pareceu pesado e extremamente quente. Ficou feliz pelo assunto ter sido interrompido pelo som do celular do loiro.

— Oi mãe, fala.

— Scorpius, você me atendeu enquanto está dirigindo? — a voz atônita de Astoria soou pelo viva voz e Al soltou uma risadinha.

— Albus está dirigindo. — fez sinal para que o rapaz ficasse em silêncio. — Pode falar.

— Eu e seu pai estávamos pensando… Porque vocês não dormem aqui hoje e amanhã tomamos um delicioso café da manhã antes que Daphne vá embora?

Os dois se entreolharam, em choque.

— Mãe, mas já está ficando tarde…

— Bobagem! Não são nem sete da noite ainda, você deve chegar o que, em meia hora aqui.

Scorpius conferiu uma das placas da estrada e resmungou quando Albus sussurrou que, pela distância, chegariam em vinte minutos.

— Aí, viu, vinte minutos!

— Sua audição é ridiculamente boa.

— E você é insuportavelmente chato. Venham logo para cá, vai. Beijos.

— Odeio quando ela desliga para não dar tempo de revidar.

O moreno observou a reação de Scorpius de maneira cuidadosa.

— E então…

— Se você quiser. Mas eu posso mandar mensagem para minha mãe e só dizer que vamos amanhã mesmo. — deu de ombros e Al mordeu os lábios. Queria muito passar a noite lá, mas ao mesmo tempo sabia que talvez aquilo só tornasse o término iminente mais difícil.

— Tudo bem. — soltou antes que pudesse mudar de ideia e Scorpius arregalou os olhos, engolindo em seco.

— Ok… Suas malas estão prontas, né?

— Sim, vamos passar para pegá-las e amanhã eu vou para a casa dos meus pais depois do jantar.

— Certo. — Albus não pôde deixar de perceber que Scorpius parecia tenso enquanto mordia o interior da bochecha. Não haviam conversado sobre quanto tempo esse namoro falso duraria, no entanto estava considerando que talvez o rapaz estivesse um pouco ansioso para terminá-lo. Depois que se encontrassem com Lucius possivelmente bastaria que eles continuassem postando algumas fotos nas redes sociais. Até as aulas voltarem ele já estaria convencido, provavelmente, e Albus voltaria a ser apenas amigo de Scorpius.

S C O R P I U S

Quando chegaram na enorme Mansão Malfoy Scorpius sentiu-se aliviado por seus pais estarem agindo normalmente com Albus. Apenas jantariam em paz e cairiam na cama, já que dirigir praticamente duas horas e meia era exaustivo e Scorpius não estava mais tão acostumado a percorrer grandes distâncias.

Permaneceu quieto a maior parte do jantar, deixando para que Albus respondesse algumas perguntas clássicas sobre faculdade, família e, evidentemente, sobre o relacionamento dos dois.

— E quando é que vocês souberam que estavam apaixonados? — a pergunta de Astoria pegou os três homens de surpresa.

— Querida…

— Sim, Draco, eu bebi algumas taças extras de vinho, mas eu perguntaria isso sóbria ou não. — rebateu com um leve sorriso ao final e Draco apenas ergueu as mãos em sinal de rendição.

— Quando cantamos uma música juntos em uma festa. Cantamos ela novamente em um karaokê essa semana, inclusive.

— Que romântico! — Astoria olhada de um para o outro absolutamente maravilhada.

— E para você? — todos se surpreenderam com Draco fazendo a pergunta, que apenas deu de ombros. — Que foi, eu também estou curioso.

— Não sei ao certo quando, mas comecei a desconfiar quando comecei a sonhar com ele e rabiscar alguns desenhos.

Scorpius gelou com aquela informação. Sabia que Albus vinha desenhando alguém há algum tempo. Não poderia de fato ser ele, poderia? Provavelmente Al apenas disse aquilo porque foi a primeira coisa que veio à cabeça. Entretanto, por mais que tentasse afastar aqueles questionamentos, não conseguia parar de pensar no “e se”. E se Scorpius realmente fosse o modelo dos desenhos?

Tentou parar de surtar, o que ficou ainda mais difícil ao perceber que Albus dormiria em seu quarto. Para todos os efeitos ambos eram namorados e não deveria existir problema naquilo. A única coisa que poderia dar errado era Scorpius agarrar o rapaz no meio da noite. Precisaria de muita força para não perder o controle.

O desconforto foi palpável quando ambos subiram e encararam a cama de casal. Ao menos era grande o suficiente para que ficassem em pólos opostos.

— Eu vou… Tomar banho.

— Pode usar qualquer toalha do gabinete. — Scorpius indicou a porta do banheiro um pouco sem graça. Tentaria não pensar muito no moreno tomando banho ao lado. Albus demorou o olhar sobre ele, o que deixou tudo ainda mais estranho, até finalmente entrar no banheiro.

Tratou de trazer as malas do falso namorado para mais perto da cama e acabou derrubando o caderno de Albus. Ao se abaixar para recolher o que havia caído percebeu que eram os famosos desenhos que ele vinha escondendo. Ficou receoso em conferi-los sem autorização, mas um desenho que parecia ser de uma pessoa loira lhe chamou a atenção. Com o coração acelerado Scorpius se sentou na cama para observá-los melhor.

Haviam muitos desenhos, a maioria ainda sem colorir, mas, o mais importante: eram desenhos dele. Rose despontava em alguns momentos, assim como algumas pessoas aleatórias que agora ele não reconhecia por conta da adrenalina em seu corpo.

Albus havia desenhado-o!

— O que você está fazendo?

Scorpius largou os desenhos e olhou atônito para Albus, que possuía a toalha enrolada na cintura e o cenho franzido.

— Nada.

— Como assim, nada? Meus desenhos estão na sua mão, porra. — o desespero em sua voz era nítido e Scorpius sabia que aquilo não acabaria bem. — Não dei permissão pra isso. É pessoal. — recolheu os desenhos com força, com a mão tremendo.

— Você também não tinha permissão para interferir nos meus matches. — rebateu, ficando irritado com a situação.

— Isso é totalmente diferente.

— Também tem relação com confiança, Albus.

— Você fez por vingança, então? Achei que estivéssemos numa boa.

O moreno estava encostado na escrivaninha, olhando irritado para Scorpius, que tentava, sem sucesso, manter os olhos no rosto dele.

— Não foi por vingança. Foi porque você falou que sonhava comigo e me desenhava. E meses atrás eu te peguei desenhando e pensei que… Fosse por quem você estivesse apaixonado.

— E o que é que tem? — rebateu friamente. — Você também usou a história da música e obviamente ela não é verdade. E eu nunca confirmei que estava desenhando alguém que eu estava apaixonado. Eu desenho você e a Rose também, caso não tenha reparado. Não é só você.

Scorpius ponderou muitas coisas antes de decidir responder aquilo. Pensou em como ele geralmente agia por impulso e como costumava dar certo. Também analisou a patética situação de Rose e Lorcan, que claramente se gostavam e estavam perdendo tempo com aquela ladainha toda. Refletiu sobre como estava apaixonado há mais de um ano por um cara que agora se assumiu e que provavelmente não teria nada a perder caso abrisse seu coração, já que, ao vê-lo parado em seu quarto sem camisa, com certeza a amizade já estava ferrada mesmo.

E foi após pensar rapidamente sobre tudo isso que ele soltou:

— Eu realmente me apaixonei por você quando cantamos What’s Up naquela festa. Eu realmente estou apaixonado por você. E é por isso que não pedi para você ser meu namorado falso. Mesmo que eu imaginasse que você não fosse hétero, mas não sei se seria capaz de me controlar. Rose foi quem me convenceu de aceitar sua ideia maluca, porque talvez as coisas fluíssem. Foi patético da minha parte supor que isso daria certo, porque porra, é óbvio que não está dando certo. Desculpe.

O silêncio que se instaurou foi torturante. Scorpius sabia que Albus possivelmente iria rir na sua cara de tudo aquilo, então jogou-se na cama, cobrindo o rosto. Havia sempre o lado negativo em ser impulsivo: ter que lidar com a adrenalina de esperar a reação seguinte.

— Você tá brincando, não é? Tipo, você não gosta de mim de verdade, não é?

— Por que eu iria brincar com isso? — perguntou irritado, levantando-se para encarar o rapaz. Ficou confuso ao ver o sorriso que se abria no rosto dele e chegava até os olhos verdes.

— É só que é uma grande ironia nós dois chamarmos a Rose e o Lorcan de burros por não perceberem os sentimentos e estarmos na mesma porra de situação.

Scorpius precisou de alguns segundos para processar a informação, mas apenas a digeriu totalmente quando Albus o puxou pela gola da camisa e o beijou, dessa vez com urgência. Não havia mais a necessidade de cuidado em não se empolgar para que o coração não fosse enganado e, por isso, Scorpius arriscou percorrer as mãos pelo corpo de Albus.

Separaram-se apenas quando precisaram de ar e a ideia de dividir a cama já não era mais assustadora e; sim, muito tentadora. Scorpius tentou gravar cada detalhe de Albus em sua mente e abriu um sorriso enorme.

— No que você está pensando?

— Que minha matéria provavelmente vai ter o melhor final.

Albus revirou os olhos e foi a vez de Scorpius puxá-lo para um beijo. Ao menos a partir dali não precisariam continuar mentindo ou necessariamente desmentir a história. Naquele momento estava mais preocupado em beijar Albus como se precisasse compensar por todo esse tempo.

Foram interrompidos com várias mensagens apitando no celular de Albus, que se separou do loiro com um resmungo.

— Meu Deus, você não vai acreditar.

O grupo da família Weasley estava bombando com uma sequência de fotos que James mandara: Rose e Lorcan aos beijos — aparentemente acompanhados de um pouco mais de mãos do que o considerado adequado — na garagem da casa de Molly e Arthur. Na última, o rapaz tinha o rosto borrado devido ao impacto que sofreu do soco que um Ronald Weasley furioso concedeu.

— No fim das contas a Rose realmente desviou o foco para ela.

— Precisamos arrancar tudo dela. Como isso rolou? Quando?

Albus riu, retirando o celular da mão de Scorpius.

— Podemos perguntar isso depois, acho que agora temos algo mais interessante para fazer.

Scorpius não precisou de mais nenhum estímulo para voltar a beijar Albus com toda a empolgação de antes.

Notas finais
Aaaaa eu tô muito soft!!! No fim das contas adorei escrevê-la e acredito que tenha sido um dos maiores desafios da minha vida de fanfiqueira. Nunca havia me aventurado em Scorbus e quis colocar isso como uma meta para o Pride. Surtei mudando de plot trocentas vezes por vários motivos: sou fã de Scorose DEMAIS e só depois de um tempo consegui desvencilhar a imagem dos dois, mas aí surgiu outro problema: eu via Albus e Scorbus como amigos tipo quase irmãos, como Harry e Hermione. Precisei desconstruir demais o headcanon e, bem, no fim das contas foi um parto interessante. Gostei muito do casal aqui e foi bem divertido escrever a fic no fim das contas, DEPOIS DE TANTO SOFRIMENTO NÉ. Quero agradecer novamente pela oportunidade de participar desse projeto INCRÍVEL. As meninas foram geniais criando ele e já estou aqui pensando nos plots do ano que vem haha Quero agradecer muito também à Carter, que leu o plot primeiro e aguentou meus surtos no privado a respeito da dificuldade de escrever Scorbus hahah NO FIM DEU CERTO!!! E, evidentemente, agradecer a todos que comentaram aqui ♥ Meu coração se aqueceu com cada um deles e surtei horrores respondendo aos seus surtos hahah Quis testar um Scorpius diferente e também brincar um pouco com a Rose e com o Albus. Gosto de variá-los um pouco. Sobre Rose e Lorcan KKKKKKKKKKK eu queria muito escrever uma one-shot sobre esse momento doido que rolou na garagem dos avós Weasley kkkkkkkk Mas se isso não acontecer: basicamente considerem que Lorcan teve um surto de coragem, porque iria viajar e não teria que lidar com isso por um bom tempo, e as coisas se desenrolaram como vocês viram kkkkk Outros comentários eu faço nas respostas do review, com meus surtos de sempre haha Obrigada por terem lido até aqui ♥ Espero que tenham gostado! Beijos e até mais ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!