Yashahime - O Epílogo
1 Episódio 1 - Em Busca do Poço Come-Ossos
– Muito obrigado! Devemos nossas vidas a vocês!
Os agradecimentos dos aldeões faziam Towa feliz. O youkai inimigo nem era tão poderoso assim, a questão toda foi resolvida em poucos instantes. Mas, para eles, fez toda a diferença.
Towa, Setsuna, Moroha e Riku estavam viajando por toda parte, à procura de youkais poderosos para caçar, enquanto ajudavam as pessoas no caminho. Nessa ocasião, tinham esbarrado em uma aldeia que estava sendo ameaçada por um youkai urso. Bem grande, e sem dúvida mortífero para humanos comuns, mas quase inofensivo se comparado ao poder de seu grupo.
Mas a gratidão dos aldeões era notável.
– Olha, se vocês devem suas vidas a nós, o que acham de um bom pagamento, hein? – questionou Moroha, gananciosa.
– Moroha! – Setsuna chamou sua atenção.
– Que é? Só estou dizendo…
– Temos pouco dinheiro, mas vocês são bem-vindos a ficar conosco até decidirem seguir viagem. Afinal… vocês salvaram a todos nós. Inclusive a minha família.
Towa olhou para o chefe da aldeia. Carregava sua filha no colo, que ria, animada e feliz.
Towa se lembrou de seu pai Souta. E se sentiu melancólica.
Já fazia seis meses que estava no Japão feudal de forma definitiva, sem meios de voltar para casa. Na época, se sentiu conflitada com a perspectiva de nunca mais ver sua família, mas seu pai entendeu que ela se sentiria mais em casa na era feudal do que na era moderna. E ele não estava errado. Mas… ainda era difícil se acostumar com a perspectiva de nunca mais ver seus entes queridos.
– Muito bem, pra onde nós vamos agora?
Moroha perguntou animada, despertando Towa de seu devaneio, enquanto tomavam a sopa humilde que os aldeões lhes deram. Estavam numa casa pequena que lhes foi cedida pelos aldeões, e estavam discutindo os próximos planos.
– Eu… eu não sei – respondeu Towa. – Vocês decidem.
– Towa… no que você está pensando? – questionou Riku.
– Eu… nada! Eu só…
– Tem algo que você queira fazer, Towa? – perguntou Setsuna.
Towa olhou para os dois. Às vezes tinha a impressão que Riku e Setsuna conseguiam ler seus pensamentos. Claro, os dois a conheciam bem, sendo respectivamente seu namorado e sua irmã, mas era até meio assustador às vezes.
– Bom, eu… eu não sei, eu só…
Riku e Setsuna a olharam atentamente. Towa se sentiu encabulada.
– Acho que sei para onde podemos ir agora – disse Riku.
– Onde? – perguntou Moroha.
– Vamos procurar um outro Poço Come-Ossos. Um que conecte essa era com o tempo da Towa.
Towa arregalou os olhos. Riku sorriu.
– Você está com saudades da sua família, não é? – perguntou ele.
– Eu… bem, eu…
– Saudades? Faz só seis meses que você viu eles! – disse Moroha.
– Moroha, não seja insensível – cortou Setsuna.
– Bom, sim, mas… aquilo foi a última vez. Pensar que eu nunca mais vou ver meu pai Souta, minha mãe Moe, minha irmãzinha Mei… certo, aqui na era feudal eu tenho vocês, tenho nossa mãe Rin, nosso pai… mas não dá pra substituir as pessoas assim!
– Bom, então acho que está decidido – disse Riku. – Vamos viajar perguntando sobre rumores a respeito de algum poço igual ao Poço Come-Ossos, ou qualquer coisa parecida.
– Concordo – disse Setsuna.
– Ah, acho que é um objetivo tão bom quanto qualquer outro – disse Moroha, dando de ombros.
Towa olhou para todos. Sorriu.
“Muito obrigada a todos.”
*
Seis meses depois, Towa e Moroha caíram de cara no chão, mal colocaram os pés em outra aldeia.
– Eu tô morta… – disse Moroha, com um fio de voz.
– Eu não aguento dar nem mais um passo… – disse Towa, baixinho.
Setsuna e Riku se sentaram ao lado das duas. Ambos pareciam saber disfarçar melhor o cansaço, mas estavam todos exaustos. Após mais seis meses de buscas incessantes, não conseguiram encontrar nenhuma pista sobre qualquer coisa semelhante ao Poço Come-Ossos.
– Bom, acho que podemos descansar um dia ou dois antes de seguir em frente – disse Setsuna. – Ainda temos mais lugares para procurar.
– Tô começando a achar que não existe outro poço igual – resmungou Moroha. – Mas também, um poço que devora restos de youkais?! Como podem existir dois desses?!
– Perdão… vocês estão procurando um poço que devora restos de youkais?
Os quatro se viraram. Um dos aldeões, um homem jovem, estava de pé diante do grupo, curioso.
– Sim, é isso que estamos procurando! – respondeu Towa, vagarosamente ficando de pé. – Você sabe algo a respeito?
– Existia um poço desses na minha aldeia natal – respondeu o aldeão. – Havia um grande templo com uma poderosa sacerdotisa cuidando dele, e no fundo do templo existia um poço. Quando youkais atacavam, a sacerdotisa conseguia purificá-los, e seus restos eram jogados no poço. E todos desapareciam depois de alguns dias.
– Vocês ouviram? É igual ao Poço Come-Ossos! – disse Towa, animada.
– Meu bom homem, onde fica a sua aldeia natal? – perguntou Riku. – É muito importante que encontremos esse poço.
– Bem… fica um bocado longe daqui. Pelo menos trezentos quilômetros a leste.
– Trezentos quilômetros… – repetiu Moroha, os olhos arregalados de cansaço.
– Então, o que estamos esperando? – perguntou Towa. – É nossa primeira pista! Vamos colocar o pé na estrada!
– Towa, eu acho que realmente você deveria… – começou Riku, enquanto Towa dava três passos animados antes de cair no chão novamente. – … descansar.
*
– Então, finalmente estamos aqui.
A aldeia não era diferente das muitas outras que viram em suas aventuras. Mas, realmente, havia um grande templo no alto de uma colina, com uma grande escadaria que levava até ele.
– É naquele templo que está o poço, não é? – perguntou Towa.
– Se o aldeão disse a verdade, só pode ser – respondeu Setsuna.
– Então, vamos lá! – disse Moroha.
– Um momento – disse Riku. – Senhor, senhora!
Riku chamou um casal de velhinhos que estava descendo as escadarias do templo com dificuldades.
– Ora, forasteiros… que raridade ver gente de fora por aqui… – comentou a senhora.
– Perdão incomodá-los, mas viemos de muito longe para visitar o templo – disse Riku. – É verdade que esse templo possui um poço que consome restos de youkais?
– Ah, é disso que vocês vieram atrás? – questionou o senhor. – Ah, garotos… talvez vocês tenham perdido a viagem.
– Como assim? – questionou Towa, preocupada.
– Realmente existe um poço no templo, no qual nossa boa sacerdotisa costumava jogar os restos de youkais mortos. Mas, infelizmente, ela faleceu há pouco mais de um mês. E os youkais só sumiam se fossem purificados por ela antes de serem jogados no poço, então agora o poço é só um poço comum.
O ânimo de Towa despencou.
– Do que a sacerdotisa morreu? – perguntou Setsuna.
– Um ataque de youkais hiena – respondeu a senhora. – Ela era muito poderosa, mas foi uma horda gigante, de um jeito que eu nunca vi. Ela ficou muito ferida e não resistiu aos ferimentos.
– E, como se não bastasse isso, mais youkais se apossaram do templo… – disse o senhor.
– Mais youkais, o senhor diz? – questionou Setsuna. – Mais youkais hienas?
– Não, não. Esses são diferentes. Vieram aqui em bando, liderados por um chefe, e não saem do templo. Não atacam a aldeia, e nem atacaram a mim ou minha esposa quando fomos até o templo fazer nossas preces, mas se recusam a sair de lá. O chefe do bando enfrentou duas sacerdotisas e um monge que vieram assumir o templo, e não quer deixar ninguém assumir o lugar.
– Aquele youkai lobo me assusta… – disse a senhora.
– Youkai lobo? – questionou Moroha.
– Não, minha velha – disse o senhor. – É um youkai cão.
– Meu velho, é muito grande para ser um cão. É um lobo!
– Lobos possuem uma juba mais espessa, e patas mais finas. É um cão!
– É um lobo!
– É um cão!
Towa, Setsuna, Moroha e Riku se entreolharam, enquanto o casal brigava, sem conseguir se decidir se era um lobo ou um cão.
– Bom… sendo um lobo ou um cão, temos que dar uma olhada – disse Towa. – Senhor, senhora, muito obrigada pela dica!
– Só tome cuidado, mocinha – disse o senhor. – Aquele cão pode ser bem feroz.
– Aquele lobo! – disse a senhora.
– Cão!
– Lobo!
Embaraçados, todos do grupo se afastaram do casal que discutia e se encaminharam para a escadaria.
– Acham que o tal youkai lobo ou cão pode significar encrenca? – perguntou Towa.
– Teria que ser muito poderoso para representar uma ameaça para nós – respondeu Setsuna. – Vamos apenas expulsá-lo.
– Youkai lobo e cão… – murmurou Moroha para si mesma.
– É mesmo, Moroha – disse Riku. – Você é filha do senhor Inuyasha, irmão mais novo do senhor Sesshoumaru, mas você foi criada entre os youkais lobos, não é?
– É, mas… – Moroha fechou a cara, emburrada. – Eu acho que estou esquecendo algo importante sobre isso! Não consigo lembrar!
– Bom, de qualquer jeito, precisamos visitar o tal poço – disse Towa. – E, se o que o casal de velhinhos disse for verdade, o tal youkai vai tentar nos impedir, não é?
– É – disse Riku. – E, pelo visto, já estão adiantados.
Quando chegaram ao fim da escadaria, havia um bando de youkais ali, de guarda, rosnando para o grupo. O maior deles, sem dúvidas o chefe, estava bem no meio, e também encarava os recém-chegados enquanto espumava, rosnando alto.
– Então… são eles – disse Towa.
– Isso… é curioso – disse Riku.
– Sem dúvida – concordou Setsuna.
– O que é curioso?! – questionou Towa.
– Os youkais menores. Tem lobos e cães no meio.
Towa olhou novamente. Setsuna tinha razão. Além do chefe, havia cerca de vinte outros youkais menores ali. E, entre esses vinte, havia tanto youkais cães como lobos.
E o chefe, um bem maior, do tamanho de um urso… era como os velhinhos disseram. O porte era bastante semelhante a um lobo, mas tinha patas mais grossas, e não possuía juba, o que o tornavam mais semelhante a um cão. Não foi à toa que os velhinhos ficaram confusos.
– Cães e lobos trabalhando juntos? – questionou Towa.
– Realmente incomum – disse Setsuna. – O que você acha disso, Moroha? Moroha?
Moroha, que até então estava totalmente quieta, olhava vidrada para o chefe dos youkais. Então, abriu um sorriso largo.
– Ryouga! – chamou Moroha, alegre.
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