Yamata
1 O pequeno príncipe (??)
Notas iniciais
Eu me desanimei quando recebi aquela ligação que dizia que eu teria de viajar até uma ilhota perdida no Japão, pra cobrir uma matéria de casos de desaparecimentos sobrenaturais de garotas que diziam ser obra de um ser monstruoso. Não que eu não goste de mitologia, pelo contrário, meu trabalho é justamente com isso. Só que viajar 6 horas num avião pra chegar lá e descobrir que era apenas casos de gente impressionáveis demais que acreditavam piamente numa lenda local não é lá muito animador. A lenda do yamata no Oroshi, um dragão com sete cabeças e sete caudas que ameaçava destruir o mundo se não comesse oito virgens a cada lua cheia. Tédio. Deve ser apenas um japinha virjão que quer mostrar pra todo mundo que sua virgindade não é protegida pelo todinho do lanchinho das quatro.
Por telefone me mandaram o endereço de uma casa em que nos hospedaríamos, diz ser de um príncipe cuja família foi extinta e só ele sobreviveu, e por isso vive isolado do resto do mundo. Não me pergunte o porquê, tampouco sei.
Procurei no Google Maps qual era a localização. Nada. A referência dava numa floresta fechada. Depois de muito esforço, fuçando na net consegui achar imagens de como seria a estalagem:
Era uma casinha pequena, de madeira, bem típica oriental: Paredes de papel, assoalho de madeira e quartos grandes sem camas. Dormiríamos em sacos de dormir de novo. Não que eu seja velho, estou no auge dos meus 19 anos, mas minhas costas não suportam chão duro. Não sou pago pra isso. Aliás, nem sou pago direito, com a merreca de dinheiro que eu ganho, não dá nem pra pagar uma massagista pra consertar esses estragos. Ai, triste vida.
Mesmo já tendo vistos casos horrendos, eu sentia que algo estava errado. E olha que eu não sou de me impressionar facilmente. É que aquela estalagenzinha seguia muito aquele clichê japonês de ‘hotel mal assombrado’ dos filmes de terror que eu assisto. Tipo, ‘ Samara vive ali, uuh! ‘ . Eu nunca achei que viria uma casa dessas na vida real.
Mexi em meu cabelo castanho escuro desajeitado e baixei a tela do meu note. Era melhor eu dormir, amanhã seria um dia corrido, com aquela viagem chata.
...
Pousamos em um aeroporto na cidade de Osaka, foi até um vôo tranquilo, apesar do ronco do meu chefe ser tão perturbador que faltava pouco pra provocar uma turbulência e a gente cair ali mesmo. Fomos logo recepcionados por uma mulher enrugada muito simpática, chamada Mieki Kushinado. Ela cumprimentou a todos com muita educação, fazendo uma reverência com a cabeça, como manda o costume japonês. Porém, quando foi me cumprimentar, parou por um momento e ficou me fitando por alguns segundos, como se não estivesse acreditando que eu estivesse ali. Logo disfarçou rapidamente com um sorriso e fez a reverência com gosto.
- Acho que ela gostou de você... – disse com malícia meu chefe, Oliver Strips. – Será que finalmente rola alguma coisa contigo á noite?
- Ah, cala a boca! Eu não como uvas passas – repliquei.
Apesar de Oliver ser aquele tipo de chefe mala, Era verdade: ela não saía do meu lado o tempo todo. O que eu fiz pra merecer um encosto agora?
Depois do aeroporto, pegamos um táxi até um cais, aonde iríamos de barco até o leste da ilha de Shikoku. A velha conversava animadamente comigo contando todos os lugares mais bonitos de Osaka no táxi, mas quando chegamos ao cais, ela emudeceu. Parecia muito assustada.
- Eu só venho até aqui. Tenho pavor de navios – se desculpou com um sorriso amarelo – Eu me enjôo facilmente, vão vocês. Pra mim soava como uma desculpa esfarrapada, mas todos aceitaram numa boa. Algo era muito suspeito.
Cinco cápsulas contra enjôo depois eu já estava re-estabelecido em outro táxi pra acharmos o endereço daquela casa. Andamos muito, tanto que as estradas já estavam deixando de serem asfaltadas e subíamos por estradas de chão batido, cada vez subindo mais. Chegamos ao pico de uma montanha, por entre uma mata densa. Lá estava a casinha simpática e pouco macabra da foto. Maravilha!
Batemos na porta. Aliás, que porta?! Nem tinha porta aquela pocilga. Eram só paredes de papel que formavam um cubículo fechado, como uma caixa sem saída. Enfim, o que eu quero dizer é que o termo certo de chamar o dono foi bater palmas. Costume de brasileiro de baixa renda, que vergonha!
Fomos logo atendidos por um garoto bonito, de olhos azuis límpidos e cabelos muito loiros, que nos olhava por entre a ‘’ porta ‘’ entreaberta. Assim que nos viu, abriu a porta totalmente e ficou nos encarando.
- Oi, Eu sou o Oliver, com quem você falou ao telefone. Viemos ficar por alguns dias. – Logo se meteu o chefe, estendendo a mão.
O garoto continuava olhando.
- Bem... – disfarçou com vergonha o vácuo colocando a mão na nuca – Esse aqui é ...
- Entrem – cortou o garoto, com uma voz baixa, porém a mais encantadora que eu já ouvi. E entrou com tanta naturalidade, como se não ligasse pra nossa presença ali. Como se fosse a coisa mais natural do mundo nos hospedarmos em sua casa.
Logo nos levou aos quartos, sem dizer uma palavra sequer. Assim, podíamos colocar nossas malas no chão e arrumar os – argh! – sacos de dormir. Ele assistia á tudo. Assim que terminamos, concluiu:
- Os senhores gostariam de um chá? – disse, cordialmente. Fiquei impressionado com a polidez com que ele falava, não era normal para uma criança da sua idade. Era um príncipe mesmo.
- Logicamente – retrucou Oliver, fazendo uma reverência pomposa, vergonhosa. Eu só coloquei a mão na minha cara lá atrás e suspirei ‘’ valha-me Deus ‘’.
Estava tudo bem enquanto seguíamos o caminho para a cozinha. O corredor pequeno e estreito, com assoalho de madeira fazendo barulho, escuro e medonho... Ok. Mas até que a decoração era bonitinha, olha só, tinham até vasinhos de flores em pequenas mesinhas de bambu. Foi aí que algo me chamou a atenção: as plantas daqueles vasinhos (que eram muitas, sugerindo compulsão?) estavam encharcadas de líquido. Me aproximei mais um pouco e vi que não era de água, era mais espesso.
- hum... – murmurei – bonitas plantas. Elas são regadas constantemente, não?! A água afoga as plantinhas, sabia?
- não rego elas com água. – respondeu o principezinho sem nem olhar pra trás.
- Não? Rega elas como?
- Com sangue. – disse naturalmente
- E porque você faz isso?! – questionou Oliver, sem esconder a exaltação na fala.
O menino parou do nada. Olhou para trás. Estava furioso.
- PORQUE AS PLANTAS TÊM DE SER REGADAS COM O SANGUE DOS DEUSES!!! — olhou com uma fúria mortal.
Depois disso, Oliver se calou. Quando ele se virou para tomar a frente, Oliver e eu nos entreolhamos completamente arrepiados. Mas ninguém tocou mais no assunto. O chá foi acompanhado por um silêncio denso, mas ele não se importava. Enquanto isso, com o canto dos olhos, nos entreolhávamos, Oliver tão assustado quanto eu. Assim que terminou o chá, fomos para a cama.
...
- Ei, Clark! – sussurrou alto me chamando o outro rapaz – Problemático aquele garoto, não?! Meu deus, porque regar as plantas com sangue?
Eu estava meio dormindo, meio acordado quando ele me chamou. Estava jogado na cama (pior, saco de dormir) quando eu o ouvi falar. Ele estava deitado, com insônia havia algum tempo, olhando para o teto.
- Hmnm... – resmunguei – é por causa daquela lenda do Yamata... ‘’ as plantas que bebiam do sangue da guerra entre os deuses Izanagi e izanami se tornavam dragões ‘’... blá blá blá.... – recitei com a voz embargada de sono uma citação do livro que tinha lido sobre. –... Esse povo acredita cegamente nessas lendas... Não se preocupe... Não há como convencer eles de que não existe...
- hm.
E então ele disse mais algo que não consegui mais distinguir, estava muito cansado, e amanhã nós iríamos até a casa onde supostamente foram atacados por aquela criatura. Ou seja, ele devia calar a boca e ir dormir! Mas ele faz isso?...não...
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