YOU
2 Você
“O problema com o amor não é o que ele faz com as pessoas.
É o que as pessoas fazem em nome dele.”
Você.
Engraçado como uma única palavra pode carregar tanto peso. Tão pequena, tão simples, mas capaz de reorganizar completamente a arquitetura silenciosa da vida de alguém. Eu passei a noite inteira repetindo essa palavra dentro da minha cabeça como se fosse um exercício de disciplina mental, como se ao analisá-la o suficiente eu pudesse neutralizar o efeito que você já começava a provocar em mim.
Você, Isabella Higginbotham.
Chef, herdeira de uma família poderosa de Los Angeles, sorriso fácil, olhar curioso e uma maneira de falar que parecia honesta demais para uma cidade construída sobre ilusões. Eu deveria manter distância. Isso era óbvio. Era racional. Era o que qualquer pessoa inteligente faria. Porque pessoas como eu não entram na vida de pessoas como você sem deixar cicatrizes.
A manhã começou cedo. Los Angeles tinha aquele brilho dourado típico das cidades que tentam convencer o mundo de que felicidade é uma questão de iluminação adequada. O sol atravessava as janelas do meu apartamento como um intruso gentil, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar com uma calma quase ofensiva. A cidade já estava acordada. Carros passando. Pessoas correndo. Um cachorro latindo em algum lugar. Vida normal. Vida comum. Eu fiquei parado na cozinha por alguns segundos observando o vapor subir da xícara de café como se aquilo fosse algum tipo de metáfora filosófica sobre recomeços. Talvez fosse. Talvez não. O problema com recomeços é que eles sempre carregam consigo tudo aquilo que você está tentando deixar para trás.
Você, por exemplo.
Eu ainda podia ver a forma como seus olhos se estreitaram levemente quando você sorriu ontem. Um gesto pequeno, quase imperceptível, mas revelador. As pessoas que sorriem com os olhos geralmente estão sendo sinceras. Ou são muito boas em fingir. Ainda não tinha decidido qual das duas categorias você pertencia. Mas isso não importava. Não deveria importar.
— Distância, Edward — murmurei para mim mesmo.
Uma palavra simples. Clara. Objetiva.
Distância.
Porque o histórico mostra que proximidade com alguém como eu geralmente termina mal para… bem… quase todo mundo.
Atravessei o corredor até o quarto dos fundos e parei diante da estrutura de vidro reforçado. A luz ainda estava apagada lá dentro, mas eu sabia que ele estava acordado. Pessoas que vivem em gaiolas raramente dormem profundamente. A mente se recusa a desligar quando sabe que não há saída. Eu acendi a luz.
Anthony Masen levantou os olhos imediatamente.
O verdadeiro.
O dono legítimo do nome que agora eu usava com tanta naturalidade.
Ele parecia cansado. Barba começando a crescer, camisa amassada, postura de alguém que já passou tempo suficiente refletindo sobre decisões ruins.
— Bom dia — eu disse calmamente.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Você dorme bem sabendo que mantém alguém preso assim?- ele perguntou.
Pergunta interessante.
— Durmo melhor do que você imagina.- disse sorrindo
Ele soltou uma risada breve, seca.
— Você é completamente insano.- concluiu brincando com os próprios dedos.
Talvez...Ou talvez eu apenas entenda melhor as regras não escritas da sobrevivência humana.
— Já pensou na minha proposta? — ele perguntou, apoiando os braços nos joelhos.
— Qual delas?- dei os ombros
— Me solta. Eu desapareço. Você nunca mais me vê.- disse ele com um olhar esperançoso.
Eu observei o rosto dele por alguns segundos.
O curioso sobre mentiras é que elas deixam pequenos sinais físicos quando estão sendo formuladas. Tensão no maxilar. Desvio sutil do olhar. Pequenos microgestos que a maioria das pessoas ignora porque está ocupada demais tentando parecer educada. Eu não.
Anthony Masen estava mentindo.
— Não — respondi simplesmente.
Ele suspirou.
— Então por que ainda estou vivo?- perguntou confuso.
Boa pergunta.
Eu me apoiei na parede ao lado da gaiola.
— Porque matar pessoas é… inconveniente.- suspirei.
— E sequestrar não?- disse ele com os olhos arregalados.
— Depende da perspectiva.- respondi.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você não é um assassino comum — disse finalmente.
Eu ergui uma sobrancelha.
— Existe assassino comum?- perguntei incrédulo com tanta imbecilidade.
— Não — ele respondeu. — Mas você… você acha que está fazendo algo certo.
Eu sorri levemente.
— Talvez eu esteja.
Ele me observou com um tipo estranho de curiosidade.
— Você realmente acredita nisso, não acredita?- ele me perguntou ainda com os olhos arregalados como se estivesse vendo o verdadeiro bicho papão.
Sim, e esse era exatamente o problema.
Horas depois eu estava caminhando novamente pelo complexo Higginbotham. O lugar já estava cheio de vida. Pessoas entrando e saindo da cafeteria, jovens com tapetes de yoga enrolados debaixo do braço, um grupo discutindo algum tipo de terapia energética que aparentemente envolvia cristais e respiração consciente. Era fascinante observar como pessoas ricas inventam problemas espirituais para evitar lidar com problemas reais.
Eu empurrei a porta da livraria e imediatamente senti o cheiro familiar de papel e madeira.
E então vi você.
Você estava atrás do balcão, inclinada sobre um caderno de anotações, cabelo preso de maneira descuidada, caneta entre os dentes enquanto lia algo com concentração absoluta. A luz da manhã atravessava a janela atrás de você e criava uma espécie de halo suave ao redor do seu rosto.
Perigo.
Porque beleza assim costuma ser enganosa.
— Bom dia — eu disse.
Você levantou os olhos e sorriu.
— Anthony — disse Bella, fechando o caderno. — Você chegou cedo.
— Velhos hábitos.- disse sorrindo torto
— Você parece alguém que gosta de rotina.- ela disse.
Eu dei de ombros.
— Rotina é previsível.- eu ri
— E isso é bom?- perguntou arqueando a sobrancelha.
— Depende do que você está tentando evitar.- confessei.
Você inclinou a cabeça levemente, analisando a resposta.
Interessante.
Muito interessante.
— Você fala como alguém que já passou por muita coisa — você comentou.
Se você soubesse.
Antes que eu pudesse responder, a porta da livraria se abriu novamente.
E foi aí que eu conheci Bree Tanner.
Ela entrou na livraria como um pequeno furacão de energia adolescente, a porta batendo levemente atrás dela. A mochila pendia descuidadamente em um dos ombros, o cabelo preso em um rabo de cavalo bagunçado que parecia ter sido feito no escuro e uma expressão de quem já estava profundamente entediada com o mundo antes mesmo do café da manhã. Algumas pessoas carregam inocência no rosto. Bree carregava sarcasmo.
— Bella — ela disse sem qualquer cerimônia, caminhando direto até o balcão. — Você viu minha irmã?
— Bom dia para você também — respondeu Bella, erguendo uma sobrancelha enquanto limpava as mãos no avental.
— Bom dia, sociedade capitalista decadente.- ela revirou os olhos com teatralidade.
Eu quase sorri.
Havia algo curiosamente autêntico naquela irritação juvenil.
Foi então que os olhos dela se voltaram para mim pela primeira vez.
Ela me encarou por um segundo longo demais para ser casual.
— Ah… — murmurou. — Então você é o cara novo.
Bella inclinou a cabeça.
— Vocês já se conhecem?-perguntou
Bree soltou um pequeno som nasal, algo entre um riso e um deboche.
— Ainda não oficialmente.- disse Ela dando um passo mais perto, analisando meu rosto com a curiosidade descarada de quem não foi educada para esconder o que pensa.— Você é o Anthony, certo?
Interessante.
— Sou — respondi calmamente.
Ela assentiu devagar.
— Imaginei.- ela disse sem interesse.
Silêncio.
Algo naquela resposta ficou suspenso no ar por um instante.
Bella franziu levemente a testa.
— Vocês…?
— A gente mora no mesmo prédio — Bree disse casualmente, apoiando o cotovelo no balcão como se aquilo não fosse relevante. — Terceiro andar. Apartamento do fundo.
Minha mente fez uma pequena pausa.
Curioso.
Eu não tinha notado.
Ou talvez tivesse notado e simplesmente não registrado. A maioria das pessoas se move pelo mundo como sombras periféricas, rostos passando, passos ecoando no corredor, vozes indistintas atrás de paredes finas. Vizinhos raramente são importantes.
Até se tornarem.
— Então você é a garota que escuta música alta às duas da manhã — eu disse.
— Guilty.- Bree abriu um sorriso rápido.
— Bree — Bella advertiu.
— O quê? Pelo menos eu tenho bom gosto musical.- disse ela e depois voltou a me encarar.— Você parece suspeito.
Bella soltou um suspiro cansado.
— Bree.- repreendeu a menina.
— Eu só estou sendo honesta.- ela levantou as mãos em rendição.
— E o que exatamente parece suspeito?- perguntei me inclinando levemente contra o balcão, curioso.
— Você tem cara de pessoa que observa demais.- respondeu cruzando os braços.
Silêncio.
Interessante.
Muito interessante.
Porque pessoas costumam demorar muito mais para perceber isso.
— Talvez eu apenas preste atenção — respondi.
— Mesma coisa.- Bree deu de ombros.
Foi nesse momento que a porta da livraria se abriu novamente.
A mulher que entrou tinha uma presença completamente diferente da irmã.
Alta. Elegante. Postura firme.
Olhos atentos.
Rosalie Turner.
Ela parou ao ver Bree.
— Bree, você deveria estar na escola — disse, a voz firme e controlada.
— Educação é uma construção social — Bree respondeu imediatamente.
— E paciência também.- Rosalie suspirou.
Ela caminhou até o balcão, os saltos ecoando suavemente no piso de madeira, e então finalmente voltou os olhos para mim.
Foi um olhar rápido.
Mas avaliador.
— Você deve ser o novo funcionário — disse.
— Anthony Masen.
Ela apertou minha mão.
— Rosalie Turner.
Os olhos dela permaneceram em mim um segundo a mais do que o necessário.
Não hostil.
Não amigável.
Apenas… atento.
Jornalistas.
Sempre observando.
Sempre conectando pontos invisíveis.
Potencialmente problemático
Horas depois, já no fim da tarde, você me convidou para caminhar até a praia.
— Eu preciso de ar — você disse, colocando o casaco. — Esse lugar fica meio claustrofóbico no fim do dia.
Eu deveria ter recusado.
Distância.
Lembra?
Mas em vez disso eu disse:
— Claro.
A praia estava quase vazia. O céu começava a se tingir de laranja enquanto o sol descia lentamente no horizonte. Você caminhava ao meu lado descalça, segurando os sapatos na mão, deixando que a água fria tocasse seus pés.
— Eu gosto daqui — você disse. — É um dos poucos lugares em Los Angeles que parece real.
— O resto parece falso?- perguntei
— Um pouco.- confessou parando de andar e olhou para o oceano. — Todo mundo aqui está tentando ser alguém.
Eu observei seu perfil contra a luz do entardecer.
— Talvez seja porque ninguém gosta de quem realmente é.- disse.
Você virou o rosto para mim.
— E você? Gosta de quem você é?- perguntou
Pergunta perigosa, garota.
Muito perigosa.
— Estou tentando.- confessei
Você me estudou por um longo momento.
— Anthony… — você disse suavemente — você parece alguém que carrega muito peso sozinho.
Silêncio.
Porque de todas as coisas que alguém poderia dizer sobre mim…
Essa era provavelmente a mais verdadeira.
— Talvez — respondi.
Você se aproximou um pouco mais.
— Você não precisa carregar tudo sozinho.- disse sorrindo torto, um sorriso de compreensão?
Meu coração bateu mais rápido, merda Bella...
Engraçado.
Depois de tudo.
Depois de Seattle.
Depois de Forks.
Você ainda conseguia fazer meu coração reagir.
Talvez…talvez dessa vez fosse diferente.
Talvez você fosse diferente.
Mas enquanto eu olhava para você naquele momento, outra imagem atravessou minha mente.
Uma lembrança antiga.
Um quarto escuro.
Uma criança sentada no chão.
Gritos vindo do corredor.
Um homem bêbado quebrando coisas e uma voz dizendo:
— Isso é amor.
Foi assim que eu aprendi.
Foi assim que tudo começou.
E talvez…talvez seja por isso que agora, olhando para você sob o céu dourado de Los Angeles…eu realmente acreditasse que tinha encontrado algo puro.
Algo que valia a pena proteger.
Você.
Porque o mundo é cruel, e alguém precisa proteger coisas boas.Mesmo que às vezes…isso signifique fazer coisas terríveis.
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