YOU

5 O Que Fica Entre Nós


“Às vezes o destino não chega como uma escolha.

Às vezes ele chega como uma pessoa parada no corredor, olhando direto para você.”

O corredor do prédio estava silencioso quando eu cheguei, exceto pelo som distante de uma televisão e pelo eco metálico do elevador subindo lentamente. Minha cabeça ainda latejava por causa do corte no supercílio. O sangue tinha secado parcialmente, mas uma nova linha vermelha escorria pelo canto da sobrancelha cada vez que eu franzia o rosto. Eu precisava entrar no apartamento, limpar aquilo e fingir que a noite anterior nunca tinha existido.

Mas o destino tem um senso de humor particularmente cruel.

Porque assim que virei a esquina do corredor eu vi duas pessoas que definitivamente não deveriam estar ali naquele momento.

Bree Tanner e Bella Higginbotham estavam encostadas na parede perto da porta do apartamento de Bree, conversando. A menina gesticulava exageradamente enquanto Bella ria, aquele riso suave que parecia sempre existir apenas para contradizer a dureza do mundo.

E então elas me viram.

O sorriso de Bella desapareceu imediatamente.

— Anthony… — disse ela, franzindo a testa. — O que aconteceu com seu rosto?

Por um segundo inteiro meu cérebro simplesmente… travou.

Porque mentir é fácil quando você tem tempo.

Mas quando duas pessoas olham diretamente para o sangue escorrendo do seu rosto, a mentira precisa nascer rápido.

Muito rápido.

— Um bêbado — respondi quase automaticamente.

Bree arqueou uma sobrancelha.

— Um bêbado?- perguntou incrédula

— Na rua — acrescentei, tentando parecer irritado em vez de nervoso. — Ele trombou comigo e decidiu que seria uma boa ideia tentar brigar.

Bree ficou em silêncio por meio segundo, mordeu os lábios e então começou a gargalhar.

— Você apanhou de um bêbado?- ela perguntou entre gargalhadas

Bella imediatamente virou para ela.

— Bree!- disse a olhando com um jeito repreendedor

Mas Bree estava dobrada de rir.

— Desculpa — ela disse entre risadas — mas isso é muito Los Angeles.

Eu tentei sorrir e não foi muito convincente.

Bella se aproximou, os olhos examinando o corte com atenção.

— Isso está aberto — disse ela, séria. — Você precisa limpar isso.

— Eu estou bem.- menti

— Não está.- ela teimou cruzando os braços.— Eu cresci com Emmett — disse Bella analisando o corte — Eu sei reconhecer quando alguém está tentando fingir que não precisa de ajuda.

Bree ainda estava rindo ainda e segurando na barriga de tanto gargalhar.

— Eu vou deixar vocês dois lidarem com isso — disse ela, já abrindo a porta do apartamento. — Mas, Anthony… tenta não brigar com bêbados na próxima vez.

— Ótimo conselho.- agradeci

Ela entrou e fechou a porta atrás de si.

Agora restávamos apenas nós dois no corredor e Bella olhou para mim novamente.

— Seu apartamento.- ela disse apontando para a minha porta.

— O quê?- perguntei

— Vamos limpar isso.- ela disse gesticulando com a cabeça.

Eu abri a porta e entrei.

O silêncio dentro do apartamento parecia mais pesado do que o normal. Bella caminhou até o centro da sala com naturalidade, como se já tivesse estado ali muitas vezes.

— Caixa de primeiros socorros? — ela perguntou.

Apontei para a cozinha.

Ela pegou a caixa e voltou, sentando-se na beirada da mesa de centro.

— Venha aqui.- ela bateu na almofada do sofá e eu sentei obedecendo sua ordem.

Bella se inclinou em minha direção e começou a limpar o corte com gaze molhada. O toque dela era cuidadoso, quase delicado demais para o tipo de ferimento que eu tinha.

— Vai arder — avisou.

Ardeu.

Mas não tanto quanto deveria.

Porque eu estava ocupado demais observando o rosto dela tão perto do meu.

— Você tem uma péssima sorte — murmurou Bella.

— Talvez.- disse sorrindo torto

— Ou talvez você procure problemas.- ela analisou concentrada na limpeza do corte

Interessante.

— Eu?- perguntei arqueando a sobrancelha

— Você tem cara de alguém que guarda muita coisa.- ela disse concentrada em colar uma pele na outra apenas com a pressão.

Ela pressionou a gaze contra o corte e então levantou os olhos.

Nossos rostos estavam separados por poucos centímetros.

Silêncio.

Um daqueles silêncios que não são realmente silêncio.

— Bella… — comecei.

Ela não respondeu.

Ela apenas me beijou.

O beijo começou suave.

Curioso.

Mas em poucos segundos se transformou em algo mais urgente, como se estivéssemos tentando recuperar tempo perdido.

Quando nos afastamos por um instante.

— Isso é uma péssima ideia.-Bella sussurrou

— Provavelmente.- disse sorrindo encostando meu nariz no dela.

— Eu deveria ir embora.- ela disse a centímetros da minha boca.

Ela não se moveu.

— Você deveria.- eu respondi

Também não me movi.

Alguns segundos depois ela estava novamente me beijando.

A sala do apartamento ficou pequena demais para o que estava acontecendo entre nós. As mãos dela encontraram as minhas, e nós tropeçamos juntos até o tapete no meio da sala.

O mundo ficou distante por um tempo.

Apenas respiração.

Calor.

Pele.

Nada gráfico, apenas a intensidade de dois corpos que finalmente pararam de fingir que não queriam aquilo.

Quando tudo terminou, Bella estava deitada ao meu lado, o cabelo espalhado sobre o tapete.

— Nós realmente fizemos isso — murmurou ela.

— Sim.- eu disse ainda em transe acariciando a costa nua dela.

Ela riu baixo.

— Isso vai dar problema.- ela disse entre risos.

Provavelmente.

A manhã chegou com luz dourada entrando pelas janelas.

Eu acordei primeiro.

Bella ainda estava dormindo ao meu lado.

Por alguns minutos eu apenas observei.

Porque existe algo profundamente hipnótico em observar alguém que você ama quando ela ainda não sabe que está sendo observada.

Sim.

Amor.

Talvez fosse cedo demais para essa palavra.

Mas ali, naquele momento, parecia a única possível.

Bella acordou alguns minutos depois.

— Bom dia — disse ela sorrindo.

— Bom dia.- disse sorrindo para ela.

Ela se levantou e caminhou até a cozinha usando apenas minha camisa.

— Eu faço café — disse.

Alguns minutos depois o cheiro de café e panquecas encheu o apartamento.

Eu fiquei sentado observando enquanto ela cozinhava.

Você.

Sempre você.

Como alguém pode parecer tão… certo?

— Você está me encarando — disse Bella sem olhar para mim.

— Estou admirando.- confessei

Ela sorriu.

Quando saímos do prédio em direção ao Complexo Higginbotham, percebemos imediatamente que algo estava errado.

Havia um carro de polícia estacionado.

Algumas pessoas conversavam em pequenos grupos.

E um policial estava falando com Rosalie.

Bella se inclinou em minha direção.

— Aquele é Riley Biers — sussurrou ela. — Ficante da Rosie.

Interessante.

Rosalie parecia furiosa.

— Eu estou te dizendo — disse ela para Bella quando nos aproximamos — A morte de James não está certa.

Meu coração deu um pequeno salto.

— O que você quer dizer? — perguntou Bella.

— Eu estava investigando ele — disse Rosalie. — E agora ele aparece morto?

Ela cruzou os braços.

— Eu vou expor tudo.- ela disse passando a mão nervosa pelos cabelos loiros.

Perfeito.

Continue investigando James.

Não a mim.

Algumas horas depois fomos surpreendidos por Emmett no meio do complexo.

— Viagem! — anunciou ele.

— O quê? — Bella perguntou.

— Retiro espiritual — respondeu Emmett. — No sítio dos nossos pais.

— Isso soa suspeito.- julguei

— É aniversário de quarenta anos de casamento de Renée e Carlisle Higginbotham.

— Claro que é.- Bella suspirou revirando os olhos.

O sítio ficava a algumas horas de Los Angeles.

Natureza.

Árvores altas.

Silêncio.

O tipo de lugar onde pessoas ricas fingem encontrar iluminação espiritual.

Renée e Carlisle me receberam calorosamente.

— Anthony — disse Carlisle apertando minha mão. — Bella fala muito de você.

Renée apenas sorriu.

— Gostei dele.- disse ela piscando indecentemente para a filha.

Bella apertou minha mão discretamente enquanto revirava os olhos.

Naquela noite, porém, algo estranho aconteceu.

Emmett apareceu com bebidas.

— Isso vai ajudar sua criatividade — disse ele.

Eu bebi e alguns minutos depois o mundo começou a… mudar.

As cores ficaram mais vivas.

O ar parecia vibrar.

LSD.

Droga.

Meu corpo entrou em um estado estranho de consciência.

E então eu vi.

Tanya Denali.

Ela estava parada entre as árvores.

— Você nunca muda — disse ela.

E então outra figura apareceu atrás dela.

Victoria.

Sorrindo.

— Eu ainda estou aqui.

Minha respiração ficou pesada.

Talvez o ciclo nunca termine.

Talvez eu esteja condenado a repetir tudo.

Mais tarde, enquanto caminhava perto das tendas, ouvi vozes.

Bella E Emmett.

— Eu gosto dele — dizia Bella.- Muito.

— Eu também — respondeu Emmett. — Mas tem algo estranho nele.

Silêncio.

— Tipo o quê?

— Eu não sei… um lado sombrio.

Eu fiquei parado do lado de fora da tenda.

Ouvindo.

Interessante.

Muito interessante.

Mais tarde naquela noite encontrei Bella perto da floresta.

— Você está estranho — disse ela.

— Talvez.- confessei a encarando

Ela segurou minha mão.

— Anthony…- ela sussurrou

Eu respirei fundo.

— Eu amo você.- confessei

As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.

Bella me olhou por um longo momento.

Então sorriu suavemente.

— Eu amo você também.- disse ela segurando meu rosto com as duas mãos.

O beijo que veio depois foi lento.

Profundo.

E nos levou para dentro da floresta, longe das luzes do sítio.

Entre as árvores, o mundo parecia desaparecer...

Apenas nós dois... e a ilusão perigosa de que nada poderia nos alcançar ali.