Yōso - Contrato de Aluguel

5 Capítulo 5 - Correndo contra o tempo, literalmente


Devo ter saído correndo na mesma hora, porque meus pés foram rápidos demais e não fazia ideia para onde estava indo até me esconder no portão de casa, tentando respirar. Eu não tinha escutado tudo, mas tanto faz, Henry estava envolvido com algo sério e estava levando Beatriz com ele. Aquele papo de diminuir sofrimento, soaria como algo legal se não fosse a forma como ele falava, como se estivesse cumprindo uma missão na terra. Uma missão que envolvia sair de casa toda noite e se esconder dos policiais.

Não dormi direito a noite, porque assim que entrei no quarto, vi Henry saindo, como sempre e isso não era nada bom. Minha mente estava fixa nisso a noite toda e quando cumprimentei Heitor e Rafael, tempo depois com a bicicleta ao lado, despejei tudo tão rápido que precisei repetir duas vezes, porque Rafa ainda estava com sono. Os forcei a parar a bicicleta.

— Você está querendo dizer que Henry é responsável por esses ataques e está “convocando” pessoas, inclusive Tadeu.

— E Beatriz.

— Zar… — Heitor murmurou, me fazendo prestar atenção nele, seu olhar era quase de pena. — Você mesmo disse que ela provavelmente tem depressão. Pode ter algo haver.

— Toda noite e a polícia não pode saber? Qual é, Heitor.

— Sim, devo te lembrar que a cidade toda está preferindo ficar em casa a noite. Olha. — Ele apontou para a televisão de uma loja, uma garota havia sido parada pela polícia e interrogada, por passar a noite na rua. — Qualquer pessoa fora de casa a noite é suspeito. Pode ser apenas terapia.

— Ele estava com uma arma apontando para a cabeça dela? — Rafa continuou e balancei a cabeça sem aguentar. — Então tá tudo bem.

— Porque você está tão preocupado com essa garota?

Eu não podia os dizer o quanto ela lembrava meu pai. Tinha o mesmo sorriso estranho quando minha mãe o deixou, forçando-se a ficar bem. Precisava concordar com Heitor, não a conhecia e não fazia a mínima ideia do que ela sentia, mas lembrar do estado morto vivo que meu pai se encontrara me fazia desejar que ninguém passasse por isso.

Havia outra coisa também.

— E o Tadeu, ele sumiu. Não manda mensagem, não responde. Você não viu como ele falou dele — lembrei.

— Ele tem outras preocupações — Heitor disse, não tão confiante.

— Preocupação terá quando aparecer — Rafa murmurou, bufando.

Havia algo suspeito em Henry, isso ninguém poderia dizer que não e eu precisava descobrir o quê. Era da minha conta? Claro que não, mas meu amigo havia sumido e aquela garota não estava bem, não podia ignorar.

— Agora, vamos, senão vamos nos atrasar — Heitor puxou nós dois porque precisava ir trabalhar.

ﻩ

A tarde, estava sentado na sala de aula. Rafael, ao meu lado, segurava sua cara com a mão escorada na mesa, com grande esforço. Ela vivia pendendo e em breve cairia se continuasse assim. Como de costume, chutei de leve seu pé, lhe dando um susto.

— O que? — murmurou, esfregando os olhos.

— A apresentação.

Apontei para frente. Nós escutávamos pacientes as apresentações dos grupos. Eram sobre alguns Matemáticos e essa era a quinta vez que um grupo chegava ali na frente e lia, lia e lia. Eu nem ao menos lembrava qual era o nome de quem eles falavam.

— Foi uma péssima ideia passar a noite acordado ontem, ainda não me acostumei com o fato de que não posso cochilar no trabalho. — Rafa murmurou e voltou a apoiar a cabeça. — Professor não está nem vendo.

Carlos, o professor de matemática, que por ter passado a vida toda dando aula, não se preocupava muito com o que a sala fazia, por isso metade dela dormia. Ele era o único que prestava atenção e a julgar pela sua expressão, aquele grupo não teria nota boa.

A cabeça do Rafa pendeu mais um pouco e a partir dali ele estava dormindo. Dei de ombros, não tinha muito o que fazer, mas algo o assustou e meio aéreo ele vasculhou na mesa a procura do motivo.

— O que?

Não tive tempo, meu celular no bolso começou a vibrar. Torci para que fosse uma mensagem do Tadeu e o retirei com cuidado. De esgueira vi que Rafael fazia o mesmo. Era uma mensagem do Heitor.

Verifiquei se o professor continuava fixo no grupo e li.

“Eu e a Lu estamos indo para casa, o pai dela ligou, disse que a polícia está na casa da Alice e com notícias. Ele não sabe o que é, mas a Lu não está aguentando de ansiedade, por isso vamos.”

Meu coração estava batendo forte.

“ E a aula?” digitei rápido.

A resposta chegou segundos depois.

“Aula vaga.”

Guardei o celular com cuidado e olhei para Rafael, que também fazia o mesmo.

— Recebeu a mensagem do Heitor? — ele cochichou.

— Sim, espero que o Marcelo esteja bem.

— Queria saber qual no…

O professor Carlos começou a bater palmas e fomos juntos no embalo, o grupo finalmente havia terminado a apresentação.

— Grupo sete — ele anunciou e novas pessoas foram para frente.

Eu e Rafael nos entreolhamos, esperando o grupo começar a falar e a sala cair nas conversas, para disfarçar.

— O que?

— Queria saber qual notícia era. Será que acharam ele?

Desejei que a sugestão do meu amigo fosse verdadeira. Precisava ser isso.

— Temos que ir junto deles.

— Hein? — murmurei, quase alto demais.

— Vamos também, a polícia deve estar lá para avisar que acharam, quero ver isso acontecer — meu amigo sugeriu, de repente muito animado.

— Estamos em aula — murmurei o óbvio.

— Por enquanto — disse e havia algo a mais no seu tom de voz.

Esperei, mas ele virou para frente e passou a prestar atenção na apresentação. Estava inclusive fazendo perguntas no momento destinado a isso que sempre ficava vazio. Por sinal, eu conseguia ver os olhares de ódio do grupo a cada pergunta dele. As palmas vieram novamente, mas dessa vez Rafa foi o primeiro a bater.

— Próximo grupo, oito — professor anunciou, olhando para o meu amigo.

Eu ainda esperava sua resposta, por isso cutuquei seu pé, mas ele não olhou para mim. Cutuquei novamente e nada, só na terceira vez ele me olhou de relance para então, de repente, começar a passar mal.

— Rafa, o que houve?

Murmurei, mas meu amigo não estava me ouvindo, estava abrindo e fechando os olhos fixos no nada, como se fosse difícil mantê-los abertos e segurava na banca como se estivesse colado a ela. Parecia que a qualquer momento iria desmaiar.

Ele tentou levantar, mas cambaleando, bateu na minha mesa.

— Rafa!

Levantei assustado segurando os braços dele, porque ele tentava se manter de pé. Segurei seus ombros com força e busquei seu olhar.

— Ei, cara! O que houve?

Eu estava assustado. Meu amigo dificilmente ficava doente e quando ficava era muito forte, porém antes dele se virar para falar com o professor, que vinha atordoado, encontrei um leve sorriso em seu rosto e a vontade que tive foi de socar a sua cara. Claro que era fingimento. Quando o professor se aproximou, Rafa fez questão de cambalear mais uma vez.

— Rafael, você está bem?

— Acho que foi algo que eu comi, professor, estou tonto. Acho que vou vomitar.

— Você precisa ir para o hospital, pode ser intoxicação.

Quase revirei os olhos, mas Rafael ainda se escorava no meu ombro e olhava para mim, esperando por algo.

— Melhor ir para casa, professor — disse, sem acreditar que estava enganando aquele professor. — Sabe. — Me aproximei um pouco do ouvido dele — É desagradável ter que usar o banheiro fora de casa, pode não ter papel. E acho que ele precisa muito disso.

A última parte foi um sussurro, mas ao meu lado alguns colegas escutaram e o meu querido amigo me fuzilou com o olhar.

— Não é, Rafa? — perguntei e ele voltou a cambalear.

— Sim, professor. Preciso de repouso.

— E de um banheiro — disse de novo.

— Claro, meu rapaz, vá para casa. Mas depois vá para o hospital.

— Obrigado professor… O César… ele pode vir comigo? Para garantir que tudo…

A voz do Rafael falhou e ele engoliu em seco. O filho da mãe era bom ator, faltava só transparecer mais dor, porque a fraqueza ele estava conseguindo muito bem. Pensando nisso, disfarçadamente pisei em seu pé.

— Ai — gemeu, levantando o pé.

— É a barriga, professor, ele precisa de um banheiro. Melhor irmos rápido. — Ele me encarou assustado e olhou para o Rafa como se fosse uma bomba.

— Claro, rapazes, vão logo.

Peguei a minha mochila e a do Rafa e me virei para ir. Imediatamente ele jogou o braço no meu ombro e sai cambaleando segurando o peso do meu amigo, até o final do corredor. Rafael estava fazendo de propósito, porque eu precisei realmente o carregar. Quando percebi que ninguém estava olhando, o empurrei para longe.

— Eu estou doente! — Ele colocou a mão no peito, parecendo ofendido, enquanto pegava a mochila de mim.

— Um doente bem folgado.

— Diga a verdade, mereço um prêmio, não é?

— De maior mentiroso? — perguntei, ele voltou com a mão no peito e a boca aberta. — Com toda certeza.

— Assim você me magoa. Vai, vamos perder o ônibus.

Ele bateu no meu ombro dando risada e saiu correndo, fiz o mesmo logo atrás. Estava extremamente ansioso para chegar a casa de Alice e saber o que havia acontecido com Marcelo, então que Rafa não saiba, mas estava agradecido pela desculpa.

De acordo com a mensagem do Heitor eles iam no ônibus de quatro e meia, então tínhamos apenas dois minutos para chegar lá. Assim que sai do portão vi os dois sentados e aumentamos a velocidade, porque conseguia avistar o ônibus entrando na rua.

— Vocês também estão de aula vaga? — Heitor perguntou animado.

— O que?

— Vocês, estão aqui por que estão de aula vaga, não é?

— Ah, claro — Rafa respondeu, balançando a cabeça rápido. Eu apenas confirmei, porque ainda recuperava o fôlego.

Heitor levantou as sobrancelhas, suspeitando, mas deixou porque Luana se adiantava vendo que o ônibus chegava e nós três subimos. Ao menos a essa hora o ônibus estava mais vago e pude sentar ao lado da janela, que Luana tinha reservado, como gosto.

— Vai chover para o Senhor César Martins sair de uma aula? — ela cochichou.

— Aula vaga, é claro. Por isso. — Tentei prender o sorriso, mas olhar para ela só piorou. Em dois segundos não aguentei.

— Qual desculpa inventaram para sair da aula do Carlos? — disse, mais perto de mim.

— Dor de barriga.

— E ele acreditou? — Sorriu. — Vocês são péssimos.

— Não podíamos deixar você ir sozinha, Lua — soltei, engolindo em seco.

— Obrigada meus nobres seguranças, não sei o que seria de mim sem vocês.

Ela fez drama, enquanto agarrava meu braço como uma donzela em perigo. Meu coração estava falhando, ela estava muito perto. Fazia tempo que não a via, que não me sentava ao seu lado e conversava. Longe dela eu conseguia fingir que não sentia nada, longe eu ficava bem. Não engolia em seco como estava fazendo.

— Ei, é sério! Você sabe que pode contar comigo.

Seu olhar mudou e os dedos apertaram com força meu braço.

— Obrigada — murmurou. — Estou um pouco ansiosa. Você acha?

— O que? — Ela estava muito próxima de mim.

— Que ele está em casa — disse, escorando a cabeça no meu ombro.

— Claro, ele deve estar te esperando. Fica tranquila. — Minha mente era traiçoeira, era egoísta, porque em meio a tantas preocupações e num clima de tanta tensão, ela teimava em focar apenas em Luana, no seu cabelo roçando meu pescoço.

Lua passou o resto do caminho com a cabeça no meu ombro, folheando as páginas do caderno, apenas para passar o tempo, já que não se deteve em nenhuma em particular. A questão é que ela não conseguia deixar as mãos quietas. Num desses momentos, ela parou e olhou para algumas questões da prova. Acima do seu nome e da data, que havia sido há dois dias, tinha a nota 1, seguido de diversas questões com um “E” de errado. Franzi a testa, das dez questões ela havia acertado apenas uma. No momento que ela percebeu a nota, escondeu a folha, antes de dar um olhada nervosa para mim e continuou mudando as páginas. Ainda abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, mas não falei nada, porque o ônibus havia parado e esse era o ponto que desceríamos.

Ela foi rápida, quando pisquei já estava descendo os degraus e andando, uns três metros à nossa frente. A primeira coisa que percebi foi que haviam mais pessoas que o comum, nas janelas e nos portões das casas. Acreditei que era um bom sinal, deviam estar esperando Marcelo. Estava prestando tanta atenção nas pessoas que não percebi que Luana havia congelado e os meus amigos tinham os olhos arregalados.

Na sétima casa, de muro verde, uma mulher chorava e não era de felicidade.

De primeira eu não a reconheci, estava ainda mais magra e tinha o cabelo amarrado de um jeito que parecia ter acabado de sair de uma briga, era Alice, mas o seu choro desesperado me fez desejar que não fosse. Luana foi a primeira a sair do transe e pouco a pouco foi aumentando as passadas até que estava correndo em direção a tia que se despedia dos policiais.

— É claro que isso não é verdade. — Sua voz estava trêmula quando avistou a sobrinha se aproximando. — Claro que não, Luana. Há um engano.

— Sim, tia, está tudo bem, certo? Respire.

Lua era boa nisso, porque não transpareceu em nenhum momento a angústia que estava sentindo antes, parecia estar em paz. Ela se virou quando viu uma mulher negra fardada saindo da viatura, a mãe do Rafa, e trocou algumas palavras com ela, poucas, mas que pareceram ser suficientes para entender a situação. Nós permanecemos plantados no chão.

— Luana! Eu não briguei com ele!

— Eu sei, tia, vamos entrar — disse e olhou para nós, estendendo a mão para que esperássemos.

Ela colocou a mão nas costas de Alice e a guiou para o portão. Antes de adentrar, olhou para os vizinhos e eles se viraram quase instantaneamente, começando a conversar entre si ou fechando a brecha do portão por onde olhavam. Balançando a cabeça, como quem estivesse esperando isso, Luana abriu o portão, levando a paz junto.

As pessoas voltaram a conversar e espiar por entre as brechas. Meus dois amigos soltaram a respiração na mesma hora, com os olhos arregalados.

— Mas o que aconteceu? — Rafa exclamou, vendo a viatura passar e sua mãe acenar.

Dois minutos depois, uma única voz saiu na rua a nossa frente, Luana havia voltado sozinha e de novo, todos ficaram calados.

— Descobriram que no dia que meu tio desapareceu, depois que ligou pedindo para o buscarem no aeroporto, ele pediu um táxi — ela explicou, lançando olhares chateados às pessoas que ainda estavam perto.

— Às vezes ele só queria chegar mais cedo em casa, não?

— A questão é que o taxista disse que o levou para um hotel.

— Acreditam que ele fugiu? — Heitor perguntou, mordendo os lábios.

— Isso mesmo, acham que ele foi embora apenas, porque quis — Luana disse baixo, torcendo a barra da blusa com as mãos.

— Mas vão continuar investigando, não é? — Pela sua expressão, soube que a minha pergunta era a que mais a preocupava.

— Sim, mas... — Ela engoliu em seco, ainda segurando a barra da blusa. — Não acreditam tanto. Diminuíram a equipe de busca. Vocês sabem, todos os esforços estão nos ataques.

— Não faz sentido ele ter ido embora assim — Rafael disse. — Não depois de ter ligado.

— Vieram perguntar a minha tia se eles não haviam brigado na ligação ou estavam antes.

Escutar isso foi a gota d'água para saber o porque Alice estava naquele estado. Ela estava sendo sugada todos os dias, desde o fato de estarem perto de dar o caso como encerrado, à preocupação de Marcelo continuar desaparecido. E, acrescentando a isso, havia a descrença dos outros, ela sabia que o marido não havia fugido, mas duvidavam disso e começaram a tratar o caso como “uma briga de casal".

— Eu tenho que entrar, ela não está bem — disse, já se virando e indo para a casa do muro verde.

— O que fazemos?

— Vamos lá em casa — Heitor respondeu, no automático.

Seguimos, um passo atrás do outro, sem falar nada, em direção a casa a poucos metros. Estávamos indo sem dar importância para as pessoas que permaneciam olhando pela brecha do portão, quando um grupo de senhoras que conversavam embaixo da árvore nos chamou atenção.

— Ô, menino! O Marcelo foi embora porque quis, foi? — uma delas perguntou, se inclinando como se partilhássemos um segredo.

— Ele não foi embora, está desap…

— Claro que foi, tanto trabalho jogado fora! — outra resmungou.

— Ele está desaparecido — Rafael repetiu, falando as sílabas uma por uma.

— Certeza que a mulher dele estava sendo chata demais — a outra completou, balançando a cabeça com um sorriso gozador.

— Vamos, cara — Heitor cochichou, me puxando porque só agora eu percebia que estava indo em direção a elas, junto de Rafa. — Não vale a pena.

Com dificuldade, olhei para a rua novamente, me forçando a ignorar as gozações das mulheres e olhares curiosos, sabendo que todos daquela rua estavam pensando desse jeito.

Nós quatro saímos na rua, minutos depois, dispostos a entregar a maior quantidade possível de fotos do Marcelo. Eu sabia que estávamos correndo contra o tempo e um dia a mais fazia muita diferença para alguém que está desaparecido. Eram momentos decisivos e ainda tinha o perigo que a cidade se encontrava, com ataques frequentes. Nós corremos, no sentido literal da palavra, o resto da tarde inteira, passando por lojas, batendo em portões e conversando com pessoas nas ruas, porém, na primeira meia hora tivemos uma constatação óbvia.

— Já passamos nessa casa. — Rafa coçou a cabeça, olhando para o resto da rua. — E naquelas também.

Por isso, nosso maior trabalho foi achar pessoas que não soubessem do caso de Marcelo e agradecer imensamente quando alguém permitia que colássemos uma foto dele no muro ou num canto da loja.

— Quantas fotos faltam para vocês? — Lua perguntou, quando nos encontramos de novo e contou as dela.

— Dez para mim — Heitor disse, o conhecendo ele já devia ter contado antes.

Nós todos contamos, a média era de oito fotos, o que nos dava quase uma hora entregando. Continuamos andando devagar, pesando os prós e contras de distribuir as fotos, após o pôr do sol, quando avistei a lanchonete de Henry e o observei varrer a calçada. Não tirei meu olhar dele, mesmo quando passamos e precisei virar o rosto para olhar.

— Você quer ir lá?

Levei um susto e Luana sorriu. Seu olhar seguiu o meu para Henry, puxando as cadeiras e as limpando.

— Não, de boa, não estou com fome — disse e me virei para ela, esquecendo Henry atrás de mim.

— Sei que você não gosta dele. — Ela jogou e ergueu as sobrancelhas para a minha careta. — Isso está estampado na sua cara. Porque?

— Eu… — Me atrapalhei vendo sua sobrancelha levantar mais ainda. — Claro que gosto dele.

Seu olhar cansado me fez dar um sorriso sem graça. Não queria a preocupar, fazê-la imaginar que Tadeu estivesse em perigo ou algo assim. Um resmungo característico nos fez levantar o rosto. Ben estava se aproximando.

— O cara deu as caras? — Ben perguntou e puxou uma das fotos da mão de Rafael.

— Oi, não é? Vamos o achar em breve — Rafa disse, pegando de novo a foto.

— Ouvi dizer que ele se mandou, sério isso? — perguntou, pegando de novo a foto para olhar.

Luana se mexeu rápido assim que ouviu isso, o olhar dela soava como um “não se atreva".

— Não, não fugiu… Espera, como você sabe disso?

— As notícias correm, querida.

— Começaram a espalhar a notícia, que povo rápido — Luana murmurou, para si mesma.

— Vocês vão entregar as fotos ou ficar nessa moleza? — Ben disse, no momento que meu celular vibrou, no bolso.

— Oi, vó.

“Querido, onde você está? O ônibus está atrasado?”

Havia esquecido de avisar a ela.

— Fui pra casa da Luana, quando chegar conto.

“Mas você vai vim para casa a pé?”

— Sim, vó. Com todo mundo.

“Querido, venha para casa agora, está tarde.”

— Mas acabou de escure…

Ela já havia desligado, o que significava que sua última palavra era lei.

— Vamos para casa? — sugeri e dei uma última olhada em Henry.

— Vam…

— Tinha esquecido que vocês são filhinhos de mamãe. — Ben riu, com as mãos no bolso. — Quer dizer, de vovó.

— Não enche — Rafa murmurou.

— Achei que tinham vindo entregar as fotos do cara que fugiu. O teu parente lá.

— Ele não fugiu — Luana explicou a contra gosto, se virando para mim. — Vamos, Zar, está tarde. Amanhã continuamos.

— Qual é, eu vim ajudar, tá ligado. Meus parças devem saber de algo. — Claro, se não tivesse sido eles que o sequestraram. — Me dá essas fotos.

Ele puxou algumas fotos da mão do Rafa, ignorando a careta dele e virou indo no sentido diferente que estávamos. Pouco depois sumiu no escuro que se formava, sem dizer nada.

— Tchau, não é? — Rafa gritou.

— Me deixa!

Meu amigo revirou os olhos por causa da irritação na voz do vizinho e voltamos a andar. Cerca de dez segundos depois, escutamos uma risada ecoar pela rua. Paralisamos, apesar de ser o oposto que devíamos fazer.

— Vocês ouviram isso? Ben, é você?

Nada, nenhuma pessoa falou e isso bastou para acreditarmos que estava tudo bem. Demos mais alguns passos, muitos mais rápidos que antes e o frio que comecei a sentir não combinava com o clima que estávamos. Prestei atenção e percebi que no começo da rua, atrás de nós, alguém nos seguia. Os passos se tornaram mais altos e rápidos e nos viramos assustados. Ben adentrava a nossa rua correndo.

— Corram! — ele gritou e nós permanecemos parados. — Não estão me ouvindo? Corram!

Ele passou por nós sem diminuir a velocidade e infelizmente os sons de passos continuaram atrás de nós, mesmo Ben estando a nossa frente. Só então caiu a ficha que não era ele quem estava fazendo aquilo. Eu não ficaria para olhar o que era, por isso comecei a correr.

— Do que é que estamos correndo? — Luana gritou.

— Eu não sei! Não deu pra ver.

De relance vi o olhar de pânico que ele tentava disfarçar com os xingamentos a nossa pouca velocidade. Havia algo sinistro atrás de nós e apesar de ter certeza que estava nos seguindo, eu não conseguia o enxergar quando olhava para trás. Um tintilar e vi a lixeira voando em direção ao muro da casa atrás de nós, junto da risada que, se eu pudesse explicar, seria a de um palhaço assassino pronto para arrancar nossas cabeças. Continuamos correndo, apesar de Heitor ter vacilado quando ouviu um cachorro chorar.

Eu estava tão preocupado em distribuir as fotos do tio de Luana que não percebi o perigo que, não apenas ele corria passando a noite fora de casa, mas nós também.

— É um ataque.