Meu avô foi repórter e durante mais de vinte anos conviveu com muitos casos de homicídios e violência, principalmente entre casais. Por isso sempre me dizia para tomar cuidado ao me relacionar com as pessoas, ninguém sabia quem pode ser perigoso ou não e que, principalmente, “não fosse um idiota com elas, porque se você for, eu vou ser o primeiro a ir atrás de você.”. E na calada da noite, me pediu para cuidar de Luana.

“Há sinais, meu neto, que são claros para as pessoas que observam. Não deixe sua amiga sozinha nisso.”

Não pensei duas vezes.

— Beatriz!

Corri, feito um idiota enquanto ela estancava nos degraus do ônibus, mas não olhava para mim. Apenas Henry tinha os olhos fixos, a segurando firme e percebi que não havia sido ela quem parou e sim ele. De repente minha coragem diminuiu.

— Beatriz, você não lembra? Íamos fazer um trabalho juntos hoje.

Dezenas de pares de olhos me encararam confusos, porém apenas um não me olhava, justamente o único que eu precisava. Henry riu, olhando de mim para ela diversas vezes antes de explodir em uma gargalhada alta, Beatriz ainda tremia. Escutei o som da buzina impaciente e sequei minhas mãos suadas. Vamos lá, Beatriz, diga algo.

Bia, você tem que ver ele?

— Não, claro que não. — Sua voz saiu baixa.

Ele afrouxou o aperto do ombro dela e não foi necessário mais que isso para que ela pulasse do ônibus, em um segundo. Ele também desceu, não antes de me dar um aceno como se compadecesse da minha rejeição. Eu fiquei ali, paralisado, me segurando na barra de metal. Havia ficado claro, era por isso que ela estava chorando naquele dia. Os sinais que meu avô dissera, estavam tremeluzindo a minha frente.

Ao meu redor, as pessoas voltavam a olhar para Ben, como se retornassem a perceber que ele estava ali.

— Vamos, Ben, vamos descer — Rafael disse, evitando transparecer que estava extremamente satisfeito com o que havia acontecido.

— Vou não, ainda faltam duas paradas. — Ben permanecia sentado no chão, com a mão no maxilar.

— Vai sim, bora, levanta — disse antes que ele resmungasse de novo. — Você quer descer ou quer ser chutado pra fora? Você quem decide.

Era verdade, após o soco de Beatriz as pessoas o olhavam corajosas, estufando o peito como se esperassem apenas que alguém tomasse a iniciativa.

— Que saco! Tá, tá, vamos descer.

— Você tá legal? — meu amigo murmurou passando por mim e acenei.

Rafa bateu no meu ombro como sinal de despedida e logo após sinalizou para o motorista e desceu. Como sempre, com aquela necessidade de ajudar Ben, de protegê-lo.

O resto da viagem até o meu ponto foi tomada por sussurros. Cheguei a ouvir que alguém não viria nesse ônibus, esperaria o próximo mesmo que se atrasasse, a ideia foi recebida com acenos fervorosos. As duas paradas seguintes chegaram rápido e eu e Heitor descemos. Assim que coloquei o pé para fora, meu celular vibrou e ver de quem era ligação me fez suspirar de alívio.

— Tadeu!

— Como prometido, estou ligando para avisar que cheguei. Aqui é incrível, Zar.

— Que bom que está gostando. — Heitor ao meu lado sorriu.

— Você está com todos?

— Apenas com Heitor — expliquei, definitivamente aliviado.

— Certo, então vou avisar aos outros. Ainda tá de pé isso de mandar mensagem sempre? — disse, com a voz de riso.

— Com certeza.

— Vou ter que des… — começou, mas parou quando pedi que esperasse. — O que?

— Você conhecia o Henry de antes?

— Ainda está com isso? — Sua voz saiu cansada. — Sim, o conheci em uma rede social, a namorada dele também. Você está o tratando bem, não é?

Eu conseguia imaginar seu olhar esperançoso, esperando não ficar decepcionado.

— Tô sim — exclamei e ele suspirou. — Obrigado.

Desliguei quando ele ia indagar e abri minha rede social rápido, sendo bombardeado por diversos rostos de Marcelo em toda a minha página. Mais e mais pessoas se envolviam na campanha para encontrá-lo e eu esperava que isso ajudasse. Na barra de pesquisas me veio a primeira constatação: não sabia que existiam tantas Beatriz’s.

Ao meu lado, Heitor continuava a conversar.

— Pensando bem, seria uma boa a gente ir…

Cocei a cabeça enquanto entrava e saia das páginas a procura do seu rosto, enquanto andava no automático.

— Henry. Cuidado! — ele exclamou, no momento que eu batia minha cabeça.

Levantei o rosto rápido, jurando que Henry estava na minha frente, mas suspirei quando vi que era apenas uma árvore.

— O que tem ele? — perguntei, com a mão na cabeça.

— Ir visitar a lanchonete. Poderíamos ir após entregar as fotos. Não acho que seja legal ignorar o novo do…

A mecha rosa em uma das fotos de perfil me chamou a atenção e cliquei. A segunda constatação foi que, não haviam fotos de Henry e as dela eu podia contar em uma mão. Continuei rolando a página, em compensação, suas postagens eram dezenas e na maioria delas, triste.

— Zar, você tá me ouvindo?

— Sim — murmurei e o olhei. — Essa frase é de alguma música?

Estendi o celular para que ele lesse.

— “O que rodeia sua cabeça? A morte. E o que ela te diz? Que minha única saída é ela.” Não, não conheço nenhuma música. Quem postou isso? Foi alguém conhecido?

Balancei a cabeça negando e peguei o celular de sua mão, seria estranho dizer que estava vasculhando a rede social de uma garota que acabei de conhecer.

— Soa como um pedido de socorro — ele murmurou se afastando, havíamos chegado a rua que nos despedíamos. — Não parece nada bom.

A medida que eu me aproximava de casa, percebi o quanto suas postagens ficavam cada vez mais angustiantes. Ela estava perdida e acreditava que não tinha solução. O que Heitor dissera me remoía a cada nova frase que eu lia, até quando, num clique incerto, mandei solicitação de amizade.

Era sábado e estávamos em frente a casa de Heitor, enquanto ele tentava, com esforço, fechar o portão que seus cachorros insistiam em passar. Substituímos a corrida de bicicleta da tarde por uma visita à casa de Alice. Não tivemos a oportunidade de falar diretamente com ela e naquele dia parecia ser a melhor opção.

Dei uma olhada no celular, enquanto andávamos, com a esperança que Tadeu tivesse mandado alguma notícia, porém desde aquela noite ele não atendia mais as ligações. Eu dizia para mim mesmo, repetidas vezes, que não tinha com o que me preocupar. Também não tive a confirmação de amizade de Beatriz. Fazia uma semana sem sinal de nenhum dos dois.

Por outro lado, tinham cinco mensagens da minha avó, todas perguntando se eu já estava voltando para casa e que não me atrasasse. Um costume que ela adquiriu nos últimos dias e eu não me surpreenderia se fosse porque ela voltara a assistir os jornais. Ela sempre se preocupou demais com todo tipo de tragédia.

Assim que chegamos no portão da casa de Alice, fomos recebidos pelos dois grandes cachorros que eles tinham e que eu ainda achava que eram leões. Eles estavam completamente animados em ver rostos conhecidos, mas segui encolhido atrás de Rafael. Vai que eles estavam sofrendo de amnésia.

Heitor abriu o portão e o quintal refletia a perturbação de Alice, as plantas estavam murchas e a maioria delas tão secas que não voltariam a vida nem com todos os cuidados. Luana fazia o que podia, estava faltando mais nas aulas do que indo e nós tentávamos ajudar no que podia, distribuindo as fotos no outro horário, mas não estávamos dando conta.

Heitor bateu na porta duas vezes e logo depois Luana apareceu, com um pano de prato na mão.

— Oi, meninos, entrem.

A situação da sala de visitas indicava que uma faxina se iniciaria em breve. Uma vassoura estava encostada perto do sofá a nossa frente e ao lado do centro um rodo caído. Passamos por cima dele e fomos para a cozinha.

Alice tomava café da manhã na mesa de quatro lugares, bem ao lado da janela que dava para a rua. Após uma semana sem a ver, percebi o quanto estava diferente, havia emagrecido alguns quilos e tinha olheiras maiores do que as minhas e as do Rafa juntas, quando passávamos a noite em claro jogando. Na sua frente, tinha um prato de mingau que ela apenas remexia a colher, entretida pela vista da janela.

— Tia Alice? — Lua a chamou, aproximando-se.

— Meu bem. — Se assustou, não parecia saber que a sobrinha havia ido atender a porta. — Garotos, quanto tempo. Sentem. Como vai a sua gatinha, César?

— Bem. — Sorri, porque quem gosta da Maya me ganhava. — Vive brincando com a zebrinha que a senhora deu.

Ela sorriu, um sorriso verdadeiro apesar de não estar feliz e tornou a olhar para janela, muito concentrada. Dois gatinhos entraram na cozinha, vindos do quintal e Heitor colocou um deles no colo, fiz o mesmo com o outro.

— Como a senhora está? — ele perguntou, passando a mão no gato.

— Ah… essa espera é angustiante. Qualquer barulho acho que ele está chegando — murmurou, ainda olhando para a janela, ao longe. — Graças a Deus tenho o pai da Luana e ela, não sei o que seria sem eles.

Luana que secava as panelas na pia, deu um sorriso triste.

— Assisto os jornais todos os dias. Só tem mortes e mais mortes. Não sei se fico triste por ele não aparecer neles, porque ninguém o viu, ou se fico feliz com o fato de não ser uma das vítimas. Só Deus sabe o que ele está passando agora.

Levantei a cabeça de abrupto, minha atenção redobrada quando ouvi a palavra “mortes”.

— Mortes, dona Alice? — Rafa fez a mesma pergunta. Não que nós não soubéssemos que nos jornais só haviam mortes, mas era estranha a ênfase nessa palavra.

— Vocês não estão assistindo os jornais? — perguntou, nos olhando pela primeira vez diretamente, indignada.

Balançamos a cabeça em negação, levemente envergonhados. A resposta dela só havia confirmado que tinha algo estranho, até Luana parecia não saber, porque parou de secar os pratos.

— Ah! Juventude. — Balançou a cabeça também em negação, voltando a olhar a janela. — Tem uns cinco dias que a única notícia nos jornais são essas mortes estranhas e suspeitas. Algum animal deve estar solto por aí.

— Animais, tia? — Lua perguntou, com os olhos arregalados.

— Pessoas morrendo sem nenhum sinal de violência, outras com ferimentos enormes. Se não for animal, algum humano está sendo bastante cruel — respondeu e foi inevitável arregalar ainda mais os olhos, porém o olhar de Alice recaiu em Luana, que estava ainda pior. — Não queria te preocupar com isso.

Eu estava paralisado, olhava fixamente para a mulher a frente esperando que fosse brincadeira. Como estavam acontecendo mortes mais que o comum e eu não percebera?

— Quantas?

— Muitas, garoto. — Os olhos de Alice se fecharam e ela parecia lutar para não chorar. — Assistam o jornal hoje.

Eu queria saber mais, que notícias eram essas e o que a polícia estava achando que era. No entanto, não podia perguntar mais que isso a Alice, ela ainda permanecia com os olhos fechados e eu não podia piorar isso. Tínhamos certeza de que Marcelo estava em perigo e a perspectiva de que ele pudesse ter sido sequestrado só aumentava a necessidade de fazer algo.

Alice finalmente terminou de comer e se pôs de pé, não deixando que a Luana pegasse o prato.

— Agora temos faxina.

Nós três nos oferecemos para ajudar e ficamos cerca de duas horas varrendo e tirando o pó de todos os móveis. Alice participava de tudo, rindo da dificuldade de Heitor em diferenciar um produto de vidro de um de madeira ou de mim, sempre mudando de cômodo quando algum dos cachorros aparecia. Ela insistia que não eu não devia fazer isso, dizendo que “é mais fácil se eles acostumarem com você”. Mas eu sabia que a questão é que era o contrário.

Foi um tempo bom, percebemos que momentos assim faziam falta a Alice e os muitos agradecimentos e sorrisos, por parte de tia e sobrinha, fizeram valer a pena cada móvel puxado. A partir do momento que pisamos na rua, nós tínhamos outra tarefa a cumprir. Precisávamos assistir o jornal e foi por isso que cheguei em casa, naquela noite, mas rápido do que todos os dias.

— Cheguei, vó — exclamei, deixando a bicicleta num canto e apenas Maya apareceu. — Onde está ela, hein?

Subi as escadas em silêncio. Me lembrei de pular o degrau com defeito porque imaginei que ela estava dormindo, mas assim que cheguei ao final, a vi puxando violentamente a fechadura do quarto número quatro, o que apenas ela tinha acesso.

— Quer ajuda? — perguntei, me aproximando, mas ela ainda forçava a porta. — Vó?

Ela parou e se virou com um sorriso, enquanto passava a mão com a cicatriz de queimadura no cabelo.

— Não faço ideia onde está a chave — respondeu sem fôlego, se afastando, de olho no relógio do pulso. — Olha a hora, tenho que tomar minhas vitaminas.

Me virei junto com ela, ignorando a curiosidade para saber o que tinha nesse quarto, já havia desistido de tentar. Descemos as escadas, ela ainda ofegante e fomos para a cozinha. Minha avó pegou o potinho de vitaminas no armário da cozinha e aproveitei para contar tudo o que Alice dissera. Me assustei quando ela apenas suspirou, confirmando todos os acontecimentos e repetindo o que mais cedo uma tia disse a sobrinha “não queria te preocupar”.

— Por isso a senhora está tão preocupada esses dias — murmurei. — Quando soube?

— A missa havia terminado, veio o jornal depois e como eu estava na cozinha, deixei. Desde que me aposentei tenho parado de ver as notícias, só tem tragédia — comentou, relembrando os anos que passou na redação do jornal. — Mas fui pega de surpresa em como a situação está horrível. Desde então tenho assistido. Eu realmente não acho uma boa ideia você fazer isso.

Eu estava ligando a televisão e mudando de canal, interrompendo a voz do padre que dava a bênção final. Não demorou para que o jornal começasse e me vi mordendo a bochecha de ansiedade. Com um suspiro alto, mostrando que não concordava com isso, minha avó indicou o sofá e nós dois sentamos. Segundos depois, o jornalista dava início a primeira manchete.

“Na noite de ontem a polícia relatou que recebeu mais uma ligação do Caso poente. Era de uma mulher, Amélia Mendes, que pedia socorro. Infelizmente estava tão assustada que não deu detalhes de quem estava atacando sua casa. A polícia chegou na residência três minutos após o chamado. A garota já se encontrava sem vida.”

O jornalista suspirou, segurando com mais força que o necessário os papéis em sua mesa e continuou.

“Havia cortes leves e alguns machucado sem seu corpo. A polícia ainda investiga a causa da morte. A casa estava com móveis quebrados e cheia d'água. Esse acontecimento foi o mais perto que conseguimos chegar do culpado por todas essas mortes. Continuem ligando, por favor, quando algo suspeito acontecer. O número que está aparecendo na tela é para um atendimento mais rápido, a polícia saberá que o pedido de ajuda é relacionado ao Caso poente. Nessa noite também foram encontrados mais três corpos em situações parecidas com o de Amélia.”

Minha avó levantou as pressas e escreveu o número que aparecia na televisão no caderno que tinha anotações de receitas. Esse simples movimento deixou todos os meus pelos em pé, a perspectiva de algum dia precisar daquele número era assustadora. Após um segundo de hesitação, colocou o caderno num local mais aparente do que antes, logo acima da televisão.

“O corpo encontrado há dois dias no campo foi finalmente reconhecido, o nome dele é Sérgio Augusto. À família, nossos pêsames. A polícia pede a todos que evitem deixar suas casas após o anoitecer por longo tempo. Fiquem em casa, todo cuidado é pouco.”

Eu não conseguia escutar mais, por isso apertei o botão de desligar da televisão. Ficamos nós dois em silêncio, olhando para os próprios pés, enquanto minha avó abria e fechava a boca tentando começar algo, mas não precisou.

O som da campainha nos despertou e levantei primeiro que ela. Fui para sala e abri a janela para olhar quem era. No portão, parado com um vasinho de flores, estava Henry, o cara estranho do ônibus.

— Quem é, César?

— Espera aí, vó.

Com um pé atrás, pensei por um momento se eu deveria abrir o portão. Ele encontrara a minha casa e poderia tranquilamente estar com raiva por eu ter tentado impedir Beatriz de ir. Ou sabia que eu não ia com a cara dele. Tadeu podia ter falado. Não soava uma boa ideia abrir o portão para um estranho, muito menos quando ele não parecia uma boa pessoa. Estava pronto para dar meia volta quando minha avó veio ver o que era.

— Porque não foi atender? — disse, abrindo a porta.

— Melhor não…

Como dizer que ele podia estar com raiva de mim? Minha avó estava no portão e o que ele disse foi o suficiente para me deixar de olhos arregalados.

— A senhora é a dona Sara?

Já era ruim o bastante ele saber a minha casa, que dirá o nome de minha avó. Apressei meus passos para chegar até eles, se ele queria conversar, seria apenas comigo. Na luz da rua, eu o via melhor, tinha um sorriso de orelha a orelha, que não o deixava só bonito, mas esquisito. Sua mão estava levantada, o bracelete dourado a amostra.

— Sim, sou. E você é? — ela perguntou, a apertando.

— Um amigo meu, vó — comecei, segurando seu ombro e a puxando. — Que coisa, havia esquecido disso.

Comecei a arrastar enquanto ela me olhava confusa.

— Eu te conheço?

Virei meu rosto ainda mais confuso que minha vó.

— Você não me conhece?

— Tenho quase certeza que não — murmurou e então seus olhos se iluminaram. — Espera, você é o amigo do Tadeu e o cara do ônibus. Que cabeça a minha, claro.

— Vocês se conhecem ou não? — minha avó murmurou e Henry riu. Ele parecia uma criança entusiasmada.

— Me perdoe. Sou o Henry, neto do Ernesto. — Ele estendeu a mão e me lembrei, claro, o cara do carro.

— Então, você não ve… Neto do Ernesto. — Balancei a cabeça, soltando todo ar. Minha avó não prestava mais atenção no meu espanto.

— Não sabia que Ernesto tinha filhos. — Ela sorriu. — Como vocês dois se conheceram?

— Uma situação com a minha namorada, ela tem o gênio forte, já fiz de tudo, mas é complicado. Depois de um esforço ela me contou que o seu neto ajudou-a. — Ele estendeu a mão e recebi um cutucão da minha avó, precisei levantar. — Me desculpe pelo incômodo que ela te deu e obrigado.

Toda a frase de Henry soava suspeita, principalmente falar como se Beatriz fosse sua irmãzinha que precisava de uma lição, mas minha avó estava encantada por eu ter feito algo legal e mais ainda por estar conhecendo um neto do Ernesto.

— Vim apenas me apresentar e trazer essas... — começou e tinha um sorriso meio abobalhado quando coçou a cabeça.

— Orquídeas — minha avó completou, fazendo os dois rirem.

Henry trocou mais algumas palavras com a minha avó, sempre empolgado demais com qualquer assunto que ela mencionava. Eu continuei parado, os olhando. Meu novo vizinho explicou de onde veio, do sul do País, que sua mãe foi fruto de uma relação momentânea de Seu Ernesto e que estava radiante por conhecer seu avô. Também disse aquilo que todos sabiam, Ernesto não estava em casa, mas voltaria logo logo. Após longos quinze minutos de risadas, ele disse que precisava sair.

— Uma hora dessa? — eu disse pela primeira vez. — Você não soube dos ataques que está tendo?

Minha avó, ao lado, balançou a cabeça freneticamente. Ela abriu a boca, mas a risada de Henry, o mesmo riso de quando me viu chamando por Beatriz, apareceu e era presunçoso.

— Sei me cuidar.

— Irei ter uma conversa com Ernesto, onde já se viu, deixar o neto sair nesse perigo — minha avó murmurou.

Acompanhei com o olhar Henry atravessar a rua com tranquilidade e a segui-la, o perdendo de vista no escuro que se formava, pelos postes de luz defeituosos. Ele era quase o único na rua naquela hora e continuou sendo durante os três dias que passaram, quando decidi o seguir.

Estava perto de escurecer e prometi para mim mesmo que o seguiria apenas até a hora que os policiais aconselhavam, não iria me colocar em risco para provar um ponto. Ele andava despreocupado, por isso não foi difícil o acompanhar e pude deixá-lo ter uma dianteira para não abrir suspeitas. O perdi de vista durante um segundo, quando ao virar a rua estanquei, Beatriz estava indo ao encontro de Henry. Tentei enxergar, na pouca luz que a rua tinha, se ela estava sorrindo, mas o que eu via era apenas o sorriso dele.

Os dois sentaram no banco da pracinha e eu me escondi atrás do muro de uma casa, era a primeira vez que os via juntos após o acontecimento no ônibus. Apurei a audição no momento que ele ria.

— Como está indo o contrato de aluguel? — disse baixo e eu estiquei a cabeça. Ela devia ter dito algo engraçado porque ele riu mais ainda. — Você está bem?

— Claro que sim. — Sua voz estava grossa. — Me deixe sozinha.

— Não posso, você não parece bem. — Ele deu de ombros e o seu tom despreocupado me fez franzir a testa. — Seria muito mais fácil se você apenas admitisse sua fraqueza.

— Eu não sou fraca!

— Venha comigo essa noite, vai ser útil — ele murmurou enquanto se aproximava dela. Precisei esticar minha cabeça mais ainda.

— Você que está envolvido nisso, não tente me queimar, eu vou resistir. Sozinha. — Sua voz estava repleta de nojo.

— Te queimar? Isso te fará bem. Você não conhece as pessoas certas. — Ele não ria mais.

— Mas... toda noite — murmurou e meu corpo estava imprensado na parede fria, digerindo cada palavra.

— Você vai se sentir forte, além de ajudar a todos.

— Toda noite, não vou conseguir. E se der erra…

Arrisquei colocar a cabeça para fora do meu esconderijo. Henry não ria, apenas a abraçava pelo ombro. Dela, eu via apenas a mecha rosa.

— Não dará, cuidarei de tudo. Você apenas vai, faz tudo o que precisa fazer e volta.

— E se me virem? A polícia... por toda parte.

— A gente fala a verdade.

— Essas pessoas… — Coloquei minha cabeça de volta no momento que ela secava o nariz.

— Sim, estão sofrendo muito. Vamos diminuir o…

— O sofrimento delas.

— Posso contar com você? Não resista, estamos fazendo o que é certo.

— Diminuindo o sofrimento.

Eu não sabia o que pensar, jurava que eles conseguiam escutar minha respiração ofegante, porque não era possível. Mas eles continuaram conversando e apesar deu não entender nada, uma menção me fez parar de respirar.

— Aquele homem, da lanchonete. Como você o convenceu?

— Ah, foi fácil. Sou bom nisso.