O som do ar sendo purificado era um silvo constante e reconfortante, sobrepondo-se ao tamborilar abafado da chuva lá fora. Quando o HUD indicou ATMOSFERA SEGURA, o Sargento Miller foi o primeiro desprender seu equipamento. O som do selo pneumático do seu capacete abrindo foi como um suspiro de alívio coletivo e se misturou com sua respiração longa logo em seguida.


Sanchez seguiu o exemplo. Ao retirar o capacete, o ar da colônia (embora seco e com um leve cheiro de metal e produtos químicos) pareceu o melhor perfume do mundo. Ele passou a mão pelo rosto suado, sentindo a brisa do sistema de ventilação. Seus músculos doíam com o alívio da tensão constante. Alguns pontos com dor que ele nem se lembrava mais, voltaram a incomodar.


— Nada de baixar a guarda — Miller advertiu, sua voz soando estranhamente humana e cansada sem o sintetizador do rádio. — Sanchez, Kael, tragam o Ortega para aquela mesa grande atras desse balcão. Se vamos ficar aqui por dois dias, precisamos de mais do que selante biológico e sorte. Nesse grande saguão deve ter algo que possamos usar. Vamos procurar.


Sanchez e Kael trocaram olhares cansados antes de apoiaram nos joelhos e nas armas para se levantarem. Eles a sala atras do balcão em sua base de operações. Enquanto Kael monitorava as câmeras de segurança, que agora mostravam corredores com movimentações daquelas sombras esguias vagando sem rumo, Sanchez e Miller focaram em Ortega. O carregaram e o acomodaram, retirando sua armadura e vendo o estrago das suas feridas.


-Eu pensei que estaria pior. -Falou Miller. – Algumas costelas quebradas e aparentemente sua perna. Eu a colocaria no lugar, mas não quero correr o risco de piorar ou chamar a atenção dos monstros. Não podemos descartas danos internos. Nossa queda foi feia.

Eles se afastaram de Ortega.


-Kael estamos seguros?


-No momento, sim sargento.


-Então vamos da uma olhada por esse saguão. Vamos procurar suprimentos.


Cada um foi para um lado, vasculhando cada pedaço e ate por baixo dos armários e moveis revirados, tomando cuidado para não fazer muito barulho e atrai os monstros que tinham dado uma breve trégua.


Sanchez encontrou um pequeno estoque de de soro e analgésicos de grau militar em uma caixa que devia ser de alguma entrega recente. Kael encontrou em outra caixa próxima um estoque de rações de emergência na sala dos funcionários. Não era comida de verdade, mas tinha as calorias necessárias para mantê-los alertas. Miller teve esperança de encontrar munição, mas aquela não era uma estação militar, e por isso não puderam contar com esse achado. Esse era o problema real. Eles tinham pouco. Miller ordenou que cada tiro fosse contado.


-Se elas não entrarem, nós não atiramos.



Levaram os suprimentos médicos e administraram no Ortega que finalmente recuperou a consciência, e com ajuda de um tecido em sua boca para silenciá-lo, Miller colocou a perna no lugar, ele desmaiou, mas logo voltou a consciência embora estivesse grogue e com muita dor.


O tempo em Xylos-4 parecia se arrastar. O brilho carmesim das luzes de emergência foi substituído por um tom branco-azulado mais natural, mas o isolamento ainda pesava.


— Temos que estabelecer turnos de vigia de quatro horas — Miller disse, limpando o cano de seu fuzil. — Um nas câmaras, um na barricada da porta e um dormindo. Sanchez, você começa nas câmeras. Quero saber cada movimento dessas coisas.


Sanchez assentiu e sentou-se diante dos monitores. Ele via as criaturas através das lentes de visão noturna da colônia. Elas eram fascinantes e terríveis; moviam-se com uma fluidez que desafiava a anatomia humana. Algumas batiam levemente nas portas blindadas, como se para procurar sobreviventes lá dentro.


— Elas devem estar esperando a chuva parar — murmurou Kael, sentando-se no chão ao lado de Sanchez. — O que acontece quando o céu limpar e elas ainda estiverem aqui?


Sanchez não respondeu. Ele estava olhando para uma câmera específica no telhado, onde a antena de longo alcance lutava contra os ventos. Eles não tiveram mais noticias da nave, mas perderem a chance de comunicação seria ainda pior se isso acontecesse.


Kael logo adormeceu, e mantendo as câmeras a sua vista, Sanchez sentou-se diante do terminal principal do saguão. O brilho da tela refletia em seu rosto pálido enquanto ele mergulhava nos arquivos criptografados, da estação. Um nome sempre aparecia. "Projeto Quimera", o codinome para as operações científicas da colônia.


— Sargento, você precisa ver isso — chamou Sanchez, a voz falhando levemente.


Miller se aproximou, deixando o fuzil de lado por um momento. Na tela, um vídeo de segurança datado de três semanas atrás mostrava um laboratório esterilizado. Um colono, com um pequeno corte no braço causado corte ou arranhão, estava sendo observado.


Em menos de seis horas, o vídeo mostrava o tecido do homem se retorcendo. Ossos quebravam e se fundiam em ângulos impossíveis, a pele tornava-se bioluminescente e o grito humano dava lugar ao guincho agudo que eles agora conheciam tão bem.

— Eles não foram invadidos... eles se transformaram — murmurou Miller, o horror transparecendo em seus olhos.


Sanchez abriu os relatórios do Dr. Aris, o cientista-chefe.


"A chuva azul não é apenas ácida. Ela carrega e ativa um agente biológico viral que reescreve o DNA em contato com a corrente sanguínea. O processo de mutação é 98% eficaz em indivíduos feridos pelas criaturas. Os 2% restantes... bem, as 'novas' versões de seus vizinhos os desmembraram por não serem compatíveis.

Um silêncio gelado caiu sobre a sala. Todos olharam instintivamente para o balcão onde Ortega descansava. O ferimento dele no ombro, embora tratado com selante, não tinha sido causado pelas criaturas, mas esteve em contato com a chuva.


— Ainda não aconteceu com ele — disse Kael que tinha acabado de acordar. A voz trêmula, levantando a arma.


— Abaixe isso, Soldado! — Miller rugiu. — Até onde sabemos ele deveria ter sido atingido por uma criatura para isso acontecer. Sanchez, procure uma solução. Agora!


Sanchez ignorou o pânico crescente e focou no mapa técnico. Ele não podia garantir a estabilidade Ortega agora, mas podia garantir que o prédio ficasse seguro.


— Sargento, o sistema de ventilação é integrado. Se eu sobrecarregar os sensores térmicos na Baia de Carga 4, no outro extremo do complexo, e ativar os alto-falantes de emergência lá, todas as criaturas serão atraídas pelo barulho e pelo calor. Elas pensariam que há uma massa de seres vivos concentrada ali.


— E então? — perguntou Miller.


— Assim que os sensores indicarem que a maioria está lá dentro, eu selo as portas blindadas daquela seção e ativo a despressurização de emergência. O vácuo ou a pressão as manterá presas, e eu posso trancar o resto da colônia em um protocolo de 'Setor Estéril'. Ficaremos isolados aqui no saguão, com três camadas de aço entre nós e eles.


Miller assentiu, a determinação voltando ao seu rosto. — Faça. — Kael, fique de olho no Ortega. Se ele se mexer... se ele mudar... você me avisa.


Sanchez começou a digitar furiosamente. O som dos alto-falantes ecoou ao longe, um ruído rítmico e pulsante vindo do Setor 4. Pelas câmeras, eles viram as sombras saírem dos dutos e corredores, correndo freneticamente em direção à armadilha sonora

.

— Elas estão mordendo a isca — relatou Sanchez. — Entrando na Baia de Carga em 3... 2... 1... PORTAS SELADAS!


Um estrondo metálico ecoou por toda a colônia. O prédio estremeceu quando as travas pesadas se fecharam.


— Iniciando purga de oxigênio no Setor 4 — anunciou Sanchez.


Nos monitores, as criaturas pareciam confusas, arranhando as portas impenetráveis enquanto o ar era sugado para o exterior do planeta. Eventualmente, elas pararam de se mover, ficando presas em um vácuo gélido.


A colônia Esperanza, pela primeira vez em dias, estava silenciosa. E segura. Pelo menos, aparentemente.


Sanchez olhou para Ortega. Ele parecia estável.


-Foram todos? -Perguntou Miller.

-Não temos como ter certeza. Pode ter alguma em alguma sala na qual as câmeras não pegaram.

-Bem pelo menos estamos seguros. Tente estabelecer contato com a nave e passar essas informações.

Sanchez obedeceu e com sinal criptografado jogou a orbita, quando a nave receberia dependia da interferência da chuva.


Houve um chiado e uma luz se acendeu no painel.


-Parece ser um intercomunicador. – Falou Kael e com um ascendo de cabeça de Miller, ele apertou o botão.


-TEM ALGUEM AI? POR FAVOR! ESTAMOS PRESOS, ESSAS CRIATURAS ESTÃO POR TODA PARTE. TEM SOBREVIVENTES AQUI.


Eles se entreolharam.