Xxiv
1 Aurora
Notas iniciais
Pt. I – Dis(A)cordando
A análise do lado oblíquo denota coalizão bruta e as forças do mal se ajuntam novamente. Mas o que mais eu posso fazer? Planar por sobre as colinas de grama prateada, aonde a luz se refrata infinitamente num caleidoscópio de flores e formas, e além, muito além do horizonte azul-mar-profundo. Ou seria profundo mar azul do horizonte? Sonhar com momentos de desilusão precoce, de ilusão tardia, de vivência nula e me entristecer ao toque dos sinos de cobre que, ritmicamente, cobrem de ternura crua a canção de ninar das horas. Não garanto a cadência das palavras não ditas a esmo, mas a marcha implacável segue em frente com o recuo das marés aleatórias, enquanto mariposas gigantes sobrevoam o céu púrpura. Chove sangue amargo, escorrendo para a alma e tingindo de escarlate nossas lágrimas, enquanto os escudos que nos escondem do paradoxo irreal do medo refletem a escuridão abissal do nosso ser. Caminho por um pátio de pedras pretas quando os raios de sol me perfuram como farpas afiadas pela angústia e eu caio no vazio de mim mesmo. Acordo sobressaltado em minha cama me perguntando se havia sonhado aquela vida ou se havia vivido naquele sonho mas, no fundo, não vejo diferença.
Pt. II – Das Violências do Despertar
Olhos vítreos encaram o sarcasmo do mundo, descobrindo cada sensação como se fosse única em uma miríade de luzes cortantes e sombras acolhedoras, dispondo-se em camadas de sobreposição mista formando uma aquarela borrada. Martelos sonoros retumbam pelos salões mentais na medida em que forjam um desabrochar forçado. Gotas de verdades ácidas lavam a carne impregnada pelo mofo amarelo-apático. Visto um sentimento de obrigatoriedade mórbida enquanto dispo minha humanidade. A mesma boca seca que engole o branco gélido e a massa áspera de pó cospe a fumaça de fantasmas pálidos e a velha sonata de palavras decadentes. O sol não é mais como era antigamente e essa inimizade rasteja em meu peito, dilacerando meus sentidos com suas garras insípidas, fazendo minha alma arder em tons de cinza. Mas por hora prefiro não gritar, sigo calado e deixo que meu silêncio velado seja uma resposta para tudo.
Pt. III – A Selva do Século XXI
Levanta-se o véu e, como formigas desesperadas, elas dançam um balé incessante de gaiolas de aço e grilhões de pano, em um palco opaco regado a suores e fumos. Agulhas de concreto entrelaçadas por linhas de ferro e quartzo tecem a teia imaginária desse emaranhado frenético que permeia nossa caminhada fugaz. Aquários humanos se amontoam, formando pilhas concretas de vazios sentimentais que brotam do chão estéril como flores putrefatas. Manchas de um verde pálido infectam a paisagem entristecida, como um fungo que se ocupa da carne morta. Um maquinário biológico embotado de cimento e lágrimas perambula atordoado, com o ânimo abafado por essa névoa de marasmo inebriante que se estende ilimitadamente e flui de forma espectral contornando esse teatro de tragédias seqüencialmente familiares através dos rios de piche, desembocando no pano de fundo oceânico da mediocridade, a qual todos reverenciam. Quanto a mim, nesse cenário de hostilidades mil, onde letras garrafais gritam e fluorescências alternantes brincam com tamanhos e tons, nada me chama a atenção.
Pt. IV – Recompensando Almas com Areia
Os instintos são mestres-de-obras de uma sistemática em ruínas. Labuta bruta, que é, a partir das necessidades, lapidar o alimento. Mas quem se atreve a nadar contra a gélida correnteza da cadeia de comando que nos agarra com suas mãos de ferro? A constante falta de futuro rasteja sobre os trilhos enferrujados do progresso, enquanto ninhadas esqueléticas roem os ossos de sua própria miséria. Marchamos em um padrão inaceitável através dos cacos ruidosos de nosso sustento, na tentativa vã de aceitar o amargo reluzir pelo qual nos vendemos paulatinamente. Formigas operárias são queimadas pelas lupas da opressão, sem sequer entender o significado da palavra “remorso”, mas moldando seus dicionários com a condescendência. Encarcerados pelas possibilidades abstinentes, entregamos nossa guarda a cães de terno que nos fazem lamentar termos menos braços do que funções. Dando mais que recebendo, consumindo mais do que criando, a roda segue sua sina autodestrutiva, e lá no fundo tudo que ouço é o som comercial de nossos sonhos quebrados.
Pt. V – Dualidade Encarnada
Tudo que vejo são insetos alinhados em figuras disformes, o caos manifesto em toda sua graça e desgraça. Nem o abismo mais profundo consegue ser mais escuro que esse enigmático conjunto de possibilidades, e nem mesmo a estrela de maior grandeza brilha mais que esse ser que habita em um piscar de olhos. Toda a serenidade necessária pra entender tamanha balburdia é encontrada no âmago da desordem organizada que compõe cada um de nós. Catastrofe diária sem precedentes que consegue ser tão frutífera e gratificante, e apesar dos pesares nos compadecemos de toda a tristeza mútua que é causada. As erradas tentativas de acertar e as certas tentativas de errar não se distinguem muito à medida que encaramos o que se perdeu pelo caminho da conquista dos nossos medos e prazeres. Explorar o desconhecido e escarrar em sua face irônica, enquanto trememos diante as certezas, isso tudo antes do despertar. Nos moldamos e fabricamos e desmontamos e caímos e levantamos, para nos criar novamente, em ínfimas frações de segundos. Amar o que podemos odiar, odiar o que podemos amar, estarmos fadados a escolher sem realmente vislumbrar um final, ao menos um que faça sentido. Sermos livres pra comer a maçã, ou engolir o sapo. São essas coisas que, no fim, nos fazem humanos.
Pt. VI – O Cárcere Invisível
Rituais puídos são embalados em papel brilhante e trazem a mesma nostalgia que se manifesta quando olho para meu próprio passado e sinto o cheiro da inocência perdida pelas vielas tortas do amadurecimento. A repetição mecânica abalroa os sentidos e apodrece toda a beleza diária. A possibilidade imprevisível é trocada pelo conforto dos gestos decorados, por medo dos vislumbres inimagináveis escondidos em meio à sujeira que varremos para de baixo do tapete. Programando aritmeticamente e com precisão cirúrgica cada movimento, cavamos nossa cova de cores nulas em um cemitério de procedimentos e maneirismos. Costumeiramente ignoramos tudo que poderia ter sido se simplesmente nos atrevêssemos a abrir os olhos. Pedimos permissão pra sentir, assinada e carimbada em três vias, e não entregamos nossas vidas ao “deus dará”, por receio de nada receber. A obediência reina absoluta em seu trono cravejado de dogmas enquanto a espontaneidade mendiga migalhas de atenção entre os loucos. Tomamos a iniciativa de sermos iguais, afogando nossas diferenças em uma enxurrada de desculpas esfarrapadas. Mas é melhor existir em uma vida ou viver em uma existência? Infelizmente isso só se aplica àqueles que se permitem sonhar com uma escolha.
Fale com o autor