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4 Minha querida Alice Perdida - Parte 04
Zona Leste, distrito urbano velho, o “Elevado”. Originalmente, o projeto de conversão de uma via elevado num parque atraiu construtoras e iniciou um processo de transformação da área em um bairro de alto nível. A construção do parque, por razões pouco conhecidas e menos entendidas, jamais foi finalizada. O projeto de renovação da região foi abandonado e a construção de todos os edifícios interrompida. O planejado bairro rico e os futuros prédios de luxo se tornaram abrigo de gangues.
Nenhuma das lâmpadas naquela rua funcionavam. As únicas luzes que chegavam ali eram os reflexos dos holofotes, os brilhos de neons envelhecidos e os faróis das naves particulares que passavam voando por ali. Num bar improvisado, um grupo de seis jovens enchia a cara num bar improvisado com uma mesa mambembe, latas de lixo e uma relíquia que um dia provavelmente tinha servido para tocar música, mas que então se resumia a chiar como um velho forçado a trabalhar.
Um dos jovens se virou para o escuro, jurando que tinha ouvido passos. O álcool e a falta de luz não ajudavam na visão, mas ainda assim ele poderia jurar que tinha ouvido o “clep-clep” inconfundível de sapatos de mulher. O jovem puxou uma lanterna de serviço do chão, tentou ligá-la, deu uns tapas nela quando a luz não veio e apontou-a para de onde achava que tinha vindo o barulho quando a luz veio. A essa altura, os outros cinco já tinham deixado os copos de lado para tentar ver o que quer que o jovem achasse que tinha visto. Por causa disso, provavelmente foi uma decisão mental unânime e quase sincronizada deles colocar as máscaras de Coelho quando a lanterna abriu o breu e entrou lá dentro dele uma garota loira, num vestido gótico preto e usando uma máscara de borboleta. E provavelmente também foi uma decisão da maioria inquestionável abordar a Borboleta já com os bastões elétricos e barras de ferro na mão. O da lanterna foi o primeiro a se levantar e ir até a Borboleta, durante todo o caminho arrastando uma barra de ferro no chão.
A cerca de três metros do Coelho com a lanterna, Marie parou. Os Coelhos, educados como sempre, não acharam de bom tom deixar a pobre Borboleta isolada no escuro e então decidiram, para variar, unanimemente, cercá-la. Por alguma razão muito difícil de entender, Marie fechou a cara para os Coelhos.
— Ei, olha só quem está aqui – um dos Coelhos disse, apoiando sua barra de ferro no ombro e se aproximando da Borboleta por trás. – Tá fazendo o que aqui, garota? Machado não te disse que não era para voltar aqui? Você tá invadindo o território dos outros. Tá querendo comprar uma briga?
Marie e cruzou os braços e se virou para o Coelho.
— Esse território é da Alice! – ela disse. – Você não tem dignidade? Não, não. Você não tem cérebro? Sabe o que a Alice vai fazer com vocês quando ela voltar?
Outro Coelho chegou por trás da Borboleta colocando as mãos sobre os ombros dela.
— Qual é? – ele disse. – A gente não tem que se preocupar com isso. A Alice não vai voltar. A essa altura os Cachorros já pegaram ela.
Alice virou a cabeça para o Coelho que a tocava.
— Cai – ela disse.
Do mesmo modo que teria acontecido caso um piano tivesse despencado em cima dele, o Coelho afundou no chão. Três dos outros Coelhos recuaram um passo, um ficou no lugar e outro avançou, colocando a ponta do seu bastão elétrico no pescoço de Marie.
— Você acha que é grande coisa só porque tem um número? – ele disse. – Todo mundo sabe que você é fraca. É só calar a sua boca e você vira uma ratinha.
O Coelho apertou o bastão com mais força, até sentir o pescoço de Marie resistir, e então sorriu.
— Que você era idiota todo mundo já sabia, mas para vir aqui sozinha? Você é um desperdício de número.
Por trás da máscara, o rosto de Marie era uma única mancha raivosa.
— Eu podia acabar com vocês todos sozinhas! – ela disse. – Antes de vocês poderem fazer qualquer coisa!
— É? – o Coelho disse rindo. – Então porque você não tenta?
O cérebro do Coelho lançou o comando para que seu dedo pressionasse o botão no cabo do bastão elétrico que ativaria a corrente, desferindo um choque de meio ampere diretamente no pescoço de Marie. Com uma velocidade aproximada de quinhentos quilômetros por hora, um sinal levaria uma fração de segundos para chegar do cérebro até o dedo do Coelho.
Uma fração de segundo, entretanto, foi o necessário para que alguém descesse por sobre o Coelho, atingindo-o com os pés e o plantando firmemente no chão. Uma fração de segundo foi o necessário também para que os outros Coelhos interpretassem a figura que aparecera ali como Ekaterina. A Gata se levantou devagar, olhando para os Coelhos por sobre os ombros.
— E agora – ela disse – vocês saem correndo, entenderam?
Dos quatro Coelhos, três não pensaram antes de obedecer ao comando. O quarto apontou para Ekaterina a barra de ferro que carregava.
— Sério? – a Gata disse.
— Eu não sou um frango feito eles! – o Coelho gritou.
E então, ele atacou. O golpe atingiu o rosto de Ekaterina com o peso de dezenas de quilos, energia o suficiente para jogá-la no chão, atordoada.
Ou ao menos era esse o resultado esperado pelo Coelho.
No momento em que o momento do golpe cessou, o Coelho sentiu o peso da barra de ferro reduzido. Naturalmente, uma barra de ferro perder peso de repente não é uma ocorrência esperada, então não é de se surpreender que o Coelho tenha procurado uma explicação para isso, o que ele encontrou no fim da barra de ferro, que estava muito mais perto do começo do que antes, e brilhando como se tivesse sido esquentado. Obviamente, essa solução abria outro mistério, então também não é de se admirar que o Coelho tenha continuado procurando explicações, dessa vez encontrando elas na mão esquerda de Ekaterina, onde o resto da barra de ferro estava brilhando e derretendo. O olhar do Coelho subiu para o rosto da Gata e o ferro derretido e retorcido pelo calor foi parar aos pés dele com um “clinque-clinque-clin” metálico.
— Sabe por que eu sou a Imperatriz Vermelha? – Ekaterina disse. – É por que quando eu digo que uma coisa vai acontecer, ela acontece. Sem exceções. Então, agora você foge.
E uma vez mais o título de Ekaterina permaneceu inquestionado.
Quando o Coelho já estava longe, Ekaterina olhou para a palma da são esquerda. A luva que usava ali estava parcialmente queimada.
— Parece que eu fui longe demais – ela disse tirando a luva e a jogando no chão.
— Você precisava realmente ter chegado pulando em cima dele? – Marie disse. – Foi tão exagerado.
— Você precisa realmente usar uma calcinha com borboletas? – Ekaterina disse, puxando a máscara do rosto de Marie. – É tão fofo. Não combina mesmo com você.
— Para com isso!
—Sua reação é incrível – Ekaterina disse, sorrindo. – Desculpa.
A gata jogou a máscara de volta para a Borboleta.
— Desde que você não faça de novo – Marie falou guardando a máscara na sua bolsa, de olhos fechados e cara virada.
— Não, não. Desculpe por dizer que não combinava com você. Uma menina fofa como você naturalmente usaria calcinhas fofas.
— Chega! – Marie gritou batendo o pé no chão. – Essa piada foi longe demais! Você veio aqui para procurar a Alice ou para atacar a minha dignidade?
— Certo, certo. Você vai na frente.
Os Coelhos estavam espalhados pelos corredores, parados, armados, tensos, as máscaras brancas inexpressivas, apenas observando. Marie parou na frente da porta da cobertura e tentou abri-la, mas o trinco não cedia.
— Está trancada – ela disse. – Alguém deve ter mexido no quarto.
— Por que você não derruba a porta? – Ekaterina perguntou.
Marie se virou para ela, grave.
— Esse é o quarto da Alice! – ela disse.
— Certo, como quiser. Mas não demore ou eu faço isso eu mesma.
— Nunca! Você teria que passar por cima de mim para isso?
— Escuta, é normal ser fiel aos seus amigos, mas isso não é levar as coisas um pouco longe demais? Estamos tentando achar a Alice e na situação em que as coisas estão qualquer minuto pode ser tempo demais. Eu sei que você gosta da Alice, mas isso é para o bem dela.
— Isso é verdade, mas… – Marie disse, braços cruzados, rosto perturbado – eu vou ser rápida.
— OK – Ekaterina disse abaixando os ombros. – Seja rápida.
A Borboleta anuiu e enfiou as mãos na bolsa. A Gata deu dois passos na direção da janela. Lá estavam elas de novo, no céu, as naves de luxo. Outra vez, uma delas estava parada numa posição, jogando todas as suas luzes para baixo e emitindo um cheiro notável de nãoconfiabilidade. Ekaterina apertou um botão no lado de seus visores e sua visão foi jogada para o mais perto da nave que o zoom permitia chegar.
— A mesma nave – Ekaterina murmurou.
A coceira estava ali, bem atrás das orelhas da Gata, e ela fez questão de coçá-las até que recebesse uma resposta.
— Quero que você cheque o registro dessa nave – ela falou. – Melhor. Checa tudo que você puder sobre ela.
— Eu vou tentar, mas você sabe como é – Angelo respondeu nos fones de Ekaterina. – Se tiver algo de errado eu não vou poder acessar. Os donos das Baleias sempre são peixes grandes.
— Eu sei. Mas mesmo assim quero que você vá atrás. Se conseguir pelo menos pegar o itinerário dela já vai ser alguma coisa.
— Certo, boss. Deixa comigo. Te retorno assim que conseguir.
— Certo. Obrigada.
Um clique veio seguido do rangido de uma porta. Ekaterina se virou para a entrada do quarto de Alice e lá estava Marie, mãos na cintura, sorriso escancarado.
— Viu? – ela disse. – Sem derrubar a porta e rápido.
— Você não podia simplesmente ter derrubado o barril?
— Não é assim que minha Especialidade funciona.
No momento em que seu cérebro entendeu o que tinha dito o rosto de Marie reagiu perdendo toda a cor e derrubando o sorriso para deixar o espanto ficar no lugar dele. Ekaterina só sorriu.
— Então é realmente [derrubar] – ela falou. – Imaginei que fosse o caso. Mas, sabe, você devia tomar mais cuidado com isso. Deixar um inimigo saber qual é sua Especialidade é um erro fatal.
— Eu sei disso! – Marie gritou. – Eu não sou nenhuma idiota!
— Tenho certeza de que não é. De qualquer jeito, nesse caso não faz nenhuma diferença. Você nunca teve chance para começo de conversa.
— Não fala como se você fosse muito melhor que eu! Sua Especialidade é óbvia.
— É?
— Quer que eu diga o que é? – a Borboleta falou, balançando as asas e sorrindo.
— Não – Ekaterina disse enquanto entrava no quarto de Alice.
— O quê? – Marie disse, já sem o sorriso e seguindo Ekaterina para dentro.
— Você está errada.
— Mas eu nem falei o que eu pensei!
— Não importa. Você está errada. No momento em que você disse que a minha Especialidade era óbvia você errou.
Ekaterina seguiu para o interior do quarto de Alice, aumentando a música até ela cobrir as reclamações de Marie. O quarto inteiro estava decorado com bonecos de pelúcia, cortinas coloridas, móveis de madeira e pinturas. Uma das telas era um retrato de Alice, sempre tão altiva, e Marie, com o sorriso esticado até as orelhas, lado a lado, sentadas num jardim. Marie parou um passo atrás de Ekaterina e ficou encarando a pintura, a cor dos seus olhos se umedecendo.
A Gata seguiu para o centro do cômodo e lá parou, respirou fundo, fechou os olhos… um circuito foi ativado em seu cérebro… ela abriu os olhos.
Digitaispegadasriscosparteslimpasnopómarcasdemãolençóiscolocadoserradosumlençojogadonochãoobatentemolhadopordentronada.
De olhos fechados, Ekaterina ficou imóvel, só respirando. Um, dois, três, quase lá. Abriu os olhos. Marie a encarava com cara de ponto de interrogação.
— O que você está fazendo? – a Borboleta perguntou.
— Não tem nada aqui – Ekaterina falou. – Mexeram no quarto.
— O quê?
— Você mesma disse que a porta estava trancada. Eles reviraram o quarto inteiro. Provavelmente depois que você saiu. Eles deviam estar procurando alguma coisa que deixaram para trás.
— O cartão de visitas! Eu peguei ele no dia que a Alice sumiu! Então essa deve ser uma pista importante!
— É melhor do que nada. Mas isso não muda o fato de que ninguém sabe nada sobre esse tal “Circus Maximus”.
— Isso não é verdade! O Demônio sabe!
— O que aconteceu com a sua tal “dignidade”?
— A Alice é mais importante! Se é para salvar ela, eu vou fazer qualquer coisa! E você não devia fazer o mesmo? Você é a Imperatriz!
O calafrio subiu pela coluna de Ekaterina mais uma vez, até seu cérebro, até sua memória.
O sorriso.
As lágrimas.
O punho.
A dor no peito. Tudo de novo. Mas, dessa vez, ela estava sozinha.
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