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2 Minha querida Alice Perdida - Parte 02
Pan Reichenbach continuava inquirindo o quadro negro, mas as informações ali continuavam se recusando a fazer qualquer semblante de sentido, mesmo depois de horas. Era quase como se elas intencionalmente desafiassem alguém a resolver um problema que, no fundo, não tinha nenhuma resposta lógica. Com a questão pesando na sua cabeça, Pan se atirou na sua cadeira e pressionou aleatoriamente três botões. A música ambiente abaixou o suficiente para mal estar lá, mas ainda manteve o silêncio longe.
O relógio no topo do monitor principal dizia que Pan ainda teria que aguentar mais uma hora antes de ir para casa e poder assistir à reprise de algum filme, beber alguma coisa e dormir. Pan suspirou e abriu seu e-mail. Algumas mensagens novas, a maioria de trabalho, um convite para congresso e propagandas de produtos que ninguém em sã consciência iria comprar. Pan salvou uma das propagandas, afinal, quem sabe quando um espremedor de suco de alta velocidade com sistema automático de limpeza poderia ser útil? Especialmente quando se mora sozinho. O olhar de Pan voltou para o relógio. Nem um minuto tinha passado.
Ele suspirou, se levantou da cadeira, andou um pouco pela sala, procurou qualquer coisa no bolso do casaco, foi até a janela, dali dava para ver uma das ruas do centro, mas não tinha ninguém para ver, não às duas e tantas da manhã. Só um ou outro carro, uma moto, talvez alguém voltando de uma festa. Pelo menos as naves continuavam no céu, era alguma coisa. Uma delas estava um tanto parada. Provavelmente uma festa. Pan suspirou de novo.
— Isso, se divirtam aí com seus jogos e bebidas e dinheiro e tudo isso enquanto eu fico aqui morrendo de tédio! – ele gritou para a nave que, provavelmente, não conseguiu ouvir.
Pan apoiou as costas na janela e voltou a encarar o relógio. Cinco minutos desde a primeira olhada. Ele abaixou a cabeça e tentou esquecer o relógio, o que conseguiu. Por cinco segundos, mas conseguiu. Ainda de cabeça baixa, ele levantou o olhar para o quadro negro, para as fotos projetadas por ele e para o seu sorrisinho cínico e convencido que estava claramente o desafiando. Pan saltou da janela para a frente do quadro negro, encarando-o com toda a seriedade de que dispunha. O que, diga-se de passagem, não era lá muito.
Uma brisa assoprou a sala, jogando o cabelo de Pan em seus olhos. Depois de clarear sua visão, Pan fez questão de olhar feio para a janela que deveria estar fechada, já que ele não a tinha aberto e janelas fechadas não deviam se abrir sozinhas. Naturalmente, porém, janelas fechadas não se abrem sozinhas, logo Pan não se surpreendeu muito ao ver a figura sentada na janela. Ele se surpreendeu muito, porém em ver que era uma Gata quem estava sentada na janela, com orelhas, visores, shorts de corrida e um três em seu ombro esquerdo.
— Ekaterina? – Pan disse.
— Hey – a Gata chamada Ekaterina disse. – Eu vou entrar.
— Certo, certo – Pan falou, escorregando o dedo pelo painel de controle para desligar todas as câmeras e sistemas de segurança. – OK, tudo limpo. Pode vir. E fecha a janela.
Pan sentou na cadeira de rodinhas e dali observou os movimentos de Ekaterina, especialmente os de sua parte inferior, enquanto ela fechava a janela. Obviamente, no momento em que a Gata se virou, seu olhar correu a todo o vapor para o rosto dela, bem a tempo de ver os olhar dela correr para o quadro negro.
— O que é isso? – Ekaterina perguntou enquanto se encaminhava para o quadro negro.
Ali estavam projetadas várias fotos em close de partes específicas de corpos de pessoas. Em todas as partes, havia números marcados na pele. Um “4” numa coxa, um “11” numa palma, um “3” num ombro.
— Essa sou eu – Ekaterina disse apontando para a foto com o ombro. – O que você está fazendo?
— Nada demais, só uma pesquisa completamente confidencial do EAE – Pan falou sorrindo. – Quer ouvir?
— Você pode mesmo falar isso para mim?
— Bom, não oficialmente. Mas, sabe, eu queria comentar com alguém e eu estou entediado e só está você aqui então, ei, quem se importa com essas coisas?
Ekaterina se virou Pan e teve de se segurar para não virar os olhos quando se deparou com o sorriso infantilmente alegre e o brilho no olhar dele.
— Tá – ela falou. – O que você descobriu?
Pan saltou da cadeira direto para o quadro negro, abraçando Ekaterina com um braço e apontando com o outro para as imagens no monitor.
— Você sabe por que o EAE tem esse nome? – ele perguntou.
— Porque ele lida com casos com Especiais?
— Bingo! E sabe por que o pessoal daqui chama vocês de Especiais?
Um suspirou tentou fugir da conversa pela boca de Ekaterina.
— Você precisa mesmo fazer esse rodeio todo? – a Gata perguntou.
— Vamos lá, eu estou entediado! E você não quer saber o que eu descobri?
Pan aproximou seu rosto cheio de alegria do rosto cheio de aborrecimento de Ekaterina. Por sua vez, a Gata aproximou sua mão do rosto de Pan aproveitando-se da súbita distância zero para afastá-lo.
— Perto demais – ela disse, tirando a mão quando o rosto já estava longe o suficiente. – Especiais são chamados de Especiais porque eles têm poderes Especiais. Satisfeito?
— Correto! Especiais são chamados de Especiais por que têm Especialidades!
— Ótimo. Por que esse tutorial todo?
— Eu já falei que estou entediado. Bem, já notou como todos os Especiais tem números em alguma parte do corpo? No seu caso é no ombro, mas tem gente que tem no pescoço, no peito e tenho certeza de que eu vi uma garota que tinha na virilha, mas podia ser só cabelo. Sabe quando junta um monte de cabelinhos e…
— Eu realmente não estou interessada em saber desse tipo de coisa.
— Certo, desculpe. Enfim. Os números sempre estão lá, mas eles nunca se repetem em duas pessoas ao mesmo tempo. Sempre só tem um número 1, um número 2 e por aí vai. Mas sempre que um Especial morre, o número dele desaparece e aparece alguém com um número igual algum tempo depois… Bem, na maioria dos casos.
Pan parou de falar de repente e se virou para Ekaterina. Ela estava olhando para um das fotos, um “17” entre os seios de uma mulher, logo acima do coração. Pan forçou um sorriso, colocou as mãos nos bolsos e se voltou de novo para o quadro negro.
— Desculpe – ele disse.
Ekaterina cruzou os braços.
— Eu já sei de tudo isso – ela falou. – Você disse que tinha descoberto uma coisa nova.
— Bem, eu estava checando alguns dados antigos. Informações de outras pessoas que viveram na cidade, sabe? Eles sempre mencionam no máximo vinte e um Especiais. Às vezes menos, mas nunca mais. É como se tivesse um limite máximo de Especiais que podem existir. Vinte e um. Parece um número aleatório, você não acha?
— Está errado. Tinham vinte e dois Especiais.
Pan deslizou a mão sobre o quadro negro e as fotos desapareceram. Ele se jogou de volta na cadeira e deitou a cabeça para trás até o teto ocupar seu campo de visão inteiro.
— Diz, você não veio aqui para jogar conversa fora – ele falou. – Apesar de eu me considerar seu amigo, você não é do tipo que faz isso – Pan dirigiu o olhar e um sorriso para Ekaterina. – Quando se trata de relacionamentos, você é uma mulher prática.
— Isso é alguma indireta? – a Gata falou enquanto se sentava na mesa.
— Bem, é verdade, não é? Você não veio aqui só para conversar. Não é que eu ache ruim. Na verdade eu gosto disso em você. Definitivamente, é uma característica positiva. A quarta melhor coisa sobre você.
— Quarta?
— Logo atrás das suas coxas.
— Minhas coxas?
— Elas são sua parte mais bonita.
— Sério?
— É. Tem essa curva bonita nelas e a firmeza. São coxas raras, acredite.
Ekaterina olhou para as próprias pernas por um instante e então para Pan.
— Você está flertando comigo – ela disse.
— Não está funcionando, está?
— Talvez em cem anos.
A risada alta de Pan se sobrepôs à música.
— Dura como sempre, Imperatriz – Pan falou e então deixou o sorriso ir embora. – Mas, sério, o que aconteceu?
— O que você sabe sobre “Circus Maximus”?
— Você quer dizer o de Roma? Por que você está perguntando isso?
Ekaterina puxou o cartão de visitas e o jogou para Pan. Assim que o pegou, Pan deixou a curiosidade pular para seu rosto.
— Um cartão de papel – ela falou. – Isso é tão antiquado. Onde você achou isso?
— Marie.
— Marie Rousseau? Ela estava andando pelo centro esses tempos. Você enfrentou ela?
— E alguns Coelhos também. Quando eu perguntei se era coisa da Alice, ela disse que a gangue tinha se separado depois que a Alice desapareceu e ela estava atrás dela.
Pan cruzou os braços e se encheu com tantos pensamentos que eles começaram a transbordar para seu rosto.
— Bem, é verdade que a Alice desapareceu, mas isso já tem cinco meses – ele falou. – Estranho ela mexer só agora.
— Cinco meses? Ela disse que ela tinha desaparecido mês passado.
— Mês passado? Isso é estranho. Bem, ela poderia estar escondida. Depois da surra que você deu nela eu não ficaria nada surpreso. Mas é estranho ela desaparecer de repente sem avisar ninguém.
— É por isso que eu vim atrás de você. Queria saber se o EAE sabia de alguma coisa sobre a Alice ou sobre esse “Circus Maximus”.
Pan se virou para o console do computador e começou a deslizar as mãos pelos hologramas, passando pastas, menus e interfaces como se estivesse apostando corrida com uma lebre esperta. Depois de uns poucos minutos, ele girou a cadeira para encarar Ekaterina.
— Não tem nada nas databases – ele disse. – Ou ninguém sabe de nada ou estão guardando com Acesso Nível 2. Nos dois casos, eu não posso ajudar. Sinto muito, E.
Pan se levantou e passou os olhos mais uma vez no cartão de visitas antes de devolvê-lo a Ekaterina.
— Mas é esquisito – ele disse. – Alice estava no Top 5. Não tem muita gente que era uma ameaça para ela. Bem, só tem duas pessoas, na verdade. Uma delas é você e a outra… bem, você sabe, não é perigo.
Ekaterina guardou o cartão de visitas.
— Acho que não – ela disse. – Obrigada de qualquer jeito. É bom contar com você.
— Não precisa agradecer. É sempre um prazer ajudar o Demônio de Wittgenstein – Pan disse e sorriu. – Todo mundo ainda te chama assim aqui, sabia?
Com a mais bem fingida vaidade, Ekaterina abaixou os ombros e empurrou o cabelo para trás.
— Isso é ofensivo – ela disse. – Esse nome não faz jus a mim. Eu sou uma Imperatriz, não um Demônio.
Pan sorriu e se curvou.
— Por favor, perdoe minha insolência, Imperatriz Vermelha – ele disse.
Ekaterina devolveu o sorriso, mas logo deixou ele se desfazer quando Pan se levantou.
— O que você vai fazer sobre o caso da Alice? – ele perguntou. – Eu posso segurar a informação por uns três dias, mas depois disso vou ter que falar para o Diretor e ele vai querer colocar o EAE no caso. Eles não vão gostar de saber que você está metida nisso. É bem possível que eles tentem te empurrar para fora do caso.
— Eles estão mais preocupados em justificar o salário deles do que em resolver problemas. Se eu deixar isso nas mãos deles a cidade vai ficar um caos de novo.
— Isso seria bem ruim, não é? Eu vou segurar o quanto puder. Se alguma coisa mudar eu dou um jeito de te avisar.
— Obrigada – Ekaterina disse indo para a janela.
A Gata empurrou a janela para cima e subiu no batente. Pan ficou ali, a observando, parada, os cabelos balançando com o vento.
— Ei, E – ele falou.
— O que é? – Ekaterina disse se virando.
Pan sorriu e abaixou os ombros.
— Que tal um encontro? – ele falou. – Eu conheço um lugar legal.
Em resposta, Ekaterina sorriu e acenou.
— Nem em cem anos – ela falou.
Sem dizer mais nada, a Gata saltou da janela. Pan foi se debruçar na janela para ver o rastro de fogo desenhado por Ekaterina se desfazer até não sobrar mais nada.
— Você é cruel, Imperatriz.
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