Xxii
9 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Parte 1
Foi num dia quente quando isso aconteceu. Não um desses dias quentes normais quando ainda dá para ficar dentro de casa sem lá muitos problemas, mas um daqueles dias em que tudo que se quer fazer é mergulhar numa piscina gelada e não sair de lá de dentro pelo resto da vida. Com um Sol muito brilhante e quente, mais brilhante e mais quente ainda no centro daquela cidade, refletida nos vidros lisos dos edifícios altos e no asfalto. Os telões nos altos dos edifícios anunciavam todos bebidas refrescantes com imagens de mulheres de biquíni na praia – todas com peitos enormes e maquiagem, aparentemente, a prova de água. As pessoas ao redor andavam, todas tão apressadas, ocupadas pensando em nossa como estava quente, eu vou chegar atrasada, bem que podia chover, eu devia ter vindo de vestido, porque eu tenho que usar sutiã, malditos ternos, essa cidade é quente demais, eu vou me mudar assim que possível, está tudo errado aqui, que fome, tem alguma coisa errada acontecendo aqui, droga de celular que não funciona, essa música é bacana, quem é essa aí parada feito uma idiota?
A garota que estava sentada no banco em frente àquela loja de presentes levantou o rosto.
Em qualquer outra situação, ela não seria alguém para quem eu diria que se deve atentar. Porém, ela é a protagonista dessa história, então, por favor, prestem atenção nela por um momento.
Mami Uragawa, é como ela se chama. Dezesseis anos, vestida como uma garota de quinze anos se vestiria num dia quente – roupas claras, leves, shorts, uma camiseta simples sem mangas que lhe cobria até a base do pescoço, cabelo preto preso num rabo de cavalo e rosto escondido atrás de óculos. Roupas simples, sim. Sentada com a sacola na mão, ela encarava toda a multidão, distraída, quente, enquanto descansava um pouco. Mas, como dito ali atrás, ela levantou o rosto. O motivo para isso não é nada complicado.
Na direção dela, vinham três rapazes mais velhos, maiores, do tipo que se contrata para fazer o papel de encrenqueiro ou bandidinho em filmes que precisam disso. Mami olhou ao redor, procurando o jeito mais fácil de sair de cena, mas não parecia ter lá muitas opções e, antes que conseguisse se decidir por uma, já estavam os três ao redor dela. O que parecia ser o chefe do bando, o mais alto e mais forte dos três, sujeito do tipo babaca-mór, apoiou um pé no banco ao lado de Mami e se inclinou na direção dela.
— E aí, garotinha – ele falou com um sotaque forçado. – Como é que eu nunca te vi por aqui?
Mami tentou desviar o olhar, girar no banco e se levantar, mas logo viu, sentado no banco do outro lado, o segundo personagem-do-tipo-delinquente-juvenil.
— Qual é, já vai? – o suposto-líder falou. – Sem nem me responder?
— Eu me mudei para cá esses dias… – Mami disse mais num sussurro acuado do que em qualquer outra coisa.
— Foi é? Então o que ‘cê me diz da gente te mostrar a cidade? Tem uns lugares bacanas para ver.
O aparente-chefe colocou a mão no ombro de Mami e ela, num instinto reativo, cruzou olhares com ele.
CamasdinheiroMamirespiraçãopesadase…
Mami se levantou de uma vez, empurrando o braço do rapaz para longe dela e disparando rápido pela calçada sem se preocupar muito com exatamente onde ia parar. O que, diga-se de passagem, não é a mais sábia das coisas a se fazer.
Entretanto, parecia ter funcionado.
Quando olhou de novo ao seu redor, Mami não viu nenhum delinquente-de-filme-do-James-Dean por perto. Nem nenhuma outra pessoa, para ser preciso. Nem lojas ou rua. Na distração, ela acabou entrando por caminhos estranhos e indo parar numa viela estreita e suja entre alguns prédios. Sem lá muitas referências ou conhecimento da área, sua primeira reação foi um muito compreensível suspirar. Olhando pelo lado bom, estava pelo menos livre daqueles três. Achar o caminho de volta, isso seria o de menos.
Ela se encostou numa parede e começou a revirar a sacola. No fundo da sacola, viu uma massa líquida branca e, puxando o pote de sorvete, descobriu muito rápido a fonte dele, além de acabar sujando os shorts.
— Droga… – ela murmurou.
Mami olhou para o alto, para o céu claro e brilhante, lá longe, bem acima de todos aqueles prédios vertiginosamente gigantescos, aquelas colossais construções de aço, concreto e vidro que dominavam toda a metrópole e a deixavam tão…
— Perdida?
Talvez essa não fosse bem a palavra que ela estava procurando, mas era a única que encontrou. Perdida. É. Ao menos naquele momento, isso era um tanto quanto literal.
É, perdida podia ser uma boa descrição, afinal.
Um outro suspiro, o pote de sorvete numa lata de lixo e estava pronta para seguir em frente.
Mamicorredortrêsachemela.
O sinal veio como o barulho de um rádio que liga de repente e enche o cômodo inteiro com uma voz que não se esperava. Assim que o recebeu, Mami fechou os olhos e girou a cabeça para os lados, vendo para onde ele aumentava, para onde diminuía, até que achou. Vinha da esquerda e se aproximava.
Os três de antes.
— Droga, droga! – ela murmurou.
Outra vez, sua reação foi correr. Tomou o primeiro caminho que viu, fez uma curva para a direita, outra para a esquerda até que, por azar, acabou se encontrando com uma grade de ferro – alguns metros após a qual estava a rua e as pessoas que passavam por ali.
“Veio daqui!”, alguém gritou.
RoupasrasgadasMamisocosfaca.
Não tinha outra saída pelos lados, nem escadas para subir nem lugar nenhum para se esconder. Ela então largou a sacola e começou a escalar as grades. Era mais difícil do que ela esperava, ou talvez fosse melhor dizer que seu preparo era menor do que pensava. Não deu tempo, afinal. Antes dela chegar ao topo das grades, mãos pegaram sua cintura e a puxaram para baixo. De certo modo, foi como num pesadelo em que se está pendurado em alguma coisa e a mão escorrega – tudo se moveu muito devagar, se afastando centímetro após centímetro, se distanciando muito mais do que deveria, como se caísse dezenas de metros por horas e horas. Mas não foi sequer um segundo. Mami caiu sentada no chão, mas não teve tempo para pensar em como isso doeu. Já se colocou logo de pé, costas apoiadas na grade, medo enchendo o rosto. Lá estavam eles, de novo, os três delinquentes. O líder deles, segurando uma faca, bateu a mão na grade ao lado do rosto de Mami e sorrindo aproximou sua cara da dela.
— Para que correr? – ele disse. – A gente só ia te mostrar umas coisas legais. Que tal você vir com a gente bem mansinha agora, hein?
dinheirocortessocosMamimotel…
Não!
Mami fechou os olhos e tentou cortar o barulho, se focar apenas no preto dos olhos, nos próprios batimentos cardíacos acelerados, na pressão subindo em sua cabeça, na sua respiração pesada, em como suas mãos coçavam em como devia ter pensado e não queria ter ido para ali droga porque tinha que ter sido assim podia ter simplesmente ficado em casa mas não ele tinha que querer se mudar que droga!
— Ei! – alguém gritou.
Não era a voz de um dos três bandidos, mas era uma voz de garoto, carregada de uma confiança estranha. Mami abriu os olhos e lá, uns metros atrás dos três, viu aquele garoto. Não parecia ninguém especial… na verdade, tinha um rosto comum de garoto de quinze anos, cabelo e olhos bem comuns e estava vestido de um jeito comum. Mas, lá estava ele, parado em segundo plano, encarando os três bandidos com uma expressão enraivecida e punhos fechados como algum tipo de herói irritado de quadrinhos.
O chefe-do-bando-de-agressores se afastou de Mami, rosto levantado, sorriso estampado, mãos girando a faca entre os dedos. As pernas de Mami cederam, suas costas deslizaram contra a grade, seus olhos se arregalavam a cada passo que o criminoso-juvenil-armado dava em direção ao garoto até ele parar. De frente, um para o outro, a diferença de tamanho berrava como uma criança soterrada a centímetros dos bombeiros. Mami apertou as grades com força, fechou os olhos, desviou o olhar.
Cortessanguerisadasogolpeseaproximandodireitasoco.
O barulho do soco ecoou entre as paredes da viela. Mami arregalou os olhos.
A faca passava milímetros para o lado da cabeça do garoto. O punho dele erguido acertava o queixo do criminoso-juvenil-líder-dos-outros. Com o murro, o bandido-chefe recuou contra sua vontade.
Mas foi só uma questão de surpresa. Aquele primeiro ataque acertar, foi só por que o agressor-com-a-faca não esperava resistência. Não ia funcionar de novo. Não tinha como esperar que funcionasse de novo. O próximo ataque da faca ia acertar, era óbvio.
As mãos de Mami apertavam a si mesmas. Seu peito se remoía, sua garganta queimava sem que nada saísse de dentro dela.
A faca se moveu para cima. O garoto não saiu do lugar.
A grade nas costas de Mami tremeu, o barulho metálico se espalhou como uma corrente, agarrando o olhar de Mami e o puxando para cima.
As meias pretas partiam da cinta liga preta que subia até encontrar a calcinha sob a saia preta, curta, a camiseta branca destacada pelo bolero preto, os cabelos loiros e longos balançando conforme o corpo desenhava o movimento no ar.
Os pés bateram no chão com um clique claro e reto, uma flecha disparando junto a cordas, golpeando todos os olhares e os puxando para a garota que, de repente, surgiu ali.
Assim que se viraram para ela, os delinquentes se encheram de mais puro e inadulterado pavor. Olhos arregalados, bocas escancaradas, rugas na testa.
— Escutem aqui, seus bandidinhos estúpidos! – a garota gritou, sua voz bonita, imperiosa, percorrendo todo o ambiente como chamas avassaladoras. – Caiam fora do meu território! Agora!
Dois, três segundos, não foi mais que isso o tempo que demorou para dois dos criminosos saírem dali correndo sem dar a mínima para os comandos gritados do líder. Restou ao chefe apenas se virar de volta para a garota loira, olhos tremendo e dentes cerrados e apontar a faca para ela.
— A gente se acerta por essa! – ele gritou antes de também sair correndo.
A garota não devia ter mais que dezesseis anos também. Ela era alta, mas não podia ser mais velha que isso. Então… por quê? As mãos de Mami seguravam seu peito que batia rápido. Ela fechou os olhos, respirou, respirou.
Claroelimpodiretovidro.
Mami abriu os olhos. À sua frente, uma mão estava estendida. No fim dela, estava o garoto.
— Tudo bem? – ele perguntou.
Mami se apoiou na mão para se levantar. Uns centímetros atrás do garoto estava a loira, de frente, seus olhos magenta reais caindo diretamente sobre Mami. O ar faltou por um momento, como se puxado todo pelo fogo daquela garota.
— Quem são… – Mami tentou começar, mas sua cabeça ainda rodopiava na primeira tentativa. – Quem são vocês?
— Meu nome é Marco – o garoto disse. – E aquela ali é a…
— A Rainha Vermelha de Wittgenstein – a garota disse interrompendo Marco. – Ekaterina Kaladjeva.
Fale com o autor