Saí do porão e fiquei parada na porta olhando ao redor, diferente de mais cedo, agora o ar estava gélido e ventava. A lua mudara de posição, ficando aos fundos do instituto, mas ainda iluminando o lugar. Ouvi um rosnado da gárgula e um arrepio percorreu por toda minha espinha, meu coração disparou e engoli em seco, olhando para os lados e não vendo nada. Fui andando beirando a parede do instituto e ouvi o rosnado mais uma vez, desta vez, mais próximo. congelei no lugar e me atrevi a olhar para trás após respirar fundo. Ainda não havia nada. Nenhuma sombra. Continuei o percurso pelas paredes e, quando estava próxima à porta que dava para o lado de dentro do instituto, ouvi outro rosnado, mais próximo que o último. E estava atrás de mim. Eu sentia-a perto. Perto até demais. Com um nó na garganta, girei meu corpo lentamente e fiquei de frente para a gárgula, que estava apenas a alguns metros de distância de mim, bastava um salto para que arrancasse minha cabeça. Ela me olhava fixa e atentamente, arrastando sua pata larga e pesada no chão, deixando as marcas das enormes unhas escuras no mesmo.
Sem tirar meus olhos dos dela, andei para o lado muito devagar para não despertar sua atenção. A gárgula observava cada passo meu com aqueles olhos escuros feitos de pedra amedrontadores, mas eu não podia demonstrar medo mesmo estando. Não agora que estava à uma distância considerável dela. Comecei a dar passos para trás e me afastava mais e mais dela, deveria estar a uns 15 metros longe. Talvez. Uma coruja passou entre nós às pressas e piou alto, assustando tanto a mim quanto a gárgula. Ela rosnou alto e saltou em minha direção, tentei correr, mas ela fora muito rápida. Eu já estava caída de costas no chão e a gárgula jogava seu bafo quente em meu rosto, encurralando-me em ambas as laterais do corpo. A distância que conseguira entre nós fora completamente inútil. Agora eu seria devorada por ela e tudo acabaria, eu nunca iria ter uma vida legal e, muito menos, um namorado. Meu atestado de óbito estava prestes a ser assinado e carimbado. A gárgula arranhou o chão e abriu sua enorme boca para mim, fechei os olhos apertadamente.
"Ei, Sua gárgula horrível!" Alguém gritou, chamando a atenção da gárgula. Senti-a sair de cima de mim e abri os olhos, erguendo as costas do chão para ver quem era.
Era Leancy. A gárgula rosnava baixo e olhava de esgueira, preparando-se para ataca-lo. Ele mostrou a palma da mão para mim, sinalizando que eu permanecesse no lugar. Vejo-o concentrar-se na gárgula, que agora corria em sua direção, e mostrar a palma da outra mão para ela também. O que estava querendo fazer? Doma-la? Não. Hipnotiza-la. sua boca movimenta ao dizer algo e a gárgula para de correr e se senta como um cão. Ela não se movia mais, parecia uma estátua colocada no jardim.
Senti um alívio, mas logo ele foi embora quando vi que outra gárgula me observava, antes que eu me virasse completamente, ela avançou para cima de mim, mas eu consegui desviar para o lado e corri até Leancy, escondendo-me atrás dele. A gárgula correu em nossa direção e mais uma vez Leancy apontou a palma da mão para ela, deixando-a petrificada numa posição de ataque, com boca aberta e patas frontais para cima. E assim permaneceu. Mas eu estava muito abalada ainda e segurava o braço dele com força, Leancy olha para mim por cima do ombro.
"Está tudo bem agora!" Ele dá um sorriso de lado para mim. "Então, o quê achou?"
"Achei que eu fosse morrer..." Digo, ainda me estremecendo e percebendo então, que não fora nesse sentido que ele havia perguntado, queria saber o que achei sobre o que ele fez com as gárgulas. Achei aquilo incrível, mas não iria dar o gosto dele ouvir eu dizer isso. Ele girou seu corpo, ficando de frente para mim e não solto seu braço. Estávamos próximos demais.
"Não disse que não se importava? Mas eu sim!"
"Foi na hora da raiva...Obrigada!"
"Pensei que nunca fosse dizer isso."
"Por que tem que ser tão convencido?"
"Porque é isso que torna mais sexy!" Leancy diz num tom provocativo e dá um risinho para mim.
"Não...Não acredito que disse isso!" Digo revirando os olhos e erguendo a mão na frente de seu rosto, virando o rosto para o lado.
"Por que você é sempre tão sem graça?" Leancy diz com ironia, mas senti aquilo como um impacto e senti meu rosto começar a queimar, engolindo em seco. Então sou realmente como sempre achei que fosse: Sem graça. E, finalmente, alguém tivera a coragem de me falar a verdade na lata, mas eu não sabia que me magoaria tanto ao ouvi-la. O olhei por um instante e me afastei dele, virando as costas e andando até a porta secreta por onde eu nunca devia ter ousado abrir e sair. Olhei ao meu redor e não avistei ninguém perambulando pelo pátio, fui andando na ponta dos pés e congelei no lugar quando estava prestes a subir as escadas.
"O que faz fora do dormitório a essa hora?" Uma voz grossa e masculino soou por trás de mim e engoli em seco antes que me virasse para ver quem era. Eu não o conhecia. Era um homem alto, esbelto, de cabelos negros e sedosos quase caindo sobre a testa, seus olhos eram verdes, mas logo mudaram de cor e ficaram tão negros como a noite. "Te fiz uma pergunta, Mocinha!"
"Eu...É que eu tive um pesadelo e perdi o sono..." Digo, com uma voz calma e baixa, dando uma pequena pausa. "E desci pra pegar um ar!"
"Você foi lá fora?" Ele olha para a porta secreta que eu acabara de entrar.
"Não. Eu até ia, mas desisti quando ouvi um som estranho, como um rosnado de algum animal bravo!"
"SERÁ QUE ESSA DESCULPA FUNCIONARIA?", pensei.
"Pois fez bem em não ir, se fosse lá fora poderia nunca mais voltar!"
"E SERIA EXATAMENTE ISSO SE LEANCY NÃO APARECESSE...", pensei.
"Por quê? Realmente tem um animal lá?" Perguntei, fingindo-me de desentendida e franzindo o cenho para incrementar a encenação.
"Um não. Dois!"
"Dois?" Faço cara de surpresa, arqueando as sobrancelhas.
"Duas, na verdade! São gárgulas."
"Gar...Gárgulas? Pensei que era somente mito quando diziam que elas criam vida à noite."
"Pois não é um mito! Elas são encarregadas de fazer a vigília pelo território e proteger o instituto de invasores, por isso que é proibido sair durante a noite. Elas não diferenciam os que são e os que não são daqui e, por isso, atacam qualquer um que aparecer!"
"Tive sorte!"
"Não sabe o quanto! Agora volte para seu dormitório e tente dormir novamente!" Ele cruza as mãos para trás e anda atrás de mim quando começo a caminhar em direção do quarto. "Te acompanho!"
"Não precisa! eu..."
"Já disse que te acompanho!" Ele me interrompe, dizendo com o tom de voz rígido e não ouso insistir, voltando a caminhar para meu quarto.
"Você é funcionário daqui?" Pergunto, sem virar para trás e olha-lo.
"Sim! Sou o inspetor noturno." Ele responde rapidamente e voltamos a ficar em silêncio. Cheguei em meu quarto e girei a maçaneta, deixando a porta entreaberta e colocando um pé para dentro.
"Obrigada! Pode ir agora."
"De nada! Entre em seu dormitório." Ele diz num tom autoritário e ergue um pouco o queixo, o olho por alguns segundos silenciosos e entro no quarto, fechando a porta devagar. Ele ficou parado ali até que eu trancasse o quarto, para certificar-se de que eu não iria sair. Tive quase certeza que ele ficaria escondido em algum lugar para caso eu saísse e me pegasse no flagra de novo. Suspirei e andei na ponta dos pés até minha cama, que era a de baixo, pois em cima estava Steph, dormindo profundamente. Deitei-me e fechei os olhos, pegando no sono alguns minutos depois.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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