Xeque Mate ou Dois Coelhos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Faz tempo, né?
Espero que gostem desse aqui.
Um beijo.
Ele me encara a pouca distância.
Sua gravata combina com o terno dois tons mais escuro e, ironicamente, seus olhos ficam ainda mais claros em contraste com aquele tom de cinza. Ele é jovem. Mas talvez também seja o único que realmente se importa. Essa específica ideia me faz sorrir com uma malícia que ele entende errado e mais uma vez o ponto é ao meu favor.
Homens.
— Como você já deve ter percebido, é toma lá dá cá. Se fica bom pra você, fica bom pra mim também.
Bato as cinzas no cinzeiro prestando muita atenção no que faço antes de recruzar as pernas e esticar meus cílios em sua direção outra vez e reparo que ele é calvo. Está sorrindo no que eu imagino que seja o seu sorriso de predador e eu contenho a minha vontade de revirar os olhos. Retribuo com o meu próprio sorriso destinado às presas.
Inclina-se na minha direção.
Deve ter o que? 29? 30? Não passa dos 35, com certeza.
Soube que seu pai também fazia esse tipo de coisa... E quem me contou foi o meu próprio pai. Não eram colegas, mas encararam-se de outras formas.
Será que ele também tinha ouvido falar de mim?
É uma pergunta ridícula. Com toda certeza.
“Os homens falam”, era o que eu tinha ouvido a vida toda, também do meu próprio pai.
— E então?
Sorrio outra vez e volto a tragar meu cigarro. Ele é impaciente.
Com certeza tem ejaculação precoce.
Estamos em um desses bares que jamais se imaginaria acontecer uma transação daquele tipo. Mas acredite em mim, essas transações só acontecem em lugares onde jamais poderiam acontecer.
— Quanto? – Pergunto olhando em seus olhos e cruzando os braços na altura dos meus seios num momento sincronizado com o exalar da fumaça. É proposital e me orgulho. Contenho outro sorriso de puro deleite ao me inclinar em sua direção também. Ele me encara de volta enquanto me diz a quantia que eu imagino que para ele seja quase pornográfica. Provavelmente se acha muito bom no que faz.
E com outros idiotas como ele, provavelmente deve ser mesmo.
Baixo os olhos na hora certa para que ele se sinta melhor consigo mesmo. Um sorriso comedido de vitória me é permitido enquanto me ajeito de lado na poltrona do luxuoso hotel-bar enquanto procuro meu cartão branco e preto no interior da minha bolsa (cujo valor extrapola em duas vezes o valor que esse cidadão acabara de me oferecer).
Meu nome, meu número pessoal, meu endereço de e-mail.
Coloco na parte de trás com a minha melhor caligrafia, aquela com que eu assinei todas as cartas para os meus namoradinhos, o número de minha conta corrente. E juro que faço o possível para esconder todo meu desprezo enquanto ele sequer tenta disfarçar que me come com os olhos.
— Boa noite, Gui. – Pisquei-lhe enquanto me levantava e levava o palito com a azeitona até os lábios.
Caminho sem olhar para trás, até a recepção do hotel, onde deixo a taça de Dry Martini que pedi e pago minha própria conta.
— Está tudo certo, Feijó? – Ele sabe do que estou falando.
— Sim, Senhora. – Ele me responde olhando nos olhos.
Sorrio. Pela primeira vez de verdade. Maurício Feijó era um bom menino. Nos conhecíamos de outros carnavais (héteros carnavais, urgh!) e sabia bem que aquele rapaz merecia um Alguém que lhe soubesse cuidar. Leio e assino o papel entregue pelo recepcionista do hotel pontualmente às 23h59 e me dirijo para o meu carro, que já me aguarda na recepção.
André, meu motorista, abre a porta de trás para mim e me entrega um chumaço um pouco maior de papéis. Entro no carro e começo imediatamente a ler. Não temos muito tempo. Olhos castanhos quentes como um dia de primavera me esperavam ansiosos e obedientes, ao meu lado como estariam para o resto da vida. Quando termino de ler, estou tremendo. E é assim, meio tremendo mesmo que assino tudo e devolvo minha sentença para André, que por sua vez a repassa para o valete do hotel antes de ocupar seu lugar atrás do volante.
Ela se aproxima quando a adrenalina ainda está bastante alta e entrelaça os dedos nos meus. Entenda que ter coragem se aproxima muito mais de “não fugir da batalha” do que de “não ter medo da batalha”. Quando seu nariz toca o meu e lábios delicados captura minha boca para um beijo exigente, eu me lembro que antes de qualquer coisa, sou humana. E sou uma esposa dedicada há mais de nove anos que precisa dar explicações para uma mulher tão ansiosa quanto eu.
— Você não vai ser presa?
— Não.
— Tem certeza?
— Meus advogados se certificaram.
— Foi uma armadilha, é isso?
— Isso, amor... Eles vão presos. Todos eles, a família toda.
— Mas vai arruinar tudo o que você fez até hoje!
— Vai? – A pergunta simples e pura fez com que ela me encarasse em silêncio por alguns instantes antes que a compreensão lhe chegasse aos olhos e ela me beijasse de novo, dessa vez sorrindo de orelha a orelha.
Lei Araújo aprovada em meio ao caos político de Brasília
Camila Araújo, a ex-senadora do estado das Minas Gerais declarou hoje ter recebido propina do governador Guilherme Carvalho durante o seu último mês de mandato para facilitar a criação de leis que facilitem a entrada de armamentos internacionais para o Brasil. A senadora, autora de leis que possibilitaram por exemplo a doação de sangue por doadores assumidamente homoafetivos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por famílias que não são compostas por núcleos convencionais deixou todo o senado em polvorosa ao relatar uma lei que proporia uma abertura bélica, baixando impostos e possibilitando um maior tráfego armamentício em território nacional.
O caos dominou Brasília por cerca de duas semanas, que coincidentemente, era o prazo máximo para a votação antes do recesso de Natal, ocorrido no último 08 de dezembro. Camila inovou então, mais uma vez, aos quarenta e cinco do segundo tempo, ao propor uma emenda de última hora, que fazia valer os acordos comerciais de maneira unilateral enquanto o Brasil estiver do lado FORNECEDOR e os compradores fizessem fronteiras terrestres, para evitar o tráfico aéreo que segundo a relatora ainda é uma triste realidade em nosso país. Os legisladores, que já estavam confusos, ficaram ainda mais. Aprovar ou não aprovar a lei? Mas a família Carvalho, que vem dominando a política desde as últimas eleições e tem sede de pólvora, tinha também pressa para comer o peru.
Pois bem, a ceia de Natal foi servida fria para a bancada da bala.
O Brasil não pode importar armamento estrangeiro e nem a lei do desarmamento foi realmente votada, porque comprar armamento sem licença continua proibido. A jogada final de Camila Araújo, entretanto, garante ao Brasil o direito de exportar armas. Considerando que nossa tecnologia bélica viu sua glória no fim da década de 1970, creio que o horizonte econômico não é muito promissor por enquanto. O único que parece se beneficiar diretamente dessa história é Juan Manuel “Guapo” Gonzales, o líder da revolução armada argentina e que vai poder importar armas brasileiras a juros baixíssimos.
Por outro lado, o xeque mate de Camila garantiu que Guilherme Carvalho, já citado ao lado do pai e do irmão em esquemas de corrupção, se enfiasse até o pescoço na lama do lobby de interesses. Assinando um acordo de livre acesso às suas contas bancárias desde, coincidentemente, o dia em que Guilherme Carvalho depositou a quantia de 200 mil reais de maneira não muito prudente no nome de sua empresa, Camila livrou-se da cadeia por corrupção passiva e emporcalhou toda a família Carvalho: pai, filhos e ex-esposa, que passaram a ser réus na Operação Limpe a Casa.
Este jornal segue em vigília.
Notas finais
Vou adorar ;*
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