Xeque Mate

12 Aqui você cai, aqui você fica!


Eu enviei o endereço do duelo final aos dois presidentes naquela manhã de Março. Dia doze. Fatídico fim de jogo. Hyden estava em sua empresa quando recebeu a mensagem de texto. Ele ainda não tinha uma nova secretária, então Milena simplesmente entrou em sua sala sem ser avisada.

– Hyden... eu sinto muito.

– Obrigado pela compaixão, Milena.

– Tem algo que eu possa fazer para te ajudar?

– Creio que não... Agora que ela se foi... eu perdi o que restava de motivação para viver.

– Mas você pode conseguir se recuperar.

– Dificilmente, Milena... mas obrigado pelas palavras de apoio.

Ela então deu a volta na mesa, e se sentou de lado sobre as coxas dele. Passou as mãos atrás da cabeça dele e então o beijou. O beijo foi devolvido por Hyden. Eles continuaram se beijando, e cada beijo de Hyden parecia destilar ao mesmo tempo, prazer e uma tristeza imensa. Porém, mentalmente abalado como estava, aparentemente sem nada a perder e tendo uma ocasião de prazer ínfima, na qual sua falecida esposa não estava em seus pensamentos, e sim suas memórias com aquela que o beijava, ele se entregou aos carinhos dela.

Cada segundo que se passava era como se ela curasse cada ferida dele com seus beijos. Amor, obsessão, o que quer que fosse depois de tanto tempo, ainda era forte, e o deixou fora de controle. Ele a deitou sobre sua mesa, e abriu o sobretudo dela. Ela sentou-se rapidamente, controlou a situação com um beijo, e disse:

– Segura, amor... hoje à noite, lá em casa. Aqui não, tá? — E então deu um beijo na testa dele e o abraçou.

– Vai me fazer esperar até de noite? Sério? — Perguntou sorrindo e se sentando novamente.

Ele beijou e mordeu o pescoço dela, causando um calafrio ótimo nela. Há tempos ele não fazia tal coisa nela. Ela se levantou da mesa e andou até a porta. Fechou o sobretudo e antes de abrir a porta e sair, completou:

– Quase que não resisto a você depois dessa mordida... quero mais dessas hoje à noite. — E tinha um sorriso malicioso no rosto antes de sair.

Hyden então parou e começou a recolher todas as suas coisas que haviam caído no chão. E tinha um sorriso no rosto. Então em certo momento, quando terminou de arrumar tudo novamente, percebeu que ainda estava com o anel de seu casamento com Hallerie. Passou as mãos na cabeça e se sentou pensativo. Aquilo era o certo a se fazer?

Então tomou o elevador e desceu até o térreo. Foi até a fonte no meio do pátio, tirou o anel e olhou para ele uma última vez. Aquele anel simples, de ouro com quatro diamantes, que usara durante os três perfeitos anos que tivera com Hallerie. Agora era atirado na fonte. E assim que entrou no elevador, zeladores, passantes e até mesmo os funcionários correram todos em uma tentativa desesperada de pegar tal artefato de preciosidade quase inestimável.

Às onze horas da manhã, Kim acordara. Havia uma mensagem de texto em seu celular, mas decidiu não ver a princípio. Uma tristeza mortal a envolvia. Ela foi até o banheiro, encheu a banheira de água, se despiu e entrou, com seu canivete clássico. Começou a olhar para aquela lâmina, agora maldita, que causara a morte de seu amado. Aquela lâmina parecia cada vez mais atraente, então apareci sentado em cima da tampa do vaso sanitário.

– Quem é você?! — Ela gritou assustada.

– Não importa minha identidade. Importa que estou aqui para impedí-la de cometer tal erro. — Disse apontando para o canivete, que se aproximava do pulso dela.

– Que razão eu tenho para viver agora?

– Uma última chance de vingança, garota! Eu já vinguei metade. O tiro disparado contra Zetos foi meu!

– Por que não matou logo os dois então?

– Porque você deve ter a chance de se vingar pessoalmente de Charlotte. Quando você jogou o canivete, era um caminho mortal! Eu já estava cantando a morte de Zetos. Mas aquela vadia empurrou o Karl para o que depois se tornou a morte dele.

– O que sugere?

– Hyden já enviou para seu número o endereço de onde se passará o seu duelo final. Você contra Lotte. Apenas as duas. Ouça Khardin. Ele clama por vingança.

– E depois da vingança vem o quê? Continuarei me sentindo vazia sem ele.

– Mesmo se soubesse que carrega a prole dele?

– O quê? — Kim arregalou os olhos.

– Ah, estraguei a surpresa. Você está grávida, Kim. Já faz um mês. Carrega um par de gêmeos dele. Ele sempre viverá através de vocês... se você permitir.

Kimberly Smith se levantou com um olhar resoluto. E aquele corpo perfeito nu foi rapidamente envolto em uma toalha, para minha tristeza. Entendi o recado e saí do banheiro. Na verdade, fui e me sentei no sofá da sala. Em questão de minutos, ela estava vestida com uma camisa preta, sem ombro do lado esquerdo, uma calça jeans colada e preta e com rasgos, e com um rabo de cavalo.

– Estou pronta para a noite. E você, quem quer que seja, está pronto para me ver em todo o estilo? — Os olhos dela brilhavam.

– Vai ser um massacre. — Respondi. Então, tomei a forma de Khardin na frente dela, e disse:

– Por mim. — E desapareci, deixando-a com o coração batendo de forma mais forte e mais rápida do que jamais havia visto.

Douglas, Sarah e Carta estavam em seu covil, todos em volta de uma mesa, analisando a mensagem de texto que ele recebera. A mensagem dizia que o local do duelo final era o mesmo cemitério onde Jack e Jacke haviam sido enterrados, à meia-noite. Seria permitido apenas o uso de armas brancas para derrotar o oponente, apesar de que o golpe final poderia ser dado com uma arma de fogo, caso o adversário estivesse desarcodado.

– O que faremos, Carta? — Douglas perguntou.

– Eu realmente não sei. Podemos interferir escolhendo nossa vencedora, e mostrar que ainda temos o controle.

– Por outro lado, tentar fazer isso pode configurar em uma ofensa ao invasor misterioso, e fazer com que ele se vire contra nós. Podemos nos colocar inadvertidamente em perigo. — Sarah comentou preocupada.

– É algo a se levar em conta. — Douglas comentou. — Especialmente porque ele pode se mover mais rapidamente do que compreendemos.

– Então... o que faremos? — Carta questionou, visivelmente incomodada.

– Nós permitimos que o jogo siga seu curso natural, e caçaremos depois os torres que restaram. — Douglas determinou.

– Posso ir à caça também quando vocês forem fazer isso? — Sarah perguntou.

– Claro. — Douglas respondeu, e Carta se retirou da sala para seu quarto.

O dia passou aparentemente mais rápido que o normal. Kimberly comprou um pé de cabra, arma que resolveu que utilizaria mais tarde no duelo. Uma escolha um pouco mais sangrenta do que o comum, eu diria. E no resto do tempo livre, esteve olhando artigos e produtos para recém-nascidos. Preparação foi a palavra-chave, eu diria.

Para Lotte, o dia foi tenso. Estava muito apreensiva. Zetos era quem ela conhecia como o melhor guerreiro corpo a corpo que ela já vira. E ele estava perdendo o duelo para Kimberly. O que seria dela, quando chegasse a sua vez? O pessimismo invadia a mente dela e a mente de Clark. Ele praticamente já havia se acostumado à ideia da derrota, e de antemão, estava naquela noite enviando o dinheiro apostado com Hyden para a conta dele. Caso acontecesse um revés do destino, seu oponente o devolveria o dinheiro. Ou pelo menos, assim ele esperava.

Às nove horas da noite, Hyden estava tocando na campainha de Milena. Ela desceu as escadas sorrindo ao vê-lo da janela do andar de cima, e disse:

– Eles voltam. Eles sempre voltam. — Ela comentou rindo.

Milena desceu e abriu as portas para ele. Estavam finalmente a sós novamente, sem possibilidade, como ocorria na empresa, de que alguém pudesse aparecer e quebrar o clima. Ela tirou seu paletó assim que entrou e colocou em uma mesa da sala. Na mesma mesa, também estavam garrafas dos melhores vinhos, taças. Começaram a beber e conversar, e cada momento ali com ela fazia com que Hyden se sentisse de volta aos velhos tempos.

Ainda assim, sentia um pouco de culpa. Sentia-se como que subtituindo Hallerie mais rapidamente do que o normal. Ao mesmo tempo, esses pensamentos eram arrastados de sua mente com goles do refinado líquido e pelos olhos, sorrisos e palavras de Milena. Até que em certo ponto, ela saiu da poltrona onde estava e sentou no sofá ao lado dele. A conversa continuava fluir, a garrafa começava a secar e já se cogitava abrir outra.

Após a primeira taça de vinho da segunda garrafa, Hyden perdeu o controle e a cortou no meio da conversa com um beijo. Um beijo espontâneo, livre, que a fez sorrir como não fazia há anos. Ela não resistiu a continuar o beijo, e acidentalmente, a taça dela escapou de suas mãos e caiu no chão. Ambos se assustaram, e depois começaram a rir. Então, ela se levantou, o levantou puxando pela gravata e disse:

– Olha, você não fica muito bem de camisa e gravata, sabe? — Comentou tirando a gravata e sorrindo maliciosamente.

Ela começou a subir as escadas de mãos dadas com Hyden, o guiando, como a um cachorrinho na coleira. A partir desse ponto, caro leitor, deixo apenas que você imagine, com ajuda de mais alguns detalhes que surgirão posteriormente, o que houve. Não é o foco dessa história se demorar nessa cena. Talvez o seja da cena, entretanto, perdoe-me, não hei de narrar tal processo. Não sou bom para tal tipo de narração.

À meia-noite, Charlotte entrou no cemitério, e encontrou Kimberly sentada em uma lápide, já a aguardando, com seu canivete e com o pé de cabra. Ela sorriu e disse:

– Olha, já achava que você não ia aparecer.

– Vamos logo com isso então. — Lotte respondeu.

Charlotte investiu com sua espada atacando furiosamente Kim. Ela simplesmente se defendia, com um sorriso no rosto. Ela não era nada, literalmente nada de perigo aos olhos de Kim. Em certo momento, Kim apenas foi um pouco mais para trás após um dos golpes.

– Minha vez. — Ela disse com um olhar frenético e mortal, com um sorriso psicopata.

Kim começou a atacar com golpes fortes e precisos, assustando Lotte a cada novo golpe, e se divertindo sobremaneira. Em certo momento, com um poderoso ataque, retirou a espada das mãos dela, e a golpeou na cabeça. Lotte, caída, em desespero tentou puxar a arma, porém Kim a arremessou longe com outro golpe de seu pé de cabra. E começou a espancá-la.

A cada novo golpe, sangue era espalhado, enquanto Kim ria. Seu ódio por Lotte parecia aumentar a cada segundo, e cada ataque a atirava em uma direção diferente. Como um gato brincando com sua presa até matá-la. Eu segurava o riso. Desculpe, caro leitor, sou muito sádico mesmo. Kim só parou quando viu que Charlotte nem conseguia mais se mexer, mas ainda estava viva.

– Hora do toque final. — Ela disse, puxando o canivete e indo na direção do pescoço de sua presa.

– Pare! Mãos na cabeça! — O detetive, há muito esquecido em nossa história, gritou, apontando uma arma para a cabeça de Kimberly.

Kimberly ficou paralisada. Voltou a si e viu o espetáculo sangrento que havia causado. Ela definitivamente não esperava que nesse momento de vingança, alguém estragasse. Aproximei-me lentamente por trás do oficial e o desmaiei com uma coronhada na nuca.

– Obrigada. — Kimberly disse.

– De nada. Agora, termine o trabalho aqui.

– Charlotte?

– E Von Dun. Ambos devem perecer. Aqui caem, aqui ficam. É até engraçado.

– Será feito. — E ela cortou a garganta de ambos e deixou o sangue escorrer. Então, virou-se para mim e perguntou:

– Por que me escolhestes?

– Porque você encaixava todas as peças do meu quebra-cabeça. E além disso, porque você me ajudou uma vez, e eu tinha que retribuir.

– Quando o ajudei? Nunca o tinha visto antes até o duelo de Zetos e Hillary.

– Eu gosto de testar as pessoas e me disfarçar de várias formas. E eu lembro de uma vez. Uma vez na qual você estava nas ruas após ter fugido de casa. Estava morrendo de fome. E tinha usado toda a sua energia para escapar com uma maçã roubada. Então você entrou em um beco e se agachou. Tirou o canivete e quando ia cortar um pedaço da maçã, um mendigo a pediu um pedaço.

– Era... você?

– Sim, Kimberly. Era eu.

– Por que fez aquilo então?

– Como eu disse, gosto de testar as pessoas. Lembro-me bem de que você olhou para o meu rosto, e sentiu muita piedade. Então seus olhos se encheram de lágrimas, assim como os meus agora. Você começou a chorar silenciosamente, e então começou também a soluçar. E me entregou a maçã inteira. E eu, tomei seu canivete, cortei-a em duas e lhe dei metade.

– E por isso você resolveu me ajudar agora?

– Por toda a sua vida desde então. Foi assim que um mês depois, você encontrou uma maleta com cerca de quinhentos mil dólares em uma lata de lixo e reconstruiu parte de sua vida. Quando precisou de um emprego, com o fim de sua pequena fortuna chegando, eu fiz Hyden descobrir seu currículo. Dei-lhe tudo. E agora, minha dívida está paga e terminada. Amanhã cedo, reclame com Hyden seu prêmio final, que fará por merecer agora. Um último serviço.

– O que precisas, mestre? — Kimberly se ajoelhou perante ele como um cavaleiro faz diante de seu rei.

Teleportei-nos para a mansão de Clark. Ela logo reconheceu o lugar, e eu dei-lhe uma arma carregada.

– Mate-o... e Clarisse.

– Será feito.

Fiz me invisível, e a segui. Ela subiu as escadas e os encontrou no segundo andar. Estavam indo na direção do quarto dormir. Kim os chamou, e ao se virarem, cada um foi saudado com um tiro no coração. Reapareci e a teleportei para seu apartamento.

– Muito bom, Kim. Muito bom. Está pronta para ser uma bilionária amanhã?

– Sim. Mas antes, posso pedir algo? — Ela respondeu sorrindo.

– Depende. O que seria?

– Toma a forma do Khardin novamente?

– Assim? — Perguntei transformado.

E as luzes foram apagadas, e a noite, posso garantir que não foi ótima apenas para Hyden e Milena. E já que os retomei, posso comentar que, cada movimento exercido naquela noite por Hyden foi como se todo o tempo que esperara, todas as ações que tomara, tivessem valido a pena completamente.

– Douglas... eu sinto muito. — Sarah comentou ainda naquela noite.

– Está tudo bem...

– Eu sei que não está. — E dito isso, a criação se aproximou de seu criador, que estava deitado sobre o braço esquerdo, deitou-se ao seu lado, e colocou o braço direito dele em volta dela. Apenas isso. E nada mais. E a companhia dela, ainda que sem mais palavras, apenas demonstrando sua preocupação por ele, restaurou seu quebrantado coração, e o fez sorrir.

– Boa noite, Sarah.

– Boa noite, Douglas.

– Eu a amo.

– Eu também o amo.