Xadrez

1 A rainha e o cavalo


Já estava virando parte da rotina encontrarem aquele homem nas cenas dos crimes. As vezes ele se aproximava lentamente, como se não quisesse nada, e conversando com os policiais acabava soltando teorias absurdas — que no fim, se provavam corretas. Porém, na maioria das vezes, ele simplesmente ultrapassava as faixas amarelas e cuspia as teorias sobre qualquer um. Nessas vezes, o homem se encontrava sujo e delirante, mas suas versões dos fatos continuavam brilhantes.

E lá estava ele: sentado na calçada falando sozinho. Lestrade se aproximou, suspirando, e sentou ao seu lado.

- Ei camarada, não pode ficar aqui.

- E você não pode ser mais burro, Detetive Inspetor.

Levantou as sobrancelhas. Não deveria se surpreender, já que todos sempre diziam o mesmo: Que o detetive drogado — como era o seu apelido — era tão rude quanto brilhante.

- Greg. Greg Lestrade — Estendeu a mão — E você?

- Sh... — O moreno estreitou os olhos, desconfiado, antes de continuar — Sherlock Holmes.

Lestrade se levantou, alisando a calça social. Via no homem alto e sujo a sua frente o que mais ninguém reparava: Que podia ser brilhante, um gênio mesmo, mas que precisava de ajuda.

- E posso te dizer quem e como causou o assassinato — Apontou para a garota no chão do beco atrás de si.

- Tudo bem. Mas só se me deixar te levar até a sua casa.

Sherlock se levantou em um pulo. Estava absurdamente pálido, o cabelo encaracolado sujo e as pupilas dilatadas escondiam a beleza de seus olhos azuis esverdeados.

- O assassino poderia estar aqui, sabia? Poderia ser um de nós. Você. Eu.

O Inspetor suspirou, passando a mão nos cabelos grisalhos.

- Você é o assassino, senhor Holmes?

- Não. — Prontamente respondeu.

- Ótimo. E então, onde você mora?

- 221b da Baker Street.

- Ok.

Puxou o mais alto para o carro, ignorando os colegas que olhavam torto.

Chegando lá, levou-o, com certa dificuldade, para cima e o fez sentar em uma das poltronas da sala atulhada de coisas aleatórias. Uma caveira sobre a lareira, um quadro com um morcego e besouros, um violino, vários livros. O próprio policial sentou no sofá de couro marrom. Só lhe restava esperar o efeito das drogas passar.

Sherlock não pareceu se importar, enquanto pulava sob a mobília, pegando livros e jogando-os no chão a todo instante.
Não teve que esperar muito. Dentro de alguns minutos, um homem e uma equipe médica adentraram o apartamento.

- Wow! — Lestrade levantou-se — O que é isso?!

O homem a sua frente parou, genuinamente surpreso. Mantinha o queixo erguido, usava um terno vede musgo feito sob medida e carregava um guarda-chuva.

- Quem é você?

- Detetive Inspetor Gregory Lestrade — Mostrou suas credênciais — E você?

- Mycroft Holmes, irmão mais velho... — Olhou para o homem agora jogado na poltrona — Dele. Venha comigo por favor, Detetive.

Os dois foram até a cozinha — que não tinha visível nenhum aparato culinário, mas sim tubos de ensaio e substâncias coloridas — enquanto a equipe médica trabalhava. O grisalho se encostou no balcão, cuidadosamente, enquanto o outro apenas o encarava do seu canto.

- Ele estava em uma cena do crime, certo?

- Sim. E, eu tenho que admitir, ele é brilhante — Lestrada coçou a cabeça.

Mycroft apertou os lábios, em um misto de surpresa e admiração.

- Meu irmão é muito bom com suas deduções, mas o tédio constante de uma vida comum o leva ao consumo de certas drogas ilícitas.

Greg acenou. Já vira muitos casos de drogados que no fim nada mais eram do que boas pessoas perdidas.

- Sabe, ele já ajudou muito a New Scotland Yard.

- Hm. — Fez uma pausa — Poderíamos fazer um acordo.

- Que tipo de acordo?

- Sherlock o ajudaria com alguns casos, se conseguisse se manter limpo.

O grisalho ponderou. Não era costume da polícia aceitar estranhos como consultores — ainda mais um drogado, ou ex-drogado -, mas ali ele via duas escolhas: Ajudar um homem necessitado e com isso ajudar toda a cidade, ou deixá-lo perecer. Por que não?

- Tudo bem — Estendeu a mão.

O Holmes mais velho lhe sorriu cordialmente. E ali começava uma bela parceria.

***

Greg bebia lentamente, os olhos focados no vazio. Ignorou o som do sino na porta quando esta se abriu, mas não pôde ignorar o homem que parou a sua frente.

- Posso? — Puxou uma cadeira.

Ergueu as sobrancelhas. O que ele estava fazendo ali?

- Vem sempre por aqui? — Sorriu.

Mycroft sorriu daquele jeito que Greg imaginava que ele fazia no seu trabalho. Frio, mas educado.

- Aliás, com o que você trabalha?

- Com o governo — Respondeu, ignorando o "aliás" da frase.

- Sherlock me disse que você é o governo.

- Sherlock diz muitas coisas — Acendeu um cigarro.

- Inclusive que minha mulher está me traindo.

Um silêncio desconfortável caiu sobre os dois, apesar de todo o barulho ao redor. Era tarde, mas o pub continuava cheio de jovens e executivos sem paletó e gravata. Um jogo qualquer passava na televisão e uma garçonete gritava com um cliente atrevido.

- Eu não diria que sou o governo. É como se em um jogo de xadrez, eu fosse a rainha.

Greg sorriu. Provavelmente Mycroft só queria lhe corrigir, mas gostou de pensar que talvez, só talvez, ele também queria desviar o assunto doloroso que tanto martelava em sua cabeça.

- Não vai beber? Eu pago.

- Não, obrigado, Lestrade.

- Greg — Ergueu o caneco — Pode me chamar de Greg.

Conversaram amenidades por algum tempo. Já era outro dia quando Mycroft se levantou.

- Não acha que deveria ir para casa?

Gregory riu. Estava razoavelmente bêbado e totalmente corado.

- Não. Não posso ir para casa e encarar minha mulher... Que está dormindo com outro. — Levantou-se — Hm, acho que vou para um hotel.

- Você pode passar a noite no meu apartamento... Greg.
Apesar da surpresa, Lestrade não protestou. Apenas perguntou se não seria incômodo, mas o castanho disse que gostaria de ter alguma companhia.

Entraram no carro preto que os aguardava. Se a morena que esperava do lado de dentro se surpreendeu com o novo passageiro, não deixou transparecer, continuando pregada em seu blackberry.

- Essa é Anthea — A moça acenou.

- Greg.

O apartamento ocupava todo o último andar de um prédio construído especialmente para ser luxuoso e não demonstrar isso. O hall era simples, com um armário para casacos e um grande vaso como enfeite. Abria-se para a sala, que era dividida da cozinha apenas por um balcão. Podia ver o corredor a sua direita e as várias portas ali.

Anthea cochichou algumas palavras para a sombra da Rainha e se retirou, acenando.

- Belo apartamento.

- Obrigado. Se quiser tomar um banho, o banheiro é a segunda porta a esquerda. Deixarei uma roupa na porta. Pegue uma toalha no armário.

Lestrade abria a porta de madeira clara quando subtamente parou. Voltou-se para trás, e Mycroft ainda o observava.

- Obrigado por isso. Significa muito para mim — E entrou.

Ao sair, encontrou uma calça de moletom cinza e uma camiseta — um número maior que o seu — cuidadosamente dobradas e passadas na porta. Vestiu-se e foi para a sala. Mycroft estava na cozinha, fazendo algo que cheirava deliciosamente.

- Não precisa se incomodar, Mycroft. Está tarde e eu estou te dando trabalho.

- Já disse que aprecio alguma companhia, Greg. Além do mais, já nos conhecemos a tempo o suficiente para agirmos como colegas.

- Colegas? Você é meu amigo.
Mycroft sorriu e, dessa vez, verdadeiramente. Misturava um molho em um pequeno pote de porcelana, olhando a todo instante para as postas de peixe grelhando ao seu lado. O ar político continuava a seu redor, mas estava visivelmente relaxado em uma camiseta dos Strokes, jeans gastos — mas absurdamente bem passado — e descalço.

- Fiz salada e estou grelhando salmão. Espero que goste.

- Para quem está acostumado a comer na rua, isso é um banquete — Riu. — Aliás... Por que você estava naquele bar? Não... Não parece o tipo de coisa que você faz aos sábados a noite.

O mais alto desligou a grelha e pegou dois pratos. Serviu dois copos com suco de laranja e forrou o balcão com apoios de madeira para os pratos. Sentou-se quase na frente de Lestrade.

- Sabia que você estava lá.

- Você foi me ver? Por quê?

- Queria saber como Sherlock está. E o que você acha sobre o novo amiguinho dele, John Watson.

- Ah. Claro. — Bebericou o suco — Sherlock continua limpo. E John é um bom homem. Acho que vai fazer bem para o seu irmão.

Terminaram o jantar em silêncio. Mycroft deixou que Greg lavasse os pratos — o grisalho provavelmente teria o empurrado se não tivesse a passagem liberada — e depois mostrou onde era o quarto de hóspedes.

Na manhã seguinte, Holmes o levou para a Scotland Yard e o deixou pagar um café, mas não comeu os donuts.

Notas finais
Já sabem, não é? Se conveniente comentem, se inconveniente, comentem da mesma maneira.