X Company: A Ilha de Quia
1 Prólogo
Notas iniciais
Kirsten segurara a mão de Darya, que estava sentada ao seu lado, quando o filme começou a rodar a partir do projetor acima delas, formando a imagem do número cinco — e depois do quatro, e depois do três e assim regressivamente até o zero — no lençol que Gustav havia amarrado da escada ao dossel de sua beliche para formar um pequeno telão.
A russa pode ouvir Alice descer da escada ao seu lado e vê por visão periférica que ela roe as unhas enquanto apoia-se no primeiro degrau de metal e fixa os olhos no simbolo que aparece na tela agora, enquanto junta as sobrancelhas e passa a língua pelos lábios em um claro sinal de apreensão.
O X sobre o que parece ser um mapa-múndi um tanto quanto reestruturado — Estados Unidos está dividido em três, a bota da Itália parece ter perdido o salto e a Coreia do Sul apenas sumiu dando lugar a uma bola vermelha que está espalhada em diversos outros lugares, incluindo o Alasca, enquanto pisca — desaparece e é dado um close sobre uma região da América do Sul que Darya não tem certeza se é um território brasileiro ou peruano.
Um homem sorri para eles depois que o X volta a aparecer e explode na tela. Ele parece estar próximo de seus trinta anos, usa um jaleco e tem o cabelo tão negro quanto os olhos, enquanto os dentes são tão brancos que contrastam muito mais do que o necessário com seus lábios também pálidos. Ele tem uma aparência um pouco doentia e gentil demais para ser real. O sorriso dele cresce conforme a música de fundo some gradativamente e em algum ponto, entre isso e suas primeiras palavras, Darya não pode mais olhar para o rosto do homem sem imaginá-lo em um triciclo exatamente como Jig Saw.
— Olá, Senhores e Senhoritas — Darya ergue as sobrancelhas e olha para seus colegas. Como o homem poderia saber que nenhuma das mulheres ali são casadas?
Fleur, que está quase deitada no chão, tem um bloquinho e uma caneta em mãos, ela apoia as costas na lateral da estrutura de nossa beliche e deixa os pés atrás do lençol da cama de Gustav, o que faz com que a imagem trema um pouco, mas ninguém se importa o suficiente para dizer algo. Ela ergue os olhos para um ponto um pouco acima da cabeça de Lucy e Darya instantaneamente sabe que é Bill quem está lá, ela inclina a cabeça para o lado e vê eles trocarem um olhar nervoso antes que Fleur comece a escrever algo no bloquinho que costumava ser seu diário. Ela tem bolsas sob os olhos e parece cansada demais para alguém em sua idade, Darya não pode evitar sentir pena da garota.
— Eu sou o Dr. Ezra Quia e eu estou aqui para lhes explicar porquê vocês foram tirados de suas vidas e rotinas tão repentinamente.
A mão de Darya que Kirsten está segurando está suando e tremendo um pouco agora e ela lhe da um aperto sussurrando-lhe que está tudo bem, mas as duas sabem que é mentira. Darya respira fundo e volta sua atenção para o filme que passa em frente aos seis deles.
— Se vocês chegaram até está fase do jogo, isso significa que passaram nos quatro últimos testes com louvor — Bill ri um pouco e nenhum dos outros pode evitar bufar com a falta de ironia na voz do homem, que agora tem um nome, Ezra. — Vocês representam e são o que há de mais inteligente e prodigioso nas diversas áreas de conhecimentos que a humanidade conhece nos dias atuais. E vocês puderam e ainda terão a oportunidade de provar isso.
Ele faz uma pausa e bebe um pouco do líquido que enche uma xícara, que também contém um X, enquanto se senta no que parece ser o balcão de um laboratório, o que faz com que Darya perceba, um tanto quanto tardiamente, que ele estava no laboratório ao lado quando o filme fora gravado, o homem já estivera na Cúpula.
— Okay, por quê eu sinto que isto está prestes a piorar mesmo que ninguém tenha dito “isso não pode piorar”? — Kirsten pergunta, finalmente soltando a mão de Darya para escovar alguns fios de cabelo moreno de seu rosto.
— Você acabou de dizer a frase proibida, Kirs. Você se lembra do que houve da última vez que disse isso? — Bill perguntou, passando na frente de Darya para ir sentar-se atrás de Fleur, na cama. — Pois é, nenhum de nós nos lembramos, por isso ela se tornou tão proibida.
Alice e Gustav concordam com a cabeça enquanto Kirsten faz uma careta e Fleur aproveita a pausa para continuar a escrever, agora um pouco mais rápido.
— Pode parecer um pouco estranho — continuou, finalmente, o Doutor. — Contudo, mesmo que inconscientemente, vocês estão sendo treinados e assistidos desde que nasceram. E é isso que os torna tão especiais.
Ele bebeu mais um gole de água.
— Vocês serão recolocados para uma nova bateria de testes — contou ele. — Suas perguntas serão ouvidas e vocês receberão suas respostas em breve. Espero que possa conhecê-los melhor logo, Alice, Bill, Darya, Fleur, Gustav e Kirsten.
O vídeo se apagou, mas eles ainda podiam ouvir o projetor trabalhando. E o X vermelho apareceu pela ultima vez antes do feixe de luz que o projetor estava gerando apagasse.
— Nós fizemos todo este sacrifício por uma fita que diz que nós somos super-heróis sem poderes? — perguntou Alice, olhando diretamente para Fleur, Kirsten e Bill. Afinal, são eles que sempre têm as respostas.
— Ele esteve aqui — Kirsten diz, juntando as sobrancelhas e franzindo o nariz, como ela costuma fazer quando se concentra. — Ele disse apenas nossos nomes, não mencionou James ou Artur.
Bill concordou com um grunhido.
— Ele esteve aqui depois da última prova — explicou ele. — Esse deve ser o motivo pelo qual nós não vemos nenhuma câmera nos assistindo. Nós estamos sendo assistidos de perto, por eles.
Alice se move para desamarrar o lençol e depois sentar-se no colchão que ele escondia.
— No que você está pensando? — pergunta Gustav, e Darya demora um pouco para perceber que ele olha para Fleur que, por sua vez, sorri presunçosa, acenando com a cabeça para o lugar onde o lençol estivera como se no espaço fosse possível encontrar a cura do câncer ou a resposta para a paz mundial.
— Lembrem-se, o destino é uma equação interminável de indagações e Quia é X
E tudo escurece, de novo.
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