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7 007 — Inverno
Notas iniciais

*
Manchester, Inglaterra.
Elise estava plenamente ciente da forma com que Yoongi falaria com ela quando a encontrasse no QG, mas ela não esperava que ele agisse daquela forma mais fria do que o esperado até quando se tratava dele mesmo. O coreano, depois de lançar um olhar de gelar a alma para ela quando a viu pela primeira vez, há uma semana, começara a agir como se a alemã simplesmente não existisse. Quando ela lhe dizia "Oi!", "Bom dia!" ou "Me desculpe pelo o que aconteceu!", Yoongi a ignorava e continuava a fazer o que estava fazendo antes. Aquilo, além de surpreendê-la, deixava Elise inquieta. Suas ações anteriores não eram motivos para Yoongi tratá-la de tal maneira, então o que havia acontecido? Elise não compreendia, mas ela sentia que precisava questioná-lo sobre tudo até ter uma resposta definitiva.
E aquela era a oportunidade perfeita para a alemã. Nikita e Gideon estavam indo para o mercado na cidade, o que significava que eles ficariam sozinhos na fazenda, embora Yoongi estivesse cozinhando algo na cozinha e Elise estivesse fitando a neve pela janela de seu quarto no segundo andar. Ao ver a caminhonete vermelha se afastado, ela foi correndo pelas escadas, decidida a conversar com ele ou apenas fazê-lo dizer uma única palavra. Ao chegar no primeiro andar, diminuiu os passos e foi até a cozinha, se apoiando na parede e olhando-o.
Pela primeira vez em anos, Elise pôde analisar as características de Yoongi com mais clareza e calma. Ele era — sem dúvida — um jovem bonito, embora de uma maneira que exalava perigo. Traços felinos, asiático e surpreendentemente atraente até mesmo para ela, alguém que não tinha nenhum conhecimento naquele tipo de coisa, diferente da maioria das mulheres da sua idade. Seus olhos obscuros beiravam aos de um caçador; tempestuosos, indiferentes, analíticos. Alto, talvez mais do que Jasper. Pele pálida, embora com um leve bronzeado, e sem imperfeições. Cabelos escuros, com fios disformes e um corte moderno, bagunçados. No entanto, o que mais chamou a atenção dela foram seus lábios; Sensual e pecaminosamente bem delineados, num tom rosado que beirava o roxo, além dos dentes brancos. Yoongi tinha uma aparência selvagem, implacável; e aquilo fez Elise estremecer por um milésimo de segundo ao pensamento de que, além de ser tão perigoso quanto qualquer mutante dali, ela gostava do que via. Mudou o peso de um pé para o outro, ignorando os próprios devaneios, e começou a falar.
— Você vai ficar me desprezando por quanto tempo? — Ela pergunta, num tom sério que beira o de uma brincadeira; idêntico ao de Jasper, sem exceções, se ele estivesse em seu lugar. Elise espera pacientemente por uma resposta, entretanto, Yoongi parece nem ter mesmo ouvido. Isso não a proíbe de continuar e nem mesmo a abala. — Cho, eu já te pedi desculpas milhões de vezes. O que foi que aconteceu? É impossível que você ainda esteja chateado com uma coisa que... Sei lá, aconteceu há uma semana? Você não é assim. E... — Elise suspira, pensando se deveria ou não dizer aquilo. Ora, era apenas a verdade. Que mal faria em expor seus sentimentos naquele momento? Não era como se ele fosse respondê-la, de fato. — Olha, eu... Eu... Eu estou sentindo a sua falta. Muita, muita falta. — Novamente, ele a ignora. Elise se desprende da parede, derrotada. Se houvesse algo que deixava Elise zangada, era ser deixada falando sozinha; ela havia feito uma exceção para Yoongi porque gostava dele, tentando várias vezes e não desistindo logo de primeira. Porém, ele já deixara claro que não queria vê-la e a alemã não deveria continuar a tentar transpassar pelo muro do rapaz de feições ferozes. Mas ela não conseguia parar de se importar com ele até aquele ponto; Yoongi era o mais próximo que ela tinha de melhor amigo, afinal.
No entanto, Elise tinha se esquecido de uma coisa sobre Yoongi; ele era uma surpreendente caixa de pandora, e ela nunca iria prever suas ações, por mais que o conhecesse.
— Elise. — A voz dele a apanhou de surpresa, fazendo Elise voltar para a parede e observá-lo com aqueles olhos azuis questionadores. Yoongi parara de cortar os legumes e começara a olhá-la, indecifrável e impassível, como se fosse a porta de um banco suíço. Saiu de perto da bancada e limpou as mãos com um pano, se aproximando dela como se tentasse entender algo. Elise tinha conhecimento que os sentimentos recíprocos de curiosidade pelo fato de serem incapazes de compreender de forma definitiva um ao outro era o ponto alto em seu relacionamento. No entanto, naquele momento, ela viu nos olhos dele que Yoongi havia chegado a uma conclusão obscura naquele momento, algo que parecia ser difícil de lidar até mesmo para ele. Ela viu, também, que ele não conseguia formular uma resposta definitiva para ela. Por isso, tudo o que o coreano respondeu fora: — Bem... O inverno sempre foi a minha estação favorita. — O esboço de um sorriso passou por seus lábios tão rapidamente que Elise não o teria visto se não estivesse prestando tanta atenção nele. Foi uma resposta confusa, no início, até ela compreendê-la depois de vários segundos que pareciam anos. Uma dúvida e um choque foram as primeiras coisas que passaram pelos olhos dela antes da alemã sorrir, da mesma maneira infantil que Jasper, mas tão verdadeira que fez Yoongi se surpreender por um milésimo de segundo.
— Acho que temos um trenó disponível no sótão.
*
Lexington, Estados Unidos.
Nove Meses Atrás.
— Tem certeza que deveríamos confiar nele? — Caleb a questiona em um sussurro, sem tirar os olhos do corpo quase inerte do rapaz de cabelos cacheados, entretanto, Ravena finge não tê-lo ouvido. Seus olhos estavam fixos no peitoral de Uriah, analisando a respiração imperceptível e os profundos ferimentos de corte, embora ela estivesse cônscia de que tanto o jovem quanto o ex-marido a observava. Ela sabia que Uriah a via por trás do vidro espelhado; era uma de suas muitas habilidades, obviamente. A cirurgia já estava prestes a acabar, depois de longas e monótonas doze horas, mas Churchill não tinha certeza se deveria acreditar na palavra de Vladimir. A proposta do presidente russo lhe era atrativa, no entanto, ela estaria arriscando mais do que a própria vida nisso. O que May faria em seu lugar?
A escocesa coçou a lateral da cabeça e tirou uma mecha de seus fios dourados do rosto, virando-se para Caleb com seu típico olhar frio que beirava ao nojo. Uma minúscula parte dela sentia-se triste por tratá-lo daquela forma, mas Ravena era forte o suficiente para ignorar até mesmo seu lado mais profundo. Ela tinha perfeito conhecimento de que Caleb ainda era apaixonado por ela, no entanto, diante das condições e do passado que continuava a persegui-los, Ravena havia jogado todos os sentimentos bons que exalavam por seu corpo quando se tratava do irlandês no lixo como se estes fossem nada para si.
Mas ainda assim ela era incapaz de olhá-lo nos olhos.
— Não é você quem defende incansavelmente os direitos das cobaias, Dr. Roth? Imaginei que fosse o primeiro a se colocar a favor diante da oferta de Vladimir. — Ela retruca, num tom monótono e sarcástico. Caleb apenas dá um longo suspiro antes de respondê-la.
— Pense logicamente, Vena. — Aquele apelido... Céus, como ela odiava aquele apelido. Depois de três anos de divórcio, Caleb ainda insistia em chamá-la por um dos muitos nomes carinhosos que inventara durante o matrimônio. Ela não sabia se deveria esganá-lo ou ignorá-lo. A primeira opção surpreendentemente lhe parecia a melhor. — Não é todo dia que nos fazem uma proposta desse calibre. Por mais atraente que ela seja para mim, ainda assim é perigoso. Estaríamos comprometendo todo o Protocolo e viraríamos inimigos pessoais do país mais poderoso do mundo!
— Então você pretende continuar a acatar as odiosas ordens daquele patife do Worthington, Dr. Roth? Esperava mais de alguém indicado ao Prêmio Nobel da Ciência, sinceramente.
— É claro que não. Mas me diga, você nunca cogitou a ideia de acabar em um campo de fuzilamento, além de ser o motivo de uma guerra mundial? O que o Russo nos pediu é loucura, mesmo que seja em nome do bem de toda uma espécie, e vamos acabar mortos antes mesmo de começarmos a planejar. Eu não quero que você morra, não quero que ninguém morra. Se for necessário que continuemos ao lado do Ted, que seja!
— No momento que nosso filho quase morreu, Caleb Roth, por ter desacatado Worthington e quando eu levei a culpa, vi que todas essas possibilidades não significam absolutamente nada perto da chance de poder dar um tiro na testa daquele filho da mãe que se diz presidente; eu não estou nem aí se vamos acabar mortos ou culpados por uma guerra. — As palavras da escocesa o atingem como uma bala e ela sabe que diz a verdade. Após ver seu próprio filho sendo torturado e quase morto, as atitudes de Ravena eram no mínimo previsíveis e honrosas e ele se sentia constrangido por não as ter antevisto. Era claro que seu desejo por vingança era o mesmo que o dela, mas ele nunca havia parado para pensar neles no momento. O irlandês suspira.
— Se formos descobertos...
— Nós não vamos ser descobertos, Caleb. Você me conhece há mais de dezoito anos e ainda acha que posso perder em alguma coisa? — Aquele tom era o mais próximo de brincalhão e rebelde que o irlandês havia visto sair dos lábios dela em anos, mesmo diante da atual situação; a de que estavam traindo todo um país apenas para vingar a injustiça cometida contra o filho.
Caleb continua olhando para Ravena discretamente, mesmo depois do fim da discussão, imerso em pensamentos. Ela sabe que ele está nervoso; afinal, ela só o havia visto agir naquela maneira no funeral da filha, há mais de dois anos. Entretanto, Ravena tinha que admitir que Caleb estava certo em alguns pontos — arriscariam muito por pouco —, mas ela simplesmente não podia continuar calada diante daquilo. Não gostava de mutantes, mas seu filho era diferente. Se sua vingança significava a salvação da raça mutante, então que seja. “O que vier é lucro”. Ela pensa para si mesma, dando um suspiro enquanto vê os médicos terminarem de suturar os ferimentos de Uriah.
E sorri diante da ideia de explodir o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
*
Moscou, Rússia.
144 horas, 1478 minutos e 86456 segundos fora do Pentágono, se as contas de Jasper estivessem corretas. E vários meses fora do MIT, de fato. Liberdade era uma coisa que estava gritando nos ouvidos do alemão há dias e ele mal podia conter-se de tanta felicidade por estar fora do cativeiro, ao lado de Valentina. Pela primeira vez, ele a viu sorrir e aquilo foi como ganhar em uma loteria; algo que o deixou ainda mais feliz. Apesar de sua fluência na língua eslava, ele não estava plenamente acostumado com seu novo nome a maneira com que o tratavam; como se fosse um verdadeiro cidadão daquele país, uma pessoa normal. Jasper Z. Wagner morrera e Mikhail Pavlovitch Tchaikowsky nascera em seu lugar, o dono de uma loja de discos antigos e noivo de uma atraente bibliotecária, que, no caso, era Valentina. Ele também não estava acostumado em chamá-la de Svetlana Yuryevna Stravinski.
No entanto, a liberdade fora algo efêmero.
E ali estava ele, diante da Dra. Ravena Churchill com um sorriso sacana. A mulher de quase quarenta anos, entretanto, estava com um ar sério e profissional, como sempre. Ele se lembrava perfeitamente do dia em que a conhecera, há quase uma vida atrás. Ela não tinha o cabelo curto de agora e nem mesmo as quase imperceptíveis rugas de expressão, mas Jasper lembrava-se de acha-la uma mulher muito bonita e parecia ser boa pessoa, e ela ainda estava interligada a Caleb pelo matrimônio. Ao menos, durante dois anos, fora isso o que ele pensara a respeito dela. Até Ravena mudar.
Era como se houvesse endurecido da noite para o dia.
— Sra. Churchill! Como vai? Faz tanto tempo que não a vejo. — Jasper diz, num tom animado e divertido. A mulher levanta uma das sobrancelhas, mas continua folheando a papelada a sua frente como se não tivesse ouvido nada. Ela era assim e o alemão não estava surpreso. No entanto, esta poderia ser uma maneira de conseguir tirar alguma informação sobre o paradeiro de Valentina de Ravena, e, quando se tratava da russa, Jasper sacrificaria até a própria vida por ela.
Não podia negar que estava dolorosa, inegável e perdidamente apaixonado por Valentina Dewitt como nunca esteve em nenhum de seus vinte e três anos de vida.
Começou a avaliar Ravena, anotando mentalmente cada uma das características do rosto dela, caso seja algo necessário para si no futuro. Era, de fato, uma bela mulher de trinta e seis anos, aparentando ser mais nova. Cabelos louros num tom entre o mel e o dourado, presos em um coque arrumado, ele nunca havia a visto com usando-o solto, mas tinha quase certeza de que eram um pouco acima dos ombros. Sua pele era pálida e ela tinha poucas rugas de expressão, principalmente na área dos lábios; uma provável pessoa sorridente no passado. Uma “cabeça-grande”, típica de pessoas estereotipadas como inteligentes, com feições delicadas e lábios naturalmente rosados. Os olhos escuros, possivelmente azuis, e expressivos eram sua marca registrada, por estarem sempre demonstrando frieza, tédio, dor. 1,74 cm de altura e deveria pesar uns 67 kgs, era uma das poucas cientistas que realmente ficavam bem usando um jaleco. Ela não tinha um corpo absurdamente curvilíneo, mas, de certa forma, chamava atenção. Talvez tenha sido todo aquele conjunto de beleza que atraiu Caleb desde o início.
— Pensei que você não iria mais me causar problemas, Wagner, mas explodir uma das celas mais impenetráveis do Pentágono realmente... Você me surpreendeu, parabéns. — Ravena força um sorriso, colocando os braços em cima da mesa e segurando as mãos antes de se ajeitar na cadeira para voltar a folhear os papéis. Então ela deixa um arquivo diante de Jasper, indicando que ele deveria se aproximar para lê-lo. O alemão obedece e dá de cara com um conjunto de fotos de sua própria irmã, em uma cidade iluminada e visualmente poluída, ao lado de ninguém menos que Yoongi. As letras no canto da foto indicam que esta foto fora tirada em Seoul, há duas semanas, o que significava que Elise estava bem e viva. Jasper estranhou a ação da mulher mais velha e virou seus olhos na direção dela, confuso. Ravena não sorri. — Não há ninguém do CCM nos observando agora, Jasper. E, oficialmente falando, você continua desaparecido e eu continuo procurando por indícios das outras cobaias no Havaí junto com o Sr. Roth, que, por acaso, está na sala ao lado nos observando neste exato momento junto com a sua namorada. — Jasper segue o olhar da mulher loura em direção ao vidro espelhado que separa as duas salas e o retorna para fitá-la nos olhos, perguntando silenciosamente como era o estado da russa no momento. Ravena percebe isto e compreende o pedido. — Ela está bem, não se preocupe. E, agora, que tal tratarmos de negócios? Creio que você esteja bastante confuso em relação à tudo que está acontecendo no momento; claro, mesmo sendo a pessoa mais inteligente viva, ninguém pode prever tudo. Se me permitir, posso explicá-lo tudo o que está acontecendo sem omitir absolutamente nada e responderei todas as perguntas que tiver.
— Me pergunto o porquê de você ter mentido descaradamente para o Ted se é a aliada mais leal dele. Imaginava isto vindo do Caleb, mas de você? Ravena, pelo o que eu saiba, você odeia a minha raça tanto quanto o presidente. — A escocesa sorri da mesma maneira de antes, no entanto, ele nota que é o mais próximo de "sorriso verdadeiro" que poderia vir dela. Ravena se levanta da cadeira e fica ao lado do alemão, apenas para tirar as algemas de suas mãos e jogá-las em cima da mesa. E para na metade do caminho de volta para a própria cadeira, ainda sorrindo.
— Você tem a ilusão de conhecer profundamente todas as pessoas do mundo, Sr. Wagner, mas na verdade este é um pensamento errôneo. Eu não odeio a sua raça, no entanto, também não sou uma grande apreciadora. E não me compare com Ted Worthington; posso ser um monstro, mas sou um monstro que está ao seu lado, visto que nossos objetivos são os mesmos.
— Que seriam...? — Ravena se senta enquanto Jasper continua a questioná-la, e ela o olha. Seu sorriso aumenta e ele pode ver os dentes brancos dela brilhando como os de um lobo faminto prestes a atacar sua presa. E o alemão estremece, com medo daquela simples humana pela primeira vez em anos.
— Ora, e o que mais poderiam ser? Assassinar o quinquagésimo presidente dos Estados Unidos da América, o Sr. Theodore Fitzgerald Worthington. — As orbes cor de ônix se arregalam com aquelas palavras, ditas da mesma forma que alguém explica algo óbvio para uma criança de seis anos. Jasper não podia acreditar; Ravena queria matar Ted? Mas por quê? Como ele mesmo havia dito, ela era a pessoa mais confiável que o presidente tinha, então por que o trairia assim, da noite para o dia? Novamente, pela primeira vez, Jasper fora pego de surpresa por Ravena; ela era definitivamente indecifrável, aleatória e imprevisível até mesmo para ele. E, pela primeira vez, ele era incapaz de achar uma resposta para aquela pergunta.
Ao notar que o jovem de vinte e três não iria lhe responder, Ravena colocou vários outros arquivos em frente a ele, mostrando fotos dos mutantes fugitivos. Annabelle em Istambul, Gideon e Nikita em Manchester, Daniel em Budapeste, Ninally em Camberra, Kenai no centro de Tóquio... Todas tiradas há menos de duas semanas, em preto e branco, com a data, hora e local escritos na ponta direita das fotografias. Tiradas por Caleb e um conjunto de cientistas novatos; entre eles, Nicholas Hyde, o rapaz que "cheirava" a mutante que Jasper havia conhecido há vários meses atrás. Ele estava sem reação; as únicas coisas que saíram de seus lábios foram:
— Por quê?
— Porque vocês não foram os únicos que sofreram perdas, Sr. Wagner.
*
Camberra, Austrália.
Nina estava começando a se acostumar com a rotina de Claire e Hannah depois de uma semana como "hóspede" da casa da australiana. Acordavam cedo, às seis em ponto, para levar Hannah à escola que ficava a um quilômetro da pequena casa que moravam. Depois disso, Claire e Nina passavam a tarde inteira no centro conversando sobre Uriah e as desconfianças da espanhola sobre o paradeiro dele e as razões para o rapaz explodir o MIT. Ela não conseguia chegar a uma conclusão pelo simples fato de que era incapaz de imaginá-lo machucando qualquer pessoa; se havia algo em Uriah que Nina adorava, era o fato dele ser gentil e misericordioso o suficiente para não sair ferindo quem quer que o irritasse, mesmo que o britânico fosse o segundo mutante mais poderoso do lugar. Tinha uma natureza calma e controlada, e carismática; até mesmo as pessoas da Cela Doze gostavam dele. Então, como poderia imaginar alguém como Uriah sendo responsável por aquele desastre? Não fazia sentido.
Naquela tarde em questão, Nina e Claire estavam assistindo ao noticiário enquanto esperavam o horário de buscar Hannah na escola chegasse. Ambas não estavam no clima para conversar e estavam mais preocupadas com o que fariam no futuro próximo do que nos acontecimentos atuais, portanto, mal prestavam atenção na televisão. Claire parecia estar entediada e Nina, totalmente distraída pelos próprios devaneios. A espanhola continuava pensando em Uriah, mas não no mistério de sua morte, e sim nos momentos que passara ao lado dele; como da vez em que saíram correndo pelo Instituto depois do britânico ter deixado Yoon Gi, da Cela Doze, verdadeiramente irritado. Foi divertido e ela nunca se esqueceria das risadas dele ecoando por seus ouvidos; aquele riso afetado e estranho a fazia gargalhar como uma criança inocente e era outro dos milhares de motivos pelos quais Nina amava ser amiga de Uriah.
Então um conjunto de memórias encheu os pensamentos de Nina de uma vez só. O dia em que eles se conheceram, quando Uriah exalava timidez em frente de uma garota "bonita demais para se importar com ele". O dia em que ele pediu para ela segurar sua mão durante seu primeiro exame, com tanto medo da agulha quanto uma criança. O dia em que ele a abraçou pela primeira vez, tão desconcertadamente e tão morto de vergonha que fez Nina rir, mas adorar o sentimento que encheu seu corpo ao sentir o calor dele. O dia em que ele dissera, com todas as letras, que ela era a melhor amiga dele e que ninguém no mundo poderia substituí-la. O dia em que Nina notou que Annabelle, da Cela Treze, aparentava ter uma paixonite por Uriah, o que a fez tentar, sem sucesso, juntá-los; segundo o britânico, ele já estava de olho em outra pessoa. O dia em que eles fizeram piquenique no jardim de inverno do Instituto, quando uma borboleta azul pousou no nariz dela e o rapaz teve que tirá-la, com toda a calma e paciência do mundo, e deixá-la em cima de uma flor que crescia ali perto. O dia em que ela o viu pela última vez, tão determinado, dizendo que iria expor seus sentimentos pela garota que amava e não se arrependeria, mesmo que a resposta fosse uma dolorosa negativa. Ele fora a melhor pessoa que ela conhecera na vida. E discretamente, ela sorriu. Feliz em saber que, mesmo que Uriah tivesse mudado e se tornado outra pessoa, ele estava vivo. E sempre continuaria sendo o rapaz cego, tímido e magricela, que ela tanto adorara.
— Por que está sorrindo? — Claire a pergunta, sem tirar os olhos da televisão. Às vezes, Nina se perguntava como era possível a australiana prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo, sem confundir o próprio cérebro com pensamentos e ações.
— Estava lembrando de uma coisa. — Nina a responde, brincando com os dedos das mãos e observando a tinta azul-céu nas unhas. A espanhola tinha certeza se Claire não sabia sobre seu envolvimento amigável com Uriah, mas, às vezes, a australiana agia como se fosse uma expert no relacionamento deles. Era algo estranho, mas não incomodava mais Nina. Ela tinha mais preocupações em mente, afinal. — Claire, você já ficou em dúvida sobre o seu sentimento por alguém?
— Como assim? — Claire coloca um Cheetos na boca e mastiga, ainda sem olhar para Nina diretamente. A espanhola continua sorrindo para si mesma, ainda se lembrando de Uriah. Como da vez em que, antes da Arena, ele ficou abraçado ao corpo dela, rezando para Nina vencer, até a garota ir lutar contra Elise Wagner e derrotá-la com honras. Ela se lembra de vê-lo gritando como um louco, "Você viu?! Minha melhor amiga! Ela acabou com a Wagner!". Nina balançou a cabeça, desistindo.
— Nada. Eu só estava... Divagando.
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