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5 005 — Morto-Vivo
Notas iniciais

*
Lexington, Estados Unidos.
Yoongi agiu quase sem pensar ao ver a explosão prestes a acontecer. A primeira coisa que fez foi por puro instinto; se abaixou desconsertadamente, na direção do chão, trouxe a mulher alemã ao seu lado para junto de si e esperou. Notou que sua ação havia sido certa, porque chamara a atenção dos outros três mutantes ali presentes, que fizeram o mesmo em uma fração de segundo antes de sentirem um calor e suas roupas queimando. O coração de Yoongi doía em seu peito; pela primeira vez em anos, ele estava verdadeiramente com medo. Se morresse ali, falharia em concluir seu maior sonho; encontrar seu irmão, Woo Ho, que ele jurava estar vivo. Yoongi precisava se salvar dali, de qualquer forma.
Então ele congelou. Literalmente.
Obviamente, não era a coisa mais inteligente se de fazer numa explosão em chamas, mas foi o suficiente para seu corpo resistir o máximo possível sem que tivesse ferimentos verdadeiramente graves. Ouviu um grito em seus ouvidos e não soube dizer se era de uma outra pessoa ou de si mesmo; tudo estava tão confuso. Sentiu uma parte de seu corpo derreter e quase ficou surpreso ao notar que a explosão demoraria para terminar, mesmo que tudo estivesse acontecendo em segundos. E tudo começou a piorar.
Quando Elise começou a gritar mais alto do que qualquer coisa que Yoongi jamais ouvira na vida, ele sentiu outro calor, emanando do corpo dela. A alemã estava tendo um ataque de pânico ali, berrando mais do que em suas noites mal dormidas cheias de pesadelos sombrios sobre seus demônios internos e pessoas ruins a atacando. Ele não sabia como a garganta dela conseguia fazer aquilo. Entretanto, quando notou, uma força estranha o jogou para longe e o grito aumentou. Por um minuto, a explosão acabou e ele pôde abrir os olhos. E não soube como reagir diante daquilo.
Uma bolha de ar tinha se formado em torno da Arena, impedindo as chamas de chegarem perto deles, e Wagner estava no centro, ainda gritando. Durou menos de um minuto antes da mulher desmaiar, com a pele tão pálida, as respirações tão lentas e os olhos abertos como se ela tivesse visto um fantasma, Elise parecia um verdadeiro cadáver. Por um segundo, Yoongi realmente pensou que ela tivesse morrido, até ver de forma quase imperceptível de sua respiração.
Depois de poucos minutos que pareciam anos, as chamas cessaram e havia apenas fumaça enchendo o lugar. Era impossível respirar; o lugar estava abafado, difícil de enxergar e tudo o que Yoongi ouvia eram gritos de pessoas desconhecidas, poucas vezes de conhecidos. Se aproximou de Elise e tentou acordá-la; depois de alguns minutos, fez uma carranca, desistiu e resolveu a carregar. Colocou-a nas costas e correu até os corredores normais, sendo que os de emergência estavam lotados de gente. Ninguém iria por aquele lugar, nem em seus piores sonhos. Identificou vultos no caminho, mas ninguém parecia procurá-los ou chamar por seus nomes, então o coreano continuou a carregar a mulher nas costas até chegar ao terraço pelas escadas. Estava morto de cansaço quando viu a luz do sol verdadeira pela primeira vez em cinco anos.
Jogou Elise desconsertadamente no chão e se deitou ao lado dela, processando o que tinha acontecido, procurando uma maneira de sair dali e respirando pesadamente. Obviamente, não poderia ficar no prédio por muito tempo; ele parecia estar prestes a desabar e eles estavam no terraço, o que tornava a morte ainda mais dolorosa do que uma luta na Arena contra Dagna. Além disso, parecia que a alemã demoraria para a acordar, o que era um problema, visto que ele não poderia simplesmente sair andando em Lexington carregando uma mulher inconsciente. Droga, queria ter encontrado o irmão dela ou Dagna ou qualquer um. Pelo menos o trabalho de carregar 59 quilos poderia ser dividido em dois e seria menos cansativo.
No entanto, Yoongi não estava inquieto apenas por aquela razão. O que enchia sua mente de pensamentos era uma única pergunta: quem ou o que provocara aquilo? E por quê? Tudo o que ele vira fora as chamas aparecendo do nada, praticamente como se Henry tivesse feito seu corpo entrar em combustão e explodido. Além disso, ele estava mais preocupado em sobreviver do que pensar em quem fizera aquilo. Ele estava imerso em devaneios sombrios quando ouviu um arfar ao seu lado, abrindo os olhos para encarar a mulher loura que parecia estar se afogando no próprio oxigênio. Lisbeth demorou trinta segundos para conseguir retornar a respirar sem dificuldades e se sentou, fitando Yoongi pelo canto do olho.
— O que... Aconteceu? — Ela colocou as mãos na cabeça, soltando um suspiro pesado. Parecia estar tentando se acalmar de algo que ela mesma não compreendia. — Minha cabeça está doendo.
— Eu não sei. — Foi uma resposta fria e áspera, típica de Yoongi, mas havia algo de hesitação misturada àquilo. Elise não notou, talvez por falta de atenção ou porque não se importou, mas o coreano se sentia em parte aliviado. Ainda haviam dificuldades, obviamente, mas elas tinham diminuído ou se tornado resolúveis. — Vamos embora daqui. Agora.
— Onde está o Jasper? — Preocupação. Medo. Ânsia de conhecimento. Os olhos dela imploravam por uma resposta, entretanto, os orbes cor de ônix se desviaram para outro lado. Em seu interior, Yoongi acreditava que Jasper estava morto. O rapaz dificilmente preveria aquele acontecimento tempo suficiente para “dar no pé”. Além disso, se estivesse vivo, ele estaria gritando desesperadamente em busca da irmã; Yoongi sabia que os laços familiares entre eles eram tão fortes quanto os que ele tinha com Woo Ho. Ou, melhor dizendo, os que ele tem com Woo Ho. — Cho, onde está o Jasper? — Em dias normais, Yoongi teria a corrigido com uma carranca estampada no rosto devido a pronúncia terrível de seu sobrenome pelos lábios da mulher. No entanto, ele não fez nada disso. Parecia uma estátua; os músculos quase não se mexiam, ele mal piscava e seu rosto estava indecifrável.
Suspiro. Ele vira o rosto na direção dela e vê uma expressão quebrada, muito semelhante da de um menino que tinha estragado a própria vida e a dos pais e irmão em um ataque de raiva; a de alguém que perdera absolutamente tudo de uma vez só.
— Vamos embora daqui.
*
Seoul, Coréia do Sul.
Três meses se passaram desde que Elise e Yoongi tinham conseguido fugir do Laboratório Lincoln, em Lexington, nos Estados Unidos. Embora, na mente dela, fosse estranho viver sobre um nome falso de Holland Welch e agir como a noiva do irmão viajante de Kwon Seung-hyun, também conhecido como Yoongi, Elise estava se acostumando com a vida fora do MIT. Depois de ser obrigada a aprender a língua com seu professor irritadiço, ela sentia que podia começar a seguir em frente depois da morte do irmão. No entanto, a mera menção do nome dele ainda era dolorosa para ela. Jasper fora a única pessoa no mundo que ela confiava ao ponto de se jogar de um prédio, sabendo que ele estaria lá para segurá-la quando caísse. Ele era a pessoa que ela mais amava na vida, a única pessoa com quem Elise mostrava seus sentimentos mais controversos. Jasper a entendia; e nunca haveria ninguém no mundo que pudesse substituí-lo naquele conceito.
Yoongi estava sempre ocupado, então eles raramente se viam. O coreano era um alicerce para ela e um amigo em que ela podia confiar; afinal, ele tinha salvado sua vida e a ajudado a superar a dor nas primeiras semanas desde a fuga. Passavam as noites em claro, conversando sobre qualquer besteira que viesse em suas mentes, falando sobre o passado, presente e futuro como dois velhos que já tinham experimentado de tudo na vida. E, quando amanhecia, ele ia embora e agia com frieza, como sempre. Não obstante, continuasse a repelir a companhia alheia e demonstrar um péssimo humor o tempo inteiro, Elise gostava dele, de certa forma. Era o que ela precisava naquele momento.
Pelo o que ouvia das conversas telefônicas de Cho, ele estava tentando contatar os outros mutantes desde que ela havia lhe informado de que queria uni-los para falar sobre um sonho que ela tivera em uma de suas semanas de luto. Sabia que seria uma tarefa difícil; muitos, como ela e Yoongi, devem ter alterado seus nomes e começado a agir como humanos comuns, embora nunca pudessem ser pessoas assim em sua essência. Conseguira falar com Daniel, Dagna, Sahani, Gideon, Nikita, Henry e Ninally; entretanto, os outros continuavam desaparecidos e totalmente irrastreáveis. Não sabia se eles haviam tido o mesmo destino que Jasper, mas esperava que não; todos eram importantes para a conclusão de sua ideia, sem exceções.
Naquele dia, Henry chegaria em Seoul no mesmo horário que Yoongi tinha uma reunião de negócios na empresa de publicidade que trabalhava para pagar as despesas do pequeno apartamento que alugavam, portanto Elise teria que ir buscá-lo sozinha de táxi. Ao sair de casa e pegar o táxi em direção ao aeroporto, Elise começou a ponderar enquanto observava sem muito interesse as crianças brincando na rua.
As coisas tinham mudado em tão poucos meses. Os sonhos estavam se tornando cada vez menos frequentes e ela tinha algumas noites de sono tranquilas, o que estava melhorando um pouco o humor da alemã. No entanto, quando os tinha, eram sempre os mesmos; Elise estava na Arena no Lexington, diante do corpo inerte do próprio irmão, que levantava os olhos para ela do nada como um monstro de filme de terror e dizia, em alemão, que a culpa era dela. Parecia um remake de um dos sonhos que tivera no MIT, ao que parecia há quase uma vida atrás. Suspirou pesadamente e notou que havia finalmente chegado ao Aeroporto de Seoul pontualmente. Elise não era pontual; ela não ligava para aquelas coisas. Entregou algumas notas de wons para o taxista e adentrou no Aeroporto com rapidez.
Esperou vinte minutos para que Henry chegasse e, a primeira coisa que ele fez ao vê-la, fora sorrir-lhe como se ela fosse uma velha amiga. Aquilo era típico dele; e era um dos motivos pelos quais Elise gostava dele, mesmo que sem demonstrar sua afeição. Ele não trazia muitas malas, três pequenas no total, visto que passaria poucos dias na casa dos dois amigos. Depois de três meses, Elise notou que sentira falta das pessoas daquele lugar.
Foram seis anos, de fato. Esquecê-los seria difícil.
Quando Henry estava prestes a cumprimentá-la, uma voz alta foi ouvida e traduzida para o inglês, visto que nem todos no aeroporto eram tão fluentes em coreano assim. Os olhos de Henry e Elise correram na direção da televisão mais próxima, que apresentava o rosto gordo e velho de Ted Worthington, o Presidente dos Estados Unidos. Ele estava fazendo um pronunciamento e as letras que passavam na tela diziam que era algo sobre mutantes, o que atiçou a curiosidade dos dois ex-presos ali presentes. Ted segurava uma papelada e estava na Sala Oval, ao lado de seu cachorro da raça Chow Chow que fora presente da Rússia e da China, Vanika. Ele suspirou antes de falar, com uma voz autoritária.
— Cidadãos e cidadãs da América, com felicidade lhes digo que acabou. — Ted joga os papéis na mesa e sorri, de forma tão falsa que até mesmo Henry sente nojo daquele homem. — A cura mutante foi encontrada.
Então o aeroporto entra em combustão; todas as pessoas começam a gritar, correr e comemorar com as palavras do presidente. Alguns até mesmo fazem sinal afirmativo para o presidente e vários aplaudem, como se ele fosse o herói do dia. Gritos, choros, sorrisos... Pareciam estar em ano novo. Exceto de que Elise e Henry não estavam nem um pouco felizes com aquela afirmação. Eles se entreolham, preocupados; como era possível que Ted tivesse descoberto a cura? Depois de seis anos do Protocolo X e tantos testes, nada havia acontecido a respeito disso. Era algo estranho que os assustava; o que Ted teria feito para “resolver” seu “pequeno” problema?
— Graças ao auxílio de Valentina Dewitt e... — Ted lê o nome da segunda pessoa duas vezes, franze o cenho e continua. Henry parece ter ficado mais inquieto do que antes e Elise mal pisca, esperando a continuação como se ansiasse em saber quem fora o traidor que renegara sua espécie para ajudar seus inimigos declarados. — Jasper Wagner.
O coração de Elise falha e ela entra em estado de choque.
Seu irmão estava vivo.
*
Oslo, Noruega.
Oito meses. Dagna estava livre há exatas 32 semanas, 242 dias e 5808 horas.
Não obstante, ela nunca tinha pensado na possibilidade de se livrar do Instituto de Tecnologia de Massachusetts em nenhum de seus quatro anos de cárcere. Na mente da norueguesa, iria passar o resto de seus 21 anos inteiros com a gloriosa companhia de Henry Shehaan, Cho Yoon Gi, Lisbeth e Jasper Zsigmond Wagner, o que era algo perfeito, muito obrigado. Entretanto, após a explosão, Dagna seguiu seus instintos e mal pensou; saiu correndo de Lexington em um carro roubado e com roupas roubadas, indo na direção de Chicago, em Illinois. Ela não tinha dinheiro para pagar comida e gasolina, sendo assim, precisava decidir entre seduzir ou intimidar alguém conseguir o que desejava. Optou pela segunda opção e chegou em Chicago tão rápido quanto uma fecha disparada por um profissional, conseguindo roubar mais algumas coisinhas para pagar sua passagem de volta para Oslo. Dagna tinha voltado à época de sua vida em que furtos eram as únicas coisas que a mantinham viva, embora não estivesse realmente incomodada com aquilo; ao menos, estava livre.
Chegar em Oslo sem nada além das roupas do corpo e algumas coroas que serviam apenas para pagar por uma noite em um hotel no subúrbio fora duro para ela, mas nada que não fosse suportável. Naquele dia em questão, ela estava em seu apartamento comprado também com alguns furtos de joias e assistindo o telejornal sem muito interesse. A repórter com olhos de peixe morto informava os oito meses desde a explosão misteriosa em Lexington como se fosse um dia de luto pela morte da Presidente Marianne Élisée Gérin-Lajoie e dos mutantes, embora Dagna tivesse quase certeza de que a maioria tinha escapado de lá da mesma forma que Vladimir Khrushchev; ajeitando e tirando a poeira do terno em meio da multidão desesperada, como se nada estivesse acontecendo. Era por aquele motivo que a maioria das pessoas tinha medo dele; Vladimir era descendente do Secretário-Geral da União Soviética, Nikita Khrushchev, além de que seu nome e aparência remetiam à um dos mais famosos presidentes do país na década de 20, Vladimir Putin. Na opinião deles, era como se Khrushchev fosse um misto deles. Aterrorizantemente implacável.
O mundo tinha se tornado uma loucura ainda maior desde o “atentado terrorista” no Lincoln. Com a demora para a escolha de um sucessor na França, Paris tinha se tornado praticamente uma cidade sem lei; os índices de mortalidade e crime tinham aumentado em 48%, a pobreza estava explodindo e a economia caía a cada dia que se passava sem uma decisão. Ted Worthington constantemente fazia discursos de ódio contra os mutantes, mesmo depois da descoberta da cura, se fazendo de vítima, embora ele não tivesse recebido um único arranhão. Dizia que ia “desintegrar” cada um daqueles “assassinos” em nome do “bem” do povo americano, como se ele fosse um herói e sobrevivente de uma guerra. Os países Nórdicos estavam neutros em relação aquilo, mesmo diante da ameaça à duas das famílias reais mais importantes da Península, agindo como se nada tivesse acontecido. O Reino Unido e a Federação Russa estavam tão calados que assustava; boatos diziam que o Presidente Worthington, o Presidente Khrushchev e o Primeiro-Ministro Wessex tinham opiniões completamente contrárias, o que era o motivo para aquela tensão entre os três países. Dagna suspirou e desligou a televisão, se deliciando com o silêncio do apartamento por poucos minutos até ouvir seu telefone tocar, com a música Demons, de Imagine Dragons. Atendeu de forma tão imediata que parecia estar esperando aquela ligação há milênios.
— Hei. — Cumprimenta, com uma voz gélida. A pessoa na outra linha demorou para responder, ela notou, e Dagna quase desligou o telefone depois de quase três minutos. Ouviu um suspiro pesado e murmúrios, até ser respondida por uma voz idiotamente familiar.
— Dagna, é o Henry. Nós precisamos de você. Vamos tirar o Jasper do Pentágono.
*
Arlington, Estados Unidos.
Valentina não estava acostumada a receber visitas e muito menos de ter um companheiro de cela. Não obstante, ela nunca falara diretamente ou vira o corpo e rosto por completo em nenhum dos oito meses em que os dois estavam juntos, embora soubesse que ele ou ela tentava observá-la de alguma forma. Na visão dela, aquela pessoa desconhecida era curiosa demais para ter feito algo verdadeiramente ruim para ser preso ali. Se era um mutante ou não, ela não tinha certeza. No entanto, sabia que quem quer que fosse seu “colega” tinha vontade de conhecê-la a fundo.
Sua cela no Pentágono ficava a cerca de cem metros da superfície e era praticamente uma mansão de tão grande. Tinha algo em torno de cinquenta metros de diâmetro e era completamente feita de materiais como titânio, ligas de carbono e diamante, dividida em várias celas que pareciam quartos. O Governo Americano havia construído aquele lugar no auge da Guerra Fria caso ocorresse uma catástrofe nuclear, no entanto, nunca fora usado e o Exército decidiu jogá-la lá há alguns anos. Havia uma cozinha de aço sem utilização, visto que recebia suas refeições por um tubo de vidro muitíssimo fino que interligava o seu andar ao andar de cima, que estava a dez metros de distância e onde havia uma cozinha militar. Quatro banheiros com duchas, banheiras e vasos sanitários, sendo que tudo que fosse necessário para ela era reposto a cada duas semanas. Também havia uma televisão, entretanto, Val nunca a ligara em nenhum dos anos que passara naquele lugar. Ela passava a maior parte do tempo em seu quarto/cela, dormindo em um beliche e fitando as poucas coisas que haviam lhe dado como presente por bom comportamento; esmaltes negros, tesoura, escovas, absorventes, caderno e um estojo cheio de canetas e lápis. Porém, seu bem mais precioso ficava na sala; o belíssimo piano negro que ela amava tocar desde que se conhecia por gente. Entretanto, faziam meses que ela não chegara perto nele, devido a constante companhia de um desconhecido que insistia em perambular pelo o local como se fosse um estúpido turista na Casa Branca.
O relógio na parede de sua cela marcava três e meia da manhã, embora Val não estava com sono. Aquele era o horário em que o estranho estava em seu mais profundo sono e o único horário que ela tinha para dar uma olhada em como sua “casa” estava. Destrancou a porta e olhou várias vezes para se certificar que não havia ninguém ali. Entretanto, foi surpreendida por um par de olhos escuros e um sorriso infantil.
O estranho, ela notou, era um rapaz de mais ou menos sua idade. Talvez mais novo, ou mais velho. Ele tinha cabelos louros, num tom dourado como ouro, um pouco longos e extremamente bagunçados. Relativamente alto, deveria ter 1.80, ele era magricela e desprovido de músculos. Pálido como papel e aparentava ser aquele tipo de pessoa que tinha uma resposta sarcástica para tudo, tinha olhos escuros e um rosto facilmente reconhecível. O rapaz usava um pijama preto e estava com os pés descalços, além de que segurava uma tigela de pipoca, o que significava que ele tinha ligado altas horas da noite para a cozinha e pedido aquilo. No entanto, parecia estar despreocupado em ter irritado “os caras lá de cima” e sorria para a garota de forma irritante.
— Oi. Meu nome é Jasper. Quer um pouco de pipoca? — Ele pergunta, colocando algumas na boca e mastigando. Invés de Val ficar surpresa, ela recuou ao notar a proximidade quase íntima do louro; se ele resolvesse tocar nela, acabaria morto e provavelmente ela seria torturada por ter assassinado uma peça “importante” para eles. A russa o encarou com seus olhos azul-cristalinos, analisando cada mínima expressão ou ação dele. Em contrapartida, Jasper apenas continuou comendo sua pipoca, sorrindo e a olhando de forma indecifrável. Ela não conseguia entender aquela pessoa; ele parecia estar planejando aquele encontro há meses, no entanto, agia como se a conhecesse desde a infância. Então Valentina sorriu; aquele típico sorriso Val que dizia “você não me conhece”, misturando um teor misterioso e quase sensual. Ela era atraente, de fato, mas o rapaz não pareceu sentir nenhum sentimento de desejo e seus olhos não faiscaram em nenhum momento. — Olha, se você não quiser, é só dizer. Porque eu já estou quase acabando aqui. — O rapaz mostra o fundo da tigela e Val nota que ele está falando a verdade. Uma tática de fazê-la confiar nele; funcionaria, se Valentina não acreditasse na existência da própria capacidade de confiança em alguém depois do que seus pais fizeram.
— Você é o novato? — A voz dela é aveludada, o que faz o louro estranhamente gargalhar. Val se surpreende por um milésimo de segundo; ora, ela não imaginava que aquele homem fosse tão imprevisível assim. — Do que está rindo?
— É engraçado a ideia de que Jasper Wagner é um novato diante dos seus olhos. Que, aliás, sem querer ofendê-la e sem segundas intenções, são muito bonitos. — Ele pisca sarcasticamente, fazendo uma reverência. Mal faziam dois minutos e Val continuava interessada naquela intrigante criatura, que ia contra todas as ideias que ela tinha de uma pessoa como qualquer outra. — Sabe, eu estou preso há quase seis anos. Fui transferido para cá depois que a minha antiga “casa” foi... Hm... Digamos que agora o Teddie ‘tá com muitos problemas com custos de reconstrução.
— Você destruiu? — Ela demonstra diligência, o que faz com que o louro continue a tagarelar. Val mal nota que ele se aproximara dela, que se apoiava na parede com os olhos ainda analíticos fixos nos dele.
— Sei lá. Seja dito de passagem, neste ponto da história, eu mesmo não sei de absolutamente nada do que está ocorrendo no momento. Nem sei se morri e estou no Céu. Meh. — Ele dá de ombros, dando um suspiro pesado logo depois disso. Após disso, ambos começam a analisar a alma e as feições um do outro, tentando penetrar na mente do outro e achar algo importante ali dentro.
“Ele tem olheiras; não deve dormir direito há dias. ” Valentina pensa para si mesma, absorvendo aquele olhar despreocupado com olhos clínicos. “Não deve passar dos vinte e três anos. Acho que tem vinte e dois. Os olhos dele não têm brilho nenhum; apagados. Apesar de estar rindo pouco tempo antes, ele está visivelmente machucado emocionalmente. Depressão? Não, é algo além disso...”
— Quantos anos você tem? — Jasper pergunta, diretamente, sem um pingo de vergonha. Valentina pisca várias vezes antes de desligar-se de seus devaneios sombrios sobre qualquer que fosse o problema que afetava o humor do rapaz a sua frente. Ela nota, em seu subconsciente, quase que por um milésimo de segundo, que ele era relativamente bonito em comparação aos cientistas de idade parecida que ela conhecia. Resolveu o responder, com um sorriso torno.
— Vinte e Um. E o senhor?
— Vinte e Dois, senhora.
— Parece mais jovem. Achei que tinha dezesseis.
— Achei que tinha quinze. — Ele rebate, com o mesmo sorriso que ela lhe dirigia; sarcasmo, interesse e uma pontada de vontade de saber tudo sobre aquela pessoa. Valentina percebe que eles são parecidos naquele ponto; incessantemente procurando uma maneira de penetrar nos pensamentos mais profundos da pessoa à sua frente, desejando saber o que havia por baixo daquela máscara e quais pontos fracos eles “usufruíam”. Duas mentes geniais se encontrando causava aquela estranheza; Valentina não estava acostumada com pessoas tão inteligentes quanto ela, e Jasper estava sentindo aquele mesmo sentimento. Ou melhor dizendo, ela não estava acostumada com pessoas e ele não estava acostumado com pessoas que conseguissem deixá-lo em uma situação complicada.
— Permita-me fazer uma pergunta, minha cara, intrigante e tão encantadora senhorita. — Formalidade para esconder o embaraço por ter achado alguém com o mesmo nível psicológico que si. Hah. Val já conhecia aquela tática há tempos, e tinha certeza que Jasper sabia que ela tinha conhecimento daquilo. — Qual é o vosso nome? Creio que a minha pessoa tenha sido rude ao esquecer-se de questioná-la sobre isso.
Valentina sorri de volta, imaginado como ultrapassaria aquele muro quase indestrutível que cercava Jasper Wagner e quais segredos obscuros se ocultavam por trás daquele sorriso despreocupado e infantil. Ela sabia que ele era como ela; como Emily Brontë dissera em O Morro dos Ventos Uivantes, “Ele é mais parecido comigo do que eu própria. Seja qual for a matéria de que nossas almas são feitas, a minha e a dele são iguais”.
— Valentina, Valentina Dewitt.
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