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3 003 — Sorrisos

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Jasper não era o tipo de pessoa que arrumava brigas sem motivo — ele até costumava evitá-las —, porém a razão para ter de irritar Kenai daquele jeito tinha um nome e sobrenome; curiosidade quase obsessiva pela maneira que o outro agia diante daquela situação. Aquilo intrigava Jasper, visto que ele não estava acostumado com o comportamento relativamente passivo-agressivo, além de que o autocontrole do outro homem parecia quase clamar para ser arruinado. E irritar pessoas era tão fácil quanto tirar uma bala de uma criança — ao menos era o que o alemão achava. Kenai parecia estar prestes a explodir a cada deboche velado vindo de Jasper, e este último achava isso tudo muitíssimo engraçado.
Ele sabia que Kenai iria batê-lo antes mesmo que o sinal batesse. Jasper tinha aquela situação toda sob seu controle e ele ria mentalmente por isso. Descobriria os poderes da cobra californiana, satisfaria sua curiosidade quanto à personalidade do outro e depois iria para sua tão amável cela, onde iria contar toda esta desventura para seus “amigos” com orgulho de dizer que havia vencido a batalha. Porque, afinal, Jasper tinha absoluta certeza de que o derrotaria. O único que poderia enfrentá-lo à altura era Gideon, e talvez Elise em seu pior estado de descontrole. Kenai era apenas mais um que entraria na longa lista de adversários sobrepujados pelo Wagner mais novo. Ao menos, era isso que Jazz acreditava.
Desviar do gancho de esquerda fora tão fácil quanto respirar. Ele havia anotado todas as microexpressões e os movimentos dos músculos do outro logo antes de se conhecerem, porque Jasper já o observara há semanas. Além disso, ele tinha experiência com socos daquele gênero e sabia como funcionavam; Jazz seguia o credo de que se sabia como se fazia, então sabia como se desfazia. E aquela teoria nunca se mostrara falha em nenhum dos vários anos de vida de Jasper Wagner. Ou melhor dizendo, nada vindo dele era totalmente falho. Se errasse algum cálculo, sempre haveria outro para resolver o contratempo; o típico “plano B”, embora Jasper tivesse vários outros pequenos fragmentos de planos dentro do B. E se o B desse errado, ainda haveria um alfabeto inteiro para ajudá-lo.
Era o que seu treinador costumava dizer todos os dias quando Jasper saía da Arena; o que ele não tinha de força física e poder, ele tinha de inteligência. E no xadrez da vida, inteligência é a chave para se ganhar o jogo. Porém, Jasper sempre se esquecia de uma das muitas frases que ouvira dos lábios da irmã mais velha: o mau de ser inteligente é achar que todos os outros são burros. E, aparentemente, Jasper estava pouco se lixando para aquilo.
Ele sorria radiante, embora com um escárnio velado, para Kenai. Estava a quinze metros de distância, algo que considerava uma “zona relativamente segura”, do outro. Esperou os segundos até Kenai perceber o que havia ocorrido; o que demorou muito, visto que para ele o tempo sempre passava devagar demais. O outro homem o olhou com tanto ódio que Jasper quase se sentiu intimidado, já que não era todo dia que um cara daquele tamanho se irritava daquele jeito com ele.
— É sério que você demorou 43,68 segundos para perceber o que tinha acontecido? Cara, você é muito lerdo. — Jasper fez uma expressão de surpresa falsa e bateu palmas, claramente debochando de Kenai. Qualquer pessoa normal teria imaginado que Kenai iria correr atrás dele como um touro furioso, porém o alemão já sabia exatamente o que ele iria dizer e fazer antes mesmo que acontecesse.
— Eu tinha me esquecido que estamos fora da cela. — Kenai disse, retribuindo o sorriso de escárnio de Jasper, que riu igual uma criança em um parque de diversões. Ou melhor dizendo, ele gracejou da mesma forma que sempre fez; como se tudo aquilo fosse uma piada.
— Bem, se eu tivesse a mesma linha de pensamento que você, provavelmente estaria precisando de uma dentadura agora. Além de que você estaria sendo fragmentado neste momento em pequenos pedacinhos por mim e pela minha irmã, que aliás é bem rancorosa e que gosta pra cacete dos meus dentes. — Jasper deu um sorriso cheio de dentes por poucos segundos antes de retornar à sua expressão de quem não estava nem aí para o que acontecia.
— Aquela sua irmã excêntrica? Se eu conseguir dar uma surra em você, é óbvio que vou...
— O quê? Matá-la? Espancá-la? Não aja como se eu fosse burro, porque isso é o seu trabalho. Duvido que você sequer consiga chegar a um centímetro dela, sr. Trato-As-Mulheres-Bem. E é mais fácil que ela dê uma surra em você. — Era a mais pura verdade e Kenai sabia disso, se surpreendendo com a capacidade do outro homem de saber de tudo.
— Então você vai ficar nesse seu falatório inútil invés de vir aqui e brigar como homem? — Ok, Jasper não tinha previsto a mudança de assunto repentina, porém aquilo não foi o suficiente para fazer com que ele ficasse verdadeiramente surpreso com Kenai. Na realidade, ele parecia até mesmo indiferente diante daquilo.
— Estou pensando seriamente se devo ou não deixar você correr para os braços da mamãe, Mimbão.
— É Nimble, seu cretino.
— Tanto. Faz. — Jasper contestou, lenta e pausadamente. Ele tinha errado o nome de propósito porque estava morrendo de preguiça de achar uma ofensa legal para retrucar ao outro homem, além de queria terminar logo tudo isso e ir dormir. — Eu sinceramente não tô afim de brigar com um energúmeno como você, porque seria pura perda de tempo além de dizer que não faz sentido nenhum ir logo espancando alguém que você nem mesmo conhece. Sem ofensas.
Kenai o olhou como se Jasper fosse maluco, o que fez o rapaz simplesmente dar de ombros e sorrir. Vendo que não havia mais perigo real, Jasper foi andando de volta para onde estava anteriormente. Kenai continuou encarando o outro homem, mas o rapaz das tatuagens — que aliás tinham saído completamente de seu rosto com a violenta velocidade, revelando por completo suas feições relativamente infantis — apenas continuou sorrindo da forma mais amigável que conseguia.
— Eu adoraria te dar um soco. Não obstante, acho que é aqui que nos despedimos. Até. — Jasper deu uma tapinha no ombro do homem mais alto, que permaneceu chocado com o conjunto de acontecimentos. Numa hora, ele parecia estar clamando por uma briga. E agora, parecia achar uma coisa inapropriada de se fazer. Kenai não conseguia entender aquilo; ou melhor, ele não conseguia entender aquele cara. Ainda surpreso, Kenai resolveu desistir de arranjar briga e começou a seguir seu caminho de volta à cela. Porém, foi impedido ao dar de cara com um conjunto de pessoas de jaleco branco.
Eram, no total, quinze pessoas. A maioria deveria ter uns 40 ou 30 anos e eram quase todas mulheres, tendo apenas uns cinco ou seis homens. Um dos homens parecia ser o mais novo do grupo e era o único que olhava tanto para Kenai quanto para Jasper com um olhar confuso. Um dos homens, que parecia ser o líder, se aproximou deles e Jasper rapidamente o reconheceu como o médico-chefe do laboratório, Caleb Roth.
Caleb era um cara de seus 30 e poucos anos, de cabelos escuros e pele parda. Era alto, mas não muito, e quase sempre estava fumando em um canto da sala de operações. Jasper ouvira boatos de que ele era dono de um hospital clandestino no subúrbio de Dallas antes de ser chamado para o MIT, e Caleb realmente tinha jeito de ir contra as leis. Kenai costumava ouvir Sahani da Cela Dezesseis dizer que Caleb tinha cara de drogado e concordava com ela em todas as vezes.
— O que vocês estão fazendo aqui? Já passou do horário, seus surdos. — Caleb era assim. Além de seu forte sotaque do Sul, ele costumava agir de forma estoica, embora levemente paternal. Ele era o mais próximo de “pai” que os mutantes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts tinham, portanto, a maioria deles apreciava muito sua companhia.
— Tivemos um pequeno desentendimento, Dr. Roth. — Jasper interrompera Kenai antes que ele respondesse por si só. Formalidade diante dos outros cientistas. Essa fora a primeiríssima regra que Caleb os dera quando fora designado para trabalhar diretamente com eles. “Nunca me chamem pelo primeiro nome em público, entenderam? Caso contrário, vou sequestrá-los, levá-los para Nova Iorque e jogar cada um de vocês do último andar do Empire State.” — Porém, agora tudo está resolvido.
— É contra as regras sair de suas celas fora do horário de recriação, senhores. — Uma das mulheres se aproximou e Kenai a reconheceu como a diretora Ravena Churchill. Ravena era uma mulher loira, alta e um pouco mais nova que Caleb em dois anos. Ela era muito bonita, porém seu olhar era severo e ela era conhecida por ser detestável. “Segue muito as regras” Era o que Caleb dizia a respeito dela quando não estava xingando-a pelas costas.
— Nah. Só foi por quinze minutos, Ravena. Podem voltar para as duas Celas sem demora. Ah, Nicholas. — Caleb se virou e encarou o mais jovem do grupo, que levantou os olhos azuis e ajeitou os óculos, surpreendido. — Você, Claire, Diana e Charlotte podem escoltá-los até lá. Sabem... Para garantir à Dra. Churchill que eles não vão fugir. — Caleb terminou e o rapaz que se chamava Nicholas assentiu, se aproximando deles e indicando o caminho.
Tanto Kenai quanto Jasper se despediram silenciosamente do resto do grupo e seguiram os quatro cientistas pelo Lincoln, sem dizer absolutamente mais nada. Era um caminho longo e eles não podiam ser vistos, portanto Kenai resolveu iniciar conversa com Diana, que era uma das poucas cientistas com quem simpatizava. Jasper, no entanto, continuou andando em silêncio e observando diretamente o cientista novato.
Ele era muito alto, com 1.90 cm, segundo os cálculos do alemão. Cabelos escuros e olhos extremamente azuis, além de óculos de grau. Parecia nervoso. Logo, Jasper julgou que o tal Nicholas fosse alguém que desacreditava em mutantes antes de ir para o Instituto. E ele parecia estar escondendo alguma coisa. Suspirou, desviando a atenção para Claire.
Jasper conhecia Claire, mas não sabia de onde. Talvez ela era uma das cientistas que ele vira vários anos atrás na Arena, enquanto batalhava com Gideon pela terceira vez. Aquela fora uma luta dura e ele tinha perdido, por isso se lembra de algumas visões de pessoas se aproximando de si antes de desmaiar. Talvez Claire fosse uma delas, mas ele não tinha certeza. O que importava era que o rosto dela era muito familiar.
Charlotte parecia ser mais velha, porém Jasper tinha quase certeza de ter visto os cientistas comemorando em torno dela meses atrás em um aniversário de vinte e cinco anos. Ela era a única que estava 100% calma ali e parecia estar cansada, como se tivesse passado o dia inteiro trabalhando. Jasper a conhecia desde que a mulher fora responsável em recolher uma amostra de seu sangue na semana passada, e ouvira um colega dizer que ela tinha sido transferida para aquela área há poucos dias.
E Diana... Jasper não sabia exatamente o que dizer sobre Diana. Ele não a conhecia pessoalmente, apenas por meio de boatos vindos da boca dos muitos cientistas que passavam por si. A loira gostava muitíssimo de mutantes e queria ajudá-los de alguma forma, por isso estava lá. “Como querer tirar nossos poderes fosse uma forma de ajudar” Jasper pensou para si mesmo, revirando os olhos.
Quando finalmente chegou à sua Cela, ele não disse nada para os cientistas e entrou no lugar sem falar com seus companheiros até ter certeza de que ninguém mais estava ali. Suspirou e começou a responder as perguntas de Henry, contando tudo o que havia acontecido sem filtros e acrescentando o fato de que havia a grande possibilidade de que Kenai fosse atrás dele depois daquele dia. No entanto, nenhum deles se preocupou com isso; eles sabiam que Jasper poderia dar conta do outro homem quase que sem problemas.
Jasper estava intrigado com Nicholas e os outros cientistas, porém não disse nada para ninguém. Queria guardar aquela parte para si até ter absoluta certeza de sua teoria louca e estranha era falsa. Ou verdadeira. Não importava, afinal. Porém, ele desejava que fosse uma grande suposição errônea sua e que estivesse enganado pela primeira vez na vida.
Mas ele não podia negar que havia algo em tanto Claire quanto Nicholas que gritava mutante em sua mente. E ele não sabia o porquê de tal suposição; era pressentimento, um pressentimento que ia além do fato deles serem possíveis mutantes. Um pressentimento de que algo muito ruim estava para acontecer e que ambos os dois tinham algo a ver com isso. No entanto, Jasper não sabia.
Ele precisava pesquisar mais à fundo.
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Naquela noite, Elise não conseguiu dormir.
Era a mais pura insônia e ela se sentia levemente grata a isso, visto que não teria aqueles sonhos uma vez em séculos. No entanto, ela estava fisicamente cansada, como se tivesse passado o dia inteiro correndo uma maratona ou jogando quatro partidas de vôlei seguidas. Ela não entendia a razão para aquilo e não tinha vontade de compreendê-la, porque algo dizia que, se fosse procurar por aquilo, acabaria se encrencando. Sair perguntando para os cientistas sobre sintomas era um pedido de morte, principalmente quando se estava sendo supervisionado diretamente por Ravena Churchill. Ravena tinha decidido ficar de olho em Elise há três dias, o que dificultava as chances de a mulher simplesmente ir procurar Caleb e perguntá-lo sobre aquilo, o que de qualquer forma ameaçaria a si e possivelmente nem mesmo receberia uma resposta.
A mente de Elise estava a mil por hora, com vários pensamentos enchendo seu consciente. E, com os pensamentos, perguntas vinham e iam. Algumas, sem resposta alguma ou sem lógica alguma. Coisas estranhas, ao menos para Elise, a respeito dos últimos acontecimentos e do sonho que ela tivera na noite anterior. O fato de ter piorado significava que havia algo errado, visto que seus sonhos sempre ficavam assustadores quando algo verdadeiramente ruim estava prestes a acontecer. Era um pressentimento, porém não um pressentimento ignorável.
Suspiro.
— Já fazem duas noites que você não dorme, Wagner. — Elise ouve Yoongi dizer em seu canto da Cela, com uma voz arrastada e fria. Ela estava acostumada com o fato de que ele raramente dormia e, quando o fazia, era por pouco tempo. Nunca soube a razão porque não era próxima a ele; o tratamento entre ambos era de pura ofensa velada e frieza. Sentimentos vazios e discussões relativamente calmas, porém mortais. No entanto, a verdade era que Yoongi não era próximo a ninguém dali. Ele sempre parecia desconfiado, sempre tentando repelir as pessoas de si. Aquilo a intrigava, de certa forma.
— E daí? — Não era uma pergunta que iniciaria uma briga. Era uma retórica e uma coisa que dizia “tanto faz”, demonstrando pura falta de interesse vinda da mulher. — Você não dorme há cinco anos.
— Não seja exagerada.
— Não estou exagerando. Me pergunto todos os dias como é que você consegue. — Ela diz, se virando de costas para o homem e encarando a parede como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Elise estava, de certa forma, cansada das incessantes procuras do coreano para tirá-la completa e totalmente do sério. Ela conseguia se controlar porque sabia das consequências caso ficasse com raiva. Não haveria titânio suficiente para controlar a fúria que vinha de si, que a destruía por dentro. A fúria que havia destruído tudo o que ela prezava na vida.
Yoongi não responde de imediato. Ele continuou indiferente como sempre, evitando socializar mais com a mulher. O coreano era o companheiro mais antigo dela, seguido pelo irmão da alemã. No entanto, ele não a conhecia. A única forma de socialização que tinham era por meio de discussões, e isso havia apenas começado a ocorrer depois que Henry havia chegado, quando eles não suportavam mais a cara um do outro. Antes disso, mal se falavam. Agiam como se o outro não existisse, como se estivesse sozinho na Cela. Tanto que só souberam o nome um do outro quando Caleb os chamara para uma experiência, há quatro meses atrás.
Mamushi e Cottonmouth não se conheciam, mesmo estando no mesmo cativeiro há cinco anos. Eram duas cobras que haviam sofrido demais, perdido demais. O único elo que os unia era o sentimento de que eram assassinos, e era a única coisa em que eram iguais.
Suspiro.
— Eu também não sei... — Ele sussurrou tão baixo que Elise não o ouviu, e Yoongi nunca repetiria aquilo em voz alta. Na verdade, ele nunca diria aquilo e não sabia a razão para aquelas palavras terem saído de sua boca sem notar. Balançou a cabeça, continuando a fitar a parede cinza. Então decidiu algo que sabia que acabaria se arrependendo. — Podemos... Começar de novo?
— Desculpe? — A alemã estranhou a pergunta. Pensou até que tivesse ouvido errado. Yoongi não era o tipo de pessoa que demonstrava aquele tipo de sentimento; aliás, ele não demonstrava sentimentos. Era algo inusitado e ele havia conseguido surpreendê-la.
— Começar de novo. Eu vivo com você há cinco anos e não faço a menor ideia de quem é Elise Wagner. E tenho absoluta certeza que você não sabe quem é Cho Yoongi.
— E por que eu faria isso?
— Eu não sei. Eu só... Quero conversar com alguém. — Ela piscou duas vezes, ainda desconfiada demais para ter certeza de algo. Elise não tinha certeza do que Yoongi queria dizer com aquilo; em cinco anos, ela nunca o vira se relacionar com ninguém. O coreano parecia ter uma bolha em torno de si que impedia que qualquer um se aproximasse, além de que ele aparentava ter medo de que alguém ultrapassasse aquele limite. Ela nunca havia parado para pensar naquilo com clareza, mas Yoongi era uma pessoa solitária. E, mesmo que ele fosse essencialmente um mutante, era impossível alguém viver anos sem conversar. A alemã sabia daquilo melhor do que qualquer pessoa; ela havia sentido na pele como era.
Suspiro.
Yoongi não tomou um susto ao ver, pelo canto do olho, Elise se sentar ao seu lado com as mãos segurando os joelhos. Ela não o olhou em nenhum momento, fitando a parede da mesma forma que o homem fazia. Algo no fundo do coração do coreano se sentiu aliviado, um sentimento que ele havia esquecido há tanto tempo que não sabia como reagir. Alívio. Era como se uma parte do peso em suas costas tivesse sido aliviada.
— Meu nome é Lisbeth, Lisbeth Zsigmond Wagner. Meu irmão me chama de Elise e eu não sei exatamente o porquê desse apelido. Eu não me lembro do meu passado, não me lembro de quem eu era antes dos meus catorze anos. Tenho pesadelos com isso todas as noites desde aquele dia, quando acordei no porão de uma casa em Liechtenstein, um país que fica em fronteira com a Suíça e a Áustria. Meu irmão se chama Jasper. Eu estou nesse lugar há seis anos e meio porque sou telepata e... E porque eu destruí uma cidade inteira quando descobri meus outros poderes. É um prazer conhecê-lo. — Ela estava engolindo todas as coisas que a impediam de falar em voz alta sobre si mesma, superando o medo que tinha de se lembrar daquele acontecimento. Da morte daquelas pessoas, dos gritos. Elise estava engolindo seu medo para fazer o que o coreano queria que ela fosse; se tornar-se o mais próximo de amigo que ele tinha naquele lugar.
Naquela noite, Elise jurou ter visto o esboço de um sorriso passar pelos lábios de Yoongi pela primeira vez em cinco anos.
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Se a Cela Doze era a casa dos homicidas e a Treze era a casa dos impacientes, a Catorze era a das boas pessoas. Ou dos problemáticos, caso você prefira se importar mais com o fato de que quase todos eles têm sérios distúrbios mentais. Eles não eram um quinteto e sim um trio de pessoas, visto que os números 4 e 5 haviam falecido a pouco tempo.
Gideon era o mais velho do grupo, embora estivesse no MIT há apenas seis meses. Era um homem de trinta anos, afro-americano e cabelos negros raspados. Muito alto, com 1.92 cm de altura, e com uma estrutura óssea esguia, além de um corpo definido. Seus olhos parecem ser negros, porém são de um bonito tom de mel escurecido, além de utilizar uma barba rala e um bigode. Gideon era conhecido por seu sorriso reluzente, embora sua costumeira troca de personalidades também fosse um fator para ele ser relativamente famoso entre os mutantes e cientistas. Ele era o mais próximo que Jasper Wagner tinha de melhor amigo, e o único que era considerado um adversário à altura.
Nikita era a segunda mais velha e quem estava lá a mais tempo, com quase quatro anos de cativeiro. Ela tinha vinte e três, ruiva e tinha muitas sardas espalhadas pelo corpo, exceto no rosto. Nikita era belíssima, com um corpo esguio e 1.78 cm de altura. Os olhos eram azuis como o céu, mas às vezes pareciam mudar de cor para verde de repente. Nikita era a única ruiva do MIT, demonstrando a raridade das cores de seus cabelos no mundo. Para muitos, a mulher era adorável; sempre sorrindo, junto com Gideon, porque este era seu amigo favorito. Porém, todos sabiam que ela sofria de Transtorno de Múltiplas Personalidades, assim era difícil saber quando era Nikita e quando era seu “outro eu”.
Sahani era a ovelha negra. Ela era arrogante, egoísta e chegava a ser mimada algumas vezes. Como Nikita, tinha vinte e três, porém o que a ruiva tinha de feminilidade, Sahani tinha de masculinidade. Cabelos escuros, olhos escuros, corpo magrelo; ela faria o tipo de garota sem graça se não fosse por suas feições delicadas e suas sobrancelhas bem desenhadas. Porém, sua personalidade fazia com que sua aparência fosse esquecida. Poucas pessoas gostavam de Sahani além de Nikita e Gideon, mas ela não se importava com isso.
A Cela Catorze era chamada de “Família” pelo resto dos mutantes. Gideon era o pai, Nikita era a mãe e Sahani era a filha. Os dois primeiros gostavam desse apelido; a última, nem tanto. O que importava era que eles eram os campeões da Arena deste mês, quando Gideon conseguiu derrotar a Cela Treze com poucas dificuldades. Na realidade, ele quase acabou matando os membros quando perdeu o controle; quando o Dragão tomou seu lugar. Ele não falara muito sobre o ocorrido há quatro semanas nem mesmo para as outras duas mulheres de sua cela, o que preocupou os cientistas responsáveis por ele.
Naquele dia em questão, era sábado de manhã. Gideon esperou dar oito horas para se encontrar com seu amigo, Jasper, para treinarem na Arena. Afinal, os Testes estavam chegando e ele precisava se preparar. Porém, Gideon estava inquieto e seu companheiro parecia estar da mesma forma. Distraídos. Completamente distraídos. Assim, os dois pararam de treinar suas habilidades em artes marciais e boxe para tomarem uma garrafa d’água perto da Sala de Leitura.
— Dags me disse que você demorou para chegar ontem à noite na Cela. Aconteceu alguma coisa? — O afro-americano o questionou, com um mínimo sorriso no rosto. O Velho entrava em ação, com sua calmaria e paciência. Ele era o único que poderia ajudar seu amigo com aquelas coisas, afinal.
— Mais ou menos. Sabe aquele cara do Treze? Kenai não-sei-das-quantas? — Jasper disse depois de tomar um gole d’água, sentado numa das cadeiras do jardim e observando os estudantes humanos correrem como gazelas irritantes. Gideon concordou com a cabeça, murmurando o sobrenome do rapaz para si mesmo. — Ele tentou me bater. É complicado, não sei.
— Você ficou curioso em saber o que acontecia quando o limite dele era ultrapassado, imagino. Sabe, Jasper, irritar as pessoas não é uma coisa boa. Você perde amigos em potencial, arruma mais confusão ainda e a sua irmã fica preocupada. Não vale a pena. Eu sou seu único amigo aqui; até porque todo mundo te odeia. — Jasper riu, mas Gideon não deu nem um mínimo sorriso. Ele estava falando sério.
— É, eu sei. Mas ele estava implorando para que isso acontecesse. Meh, é passado. Duvido que ele venha atrás de mim depois de termos encontrado a Megera e o Caleb. Ela provavelmente vai ficar de olho nele e, se o cara cometer alguma coisa contra mim, vai acabar sendo chutado.
— Morrer por causa de uma briga frívola é inepto. E você também é um alvo da Sra. Churchill, sabe disso. Ser... “Chutado” do MIT é algo péssimo. Temos três pessoas no Catorze exatamente por isso. Uriah era um cara legal demais para receber uma injeção letal simplesmente porque derrubou suco na camisa da diretora. Você fez coisa pior; Jasper, até parece que quer ter o mesmo destino que ele. — Gideon disse, tomando outro gole e jogando a garrafinha no lixo. Ele era a voz da razão, e Jasper sabia daquilo.
— Sempre com razão, uh? Você já errou em alguma coisa na vida, Velho? — Gideon riu, e balançou os cabelos louros do colega, agora sem tatuagens, que ria como uma criança no playground. Eles conversaram por várias horas, divertindo-se com qualquer coisa que vinha à mente; parecia até mesmo que não estavam sendo obrigados a ficarem presos em um lugar numa cidade desconhecida. Diante da visão dos estudantes normais, aqueles dois eram apenas um conjunto de melhores amigos, rindo de coisas inúteis.
Mal sabiam eles que aquela seria a última vez que veriam os dois amigos rindo.
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