Wrong Person
3 Os homens de preto e a bonequinha
Notas iniciais
-Temos que ir.
-Claro. Já estou descendo.
Troquei de roupa o mais rápido que consegui, colocando a blusa e calça jeans pretas, junto do enorme sobretudo com capuz. Também preto.
Eu desci de meu quarto-sotão correndo e fui até a porta da frente, onde me esperavam.
Quatro homens altos e fortes, com a mesma roupa que eu, e óculos escuros. Dois tinham o cabelo preto, os dois últimos com cabelos castanhos, um mais claro que o outro. E...ela. Uma encantadora menina, loura de olhos azuis, que não chegava ao meu ombro. Seu rosto era angelical, assim como seu sorriso. Suas bochechas eram rosadas e ela vestia um vestido rodado, um sapatinho de boneca e um lacinho na cabeça, todos cor-de-rosa. Quem a via achava que ela tinha uns 7 ou 8 anos.
Ela sorriu com maldade para mim e falou, com sua voz doce e fina:
-Olá de novo, Hoppas.
Eu estreitei os olhos para ela.
-Jennyfer...
Ela sorriu novamente para mim.
-Já disse que pode me chamar de Jenny! Agora vamos, não temos tempo a perder.
Ela pegou na minha mão com aquela pele de pêssego e, antes de sair pela porta da frente saltitando, de virou para minha mãe (que até então, estava parada atrás de mim, observando):
-Adeus Senhora Miranda!
Minha mãe apenas suspirou, rígida, como se estivesse pronta para sair correndo.
Jennyfer saltitou até a enorme limusine preta, sem soltar de minha mão, seguida pelos quatro homens. Cada vez em que ela ia me buscar eram quatro homens diferentes, com a mesma roupa e jeito frio, mas rostos e cabelos diferentes. Por isso, eu nunca fui informada de nenhum nome, ao não ser o de Jennyfer.
Eu os chamava de “Homens de Preto”, porque eles me lembravam muito os carinhas do filme. Mas também podem ser os de “Matrix” por causa do sobretudo...mas...deixa pra lá.
Não sei se da para perceber, mas foram quatro outros homens junto com a pequena angelical Jennyfer que estragaram minha vida. Ou apenas me mostraram a verdade: eu não posso estar certa. Nunca.
Aquele falso sorriso, com aquele rostinho de porcelana, seu cabelo dourado com cachos perfeitos que chegam até sua cintura e seus olhos doces e azuis claros como o céu já me enganaram antes...
O homem de cabelo castanho mais claro me empurrou pela cabeça para dentro da porta do meio da limusine, como faz a policiacolocando os caras algemados para dentro do carro. Jennyfer entrou do meu lado, fechando a porta. Os dois de cabelo castanho entraram atrás da gente, enquanto os outros dois à nossa frente, um deles dirigindo.
Durante todo o percurso, Jennyfer ficou pulando ao meu lado, olhando pela janela como uma garotinha que estivesse indo à Disneylândia ou algo do tipo. Ela ficava rindo quando passávamos por um carro de cor diferente, ou quando as pessoas encaravam a linda limusine.
Nós passávamos por lá todo dia e ela ainda continuava com aquilo. Eu só ficava com o rosto frio e sério, olhando para frente, sem virar para ela nenhuma vez. Nem quando ela pergunta:
-Você ta legal?
Eu só a ignoro e ela continua com aquele teatrinho. Além do mais, o vidro era escuro e não dava para enxergar nada do lado de fora.
Ela parou de “sapecar” depois que chegamos ao local. Um grande prédio, de mais ou menos 130 andares, inteiro de vidro com uma placa enorme em cima, dizia: Agência de Estrelas!
Toda vez que via aquela placa meu estomago revirava.
“Vou ser a próxima estrela!”
“Que vença a melhor, ou seja, eu!”
“Ela vai ficar com tanta inveja quando EU ganhar!”
Essas frases eu ouvia o tempo todo, e, ao invés de eu ficar com raiva ou inveja, eu sentia dó... eu sentia dó das lindas e metidas jovens que entravam lá todo dia para fazerem entrevistas. Mal sabiam elas o que a esperavam quando ganhavam. E eram muito poucas as que tinham esse “privilégio”.
Não, eu não fui uma delas. Meu caso foi diferente. Deu...errado...
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