Wrestling & Romance

21 Capítulo 21: Japão (Parte 1)


Madison Square Garden, Nova York, Abril de 2025

Vou ser bem sincero, eu estou bastante cansado. Ainda bem que de acordo com o Triple H, só começarei efetivamente no próximo RAW porque ontem foi meu último dia na New Japan e tive uma luta de despedida dura. Inclusive por causa disso que eu perdi a Wrestlemania, que acontecera aqui no MSG depois de muito tempo (vinte e um anos).

E nesses cinco anos quase que passei no Japão, muita coisa aconteceu...

Fevereiro de 2021, coletiva de Imprensa da New Japan Pro Wrestling

Assim que cheguei ao Japão com a Nicole, nós seguimos caminhos separados. Não, não nos separamos, o que digo é que ela foi para seus compromissos com a Stardom e eu para a coletiva da New Japan. Com jet lag e tudo.

Muitos jornalistas estavam presentes ali, e acho que em toda a minha carreira, era a primeira vez que eu era visto como um astro de verdade do Wrestling, logo assim de cara. Enquanto que nos locais onde lutei anteriormente, eu era um novato que tinha que fazer o nome (apesar de que na Ring of Honor eu era levemente conhecido por causa da parceria com a CMLL, tanto que fui 2x Television Champion no ano anterior), aqui, por conta das minhas aparições no Wrestle Kingdom 14 e 15 (curiosamente eu perdi nas duas vezes), Fantasticamania, New Year Dash, Sakura Genesis e outros eventos da New Japan onde me chamaram, eu cheguei com status elevado na empresa.

—Olá. Primeiro, me desculpem pelo meu japonês com sotaque, eu ainda não sei falar o idioma corretamente. — Me apresento em japonês para a imprensa. O evento estava sendo transmitido em sites de streaming para o público em geral. — Eu sou Diego Alves e estou muito feliz de agora ser parte da New Japan Pro Wrestling, e me esforçarei bastante para não só aprender o idioma, mas também entreter o público com minhas habilidades, e quem sabe chegar ao topo. Mas um passo de cada vez e espero aqui poder responder as perguntas de vocês. Muito obrigado.

A coletiva se inicia e respondo vários tipos de perguntas, de triviais a outras mais complexas, tudo com a ajuda de um tradutor que estava comigo, eu respondia em inglês porque apesar de ter me comunicado em japonês, aquilo era meio que preparado por mim.

Tudo termina de maneira tranquila, em mais ou menos trinta minutos, os caras querem saber que expectativas tenho, meus objetivos e até mesmo quanto tempo pretendo ficar lá. A verdade é que algumas coisas, nem eu mesmo sei.

Quando estou saindo da sala de conferência do Tokyo Dome, vejo que recebi uma mensagem inesperada de um velho amigo. Nisso, ligo pra ele.

—Nicholas, há quanto tempo, rapaz! — Ele havia me mandado uma DM.

—Japão, hein? — Nicholas ri.

—Pois é, depois de ter lutado algumas vezes aqui, agora vai ser onde irei morar. — Respondo. — E como vai você, cara?

—Melhor do que nunca. — Ele responde, de bom humor.

Particularmente era bom ver (ou no meu caso ouvir) o Nicholas de bom humor, porque ele passou por um perrengue recentemente, com a separação da namorada e o problema com bebidas que acabou causando um acidente no qual ele danificou as cordas vocais. Ele e o Roberto ficaram de molho um tempo e a banda arranjou um vocalista e uma baixista substitutos.

Por fim, a baixista substituta, Júlia Hosokawa acabara por ajudar o Nick a superar os problemas... E o vocalista substituto (que também é o segundo guitarrista da banda), Daniel Wallass, começara a namorar Samantha, sendo importante para a recuperação total da mesma.

—Bom saber, cara... Sério mesmo. — Sou completamente sincero.

—E você, hein? Chegou com pinta de astro no Japão. É um passo enorme daquele cara que lutava nos horários vagos enquanto estudava e trabalhava, quase cinco anos atrás. — Ele comenta.

—Quem sabe agora eu paro em um lugar por algum tempo, já que com exceção do meu ano no México, eu fiquei viajando sem parar nesses últimos quatro anos. — Falo, um pouco cansado.

—Você deve estar cansado, não? Viajou do México pro Japão e teve que encarar logo que chegou uma coletiva, não vou te incomodar. — Nick comenta sabiamente.

—Não é incômodo falar com os amigos, mas valeu pela consideração. A gente se fala depois... Ou não. — Dou uma risada, enquanto me despeço do Nicholas.

—Até a próxima, e se cuida, cara! — Ele se despede e desliga o telefone.

A sorte é que quando eu assinei com a New Japan e a Nicole assinou com a Stardom, nós passamos um tempo procurando um apartamento para ficarmos aqui em Tóquio, então não tínhamos necessariamente que correr.

Conseguimos um apartamento na região de Roppongi, que pesando prós e contras, era bastante em conta. E de fato ele era nosso um mês antes de chegarmos no Japão, então conseguimos mandar muitas de nossas coisas pra lá. Agora seria me ocupar com as aulas de japonês, treinos e shows e esperar o que os responsáveis pelo booking da NJPW tinham em mente pra mim.

O primeiro ano no Japão começou intenso, com logo no começo, uma rivalidade com o Bullet Club, que tentou me recrutar assim que ganhei uma oportunidade pelo IWGP United States Championship em março, após vencer o Intercontinental Champion Juice Robinson.

Eu peguei a camisa oferecida e joguei bem na cara dos Young Bucks, me estabelecendo como babyface... E em Abril eu enfrentaria o Kenny Omega no Sakura Genesis e tinha certeza de que ele estava de saída da empresa, principalmente por causa dos rumores de que finalmente Omega iria pra The E, seguindo os passos de AJ Styles, Bálor, Nakamura, Anderson e Gallows.

E na semana anterior ao nosso combate, os bookers me comunicaram que eu sairia vitorioso, o que corroborava com os rumores... (Sem contar que a data do nosso combate era anterior a Wrestlemania, o que daria tempo da viagem pros EUA e uma aparição no RAW pós Wrestlemania)

Abril de 2021, Sakura Genesis, Japão.

—Um! Dois! — A torcida grita junto, até que eu me levanto. — OOOOH!

—IMPOSSÍVEL! — O comentarista grita. — Ele sobreviveu a um One Winged Angel, de onde ele tira tanta força!

Isso era dito pelo comentarista americano da New Japan, já o japonês se esgoelava mais ainda com a minha demonstração de resiliência.

Era uma luta longa, já faziam trinta e cinco minutos que lutávamos sem parar, e me admira o fôlego do Omega pra continuar, porque ele já não era mais nenhum menino, apesar de não ser a mesma duração daquela lendária luta entre ele o o Kazuchika Okada em 2017 no Wrestle Kingdom 11 que durou quase uma hora.

Eu e Omega nos encaramos e ali, com uma pequena mexida na cabeça, percebo que era a hora de encerrar o combate. Omega vem pra cima de mim, eu pulo por cima dele (mais uma vez, perigo de figurar no Botchamania) e quando ele bate na corda e volta, acerto uma joelhada no estômago dele, emendando com um Butterfly DDT, derrubando-o no chão.

—O WinDDT! — O comentarista grita. — Diego aplicou o WinDDT, o fim de Omega está próximo!

—Eita... — Sussurro pra mim mesmo. — Ele está mais louco que eu...

Subo rindo no poste e preparo pra aplicar meu finalizador, o Wind Elblow (Sim, um trocadilho com Blow e Elbow, bem clichê). Dou um salto, descendo com meu cotovelo diretamente no abdômen de Omega, emendando com o pin.

—Um! — A torcida grita junto com o juiz. — Dois! Três!

—Eis o vencedor, e NOVO IWGP United States Champion! — O anunciador declara ao público. — Kaze no Diego!

"The Wicked Side of Me", do Cold Driven começa a tocar, enquanto o juiz me entrega o cinturão e eu caio de joelhos com ele. Essa era a primeira vez em que eu chegava numa promoção com prestígio e em pouco tempo, consegui um título, e lembro do tempo que levou pra eu ganhar títulos no México, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Alemanha.

A New Japan provavelmente tinha grandes planos pra mim, porque você não coloca um título prestigioso nas mãos de um cara... Preciso parar de pensar demais nessas coisas e aproveitar o momento.

E a minha vitória também culmina com um acontecimento que ao mesmo tempo que era inesperado, era esperado. Após eu sair do ringue, os Young Bucks e Cody Rhodes entram no ringue, eles ajudam Kenny Omega a se levantar, aparentemente em suporte ao colega, para logo em seguida, Matt e Nick Jackson aplicarem cada um um Super Kick em Omega, com Cody aplicando um Cross Rhodes.

Ouvi claramente eles expulsando o Omega do Bullet Club, o que era mais um sinal da saída de Omega da empresa, mas aquilo não era problema meu... Não do ponto de vista de personagem, já que ali todos os quatro eram heels e eu era um babyface.

A minha adaptação a vida no Japão foi relativamente fácil, apesar do idioma. Só era dolorido voltar pra casa depois de apanhar por uma noite e depois apanhar de novo e de novo... Quando eu digo apanhar, não me referia a perder lutas, mas ao estilo japonês que era bem mais duro que o mexicano, inglês ou alemão. Não era má vontade dos japoneses comigo, só era o jeito que trabalhavam, e já que está lá, faça como eles.

Em junho daquele ano, meio que foi decidido que eu seria "liberado" da New Japan, mas basicamente eles me disseram pra defender o título em outras empresas de minha escolha, fora do país, óbvio. Então fiz alguns contatos e felizmente Nicole conseguira datas livres para viajar comigo.

Claro, foi um período meio louco, onde viajei de Tóquio pro Rio, defender o título na FILL (onde minha carreira começou, ainda como amador), depois em São Paulo na BWF, indo pro México reencontrar meus amigos da CMLL, subindo pra lutar uma vez mais pela Ring of Honor, viajando em seguida para a Europa, e retornar a Defiant Wrestling na Inglaterra e seguir para a Alemanha e lutar na WxW, antes de retornar ao Japão.

Cinco países em quinze dias, pelo menos pudemos atender ao casamento do Erick com a Brenda antes de irmos pra São Paulo, e valeu a pena esse pequeno descanso.

Aeroporto de Narita, Julho de 2021

—Caramba, eu estou quebrado! — Me espreguiço após desembarcar.

—Também, você lutou feito um condenado... — Nicole comenta.

—Valeu a pena, visitar velhos amigos e lutar em casa mais uma vez. — Digo, enquanto saímos do aeroporto pra pegar um táxi. — E como vai a sua situação na Stardom?

—Tá sendo um pouco difícil entrar na rota por títulos porque tem muita gente boa lá. — Nicole responde. — Apesar de que enquanto estávamos na Alemanha, recebi mensagens da administração pra uma reunião.

E amigo, dessa reunião começou o push da Nicole como uma das promessas na Stardom, porque até o fim de 2021, ela conseguiu vencer a Kris Wolf pelo High Speed Championship (A Kris meio que estava na rota pelo Wonder of Stardom Championship) e venceu o Rookie of Stardom, o torneio de fim de ano da empresa, reservado as novatas do ano corrente.

Meu ano foi corrido na New Japan, mas mantive o título até o Wrestle Kingdom de 2022, onde perdi o título para David Finlay, primariamente porque a administração pretendia me mandar pra divisão Junior Heavyweight. Não necessariamente como um demérito, mas porque provavelmente tinham planos pra mim.

O ano de 2022 pra mim foi particularmente difícil, porque apesar de ter recuperado o IWGP US Championship no Sakura Genesis, Finlay o recuperaria três meses depois, e o resto do ano foi passado em rivalidades fora da rota por títulos, até que no Power Struggle daquele ano, uma oportunidade pelo IWGP Junior Heavyweight Championship surgiu.

No lado da Nicole. 2022 foi um ano melhor que o meu, já que ela passou o ano segurando não só o High Speed Championship, mas o SWA World Championship também. Ainda que não tenha entrado na rota pelos dois maiores títulos da Stardom (O Wonder of Stardom e o World of Stardom), parecia questão de tempo.

Nós já havíamos nos adaptado ao Japão completamente, e o aprendizado do idioma, ainda que não completo, já conseguíamos nos comunicar em Japonês sem problemas graves, sem precisarmos de intérpretes. Tal qual no aprendizado do inglês, não era necessário saber tudo, mas por associação você conseguia deduzir as coisas.

E isso era importante, não só pra comunicação, mas também pra aproveitarmos as coisas boas do Japão, como animes e videogames, porque mesmo com a agenda de Wrestlers, éramos jovens nerds e tínhamos que cumprir essas "obrigações" também.

Por fim, eu não ganhara o IWGP Junior Heavyweight Championship, mas naquele mesmo evento surgiu uma fagulha do que seria o meu maior rival pelos próximos dois anos na New Japan... Hiromu Takahashi.

Novembro de 2022, Power Struggle

—Eis o vencedor, e AINDA IWGP Intercontinental Champion... Hiromu Takahashi. — O anunciador diz, enquanto o público comemora.

Takahashi vencera Cody em uma luta pelo título e após a vitória, os membros do Bullet Club começam a atacar o vencedor incessantemente, até que eu venho correndo pra salvar Takahashi. Não que eu fosse aliado ou quisesse entrar para Los Ingobernables del Japón, mas porque eu tinha minhas próprias razões.

Depois de limpar o ringue e ajudar Takahashi a se levantar, eu deixei claras as minhas intenções, sem usar uma palavra. Apontei para o cinturão dele e fiz um gesto como se o colocasse na minha cintura, deixando claro o que queria. Ele apenas assentiu e estava assim marcado pro próximo Wrestle Kingdom, Takahashi x Diego pelo Intercontinental Championship. Era a prova de que a New Japan estava apostando em mim como um dos futuros Aces da empresa, já que com menos de dois anos, estava me dando uma chance por um dos títulos mais prestigiosos da companhia.

Madison Square Garden, Abril de 2025, horas antes do RAW Pós-Wrestlemania

Nos bastidores do RAW pós-Mania, algumas pessoas ficaram genuinamente surpresas em me ver, poucos sabiam da minha chegada, talvez os top guys da companhia, incluindo um velho adversário meu, Kenny Omega, minha esposa, Nicole (que recém havia ganhado o NXT Women's Championship no sábado) e minha velha amiga Lara, que faria a mudança de brand nesse RAW.

—E aí, cara... — Lara me cumprimenta com um abraço. — Nervoso?

—Mais pra parte das promos... — Respondo, suspirando de cansaço. — No Japão a coisa é bem diferente na construção das lutas, não precisamos ficar um lutando com o outro toda semana. Agora é readaptar ao estilo dos EUA.

—Você vai se dar bem. — Nicole passa a mão em meus cabelos. — Não teve um lugar em que não se deu bem.

—Bom, é ver pra crer. — Dou uma risada. — Vou chegar "pisando" no calo de todo mundo, principalmente pra alguém da minha idade.

—Eu tenho total confiança em você... — Nicole me abraça, afetuosamente. — Sei muito bem pelo que você passou desde que saímos do Brasil, como se adaptou a cada estilo e o que aprendeu.

—Como se você não tivesse se saído melhor que eu... — Digo, antes de dar um beijo em minha esposa. — Não fui eu quem foi declarado o melhor wrestler do ano passado no Wrestler Observer Newsletter.

Nicole cora, por conta disso. Em 2023, eu havia ganho o título de melhor wrestler no Wrestler Observer Newsletter, e devido ao meu IWGP Heavyweight Championship em 2024, muita gente esperava que eu repetisse o feito, mas Nicole desbancara a mim naquele ano. Sim, minha própria esposa.

—O consenso na internet é de que o Dave Meltzer havia pirado... — Lara diz, dando de ombros. — Mas eu discordo, apesar do ano fantástico do Diego, a Nicole foi fenomenal, um nível acima.

—Acho — Dou uma ênfase sarcástica no Acho. — Que nove lutas cinco estrelas em um ano ajudam bastante.

Nós três rimos, e naquele momento, deixamos de ser wrestlers, para voltarmos a ser os jovens sem compromisso que apenas amavam assistir luta livre e comentar sobre isso no dia seguinte na escola. Eu não poderia ser mais grato a vida pelas oportunidades que criei com meu esforço. E no lado negativo, a partir de quarta-feira, eu teria que procurar uma casa para morar com a Nicole na Flórida, já que ela voltaria pra lá pras gravações do NXT (que seriam na semana seguinte, já que ganhou uma folga). Não é necessariamente um lado negativo, é só mais um dos ossos do ofício.

Com isso, eu volto a relembrar o que seriam os dois melhores anos da minha vida, causados principalmente pelo meu maior rival no Japão, Hiromu Takahashi.