Wrestling & Romance

19 Capítulo 19: América (Parte 1)


Roppongi, Japão. Abril de 2025

Diabos, eu estava com muitas saudades da Nicole. Tudo bem que fazia pouco tempo que eu havia voltado dos Estados Unidos pra realizar os últimos shows pela New Japan e em breve eu voltaria a ver minha esposa numa regularidade melhor do que o costumeiro QUANDO DER.

Acho que o tempo que passamos juntos quando trabalhávamos no mesmo país sem preocupação me deixou mal acostumado. Mas é, depois daquele ano desencontrado onde eu alternava entre Reino Unido e Alemanha e ela entre Reino Unido e Estados Unidos (certamente ela deve ter ganho muitas milhas na época), tivemos uns bons dois anos no México e nos EUA, onde lutávamos praticamente nas mesmas empresas.

Mas não vamos nos precipitar, e vamos partes por partes, porque antes de começar minha carreira na lucha libre, eu tive que me despedir do Reino Unido, e foi uma bela despedida.

Newcastle, Inglaterra, Janeiro de 2019

—Um! Dois! — A torcida gritava junto com o narrador. — Três!

O sino toca, era uma realidade nova pra mim, que estava com o título há quase seis meses, mas finalmente alguém me vencera.

—Eis o vencedor, E NOVO DEFIANT WORLD CHAMPION... — O anunciador diz. — O Herói local, Joe Hendry!

Eu rolei pra fora do ringue, enquanto Joe Hendry celebrava o título depois de uma bela luta. Não era o clássico instantâneo que foi Alves x Ospreay em Junho passado, mas havia história demais contada ali pra ser ignorada.

Após a celebração, a transmissão havia terminado, subo novamente ao ringue e peço um microfone.

—Eu sei que vocês estão cansados. — Começo, ciente de que o público queria ir pra casa. — Tiveram uma ótima noite, não? Principalmente o cara ali com o cinturão. — Aponto pra Hendry, que estava na rampa e parou pra observar. Aquilo não havia sido planejado. — Como devem saber, eu estou de partida do Reino Unido. Foi um ano louco pra mim, que veio do Canadá, com uma reputação apenas de um lutador decente, com um spot de sorte na The E que me garantiu alguns bookings.

"Então eu fui abraçado pela família Defiant Wrestling, eu encontrei diversas pessoas que me ajudaram a evoluir como lutador, o Zack Sabre Jr., Will Ospreay, o próprio Hendry ali, e outros com quem lutei e aprendi mais sobre essa arte. O mais importante, é que ganhei o respeito de vocês, tanto que vocês foram a parte mais importante disso, que me apoiaram naquelas lutas contra o Ospreay, quando ganhei o título. Me apoiaram nas minhas defesas, e mesmo nessa luta de hoje. Eu sempre serei grato a vocês, porque sem vocês, eu não estaria indo pro México na minha jornada rumo ao topo, e provavelmente continuaria sendo um cara qualquer sem rumo aqui na Inglaterra."

"E Hendry... Vai ter volta, entendeu? Não pense que a surra que você me deu no Fifa vai ficar impune!" O público vem abaixo rindo. "A gente se vê por aí pessoal, obrigado!"

E assim, terminou minha jornada na Inglaterra. Era hora de eu e Nicole irmos pra outro local e aprendermos mais e melhorarmos como lutadores.

Arena México, Cidade do México, Fevereiro de 2019.

A minha chegada ao Consejo Mundial de Lucha Libre não foi exatamente a contratação do ano, bem, ainda mais comparada a da Nicole que chegou com pompa e direito a coletiva de imprensa. Talvez pelo fato de ela usar uma gimmick de luchadora, só tiveram que alterar o nome de Pink Jaguar (que ela usava na Inglaterra e Estados Unidos) pra Jaguar Rosada.

Graças ao carisma dela e habilidades, não demorou para ela se tornar uma das tecnicas (termo da lucha libre para as babyfaces, ou mocinhas) mais populares da divisão. Claro, ela não iria lutar pelo título assim de cara com poucas semanas na empresa, mas a credibilidade dela com o público e no vestiário, era grande.

Já no meu caso, eu era mais um lutador na divisão Middleweight (para luchadores entre 82 e 87 quilos) tentando fazer meu nome. E seria difícil eu ser campeão lá, porque muitas das decisões de booking da CMLL eram conservadoras e os luchadores costumavam ficar com o título por bastante tempo.

Isso não quer dizer que as lutas em si eram ruins. Diabos, lutar no México era uma lufada de ar fresco, o estilo era totalmente diferente do Europeu. Mas não importa o local do mundo, se você sabe como controlar uma platéia durante a luta, conseguirá se dar bem. Era algo óbvio, mas ainda mais forte aqui.

O problema é que o meu oponente, Niebla Roja, era assim como eu, um tecnico, então ficava difícil explorar as nuances de uma luta entre um tecnico e um rudo (ou como chamamos no resto do mundo, heel, o vilão). Tínhamos que compensar isso com a nossa habilidade atlética, e era isso que o público recebia naquela sexta-feira em particular.

A luta estava longe de ser a principal do card, era mais lá da meiuca, então tínhamos que usar o que podíamos a nossa disposição, então nada como um monte de acrobacias para levantar o público da Arena.

—Vamos! Levante! — Grito para Niebla, que estava caído no chão após um superkick que eu aplicava. Eu havia subido na terceira corda e me preparava para um missile dropkick (um dropkick aplicado da terceira corda).

Ele se levanta e salto na direção dele, para aplicar o golpe em si, mas ele desvia rapidamente, fazendo com que eu caísse no ringue e logo em seguida aplica um crossface em mim, tentando fazer com que eu me submetesse.

Usando de força de vontade, me arrasto até as cordas do ringue para forçar a quebra da submissão, só que depois de me largar e se levantar, Niebla pisa em minhas costas.

Eu me levanto, vou para trás das cordas e as uso como um trampolim, saltando da terceira corda pra atacar com os dois joelhos, acertando (ou no nosso caso, fazendo parecer) o rosto de meu oponente, o derrubando mais uma vez. Logo em seguida, tento o pin, mas ele quebra a contagem no um.

A luta continua, com Niebla dando uma sequência de socos em mim, terminando com um chute no estômago, seguido de um DDT. Ele me deixa caído no chão, vai até o poste e da terceira corda, aplica um frog splash. Só que ao invés dele me acertar e fazer o pin, assim que ele acerta o golpe, eu uso o impacto pra girar os nossos corpos e eu aplicar o pin.

—Um! Dois! Três! — O público entra em choque com a minha vitória, porque eu era um novato e o Niebla Roja ainda era o Light Heavyweight Champion.

Não era a minha primeira vitória na empresa, mas certamente naquele momento era a maior e ajudaria o público a reparar mais naquele garoto de cabelos tingidos de vermelho, nem que fosse para vaiá-lo como se fosse um rudo.

Bem, as vaias não vieram, mas os mexicanos aplaudiram a esportividade de Niebla Roja ao cumprimentar o novato após a vitória, talvez isso me dê a credibilidade que preciso, apesar de tudo.

O show continuou, e uma das lutas mais empolgantes contara com a Nicole, ou a Jaguar Rosada, derrotando La Comandante, e nessa luta, a Jaguar Rosada estreou seu novo finalizador, o Aerial Claw (ou Garra Aérea), no qual ela, de trás da corda, subia na terceira corda e usando a mesma como um trampolim, saltava na direção da oponente, aplicando um golpe com o antebraço. Tecnicamente não era uma garra, mas não se discute semântica, eu estou há quase um ano tentando bolar um nome pro meu finalizador.

Após o show nos bastidores, um homem um pouco mais baixo que eu, mas muito mais experiente se aproxima de mim, ele é uma das lendas da Lucha Libre, ninguém menos que Negro Casas.

—Garoto, você foi bem na luta de hoje... — Ele elogia de maneira casual, como se estivesse falando sobre o tempo, o que me fez ponderar se era sobre isso que ele queria falar.

—Obrigado... Eu acho... — Agradeço, receoso.

—Olha, eu não quero ser aquele cara chato que se mete na roupa dos outros luchadores, mas... — Casas começa. — Você é um tecnico, não é, Diego?

—Sim... — Respondo, ainda sem entender.

—Então você deveria ir ao ringue como tal, porque com suas roupas pretas e o seu tema, talvez você tenha confundido o público, e o levado a pensar que é um rudo. — Ele explica. — Se você alterar as cores da sua roupa e adicionar uma coisa aqui e uma ali, eles comecem a te perceber como um tecnico. Você tem talento e sabe controlar o público no ringue, mas as coisas no México funcionam um pouco diferentes da Inglaterra ou do Canadá.

—Obrigado... — No meio do que Casas explicava eu já estava sorrindo feito um bobo.

Não eram dicas de luta, mas apenas um empurrãozinho que separa o midcarder (o cara que tem talento, mas nunca ou raramente vai estar no evento principal) do "Cara" de uma empresa.

E esse empurrãozinho do Casas foi crucial para a morte do "Diego Alves" no Consejo Mundial de Lucha Libre e o nascimento de Diego del Viento. Claro, eu não usava máscaras porque não fazia parte do meu estilo, mas eu mudei bastante o meu vestuário, basicamente troquei o couro da calça por lycra verde, e alguns desenhos na roupa lembravam furacões.

Eu mantinha a jaqueta de couro, mas era verde, com meu nome "Diego del Viento" nas costas, e pra completar, nos dias onde o calor não recomendava jaquetas, passei a usar uma capa e uma camisa sem mangas. Posso dizer que essa dica funcionou bem e logo menos eu crescia na divisão Middleweight.

Mesmo sem ganhar ou lutar pelo título, os promotores confiavam mais em mim, e o aos poucos eu me tornava mais querido entre os frequentadores da Arena México. Apesar de eu e Nicole não termos ganhos significativos financeiros, não era necessariamente por isso que lutávamos lá.

Era porque além de nos aperfeiçoarmos como lutadores, a estabilidade de não termos que ficar viajando tanto quanto no ano anterior e podermos curtir mais um ao outro era algo confortável, apesar dela ainda ter bookings no outro lado da fronteira, principalmente nas empresas que trabalhavam próximas a fronteira com o México.

Eu me sentia feliz com a reputação que a Nicole construía, mas o que me deixava realmente orgulhoso, era o fato de que muitas vezes ela lutava com gente que tem mais anos de experiência do que ela tem de idade, e muitas vezes conduzia as lutas. Pra alguém com pouco tempo de experiência, isso era algo incrível, era esse o potencial que o Lance havia visto nela na SWA, quando ela treinava lá.

Setembro de 2019, Cidade do México, véspera do Aniversário de 86 anos do Consejo Mundial de Lucha Libre.

O ano passou voando pra mim e Nicole, e eu ganhei a fama do "Garoto Quase lá" na companhia. Não que os promotores não gostassem de mim, é que eles queriam fazer uma construção de personagem, a tal ponto que eu não conseguisse chegar lá várias vezes, para que quando eu ganhasse o título, fosse algo grande. Então eu participei de alguns torneios na CMLL, e na maioria, cheguei na grande final, mas não vencia. Também tive oportunidades pelos títulos de Peso Médio e Peso Leve, mas não consegui.

Estávamos no Hotel Lord, onde morávamos nos últimos oito meses (acredite ou não, o custo dele era relativamente baixo em comparação ao que pagávamos de aluguel na Inglaterra e a empresa ajudava a custear metade do que pagávamos), um hotel que ficava relativamente próximo da Arena México.

Nosso quarto era levemente bagunçado porque era uma mistura de jogos, equipamentos de pro wrestling e coisas pessoais, como roupas e presentes dos fãs. Mas, era nosso lar em terra mexicana, e era nosso conforto.

—Preparado pro dia mais importante da sua vida? — Nicole pergunta. — Ou você vai bater na trave mais uma vez?

Não fazia mal dizer a ela a verdade, afinal, ela foi franca comigo quando disse que fora bookada pra ganhar o Título feminino da CMLL (o Campeonato Mundial Femenil de Lucha Libre) em junho passado em uma luta, que se garanto que se tivesse acontecido no Japão ou em alguma empresa independente americana, seria alardeada como "luta cinco estrelas" e tudo mais. Porque sinceramente, o público ficou de pé a luta inteira incentivando as mulheres no ringue, e elas corresponderam as expectativas dos mesmos.

—Bom... — Respondo, com um sorriso. — Está olhando para o futuro Campeão dos Pesos Médios da CMLL. — Um sorriso abre no rosto de Nicole. — Sim, finalmente o Paco e a equipe de bookers resolveu me dar o título.

Nicole não disse mais nada, ela simplesmente me deu um longo beijo, e começamos a trocar amassos ali na cama do quarto mesmo, eu já sabia onde ela queria chegar... Só que eu rolei da cama pro chão do quarto.

—Hein? — Ela pergunta, sem entender.

—Sei onde você quer chegar, mas é melhor não. — Respondo, me levantando.

—Diego Alves negando sexo? — Ela pergunta, erguendo as sobrancelhas. Ela não parecia chateada, mas curiosa.

—Não quero me cansar para amanhã... — Volto a sentar na cama. — E eu namoro você há quase três anos, sei como você me cansa, por mais que eu ame isso.

E aí qualquer clima que tinha acabou de ir pro ralo, já que a Nicole começa a rir e me abraça, me derrubando na cama.

—Mas pelo menos podemos ficar assim, não? — Nicole pergunta, apertando o abraço.

—É claro... — Digo, enquanto ficamos abraçados assistindo a um filme qualquer na televisão dali, até que o sono nos chama.

Era uma vida difícil, já que apesar de morarmos juntos, não tínhamos um lugar pra chamar de casa por assim dizer, no Canadá era o mais próximo disso, pois de fato era uma casa, que dividíamos com outras três pessoas e assim foi dividido o dinheiro quando nós quatro nos separamos. Na Inglaterra, vivíamos de aluguel e muitas vezes nem parávamos em casa, pois devido as viagens, tanto no Reino Unido e Alemanha no meu caso, quanto nos EUA e Reino Unido no lado da Nicole.

Aqui no México, o hotel era confortável e vez ou outra fazíamos shows fora da Arena México, mas ainda assim não era um lar por assim dizer. Porém, era a vida que escolhemos para nós mesmos e não trocaríamos isso por nada.

Outubro de 2019, Orlando City Stadium, Flórida – EUA.

Felizmente Paco e a equipe da CMLL nos deram uma semana de folga no mês de Outubro para visitarmos a família da Nicole na Flórida, mas não era por uma razão aleatória que pedimos essa folga em específico, mas sim porque era a semana da final dos Playoffs da NWSL, a liga de futebol feminino dos Estados Unidos, e a Karen estaria jogando pelo Orlando Pride, juntamente com sua namorada Lucy.

A partida seria entre o Orlando Pride, que fez uma excelente campanha e o North Carolina Courage, que desde a estreia na liga em 2017, pelos números vem melhorado.

Algumas horas antes da Karen ir pra concentração, tivemos uma pequena reunião de família, por assim dizer...

—Dois anos atrás eu perdi a sua final, mas agora vai ser diferente... — Começo, mas Karen interrompe.

—Tá, tá, sem embromação cara... — E risadas são ouvidas.

—Então tá, eu tô orgulhoso do que você alcançou, Karen... — Digo, abraçando a minha cunhada. — E desejo toda sorte do mundo no jogo de mais tarde.

—Sabe... Eu podia ficar assim o dia todo... — Ela diz, com a cara enterrada no meu peito.

—Karen, a sua namorada está aqui... — Nicole diz, em tom bem humorado. — Sem contar que o Diego é meu, arruma outro pra você.

—Não, não arruma não... Nem fica com esse. — O tom de Lucy é gozador, o que leva a mais risadas.

O tom da conversa é leve, e estamos todos fazendo brincadeiras, pra talvez espantar o fato de que a Karen pode sofrer uma decepção caso perca.

Horas depois, ainda no estádio.

Nicole, eu e a família dela estamos assistindo a partida do camarote do estádio. Fazem dois minutos que a partida começou. A equipe do Pride contém diversas veteranas, apenas quatro atletas da equipe são novas, e quando digo novas, elas mal saíram do Colegial, mas os donos do time enxergaram o potencial delas e as colocaram na equipe.

Karen e Lucile eram duas delas, a outra era Tatiana Mendes, que se a memória não me falha, era companheira de Karen na época em que jogava pela equipe do Aural lá no Brasil, e a outra era Carina Rangel, uma americana que havia morado boa parte da vida no Brasil, e foi um achado de peneira do treinador do Pride.

Karen e Tatiana tinham a mesma química dos tempos de Aural e Lucy era o pilar de defesa do time. Carina por outro lado não havia mostrado muito no campeonato, não por falta de talento (pelo que Karen me disse), mas por falta de oportunidade, já que ela jogava na mesma posição que Karen.

O jogo tem um peso enorme pras duas equipes, já que o menor erro pode custar um gol que desestabilizaria o time. Karen faz o possível com a equipe para armar as jogadas, mas a defesa do Courage parece saber como a Tatiana e a Karen operam a linha de ataque do Pride

A coisa fica mais dramática pro lado do Pride, quando aos vinte e cinco minutos do primeiro tempo, a Neozelandesa Katie Vick abre o marcador pro Courage. Era uma falta próximo da entrada da grande área do Pride, lance normal do jogo, que usualmente não levaria perigo.

Katie bateu a falta com o endereço certo e Lucy correu e saltou pra defender a bola, o que ocasionaria um escanteio, se a bola não tivesse batido em alguém enquanto subia, desviando completamente a trajetória e indo parar no fundo do gol da equipe do Pride, calando mais de vinte mil pessoas que torciam pelo Pride.

No camarote a decepção era evidente, porque não era culpa da Lucy, mas mero azar, ainda assim sabíamos que ela ficaria arrasada por esse golpe, evidente pelo fato dela chutar a bola lá dentro do gol, enquanto a equipe adversária comemorava.

O que vimos depois disso foram duas equipes diferentes, o Pride indo mais e mais pro ataque e o Courage se defendendo como podia. Por alguma razão, uma lembrança do que Karen me contara dois anos atrás me veio a mente... Porque um dos gols do Aural na final do campeonato estudantil fora desse jeito, o Aural defendendo, saindo no contra ataque e ampliando o placar. E não deu outra. Numa jogada bastante veloz, aos 32 do primeiro tempo, o Courage saiu da defesa para o ataque com passes rápidos e mais uma vez Katie Vick marcou, com um tiraço no ângulo, sem chances de defesa para Lucy. A situação do Pride estava piorando.

Agora pra equipe do Orlando, eles precisariam ao menos de um gol nesses quase quinze minutos finais do primeiro tempo. E Karen parecia respirar fundo enquanto colocava a bola na marca central do jogo. Pelo visto ela não deixaria o desespero tomar conta, mas sim fazer o que sabe e jogar com calma.

E sete minutos depois, a calma de Karen gera frutos, já que o Orlando descontou. Ela levara a bola até a linha de fundo e levantara na área do Courage, e Tatiana, de voleio marcou o gol do Pride. Mas algo estava muito errado depois daquilo.

Tatiana permanecia caída no gramado, aparentemente com muita dor no braço esquerdo e havia uma jogadora do Courage desesperada próximo dela, talvez tenha ocorrido um acidente ali depois ou durante o gol.

Após uns três minutos ou algo do tipo, Tatiana sai do campo de maca, enquanto Carina se aquece. Ela não era atacante, mas talvez o treinador estivesse improvisando algo.

O resto do primeiro tempo passa como um borrão e nada demais acontece, além de uns chutes sem direção.

Durante o intervalo, meu telefone toca, o que é estranho. Vejo o número, e é Paco, o chefão da CMLL.

—Paco? Boa tarde... — Espero ele responder. — Quer falar com a Nicole? Como assim desligado? Não, sem problemas, ela está aqui do meu lado. Vou passar pra ela. — Abaixo um pouco o telefone pra falar com a Nicole. — Nic, o Paco quer falar com você... E por quê o seu telefone tá desligado?

—Eu esqueci de carregar de manhã. — Ela cora, enquanto pega o telefone. — Alô, Paco? Desculpa, é que meu telefone está sem carga na bateria. — Nicole espera o chefe falar com ela. — Sério? Não, claro, eu adoraria... Sim, eu até a conheço, Paco, nós somos amigas há um bom tempo. — Outro espaço pra espera. — Entendi, vou passar pra ele. Tudo bem, até a próxima. — Nicole passa o telefone pra mim. — O chefe quer falar contigo também.

—Pois não, Paco... — Volto a falar no telefone. — Claro, pra mim seria uma honra defender o título lá. Pode deixar, daqui mesmo de Orlando vamos pra lá amanhã. Obrigado pela confiança, Paco. — Digo, quando o chefe me elogia. — Vou fazer o melhor pra esse título valer um milhão de pesos. Até a próxima, tchau.

Era isso. Eu estava programado pra defender meu título na próxima semana em um evento da Ring of Honor, aqui nos Estados Unidos.

—Nicole, você não vai acreditar... — Começo a falar, meio boquiaberto.

—Você vai ter que defender seu título na Ring of Honor? — Ela me interrompe e meu queixo vai no chão.

—Como você...

—Eu também defenderei o meu... — Nicole responde, sem esperar o fim da minha pergunta. — Contra a Lara.

—O QUÊ? — Agora eu estava totalmente perplexo.

—Pois é... Acho que vai ser a nossa primeira luta... — Nicole está bem excitada com a chance de lutar com a sua amiga.

—Isso até tira a graça da minha defesa contra o World Television Champion da empresa... — Dou uma risada, porque era a minha luta contra Matt Riddle seria interessante do ponto de vista técnico, mas a emoção de lutar contra uma amiga de longa data no meu ponto de vista era mais importante.

Rindo, voltamos a prestar atenção ao campo, onde as atletas voltavam a se aquecer. Notei de longe que Karen conversava longamente com Carina, que escutava a assentia atentamente. Karen não era a capitã do time usualmente, mas como antes dos playoffs a capitã se contundira, a irmã de Nicole herdou o posto.

Pessoalmente, achava uma decisão justa porque a Karen tem uma visão de jogo excelente e pensamento rápido pra mudar estratégias caso seja necessário.

—Acho melhor ficarmos de olho na partida... Olha só a tua irmã. — Indico pra Nicole olhar a Karen.

—Isso vai ser divertido... — Nicole sorri.

A partida recomeça e o ritmo é o mesmo do primeiro tempo, com o North Carolina Courage jogando recuado e o Orlando Pride tentando atacar de tudo quanto é jeito, mas algo parece diferente. O jeito que o Pride troca os passes está diferente. Não sei como dizer, é uma mudança sutil que pode ter sido resultado de uma conversa no vestiário.

E isso começa a dar resultado, aos trinta minutos do segundo tempo, Karen recebe uma bola no meio de campo de um tiro de meta cobrado, começa a passar pelas jogadoras do Courage, até que mais ou menos trinta metros antes do gol adversário, sofre um carrinho violento de uma defensora adversária, quando ela ia passar para Carina, que estava livre. Falta clara a favor do Orlando Pride.

Karen e Carina ficam lado a lado para definir quem vai bater e há uma pequena discussão, até que Karen ajeita a bola. Ela põe a mão na cintura e Carina recua um pouco. Karen dá três passos pro lado e Carina corre até a bola, atirando um canhão que sobe fazendo curva e vai parar no ângulo esquerdo do gol do Courage, com tamanha força e velocidade que a goleira adversária ficou parada em estado de choque.

As mais de vinte mil pessoas que estavam lá explodem de velocidade e Carina e Karen se abraçam, depois indo comemorar com o resto do time.

O jogo agora atinge um nível dramático, já que faltam pouco menos de quinze minutos pro fim e está empatado em 2 a 2. O Courage sai pro ataque, com o perdão do trocadilho, corajosamente, obrigando Lucy dar duro pra manter o placar do jeito que está, com defesas dignas de seleção. Não duvido que a chamem pras próximas olimpíadas (2020 tá aí).

E o drama aumenta mais, quando aos 42 do segundo tempo, em mais um ataque do Courage, Katie Vick é derrubada na área do Orlando Pride, pênalti incontestável. O estádio fica em silêncio, aquele seria o gol do bi campeonato do Courage.

Todos prendem o ar no camarote enquanto a neozelandesa ajeita a bola na marca do pênalti para fazer a cobrança. Ela respira fundo, recua quatro passos e parte pra um chute colocado, Lucy dá três passos pro lado, salta e estica o braço... Até que os dedos tocam a bola, firmes o suficiente pra desviar a trajetória, fazendo com que a bola subisse mais, batendo no travessão e indo pra fora.

Vick cai de joelhos, arrasada, enquanto o estádio grita em uníssono, pois o jogo ainda não havia acabado e era hora do Pride usar o choque do Courage contra ele mesmo.

Após a cobrança de escanteio, o Pride sai no contra ataque, com Karen e Carina trocando passes desde o campo de defesa, era como se as duas apenas estivessem em campo, pois o Courage não toca na bola e ninguém consegue parar a dupla do Orlando.

Na entrada da área, Carina dribla duas defensoras e rola a bola pra Karen, que manda um chute preciso, rasteiro, no canto direito da goleira do Courage, que tenta, mas chega um segundo depois da bola passar e o estádio explode praticamente. A dignidade dos pais da Nicole e da Karen foi esquecida, enquanto eles pulam como malucos, a torcida vibra loucamente, eu e Nicole nos abraçamos, Alice sorri, contendo a euforia (típica Alice) e a algazarra no camarote era enorme.

Com menos de dois minutos pro fim dos acréscimos, praticamente não há força de vontade pro North Carolina Courage reagir, e pouco depois o juiz apita o fim de jogo, sacramentando o primeiro título do Orlando Pride na NWSL, tecnicamente o segundo, já que a equipe também foi a melhor da temporada regular.

Pra mim e pra Nicole, era hora já de tirar o jogo da cabeça, pois no dia seguinte já faríamos uma viagem pra defendermos nossos títulos na Ring of Honor, e mal sabíamos que aquela viagem seria importante pra conseguirmos nos estabelecer nos Estados Unidos.