Wrestling & Romance
2 Capítulo 2: Você tem um sonho?
Depois daquele incidente com o cara na entrada do colégio, Nicole acabou se tornando minha amiga. O mais irônico daquela situação, é que eu não desejava ficar no agrado dela, pedir favor ou ser o "cavaleiro de armadura brilhante" dela, simplesmente ela estava ali, se fosse qualquer outra garota, minha atitude seria a mesma.
Por osmose, Nicole acabou também ficando amiga de Erick e Lara, e formamos um grupinho fechado ao menos na nossa turma, porque fora dela, ainda haviam duas pessoas que não eram da nossa turma, mas eram amigas nossas. Uma delas era Beatriz Barros, meio irmã de Erick, filha do padrasto dele com sua mãe. Ela era uma garota bem mais séria que seu irmão, com olhos escarlates e cabelos curtos tingidos de azul. E usualmente quando os dois discutiam, eu acabava intermediando negociações de paz ou quem me subornasse com mais doces ganhava a discussão. Eu nunca disse que era 100% honesto.
E a outra pessoa era Brenda Ferreira, garota de curtos cabelos castanhos e olhos verdes. Ela tinha mais ou menos a mesma altura de Beatriz e era melhor amiga da mesma. Brenda tinha uma língua afiadíssima, mas quando necessário, ela sempre tinha um bom conselho. E para meu alívio, quando eu não estava no meio da guerra Beatriz/Erick, Brenda era a "vítima" por assim dizer. Não sei se os métodos dela para mediar eram eficazes como os meus, mas enfim, cada um opera de um jeito.
Uma das coisas que eu mais gostara em Nicole quando nos tornamos amigos, é o fato dela não fazer aquele discurso de pena que costumo ouvir quando digo que sou orfão de pai e mãe e minha avó morrera no começo daquele ano. Tudo o que preciso ouvir é só um "Sinto muito pela morte de sua avó" e conversa segue em frente, sabe? Não preciso que ninguém fique passando a mão na minha cabeça por causa disso.
A família dela, que conheci pouco mais de um mês depois de nos tornarmos amigos, era bem legal (e graças ao alinhamento de planetas, não teve discurso de pena também). Os pais dela, apesar do status financeiro, não perderam a humildade no trato com as pessoas, pois eles vieram de baixo e com muito esforço, o pai dela chegou lá. Tudo o que conquistaram, foi por mérito próprio. As irmãs de Nicole, eram adoráveis e eram o oposto da irmã, que era tímida.
Karen Almeida era uma garota de cabelos compridos pretos, extrovertida e animada, além de ser apaixonada por futebol, tanto é que ela joga pela equipe do Colégio Aural. Já Alice era reservada, não necessariamente tímida como Nicole, mas apenas séria e compenetrada no que faz. No convívio, ela era uma garota normal.
Um dia no colégio, quando eu e Nicole havíamos saído da biblioteca, uma coisa passou pela minha cabeça.
—Sabe, Nicole – A menção de seu nome, Nicole se vira para mim – Desde que você passara a andar comigo e o pessoal, não vejo mais as amigas que sempre ficavam ao seu redor. Não sente falta delas?
—Posso ser sincera? — Nicole abre um sorrisinho – Não.
—Sério? — Indago, surpreso
—Ahan – Ela afirma com a cabeça – Posso ser uma garota tímida, mas sei claramente quando alguém está por perto só por interesse. Não posso dizer que eram de fato minhas amigas.
Aquilo me surpreendeu. Mas não tive necessariamente tempo para processar a informação, já que Brenda e Beatriz vinham em nossa direção.
—E aí, Nicole? Diego? — Brenda nos cumprimenta – Onde é que estão o traste e a Lara? Será que estão brincando de médico fora da escola?
Uma explicação sobre o "traste", essa é a forma com a qual Brenda se refere a Erick 90% do tempo, já que ela sempre está o mostrando que ele não é o presente divino para as mulheres como ele costuma achar. E eu acho isso genial.
—Não estão brincando de médico não – Respondo com uma risada – Se bem que o Erick provavelmente qualificaria o trabalho que ele e a Lara estão fazendo como Sacanagem.
—Mas e vocês dois? — Beatriz pergunta, rindo.
—Eu tive a sorte de fazer o trabalho com uma garota genial ao meu lado – Dou um tapa de leve no ombro de Nicole
—Como se você não fosse inteligente – Nicole retribui meu tapa.
—Vocês vão para a lanchonete da escola? — Beatriz pergunta, e aceno positivamente – Bem, vamos com vocês, ainda não comemos nada.
—Podemos aproveitar e comprar alguma coisa pro Erick e pra Lara – Dou uma sugestão, e meus amigos assentem.
E assim, com uma tranquilidade absurda, os dias se passavam para mim e meus amigos. Francamente, não é muito produtivo contar todo o meu cotidiano e os detalhes de tudo o que faço. Não é o objetivo desta história.
Nós seis formávamos um grupo quase que inseparável, mas claro que a maioria de nós tinha suas coisas individuais, a Lara lutava na FILL quando era chamada, a Brenda e a Beatriz tinham o próprio grupo de amigos do oitavo ano separado da gente e o Erick trabalhava na loja do pai para poder pagar as próprias contas. Nisso, entre um treino meu e outro, a Nicole era quem quase sempre me fazia companhia quando tinhamos que assistir ao Monday Night RAW ou ao Friday Night Smackdown, sendo que nas sextas nós emendávamos o programa com jogatinas de diversos jogos.
E sim, eu posso não ter conseguido fazer o Erick gostar de luta livre, mas a Nicole acabou por curtir e nisso, ao menos eu, ela e Lara tinhamos o que conversar nas terças e sábados (mesmo sabendo que os episódios do Smackdown eram gravados, evitávamos ler os spoilers na internet pra dar um pouco de graça... Ou éramos idiotas, você quem escolhe. Mas enfim, nas sextas e segundas, um ia para a casa do outro para assistir (o que convenhamos é arriscado de se fazer nos dias de hoje), e num desses dias, uma sexta para ser específico, estávamos jogando como sempre, até que um papo específico se iniciou.
—Diego, eu tava pensando... — Nicole disse, insegura, apesar dos olhos focados na tela. Ela me dava uma surra em Tekken 5 – O que você pretende fazer depois que terminarmos o ensino médio?
—Por quê a pergunta? — Essa pergunta me pegou de surpresa, tanto é que mais uma luta terminara com um combo devastador de Nicole. Ela era boa de mais em Tekken.
—Sei lá – Nicole coça a cabeça enquanto eu escolho meu personagem. Ela continuava com Lili – É que nós temos sempre essa pressão de estudar, estudar e estudar. Mas basicamente depois do ensino médio, seremos jogados na vida adulta com toda a pressão por decisões e possíveis faculdades, um emprego estável ou sei lá o quê.
—Entendo de onde vem a dúvida... — Digo, enquanto escolho Eddy Gordo – Sinceramente, eu não pretendo embarcar nessa de faculdade.
—Sério?
—Sim, é porque de certa forma, eu tenho um sonho, já tem algum tempo...
—E que sonho é esse?
—Você pode até achar infantil – Meu rosto fica um pouco corado – Mas já tem um tempo que meu sonho é me tornar um wrestler. Desde que assisti aquela luta do Chris Jericho contra o Shawn Michaels na Wrestlemania XIX há uns anos atrás, eu decidi que seria um wrestler. Por isso eu regulo minha alimentação, treino forte quando termino meus afazeres nos fins de semana e até tive umas lutas na FILL, como jobber. Claro que para esse último eu tive que pedir a autorização de meus guardiões legais, no caso os meus tios.
Após isso eu espero as risadas, passam-se quinze trinta segundos, até recebemos o aviso de tempo esgotado do jogo, mas as risadas não chegam. Geralmente é essa a reação de qualquer pessoa normal a algo relativamente incomum.
—Você quer mesmo ser um wrestler? — Nicole me pergunta, sua voz sem nenhum sarcasmo.
—Claro, é meu sonho um dia estar em um ringue da WWE – Respondo, voltando ao combate no videogame
—Olha, eu não sei o que posso fazer para te ajudar – O tom de voz da Nicole agora é como se estivesse feliz – Mas pode contar comigo, vou estar te apoiando sempre. É isso que os amigos fazem, não?
—Creio que sim... — Não deixo de sorrir com o apoio dela – Obrigado Nicole. Esse tipo de coisa é muito importante para mim. Mas e você? Tem algo que realmente queira fazer?
O controle cai das mãos de Nicole, aparentemente a situação dela com relação ao futuro é um pouco mais complicada que a minha. Sacudindo a cabeça, ela pega o DualShock 3 e respira, antes de me responder.
—Isso vai parecer mais estranho do que você querer viver de lutinhas falsas – Nicole começa a me responder – Mas a verdade é que eu não tenho sonho algum. Eu sinceramente não sei o que farei depois da escola. Eu sei que a Karen quer ser uma jogadora profissional e a Alice é realmente boa com questões de cálculo e administração, papai já pegou ela fuçando nas contas da empresa mais de uma vez, mas eu nunca tive necessariamente aquele desejo de querer ser alguma coisa.
Definitivamente aquilo foi mais do que eu desejei saber. Eu francamente nunca soube como era não sonhar com algo, tipo, é uma coisa que toda criança uma vez ou outra na vida passa, quem nunca quis ser ninja, astronauta, jogador de futebol ou testador de laxantes? E eu queria também ajudar a Nicole a descobrir o próprio sonho, meu dever como amigo seria fazer isso, mas sei que a melhor coisa que eu posso fazer é simplesmente estar ao lado dos amigos até que eles descubram o que querem fazer.
—Mas, vamos deixar isso pra lá – Nicole desconversa – Ainda temos muito o que jogar.
E com essa declaração simples, Nicole voltou a chutar minha bunda em Tekken, parece que levaria tempo para eu conseguir derrotá-la no Rei do Punho de Ferro.
Uma das coisas que eu não contara ainda a ninguém, é que eu começara a separar um fundo especial para justamente me ajudar na realização de meu sonho de ser wrestler. Veja bem, meu plano era após o último ano do colégio, em 2016, tentar uma inscrição para a Storm Wrestling Academy, localizada no Canadá e de lá começar minha caminhada rumo a meus sonhos. O que eu faria do Canadá em diante? Eu não sei, talvez fazer como o Chris Jericho e dar a volta ao mundo, me especializando em diversos estilos da luta livre profissional. Mas, para ser franco eu não queria colocar a carroça na frente dos bois, e ir um passo de cada vez.
Nicole
Eu tenho um pouco de inveja do Diego. É sério, não tem a ver com o fato de que ele é independente e não tem pressão familiar, longe disso. Até porque a independência dele veio a um trágico preço, ele perdera a avó no começo desse ano e seus pais morreram quando ele ainda era pequeno. Eu tinha inveja por causa do fato de ele já ter determinado seu sonho e começar a pensar em como alcançá-lo.
Eu não poderia pedir uma família melhor, meus pais batalharam para chegar onde estão e sempre dão apoio em tudo o que desejamos fazer. Claro, que eu e minhas irmãs ainda somos novas para pensar em algo ousado, como piloto de motocross, bombeiro ou peso de papel em programa dominical da TV aberta, mas qualquer projeto por menor que seja, nossos pais sempre nos apoiaram.
O problema é que eu... Nunca parei pra pensar no que eu queria fazer da vida e quando eu escutei que o Diego já tinha um sonho, foi que realmente percebi que tinha algo faltando em mim.
Naquele sábado, após o Diego ir embora após o café da manhã (resultado em Tekken 5: 18-3), eu resolvi pensar nisso enquanto tomava banho. O resultado não foi muito animador, nada saiu de lá. Bem, eu continuaria assim até o dia em que eu quisesse de fato fazer algo. Só espero que quando esse dia chegue, não seja tarde demais.
Mas, ao menos posso dizer que desde o dia em que passei a andar com o grupo do Diego, minha vida melhorou bastante. Posso dizer até que aqueles cinco são a minha segunda família, mesmo convivendo comigo por tão pouco tempo.
Aquela última madrugada aliás, foi quando descobri os 1004 Holds do Jericho, e a vez em que o Diego me livrou daquele cara ficou um pouco menos (ou mais dependendo do ponto de vista) engraçado, pois como ele iria fazer os golpes inventados pelo Chris naquela lista?
Agora eu me pergunto porque ele tem estado tão presente na minha vida? Esse era outro pensamento que eu procurava manter quieto.
Diego
As semanas e os meses se passaram com uma rapidez que eu não estava acostumado. Se antes de vir para o Colégio Aural, meus dias de estudante eram os mais normais possíveis, claro que eu tinha meus amigos, mas agora eu treinava e aprendia golpes de luta livre, tinha meu grupo fechado, e francamente a vida era mais divertida. Com o tempo, principalmente em 2015, fui chamado mais vezes para lutar pela Federação Internacional de Luta Livre, inclusive tendo a honra de participar de um Battle Royal (combate com múltiplos lutadores em que se deve jogar o adversário para fora do ringue por cima das cordas) para determinar o posto de Desafiante Numero 1 para o Título de Pesos Pesados da FILL.
Claro, essa participação foi completamente por acaso, já que o lutador que estava programado para ganhar, lesionou-se dois dias antes do combate e eu estava por acaso no ginásio acompanhando o treino da Lara. E foi sensacional, mesmo eu tendo durado pouco mais de dois minutos no combate. E o que pensamos para esse spot em específico foi bom, combinado por mim e mais três lutadores que faziam parte de uma das stables da FILL combinamos que o líder (que também seria o vencedor daquele Battle Royal) iria desdenhar de mim e provocar, comigo indo pra cima dele e o pressionando a ponto de quase eliminá-lo, mas quando eu estivesse próximo disso, os dois "lacaios" dele me atacariam por trás, e após um superkick recebido, eu estaria tonto próximo das cordas e eles me jogariam para fora.
O spot foi elogiado, assim como minha performance, que gerou um convite para participar de uma turnê com a Brazilian Wrestling Federation, empresa de Wrestling de São Paulo, durante a segunda metade de Dezembro (com pausa nos dias 24, 25 e 31) e a primeira metade de Janeiro (indo do dia 2 até o dia 17 de Janeiro de 2016). E isso foi muito bom para mim, não tanto financeiramente, mas do ponto de vista de experiência, um cara de 17 anos lutando com alguns dos maiores nomes da cena nacional da Luta Livre Brasileira, pra mim isso foi muito mais satisfatório que qualquer recompensa financeira que eu pudesse receber.
E na minha volta para o Rio em Janeiro, fui recebido pelos meus amigos na Rodoviária Novo Rio. Eu poderia ter vindo de avião, mas eu preferi economizar um pouco.
—E ai, lutador de mentira! — Erick veio me cumprimentar, com um meio abraço
—Fala, Don Juan de araque – Devolvo a "provocação" dele, e claro, cumprimento meus outros amigos que estavam ali.
—E então, Diego? — Lara me abraça, apertado – Como foi lá em São Paulo com a BWF?
—Sensacional – Sorrio, com sinceridade – Mesmo tendo ganhado 6 de 30 combates somente, foi uma experiência fascinante.
—Abismada que te deixaram ganhar alguma coisa lá – Lara ri, porque pra um lutador inexperiente, ganhar uma luta na BWF era um feito e tanto
—Tudo bem que duas vitórias foram por desqualificação e uma foi por contagem, mas vitórias são vitórias – Dou de ombros, rindo.
—Obrigado por ter voltado – Brenda me cumprimenta, com uma expressão aliviada no rosto – Tem sido um terror mediar qualquer coisa entre esses dois aqui sem a sua ajuda – Ela indica Beatriz e Erick... Por quê será que não estou surpreso?
—Ei, não precisa fazer tanto drama! — Beatriz diz, com uma expressão bem diferente da calma usual dela – A gente não brigou tanto assim...
—É bom ver vocês de novo... — Cumprimento as duas, rindo
A expressão de Nicole era indecifrável. Por um lado, ela parecia com raiva de mim, mas também por alguma razão ela parecia prestes a chorar. Ela poderia tanto me abraçar quanto me dar um soco. Não que eu tenha feito algo pra merecer... Não que eu me lembrasse, e apesar de eu ser distraído pra burro, não tenho memória ruim.
—Seja bem vindo de vol... — Nicole me cumprimenta timidamente, mas eu a interrompo com um abraço apertado
—Foi difícil... — Eu digo no ouvido dela, expressando como eu me sentira lá em São Paulo – Ficar sem nenhum de vocês por perto, sabe... Senti a sua falta!
—Eu também... — Ela sussurra. Do jeito que falávamos um com o outro até parecíamos um casal, mas é que a nossa amizade era forte a esse ponto. Sim, eu gostava bastante dela, porém eu tinha medo da rejeição.
—Os pombinhos não vão preferir trocar suas juras de amor em um lugar mais apropriado? — Lara brinca e nos deixa vermelhos. E logo nos separamos.
—Caham – Pigarreio pra organizar os pensamentos e colocar pra fora uma ideia que tive enquanto estava no albergue da turnê da BWF – Sabe, pessoal... Esse é nosso último ano do ensino médio, menos para a Beatriz e a Brenda, então eu pensei... Que tal após o último fim de semana de aulas, passarmos uma semana em Rio Azul, na região dos Lagos? É uma cidade praiana, mas é pequena e no geral é mais desenvolvida e segura que a capital.
Todos olham pra mim, como se eu tivesse descido de uma nave alienígena, apesar do estado do ônibus em que vim estar chegando perto disso. Sério, deu um pouco de medo, tenho certeza de que se fôssemos parados pela polícia federal achariam cadáveres dentro de algum compartimento secreto daquela pocilga.
—E não é que é uma boa ideia? — Lara sorri – Não sei o que cada um de nós aqui vai fazer depois do colégio, mas certamente o ano será mais puxado do que nunca.
—Mas, como vamos pagar as coisas, como despesa, alimentação e tudo mais? — Brenda pergunta, curiosa, enquanto chamamos o Uber para nos locomovermos até o apartamento onde moro, já que meus amigos combinaram de me ajudar a arrumá-lo.
—Bem, eu pretendo arranjar um estágio de meio expediente pra ajudar com os custos – Eu respondo, ao menos a minha parte – Não quero quebrar meu fundo de emergência agora... — Não quando quero usar ele pra viagem do próximo ano, completo mentalmente.
—Acho que podemos separar parte de nossa mesada para tal fim, não acham? — Beatriz sugere, como se fosse algo corriqueiro. Tá aí as vantagens de ser classe média alta.
Inconscientemente, quando os dois carros do Uber chegaram (pedimos separado porque eu tinha as malas comigo), acabamos por ficar eu e Nicole com minhas malas em um carro, e Erick, Lara, Beatriz e Brenda em outro. Eu queria ficar acordado, mas o sono tava pegando em mim. Eu não tinha dormido bem durante a turnê e era um show por noite, com treinos puxados no período matutino.
O pouco tempo que sobrava livre eu usava para conhecer São Paulo e socializar com os outros lutadores. Não me arrependia, mas meu corpo gritava por mais quinze minutos de descanso naqueles dias.
—Desculpe se eu parecer sonolento – Eu disse, entre um bocejo e outro, me dirigindo a Nicole – É que eu descansei bem pouco nesse último mês, as exceções foram as poucas horas entre o treino e os shows, as horas de sono e as viradas de Natal e Ano Novo.
—Tudo bem... E desculpe pena "ceninha" lá na rodoviária.
—Sem problemas, você sabe como a Lara gosta de brincar. A gente é assim mesmo, não sei como, mas... Droga, agora me faltou a palavra! Enfim, naquela hora ali em que você falou comigo, eu não sabia se você iria chorar ou me dar um tapa, eu tava pronto pras duas opções.
—Eu meio que estava com muita coisa na cabeça... Tipo, saudade, um pouco de raiva, felicidade e tristeza. E queria colocar tanta coisa pra fora...
—Entendi... — O sono começa a chegar com força – Desculpe... — Eu acabo fechando os olhos e apagando de cansaço. Sem perceber minha cabeça acaba apoiada no ombro da Nicole.
Nicole
Depois de muito refletir na amizade que tenho com Diego desde o início (mais ou menos) do ensino médio durante esse mês que ele ficou quase todo em São Paulo, finalmente eu pude colocar meus pensamentos em ordem.
A maneira que a gente se dá já passou há muito tempo de ser uma simples amizade, ou mesmo de minha parte, de algo fraternal. Nesses trinta dias, descobri meus sentimentos por Diego... Só que eu não quero estragar a amizade que tenho com ele, sei que isso acontece com frequência. E naquele momento ali no carro, a sós com ele (e o motorista), eu estava a ponto de falar tudo o que eu sentia. Não sei se por sorte (ou azar), Diego adormeceu e eu fiquei calada.
—Seu amigo aí tá cansado, hein, garota? — O motorista que vira Diego adormecer puxou papo
—Pois é – Com um meio sorriso afirmo, o cara era meio Capitão Óbvio, não? — Ele passou praticamente os últimos trinta dias lutando em São Paulo.
—Lutando? Lutando o quê?
—Luta Livre profissional.
—Você sabe que isso aí é armado, não sabe?
—Ainda assim permanece sendo luta. Você sabe o quão duro é pra um atleta da luta livre fazer aquilo tudo sem machucar muito o seu adversário? Não é fácil, eu vejo o quanto ele treina toda semana, dando o melhor para perseguir o sonho dele! — Boa parte das pessoas debocham da Luta Livre profissional (ou Telecatch, se você for velho o suficiente para lembrar) por ser combinado e esquecem o quão duro aqueles caras que estão no ringue dão para entreter o público. — O senhor acompanha seriados? — Pergunto, para fazer uma analogia
—Sim, diversos, inclusive tenho conta na Netflix e tudo – Ele responde, um pouco receoso do meu tom levemente zangado – Participo até de grupos de discussão no Whatsapp.
—E você sabe que aquilo tudo é armado, não?
E aí ele se calou, entendendo onde eu queria chegar. Não sei se o cara vai ter a curiosidade de acompanhar a luta livre, mas ao menos vai olhar para aqueles que se dedicam a isso com um pouco mais de respeito... Ou ele vai me dar uma avaliação negativa no aplicativo e me xingar de vadia pelas costas.
A viagem seguiu em silêncio até os dois carros chegarem ao prédio onde Diego mora, na Tijuca. Eu o sacudo levemente para acordá-lo, e ele reage de maneira teatralmente exagerada.
—O quê? Quando? Onde? — O olhar dele é confuso, até perceber que ainda estamos no carro – Ah, Nicole... Eu... Eu não babei em você, babei?
Eu simplesmente caio na gargalhada, de todas as possíveis perguntas que Diego poderia fazer, ele escolha a que é mais a cara dele. E instintivamente olho pro meu ombro para ver se ele realmente babou. Felizmente não.
—Não, não babou... Mas já chegamos. Pode tirar as malas que eu pago a viagem.
—Ótimo... — Ele abre a porta do carro, enquanto eu saco meu cartão para pagar o motorista – Te devo uma!
Após eu pagar a viagem, o motorista sai do carro e abre o porta malas, ajudando Diego a tirar as malas dali. E logo depois, eu, ele e nossos amigos que saltaram do outro carro, entramos no prédio onde Diego mora.
Diego
Enfim de volta ao lar. A sorte é que como passei as viradas de Natal e ano novo com meus amigos na casa da Nicole, a bagunça na minha casa era quase inexistente. Tudo o que precisávamos fazer era tirar a poeira e guardar as coisas. E sinceramente, eu precisava de um banho. Não que eu estivesse sujo (ou fedido), mas eu estava exausto e o banho aliviaria a tensão muscular.
—Cara, eu fico espantado com a sua organização – Erick diz, indo para a cozinha – Morando sozinho, sem ninguém para arrumar, e deixa tudo nos trinques.
—Eu só faço o necessário aqui dentro de casa – Comento, indo para meu quarto guardar as minhas coisas – Assim não fica muita coisa para fazer.
A arrumação da casa é curta e rápida, seguindo com brincadeiras, piadas e tudo mais. Aquela seria uma das últimas vezes que nós seis teríamos um tempo assim para nós mesmos, pois ainda naquele mês, eu consegui um estágio remunerado em uma multinacional. Eu trabalharia das 13 às 19, com um bom salário (para um garoto de dezessete anos), porém as consequências desse emprego seriam sentidas pelos meus amigos até a data de nossa viagem. E esse foi um dos meus arrependimentos, na busca do meu sonho.
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