Wrestling & Romance

14 Capítulo 14: O começo do fim (da viagem)


Após uma caminhada, chegamos no parque da cidade. Devo dizer que de noite, ele tem um clima completamente diferente, sendo ocupado por diversas barraquinhas de comida, bebida e sobremesas.

Do parque também era possível ver o mar, já que ele se estendia até um ponto em que permitia isso. A vista do mar ali era linda, as ondas batendo nas rochas, ainda que sem forças.

Como estamos próximos da semana de Natal, as barraquinhas possuem uma boa fila e muita gente que não quer encarar o shopping veio passear aqui. Enquanto estou de mãos dadas com Nicole, escuto um som incomum... Um ronco vindo do estômago dela. E como se fosse um parceiro de dupla sertaneja, o meu estômago começa a roncar também.

—Acho melhor comermos algo, não? — Pergunto, colocando enfase sarcástica no acho.

—É uma boa ideia... — Nicole responde, rindo. — Antes que precisemos apelar pro canibalismo.

Nós nos dirigimos a uma barraca de cachorros quentes e escolhemos cada um o seu. Nicole escolhe um tradicional, com salsicha, molho e batata palha. Eu opto por escolher o 'a la Paulista', que constitui basicamente da adição de purê de batatas ao produto final.

Os paulistas ficam irritados com a mania dos cariocas de colocar catchup em pizzas, mas acham absolutamente normal colocar purê de batatas em um cachorro quente. Vai entender.

Nós saboreamos nossos cachorros quentes e, francamente, a questão do purê no cachorro quente não era tão ruim quanto parecia. Eles só precisam parar de se irritar com catchup na pizza... Ou qualquer outro costume culinário que não seja oriundo de São Paulo. E precisam parar de chamar biscoito de bolacha, se acham floquinhos eles.

—Não entendo o porque dos paulistas colocarem purê de batatas no cachorro quente. — Nicole comenta, entre um gole de refrigerante e outro.

—Tem tanta coisa vinda de São Paulo que eu não entendo, que ficaríamos a noite inteira aqui falando só nisso. — Dou uma risada, enquanto terminamos nossos cachorros quentes.

Essa barraca é boa. Se algum dia eu retornar a essa cidade, procurarei essa barraca. Nós caminhamos pelo parque a procura de alguém que vendesse sorvetes e não tivesse com uma fila digna do INSS... E acreditem, foi difícil por conta do calor, mas achamos.

Saboreando cada um, uma casquinha de morango, voltamos a caminhar pelo parque. Fico impressionado com a quantidade de casais completamente a vontade, algo meio difícil de ver em locais como a capital, por causa da violência que assusta.

Me pergunto até quando a cidade vai resistir ao crime, porque é assim que acontece. Mas é melhor eu não perder tempo pensando nisso, diabos, em fevereiro eu já não vou estar mais nem no Brasil.

Após o sorvete, ficamos algum tempo procurando algum banquinho pra descansar, o dia havia sido verdadeiramente longo, pelo menos pra mim. Quando conseguimos achar, depois de meia hora, podemos relaxar um pouco.

—Você está muito pensativo... — Nicole comenta, alisando o dorso de minha mão.

—Eu estava pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. — Digo, acariciando os cabelos dela. — Será que a tranquilidade dessa cidade será maculada pelo mundo?

—Sabe o que eu acho disso? — Nicole pergunta, me olhando diretamente.

—O quê?

Nicole pega na minha nuca e me dá um longo e intenso beijo, após nos separarmos, sinto a respiração dela bem perto do meu rosto.

—Você devia parar de se preocupar com o que não lhe interessa... — Ela sorri. — Ou vai perder momentos como esse. — Nicole beija meu pescoço de leve, fazendo carícias com os lábios.

—Nicole, pare com isso... — Peço, com a voz um pouco fraca. — Eu não quero ficar de pé... Não aqui.

—A sua voz diz o oposto... — Ela não para de acariciar meu pescoço. — Você parece querer tanto quanto eu...

—Tanto quanto você... — Sussurro, com os olhos fechados. — Mas você sabe o quanto eu quero esperar até voltarmos pro Rio.

—Mas é tão bom te provocar... — Ela apoia a cabeça em meu ombro e fecha os olhos.

—Eu estaria mentindo se dissesse que não gosto disso... — Digo, enquanto acaricio os cabelos de Nicole.

Não sei quanto tempo a gente passa ali, apenas daquele jeito, tudo o que sei é que Nicole acaba adormecendo no meu ombro. Eu me ajeito no banco e faço com que ela permaneça dormindo no meu colo. E nem percebi que acabei dormindo, só sei que algum tempo depois começo a escutar uma melodia familiar... É o meu telefone tocando, e Nicole acabara acordando também, um pouco assustada por não estar mais apoiada no meu ombro.

—Alô? — Atendo um pouco grogue.

—VOCÊS ESTÃO LOUCOS? — Escuto a voz de Lara vinda do telefone, e isso acaba por acordar de vez a mim e a Nicole. — JÁ VIRAM A HORA? NEM UMA MENSAGEM, NEM UM AVISO?

Eu olho a hora no celular e é uma e meia da manhã. Caramba, dormimos tanto assim?

—Lara, relaxa... — Tento a acalmar. — Estamos no parque da cidade, a Nicole adormeceu e eu acabei cochilando no banco... Tudo bem que foram quatro horas de cochilo, mas... Ah, diabos, dezenove mensagens?

—Espero que isso seja verdade e vocês não tenham usado o parque como desculpa pra transar novamente. — Lara diz, ainda nervosa.

—Olha, até que foi uma boa ideia. — Digo, minha voz gotejando sarcasmo. — Nicole, vamos pra algum canto aliviar essa nossa tensão.

—Vai a merda, Diego! — Nicole começa a rir.

—Viu? O clima perfeito. — Debocho, pra finalmente Lara se dar por vencida.

—Tá legal, mas da próxima vez que fizer algo assim... Avise, tá? — Lara suspira, antes de desligar.

Levantamos do banco, e as pessoas foram embora do parque porque obviamente, olha a hora. Não fomos incomodados, o que denota a boa segurança da cidade.

—Vamos pra casa? — Nicole sugere, e concordo, acenando com a cabeça.

Com o braço ao redor da cintura dela, caminho de volta pra casa, satisfeito com o que o dia nos reservara. Claro, quando chegamos, todos (incluindo Lara) estavam dormindo. Mas eu não estava com o menor sono.

—Eu sei que a gente devia dormir, mas... — Digo, sentando na poltrona da sala.

—Mas? — Nicole se senta ao meu lado.

—Eu estou sem sono nenhum. Talvez porque a gente tenha dormido no parque... — Digo, suspirando.

—Idem...

Como se eu estivesse planejando aquilo, eu dou um beijo longo em Nicole, que apesar de surpresa, não manifesta incômodo com a situação.

—Eu sei que a gente prometeu pra segunda-feira, mas... — Digo, enquanto beijo o pescoço de Nicole, que suspira baixinho. — Não significa que não possamos brincar.

—Isso é retribuição pelo parque, não é? — Nicole pergunta, tirando a blusa e ficando só de sutiã.

—Pode ser... — Beijo o pescoço dela, descendo para a região do peitoral. Apesar de não tirar o sutiã dela, percorro os seios de Nicole com meus lábios, beijando cada centímetro.

—Não é justo que só eu tire a blusa... — Nicole sussurra, me ajudando a tirar minha blusa.

Eu definitivamente não entraria pro grupo dos musculosos da escola, pois apesar dos braços e pernas relativamente fortes por causa do meu treino, meu peitoral não é definido, e em comparação a muitos caras, eu seria considerado magrelo.

Nicole conduz minha cabeça por seu pescoço, até que nossos lábios voltam a se encontrar e acariciamos o corpo um do outro, enquanto nos beijamos. Por mim, e acho que por ela também, não haveria problema em irmos até antes de ultrapassar os limites.

Nisso, com uma de minhas mãos, acaricio um de seus seios, e ajeitando o sutiã, deixo o seio em questão exposto. Com o toque de minhas mãos, percebo que o mamilo dela está duro, Nicole está bastante excitada. Mas esse não é o único indício, já que as mãos de Nicole estão em minhas costas e tenho certeza de que vou acordar com arranhões.

E, se ela tivesse a coragem naquele momento de colocar a mão entre as minhas calças, veria que eu estou a ponto de explodir, e tenho certeza de que se Nicole tocasse lá... Bem, eu explodiria.

Algum tempo depois, entre carícias, beijos e alguns chupões que poderiam (ou não) deixar marcas, acabamos por dormir na sala mesmo, abraçados no chão (e felizmente Nicole ajeitara o sutiã).

Por volta das sete horas da manhã, Nicole e eu acordamos... E somos os primeiros da casa a acordar, isso era sorte. Eu me espreguiço e bocejo.

—Bom dia... — Nicole me cumprimenta, ainda sonolenta.

—Dia... — Meu relógio biológico tá mais destruído que reputação de político.

—Você está me devendo um treino. — Nicole me lembra.

—Que seja, podemos ir agora depois de um banho...

Nisso, nós dois vamos tomar banho e no quarto, pegamos outras roupas pra irmos a praia treinar. Ou melhor, eu ensinar alguma coisa a Nicole. Antes de sairmos, deixo um bilhete avisando nossos amigos sobre o que fomos fazer.

A praia a essa hora está vazia, o que é bom. Mas também, quem vai a praia às sete da manhã? Talvez quem participe de luais, mas a pessoa ACORDA na praia.

—Antes de mais nada, vamos nos aquecer, Nicole. — Aviso, começando a me aquecer. — Caso contrário, as coisas podem não ficar bem.

—Entendi. — Nicole assente, iniciando o próprio aquecimento.

Aliás, ao invés de Nicole usar o conjunto calcinha/biquíni, ela usara um maiô verde... Eu faria algum comentário sobre maiôs serem mais práticos, mas eu na verdade não entendo nada disso e só pagaria de idiota na frente de alguém que sabe o que fala.

—Enfim, Nicole... — Eu digo, com um tom professoral. — Pra começar, repita cem vezes o exercício com as mãos e os pés.

—Entendido... — Ela deita no chão, respira fundo e começa.

E Nicole melhorara em relação a última vez, conseguindo fazer o que pedi em pouco tempo, sem errar nenhuma vez. Após completar a centésima repetição, ela se levanta, tirando a areia do corpo.

—Muito bom... — Elogio, com um breve sorriso. — Agora, o exercício real, um dos fundamentos básicos da luta livre, é saber como cair. É a diferença entre levar um golpe de maneira segura e minimizar a dor, ou cair de mal jeito e gritar feito uma criança.

Nicole assente com a cabeça, prestando atenção a cada palavra que digo.

—Observe atentamente aos meus movimentos e a como caio no chão. — Digo, e me jogo para trás, abrindo levemente os braços, abaixando um pouco o meu queixo e flexionando os joelhos, de modo que apenas as minhas costas batam no chão. — Outra coisa importante, é a maneira mais efetiva de se levantar...

Apoio o cotovelo esquerdo no chão e uso o pé direito como apoio para me levantar iniciando com o lado esquerdo.

—Claro, que vai depender muito de como você cai no chão e nem é tão importante. — Dou de ombros. — É mais efetiva em treinos.

—Entendi... — A cara de Nicole é pura concentração.

—Quer tentar?

—Não a parte de levantar, mas vou tentar cair.

Nicole fecha os olhos, respirando suavemente. E se joga no chão, da mesma maneira que eu havia feito, com o queixo próximo do pescoço, braços levemente abertos e joelhos levemente flexionados.

—Bom, excelente. — Bato palmas, elogiando.

Nicole se levanta em um salto e me abraça. Sinto o perfume dela, é doce. Tenho vontade de fazer algo, mas não estávamos ali pra brincadeira. Em nenhum sentido.

—Obrigado. — Ela agradece, mas quem deveria agradecer sou eu.

—Vamos repetir esse exercício algumas vezes. — Volto ao tom professoral. — Se você fosse um pouco mais experiente, eu ensinaria a como cair com um flip. Geralmente é útil quando se cai pra fora das cordas.

—Entendi... — Nicole assente. — Quantas vezes devo repetir?

—Quantas você achar que pegou o jeito.

—Sem quantidade ou tempo?

—Nada... Pode começar.

Nicole assente mais uma vez e começa a repetir o exercício, e eu aproveito pra pensar em alguns detalhes que precisarei ver com clareza assim que voltar pro Rio, como o visto e a venda do apartamento onde vivo. Talvez eu faça um acordo com meus tios, com a valor dividido entre nós. Tenho que ver também o que vou levar e deixar aqui para doação. Certamente coisas como jogos e nerdices serão levadas, mas o resto...

Nisso, uns vinte minutos se passam.

—Nicole... Acho que já está bom. — Digo, e ajudo Nicole a se levantar.

—Como fui? — Ela pergunta, ansiosa.

—Você sabe como cair sozinha, mas o que definirá o resultado real do treinamento, é você cair numa situação dentro do ringue. — Explico, pacientemente. — Agora... Que tal tomarmos um café da manhã?

—Sério?

—Já são vinte pras oito da manhã...

—Então tá. — Nicole me dá um selinho rápido, antes de ir pra um dos chuveiros da praia.

Nós saímos da areia e vamos a um quiosque que fica no calçadão da praia, que felizmente já estava aberto.

—O que você vai querer pro café da manhã? — Pergunto, enquanto olho o cardápio.

—Bem... — Nicole olha o cardápio ao meu lado. — Só uma vitamina de morango está bom. Não estou com vontade de comer algo, ainda que sinta um pouco de fome.

—Eu estou, então vou querer um sanduíche natural de frango, e... Olha, eles tem suco de kiwi. E graviola também. Mas não vou tomar de graviola, a última vez que tomei, não fez tão bem pro meu estômago.

—Você tem problemas com graviola? — O tom de Nicole era curioso, e não acusador.

—Só se o suco for feito praticamente de polpa da fruta e sem água. Eu adoro a fruta, mas as proporções na preparação de um suco são importantes. Eu não me importaria se fosse você quem fizesse um suco de graviola.

—Vou me lembrar disso. Aliás, você falando assim, parece um conosseiur de sucos.

—Eu tenho que encontrar alternativas pros refrigerantes, né?

—Ótimo, vou chegar pro meu pai: Pai, estou namorando um garoto. E ele: E por quê essa cara preocupada? Eu respondo: Ele é um conosseiur de sucos. — Nicole dá uma risadinha inocente — Imagino a reação dele."

—Nem fale... — Acabo rindo de leve.

—Se bem que na verdade ele não vai fazer muito caso. Pode não parecer, mas meu pai gosta bastante de você.

—Sério?

Sim, eu tinha uma relação boa com a família da Nicole, mas até ali era eu achava que era só a relação de cordialidade que se tem com os amigos dos filhos.

—Sim... — Ela responde, um pouco pensativa. — Meu pai costuma dizer que a minha vida se divide em duas épocas: Antes e depois do nosso grupinho ser formado.

Enquanto tomamos nosso café da manhã, não deixo de sorrir e concordar com o pai de Nicole. Após terminarmos de comer, damos um último mergulho na água antes de retornarmos para casa.

Quando chegamos em casa, nossos amigos estão preparando o café da manhã, num clima um tanto... Normal. Era de se esperar que estivessem cuspindo fogo por conta do que eu e Nicole fizemos noite passada... Não o fato de quase termos transado na sala, mas termos ficado até uma e pouca da manhã fora de casa.

—Bom dia... — Digo, assim que adentro a sala. — E essa é a casa certa?

—Eu deveria estar cuspindo marimbondos. — Lara responde. — Mas sinceramente, vocês dois já são maiores de idade, eu só peço que da próxima vez, avisem antes de ficar fora até tarde. Nós ficamos preocupados.

—Eu sei... — Nicole baixa a cabeça. — Desculpe, é que como eu acabei dormindo no ombro do Diego, uma coisa levou a outra e ele acabou dormindo.

—Olha só, a Lara bancando a mãezona. — Erick brinca, pra levantar o astral.

—E se continuar assim vai ficar sem sobremesa. — Lara refuta, bancando a mãezona mesmo.

Enquanto nossos amigos tomam café da manhã, eu e Nicole acabamos indo dormir um pouco, acho que ainda estávamos cansados depois desse sono fragmentado.

Acordo com batidas na porta do quarto e o estômago roncando, olho pro telefone que deixara carregando... Duas da tarde. Diabos, eu dormi a manhã toda! Voltam a bater na porta do quarto.

—Entra! — Grito, e a porta se abre, revelando Nicole, com uma bandeja. — Isso é novo... — Sussurro, um pouco espantado.

—O dorminhoco finalmente acordou, hein... — Nicole ri, enquanto leva a bandeja até a sua cama. — Não vá esperar que eu suba até aí com isso aqui nas mãos.

Com um sorriso, eu desço o beliche e sento na cama dela.

—Isso é novo pra mim. — Digo, enquanto vejo o que tem na bandeja, um prato simples com arroz, batata palha e frango, além de um suco. — Se eu soubesse que receberia serviço de quarto, dormiria até tarde mais vezes...

—Bobo... — Ao invés de dar um tapa na minha cabeça, ela me dá um selinho. — É só um almoço rápido, o pessoal foi ao parque e disseram que é pra gente encontrar eles lá.

Obedecendo aos apelos do meu estômago que dava saltos feito um cachorrinho, comi sem interrupções, apesar da minha outra cabeça querer trocar uns afagos com Nicole, eu definitivamente preciso controlar esse tipo de impulso.

—Jesus, a última vez que vi alguém comer assim tão rápido foi num concurso de comer cachorros quentes que vi na TV. — Nicole comenta, espantada, após eu limpar o prato em pouquíssimo tempo.

—É que eu estava com fome. — Comento, um pouco vermelho.

—Percebi, agora vá tomar um banho pra irmos ao parque... — Nicole diz, se levantando pra levar a bandeja.

Eu me levanto também, e num momento de ousadia, passo a mão na bunda de Nicole.

—Ou a gente podia aproveitar que está sozinho pra nos divertirmos um pouco. — Sussurro no ouvido dela de uma maneira sedutora.

—Ou eu podia pegar essa bandeja e bater com ela em você até você virar uma poça de sangue e órgãos. — Ela sussurra no mesmo tom, o que soa bem ameaçador. — Agora PRO BANHEIRO, JÁ!

Pra não dar chance ao azar, pego uma bermuda e blusa qualquer, e obedeço prontamente. Cerca de vinte e cinco minutos depois, estamos no parque e lá, encontramos nossos amigos jogando cinco cortes. A brincadeira não me traz boas lembranças por razões óbvias. Mas, pensando no que aconteceu mais tarde naquele dia, ela me traz igualmente boas lembranças.

Num corte mal dado de Erick, a bola acaba vindo na minha direção, que pego antes dela acertar meu nariz.

—Erick, sua mira continua tão ruim como sempre. — Debocho, indo até meus amigos.

—E parece que você teve seu momento "Erick" hoje, hein. — Ele faz menção ao fato de eu ter dormido feito uma pedra.

—Todos esses dias acordando cedo cobraram o preço. — Dou de ombros, e eu e Nicole nos juntamos ao grupo.

Felizmente dessa vez, ninguém é sequestrado e jogamos tranquilamente. Após um tempo, vamos descansar um pouco sob uma árvore, onde Brenda e Beatriz estendem uma toalha e pegam alguns pacotes de salgadinhos e refrigerantes numa bolsa que Lara trouxera.

—Pessoal... — Digo, após pensar um pouco. — Desculpem ter deixado vocês um pouco de lado nesses últimos dois dias.

—Esquenta não, Diego... — Brenda joga um salgadinho em mim, rindo. — Você e a Nicole tinham um atraso enorme pra tirar.

—Me pergunto como nunca tinha desconfiado de que o Diego gostava de mim... — Nicole coça a cabeça, pensativa.

—Vocês dois são parecidos não somente em gostos... — Beatriz comenta. — Ambos tem esse lado tímido na frente de quem gosta e acabaram ocultando os sentimentos. Provavelmente outras pessoas já devem ter dito isso, mas de longe era óbvio.

—É, a Lara disse ontem no karaokê. — Comento, lembrando do dia anterior.

—Diabos, vou falar que eu estranharia se vocês dois não ficassem juntos. — Erick comenta, rindo. — Sério, vocês dois estavam como unha e carne.

—Acho que tanto eu, quanto o Diego fomos idiotas... — Nicole sorri.

—Uma pergunta que quero fazer... — Brenda olha seriamente pra mim e pra Nicole. — Vocês já foram mais além... Na relação de vocês?

A minha reação é zero, mas a de Nicole é impagável, ela bebia o refrigerante e cuspiu ele na hora, se engasgando com a bebida. Não sei se isso foi uma confirmação.

—Isso lá é hora e local de se perguntar essas coisas? — Nicole pergunta, com a voz um oitavo mais fina.

—Nicole... — Digo, com a voz mais calma do mundo. — Você acabou de confirmar a ela com essa resposta. E com a sua reação.

—É... — Nicole fica mais vermelha que um pimentão e todos começamos a rir.

—Aê moleque! — Erick me dá um tapa nas costas. — Mas então... De quem foi a iniciativa?

Dessa vez, sou eu quem fico vermelho. Não que eu tivesse vergonha do fato da Nicole ter tomado a iniciativa para a nossa primeira vez. Nisso, a Nicole levanta a mão, confirmando que fora dela a iniciativa.

E o dia passa nesse clima bem descontraído, tanto é que juntos, ao invés de voltarmos pra casa,vamos até o farol, nós seis. Da outra vez visitamos somente eu, Nicole e Lara e depois eu e Nicole no dia em que começamos a namorar.

—Mais um pouco e vou acabar virando sócio do Farol... — Comento, enquanto adentramos o farol da praia.

—Você já veio aqui? — Beatriz pergunta, curiosa.

—Duas vezes. — Comento, enquanto subimos as escadas. Nesse entardecer, bastante gente veio visitar o farol. — Uma, foi numa tarde onde jogamos vólei ali ao lado na praia, e a outra foi quando pedi a Nicole em namoro.

—Não creio que isso se enquadre no requerimento pra sociedade na administração do farol. — Lara refuta minha piada.

—Parabéns, Sherlock! — Nicole bate palmas sarcasticamente enquanto observamos o pôr do sol dali do primeiro andar, todos um do lado do outro.

—Esse lugar aqui é bonito demais... — Brenda comenta, sorridente. — A maneira que as janelas permitem uma vista panorâmica, tanto da cidade quanto do mar.

—Você tem que ver de noite... — Nicole comenta, com um sorriso igual. — O vento, o mar e mesmo a maresia... É indescritível. Claro que tendo a companhia certa ajuda... — Ela passa o braço pela minha cintura.

—Alguém aí tem insulina, porque acho que peguei diabetes. — Lara brinca, pra risada nossa.

Visitamos o segundo andar, assim como o topo do farol, e claro, assim como da outra vez em que estive com as meninas, aproveitamos pra tirar fotos, só que dessa vez sem referências a luta livre profissional.

Claro, conversamos bastante sobre aleatoriedades e o momento em que meus amigos fizeram a mim e a Nicole ficar vermelhos foi varrido em um instante. Por volta de oito e meia da noite retornamos pra casa.

A noite não rolara nada de interessante, pra ser sincero, estávamos todos cansados e de saco cheio, então pedimos uma pizza e assistimos um filme qualquer que eu nem lembro o nome. Só sei que antes do fim do primeiro ato eu pedi arrego e fui dormir, pensando que amanhã seria o nosso último dia na cidade.

Deitado na cama, começo a pensar... O que será que meus pais pensariam se vissem o rumo que o filho tomou na vida? Fazia muito tempo que não pensava neles, afinal, eles morreram treze anos atrás. Eu sei que minha avó ficaria orgulhosa das decisões que tomei, pois ela, mesmo não sabendo nada a respeito do que eu queria fazer, me disse pra seguir em frente.

Pouco antes dela ser vencida pelo câncer, ela, sabendo que iria falecer, colocou na minha cabeça que mesmo com a morte dela, eu não deveria desistir jamais.

—Siga em frente, meu neto... — Ela me dissera naquele hospital. — Eu não vou estar aqui por muito tempo, mas você não deve se abalar com isso. Você me disse, há muito tempo atrás, que tinha o sonho de se tornar um lutador... Não quero ver você desistindo, quero que me deixe orgulhosa de lutar até o fim pra tornar esse sonho realidade. Lá do céu eu ficarei de olho em você. E ai de você, se você desistir!

Tudo isso passa pela minha cabeça com um flash, antes de eu fechar os olhos e adentrar o reino dos sonhos.