POV: ANTHONY.

É óbvio que quando Siena soube que uma novata estaria editando o seu texto, ela ficou extremamente inconformada, se sentiu ofendida mas depois de eu ter colocado toda a culpa em Penélope, e ela sabendo que a minha cunhada não é a sua maior fã, acabou finalmente aceitando a posição. Em todo o caso, no final do dia ela me mandou uma mensagem dizendo que estava ansiosa para trabalhar com a novata e se sentia como se tivesse uma empregada só para ela. Fiz uma breve careta para o comentário, mas era melhor isso do que um estresse desnecessário. Como se eu precisasse de mais algum.

Durante a tarde eu ainda fui em outros andares e foi uma segunda-feira decididamente cansativa. Quando o relógio bateu 18h eu estava exausto. Adoraria tomar 5 caixas de cerveja enquanto escuto uma música de estilo duvidoso, e hoje ainda é segunda!

Me espreguicei enquanto desligava o computador. Jhon abriu a porta quase que na mesma hora, também parecia cansado mas me deu um sorriso.

— Dia encerrado?

— Não. Vou trabalhar de casa, preciso de um banho.

— Francesca e chamou para um recital de piano hoje.- O sorriso dele se alargou. Jhon era completamente apaixonado pela minha irmã desde o dia que a conheceu. Eu o adoro, todos nós. Mas também é uma cruel verdade que se Francesca fosse sincera consigo mesma, admitiria que não o ama tanto assim.

— Divirtam-se.- Eu dei de ombros, me levantando e tirando o paletó.

O experiente dos escritórios acabavam as 17h, exceto pelo restaurante e a galeria, que se prolongavam um pouco todos os dias; e as pessoas que faziam hora extra. Jhon me acompanhou até a saída da sala, mas descemos o elevador em silêncio. Abríamos a boca só para cumprimentar os funcionários da limpeza.

— Quer uma carona?- Jhon perguntou quando chegamos ao hall de entrada. Eu nunca gosto de dirigir no final do expediente, e temos motoristas particulares, então eu vinha dirigindo e voltava de motorista quase todos os dias.

— Não. Pode ir para casa. Se você se atrasar, vai enfrentar a fúria da doce Frannie.- Eu ri e ele concordou com a cabeça, rindo também. Acenou com a mão e foi embora.

— Oi, boa noite. Pode solicitar um motorista para mim, por favor?- Pedi a recepcionista que, como sempre, me abriu um enorme sorriso. Como quase toda mulher dessa empresa, é claro que eu já a conhecia intimamente. Sorri de volta.

— Agora mesmo, sr. Bridgerton!

— Vou ficar aguardando lá fora. Obrigado, Marina.

Me afastei e fui para a entrada da empresa. Um monte de carros passavam para lá e para cá, enquanto eu só pensava em quanto tempo ia demorar para eu chegar em casa.

— Oi. Desculpa incomodar é que... Não, não deixa para lá.- Eu estava devaneando quando alguém tocou no meu ombro. Me virei e era Kate Sharma. Ergui uma sobrancelha para ela, curioso. Ela estava com um amontoado de papéis presos entre o braço e o peito, e parecia um pouco perdida. Seu olhos, que já eram grandes, estavam arregalados.

— Pode falar.- Eu sorri gentilmente. Ela encolheu os ombros como se estivesse aliviada.

— Eu sei que o expediente acabou mas eu desci correndo porque eu... porque... bem, podemos falar lá dentro?- Ela perguntou quando um carro em alta velocidade passou do nosso lado e o seu cabelo voou inteiro para seu rosto, fazendo ela demonstrar muita irritação. Eu ri. O meu carro chegou e eu balancei a cabeça.

— É sobre o trabalho que lhe foi delegado hoje?

— Sim. O sr. Stirling e a srta. Featherington me informaram que o senhor quem me delegou a função e eu vi que o senhor estava largando então eu corri mas o senhor está com pressa eu acho que...- As folhas voaram e ela teve dificuldade em colocá-las em ordem novamente. Coloquei as mãos nos bolsos. Ela parecia ser o tipo de mulher que adora ter controle, e era divertido vê-la não conseguir.- Acho que o senhor está com pressa, eu posso... posso falar amanhã... ou procurar minha...

— Kate, espera.- Eu ergui uma mão para ela calar a boca, e isso pareceu ser bem dificil para ela.- Você pode pedir ajuda a Penélope, mas ela odeia falar de trabalho fora do expediente. Jhon estará num recital e ele não tem nada a ver com isso. Eu estarei trabalhando a noite toda. Pode falar comigo pelo e-mail coorporativo, tá? Eu te ajudo. Agora eu realmente estou exausto e vou parar casa.- Eu me inclinei para abrir a porta do carro.- Contará como hora extra para você!

— Obrigada! Bom descanso!- Ela sorriu para mim, eu acenei e entrei no carro. Só depois que viramos a esquina que me dei conta que eu deveria ter oferecido uma carona.

(...)

Quando cheguei em casa fui recebido por vozes animadas dos meus irmãos caçulas. Hyacinth está com 12 anos ao pé que Gregory está com 15 então eles passam todas as horas do dia que Deus dá, brigando! Eu raramente prestava atenção.

— Eu quero o meu gato de volta!

— Eu não sei o que aconteceu com aquela bola de pelos fedorenta!
— Bola de pelos fedorenta é você!

— Eu nem tenho pelos, sua louca!

— Tem sim! Eu já vi o seu sovaco!- Hyacinth puxou o braço de Gregory abruptamente, e realmente estava cheio de pelos. Mas já estava a 1 ano e meio, quando eu tive que conversar com ele sobre a puberdade. Eu revirei os olhos assistindo Gregory ficar tão vermelho quanto as rosas de mamãe.

— Ok, já chega! Deixem seu irmão em paz!- Mamãe se aproximou, me salvando. Eu suspirei.

— O que aconteceu?- Eu perguntei quando os dois se calaram.

— Gregory matou, esquartejou e enterrou no quintal o meu gato!- Hyacinth acusou.

— Se você continuar me acusando sem provas eu vou matar, esquartejar e enterrar você no quintal!- Gregory respondeu com raiva. Mamãe arregalou os olhos.

— Que coisa horrível!- Eu ri da expressão de mamãe e de Hyacinth.

— Gregory, você pegou o gato de Hyacinth?- Perguntei rindo.

— Não!

— Pegou!

— Não peguei!

— Claro que pegou! Quem mais pegaria?

— Vai ver ele fugiu de você! Ninguém te suporta! Nem os felinos!

— Mamãe, manda ele parar!- Hyacinth choramingou. Eu revirei os olhos.

— Hyacinth, quando foi a ultima vez que você viu o gato?

— Antes de ir para a escola. Ele estava querendo brincar com os ratos imundos do Gregory!

— Imunda é essa sua boca! São hamsters!

— Você matou meu gato para ele não matar seus ratos!
— Eu não matei ninguém!

— Ah, francamente! Que gritaria dos infernos é essa?- Uma Eloise irritadíssima desceu as escadas com o gato de Hyacinth nos braços. Era novidade Eloise por aqui. Gregory imediatamente olhou para Hyacinth com ar de poder e Hyacinth pareceu constrangida. Eu apenas dei de ombros e subi as escadas enquanto deixava eles se resolverem.

Tomei um banho quente, troquei de roupa e desci.

— Mamãe?- Mamãe estava ajeitando a mesa de jantar. Pela quantidade de pratos, Eloise estava com Phillip e seus filhos, apesar de eu não ter ouvido ainda nenhum grito.

— Sim?

— Eu vou jantar no quarto hoje, tá? Estou exausto e ainda preciso trabalhar.

— Mas Eloise nunca vem jantar com a gente!- Mamãe me olhou em suplica. Eu sabia que ela ia fazer isso.

— Tudo bem, mas vou apenas jantar e subir, tá?

E é claro que não consegui. Levei quase 2h, e somente quando eram quase 22h eu consegui ligar o computador e abrir meu e-mail coorporativo que, como eu esperava, tinha o email da novata.

Prezados Sr. Anthony Bridgerton, Srta. Penélope Featherington e Sr. Jhon Stirling,

Espero que estejam bem.

Gostaria de informar que já realizei a edição de um dos artigos solicitados por vocês nesta tarde. Para ser sincera, o processo foi bastante desafiador, pois precisei reestruturar o conteúdo por completo. Entretanto, a escritora original expressou seu desconforto com as mudanças e solicitou uma nova abordagem.

Quero ressaltar que estou comprometida em atender às demandas apresentadas e pretendo concluir o trabalho o mais rápido possível. Contudo, levando em consideração o prazo estipulado e a necessidade de agradar à escritora original, precisarei de um pouco mais de tempo do que inicialmente imaginei.

Por isso, gostaria de solicitar uma prorrogação do prazo. Além disso, seria possível enviar a vocês os esboços das minhas edições ao longo do processo?

Agradeço pela compreensão e pela confiança depositada em meu trabalho.

Fico no aguardo de uma resposta.

Atenciosamente, Kate Sharma

Abaixo, Penélope já tinha respondido:

Prezada Kate Sharma,

Agradecemos pelo seu e-mail e lamentamos que Siena não tenha aprovado suas edições. Entendemos a complexidade do trabalho e, por isso, estamos felizes em informar que o prazo será estendido em mais 7 dias. Esperamos que esse tempo adicional seja suficiente para atender a todas as expectativas.

Você pode enviar os esboços das suas edições no mesmo e-mail, se desejar. Agradecemos seu comprometimento e dedicação ao projeto.

Estamos à disposição para qualquer suporte que você precise.

Atenciosamente, Penélope Featherington

Abaixo, Kate respondeu:

Prezados,

Muito obrigada! Segue abaixo em anexo o meu esboço.

Atenciosamente, Kate Sharma

Respirei fundo. Ela era boa. Só por Penélope ter respondido, já dava para saber que ela concordava e tinha gostado. Isso ia me trazer problemas. Dei de ombros antes de pegar meu celular e encarar o problema. Suspirei.

Pen: Adorei ela! Se o esboço dela for bom, vou postar, não me importo!

Pen: O esboço dela foi ótimo! Vou postar! Converse com Siena.

Cocei nervosamente a cabeça. Meus cabelos vão ficar brancos!

Siena Rosso: A garota que vocês pediram para editar meu trabalho está criando trabalhos novos. Você explicou para ela que o trabalho não é dela? Tem como falar com a Penélope de novo? Odiei ela

Saí do whatsapp sem responder nenhuma das duas e fui para o instagram. Ergui uma sobrancelha. Kate Sharma tinha me seguido no instagram, segui de volta e desliguei o computador, decidindo deitar.

Eu nem ia conversar com Siena, tampouco com Penélope. Já fiz o que podia. Amanhã é outro dia.

(...)

Como todos os outros dias, acordei cedo para correr no parque. Troquei de roupa e coloquei Bruno Mars no fone de ouvido. Quando voltei, mamãe estava acordada, dei um beijo nela e subi para tomar banho e trocar de roupa. Já vestido, desci e Gregory já estava a mesa com cara de sono. Nem me deu bom dia quando eu sentei, só fez um barulho com a garganta. Eu revirei os olhos.

Hyacinth desceu alguns minutos depois, ainda estava constrangida pelo que falou ontem, e deu um bom dia animado para ele, que olhou para ela de cara feia. Mamãe tagarelava sobre os filhos de Phillip quando Francesca desceu, estava com a cara de quem chorou a noite toda. Ergui uma sobrancelha, mas ela não viu.

— Vai comigo hoje, Frannie?- Eu perguntei depois que terminei de comer.

— Não.- Ela respondeu apenas, sem levantar o olhar. Concordei com a cabeça. Me despedi dos meus irmãos e da minha mãe e fui para o carro.

No caminho, mandei mensagem perguntando a Jhon o que houve.

Jhon: Cara, eu não sei o que porra aconteceu! Estava tudo bem antes de chegarmos lá, ela foi no banheiro e quando voltou estava parecendo que alguém morreu. Perguntei a Michaela e disse que não sabia o que foi. Tento conversar com ela mais tarde!

Suspirei parado no sinal vermelho. Michaela é o que houve. Balancei a cabeça e mandei mensagem para Francesca.

Anthony Bridgerton: Jhon vai falar com você mais tarde. O que houve entre você e Michaela no banheiro?

Frannie: Nada disso é da sua conta. Faça o favor de cuidar da sua vida, para variar.

Anthony Bridgerton: OK.

Todos nós, irmãos de Francesca, sabemos que ela gosta de mulheres desde... sempre? Foi um choque quando ela e Jhon começaram a namorar, é óbvio. Mas ninguém falou nada. A cerca de uns 6 meses atrás, uma prima dele veio morar em Londres para estudar, e eu as peguei na piscina sem querer. Elas tentaram desconversar e eu fingi que não vi. Dias depois, eu apenas disse que esperava que ela não magoasse Jhon. Ela disse que jamais magoaria Jhon. Aparentemente, para não magoá-lo, ela optou por se magoar. E está longe do que eu quis dizer.

Estacionei o carro na frente da empresa e rapidamente um frentista particular se aproximou. Deixei meu carro com ele e entrei na empresa. Siena estava me esperando no hall.

— Bom dia, Anthony.- Ela sorriu mas não era um sorriso gentil. Era amarelo e chato. Eu dei de ombros.

— Bom dia, Siena. Tudo bem?

— Poderia estar melhor. Você viu minha mensagem?

— Vi sim.- Eu disse, indo até o elevador. Ela me acompanhou.

— E então?

— E então, o quê?

— Falou com Penélope?

— Não.

— E vai falar?

— Também não.- Ela fechou a cara. Eu suspirei e me virei para ela.- Siena, o setor é de Penélope e ela não me dá aval para me meter em tudo. Ela aceitou que fossem postados os seus textos e já é bastante coisa, comparado ao fato de que ela não queria postar nenhum. Sua ideia é boa, e ela será explorada. Seu nome estará no título. Qual o problema?

— Não quero ganhar o mérito por um trabalho que não é meu!- Ela reclamou e eu quase bufei, mas entramos no elevador e várias pessoas entrara conosco. Parei no meu andar e ela me seguiu.

— Ou é dessa forma, ou Penélope não vai postar.- Eu disse, me virando para ela. Siena abriu e fechou a boca várias vezes antes de dizer:

— Ela está fazendo de propósito para me humilhar.

— Você pode pedir para ela não postar nada. É um direito seu.

— Eu quero ser reconhecida!

— Então aceite as condições!- Eu disse. Ela crispou os lábios antes de dar as costas e sair batendo pé.